terça-feira, 2 de março de 2010

Ritos de formatura na Universidade de Caxias do Sul

Cerimonial Universitário:
três modalidades de Colação de Grau


Prof.ª Ms. Maria Lúcia Bettega[1]



RESUMO
A dimensão subjetiva da cultura envolve significados que muitas vezes não são transmitidos por meio da palavra, pois essa nação de significados pertence ao universo simbólico em que a comunicação humana é alcançada através de ações expressivas que operam por meio de sinais, signos e símbolos. Assim, os valores culturais presentes em uma solenidade de Colação de Grau se sobrepõem e muito a um simples ato de entrega de diploma, pois é um rito de passagem caracterizado pela mudança de status. O rito dessa solenidade transcende a dimensão estética ou festiva, pois marca o movimento de indivíduos através de redes que estabelecem relações de poder e conquistas de espaços diferenciados. A solenidade de formatura e todos os elementos e vestes que a compõem tem um profundo e milenar escopo simbólico, muitas vezes pouco compreendido e até muito pouco conhecido do mundo contemporâneo. Desta forma, este ensaio visa apresentar uma breve revisão teórica sobre as funções do cerimonial e protocolo e sua utilização na vida acadêmica, além de abordar a importância da mesma para o aluno concluinte. A metodologia utilizada será a apresentação de três modalidades distintas de cerimônias que visam auferir grau ao futuro profissional, como atos acadêmicos adotados na Universidade de Caxias do Sul, Instituição de Ensino Superior fundada em 10 de fevereiro de 1967.

Palavras-chave: Cultura, Comunicação, Ritos de Passagem e Colação de Grau


1 INTRODUÇÃO
Desde o surgimento da raça humana os rituais se fazem presentes no cotidiano das pessoas. O ato de se organizar em grupos, de dividir espaços, de comungar ações, sempre foi norteado por um ritual, simples e muitas vezes automático. O nascer, o morrer, a mudança de status social, o crescimento intelectual, a crença, tudo envolve um ritual, uma cerimônia em que se dão os acontecimentos. Estas fases que o Ser Humano percorre são espaços sociais onde “[...] o cruzamento de fronteiras e limiares é sempre cercado de rituais, como também pode ser a transição de um status social para o outro”. (LEACH, 1978, p. 46).
A primeira impressão e lembrança quando se fala em ritual é a ligação com a religião, a crença, o sobrenatural. Porém, os rituais vão muito além, pois estão inseridos no cotidiano de todos os seres humanos. Eles preconizam palavras, gestos, frases, ações, movimentos e o uso de símbolos que contextualizam a ocasião. A presença de símbolos no exercício de rituais é a materialização de idéias, daquilo que o indivíduo carrega como mito, como verdade.
Por seguirem um roteiro ou uma liturgia específica, os rituais são eventos especiais comprovados como práticas usuais de uma sociedade. Além disso, os rituais, que carregam uma cultura aprendida, diferenciam-se de outros eventos, pois possuem um método e uma forma peculiar de manifestação de valores coletivos. Os ritos existem e buscam unir as ações realizadas em épocas diferentes, num mesmo espaço ou em espaços recriados, garantindo assim a manutenção de mitos neles materializados. Uma vez fixada a simbologia de um ritual, sua eficácia dependerá da repetição do rito. Essa forma de expressão existe nas sociedades, independentemente de seu grau ou escala de valores. Entretanto, Van Gennep chama atenção de que nem sempre essas seqüências cerimoniais acontecem da mesma forma na sociedade. Existem variações, uma vez que “não são igualmente desenvolvidas em uma mesma população nem em um mesmo conjunto cerimonial” (1978, p. 31).
Desta forma, é provável que se encontre em alguns ritos de passagem a possibilidade de interpretações das seqüências cerimoniais com significados distintos. Assim, a importância de estudos sobre os ritos é vista como uma forma de compreensão da cultura e dos valores que nela estão presentes como garantia de sua manutenção.
Nesse sentido Segalen diz que os rituais são revestidos de plasticidade, pois eles estão “associados à idéia de tradição, que lhe conferem sentido de imutabilidade, os ritos são produto das forças sociais [...]” (2002, p. 148).
Logo, entende-se que a função do ritual é delimitar as fronteiras entre o indivíduo e suas relações. A conquista do seu espaço, o reconhecimento e a diferenciação de cada um está relacionada com a sua capacidade de melhorar a forma de expressão e o comportamento perante a sociedade. E assim a vida vai sendo apresentada repleta de rituais, que com o passar do tempo podem perder o sentido ou tornarem-se mais simples, mas não deixam de fazer parte do dia-a-dia.
Com base na importância dos ritos de passagem e na significação que possuem no cotidiano de todo o ser humano, pretende-se com este trabalho mostrar que a vida universitária é composta de momentos cerimoniosos e a prática dos mesmos carece de criatividade e de bom senso para que, por meios deles, a Universidade possa evidenciar a importância de seu lugar na comunidade em que está inserida. Neste sentido, este artigo traz as três modalidades que a Universidade de Caxias do Sul adota para conferir grau aos seus formandos. E, a novidade está na proposta de criação de uma solenidade denominada de solene integrada[2] com vistas a contemplar os alunos que não possuem condições para a participação dos eventos que necessitam de contratação de empresas terceirizadas para auxiliar, os formandos, nos preparativos para a cerimônia que marca a troca de status de acadêmico para profissional.

2 OS RITOS ACADÊMICOS
A formação intelectual, o conhecimento agregado o estudo aprofundado de uma determinada área de conhecimento é um fator transformador que coloca a pessoa em um novo foco de visão perante a sociedade. Esta passagem tem o seu marco no momento da colação de grau, um ritual inserido no cerimonial universitário, visto como um dos momentos mais importantes da vida de uma pessoa e, uma das celebrações de maior importância para a Instituição de Ensino. É uma representação cheia de simbologias, que carrega consigo influências históricas, mas que atualmente está sendo modificada, em alguns aspectos, para atender os desejos dos novos profissionais.
A tradição de encontro com as transformações atuais de certos rituais, como a colação de grau, são ponto-chave para compreender certos costumes, regras, limites e imposições colocadas pela sociedade. Para o cerimonialista, entender a evolução destes rituais e a simbologia que os envolvem é fundamental para conseguir manter o bom relacionamento e a harmonia entre as pessoas durante a realização de um evento ou cerimônia de caráter formal.
Assim, entender as funções do cerimonial e protocolo e seu papel na sociedade contemporânea são práticas que devem permear o contexto universitário, uma vez que o indivíduo, logo ao ingressar na vida acadêmica e tendo passado pelo ritual que estabelece seu ingresso caracterizado pelo vestibular, ele idealiza, ao longo dos estudos para conclusão do curso, viver o momento da colação de grau tendo como referência sua escala de valores, que agregou pela convivência familiar e pelo contexto social em que está envolvido. Este momento é caracterizado por Leach como “a transição que marca o movimento de indivíduos através das fronteiras sociais” (1978, p. 68).
Assim, as funções que são caracterizadas como ritos de passagem, que aparecem nos mais diversos momentos, são entremeados de várias simbologias, pois o final da graduação integra um momento onde o aluno culmina a vida acadêmica com a obtenção do diploma, símbolo da legalidade do ato, constituindo-se uma forma de mapeamento que o indivíduo faz com a meio social. Este mapeamento se dá ao término da graduação e a colação de grau e a entrada no mundo profissional.
Desta forma, encontrar a relevância deste rito de passagem para a comunidade acadêmica, sempre foi uma preocupação enquanto estudiosa do cerimonial e como professora da mesma área, nos diferentes cursos de graduação da Instituição de Ensino em que se buscou formação e também se atuou e se atua como membro do grupo de gestores e do corpo docente.


2.1 Significação da Colação de Grau
Uma instituição de ensino superior é um órgão localizado no âmbito educacional que abrange um conjunto de escolas superiores, cuja finalidade é à especialização profissional e científica nas diferentes áreas do conhecimento. Além do ambiente acadêmico, a universidade vem a ser um espaço cultural e de politização dos indivíduos.
A figura do Reitor (ou chanceler), como autoridade máxima das universidades, surgiu no ano de 1.200 d.C. Ao Reitor eram concedidos à autoridade e plenos poderes para representar a instituição nas solenidades.
O surgimento do Cerimonial Universitário ocorreu concomitantemente à figura do Reitor, como forma de dar a essa autoridade, por meio de rituais que caracterizam o cerimonial, poderes de autoridade máxima, demonstrados por meio de suas vestes talares ou reitorais com a finalidade principal de aperfeiçoar a seqüência e o estabelecimento de precedências, tratamentos e prerrogativas cabíveis a figura da mais alta autoridade acadêmica, o Reitor.
Para Bettega (2005), o cerimonial universitário, como qualquer outro cerimonial, é uma atividade administrativa, pois envolve planejamento, administração, coordenação e controle. O cerimonial universitário tem grande relevância dentro do meio acadêmico, pois é ele que resgata e organiza todos os aspectos históricos e simbólicos para a execução de um evento dentro do âmbito da universidade. Ele se caracteriza como um:

[...] ramo específico do cerimonial, corresponde ao conjunto de aspectos formais de um ato público que ocorre no ambiente universitário (universidades e demais instituições de ensino superior), numa seqüência própria, observando-se uma ordem de precedência (reitor, pró-reitores, chefias, professores, etc.), uma indumentária própria (vestes talares reitoral, doutoral, capa acadêmica) e o cumprimento de um ritual (atos de posse do reitor, pró-reitores, chefes de departamentos, instalação de colegiados, aula magna, concessão de títulos, colação de grau, etc.). (VIANA, 1998, p. 39).


Segundo Fernández (2007), o protocolo, dentro do âmbito universitário, determina as formas e mecanismos para que uma atividade humana resulte em um ato solene. Assim, o cerimonial se constitui de uma série de pautas, gestos e ritmos que se utilizam para dar ao ato ou evento um ritmo adequado.
Ainda, segundo o autor, todo ato universitário solene é uma sucessão de seqüências que devem se encaixar entre si de maneira perfeita. O cerimonial nos eventos acadêmicos deve estabelecer sempre, e de forma exigente, o ritmo, a pauta, a sincronização e a medida de tempo (duração do ritual como um todo) para que estes sejam realizados com rigor, precisão e como um modelo a ser seguido e sustentado.
Logo, a solenidade de colação de grau se caracteriza por um conjunto de formalidades específicas, de um ato público, dispostas numa ordem seqüencial, que envolve a utilização de uma indumentária própria, com a observância da ordem de precedência para o cumprimento de um ritual com a presença de elementos sígnicos.
Essas formalidades são adotadas por personalidades que presidem os atos oficiais, em solenidades civis, militares, religiosas e particulares. Cerimonial, do latim, significa rito sagrado, ato religioso. A prática do cerimonial é, antes de tudo, a manifestação do sentimento de respeito entre seres humanos e, não deve ser traduzida como um processo burocrático ou como uma forma de enobrecer pessoas.
Convém lembrar que o respeito aos cargos e suas funções é um dever, pois àqueles que os ocupam passam, mas os cargos permanecem. E, as autoridades (figuras humanas) que representam o contexto universitário reproduzem, por meio dos rituais, o ambiente das catedrais da Idade Média, onde se reunia o corpo docente de faculdades e congregações, com o objetivo de avaliar os conhecimentos e as condições dos discípulos em fase de conclusão de seus estudos. Estas solenidades seguiam uma rígida ordem ritualística, incluindo o uso da toga e dos demais elementos que compõem a indumentária utilizada nessas ocasiões.
A toga identificava aqueles que tinham o poder de aplicar as leis, aqueles que estavam investidos de autoridade para assegurar a justiça.
Assim, também nas colações de grau, as vestes têm função simbólica e são as razões pelas quais a formatura precisa ser realizada por meio de cerimônia pública.

2.2 Categorias de Cerimonial
Em todas as modalidades de eventos, o cerimonial passa ser o elo norteador que designa a seqüência dos mesmos. A desenvoltura do cerimonial é que vai determinar o rigor do evento. Logo, o cerimonial pode ser classificado em três categorias, sendo:

Cerimonial Público – agrega o cerimonial dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, pertencente às esferas federal, estadual e municipal. Inclui, ainda, o cerimonial civil e militar.
Cerimonial Privado – direcionado aos cerimonialísticos voltados às empresas particulares, órgãos da iniciativa privada, como entidades de classe, sindicatos, órgãos institucionais e sociais.
Alicerçado no cerimonial público, o cerimonial privado desenvolve formas específicas no estabelecimento de precedências adotadas no cerimonial social e no cerimonial empresarial. A administração do cerimonial privado requer, do cerimonialista, o domínio dos critérios que norteiam o uso do Decreto 70.274/72. São critérios que ajudam estabelecer o espaço de autoridades constituídas fora do poderes públicos.
Cerimonial Universitário – consiste em uma atividade administrativa que envolve planejamento, administração, coordenação e controle de ritos acadêmicos. Tendo surgido ao mesmo tempo da figura do Reitor, aproximadamente no ano 1.200 d.C., quando a esta autoridade era concedida os plenos poderes para representar a Instituição nas Solenidades de Colação de Grau. Sorbone tem a primazia da implementação dos atos protocolares que regem o ensino de nível superior. Na relação colocada por Viana (1998) no ranking das primeiras universidades estão: Bolonha (1158) – Paris (1170), Salamanca (1218), Pádua (1222), Nápoles (1224), Coimbra (1290) e Pisa (1343). No Brasil, foram adotadas as tradições dos rituais do Cerimonial da Universidade de Coimbra. (VIANA, 1998). Os atos protocolares de uma Universidade, como as solenidades de Colação de Grau, Posse Reitoral, Aula Magna, Concessão de Títulos são permeados de valores que devem ser preservados. A Colação de Grau é uma das cerimônias mais importantes e significativas, pois é nesse momento que a sociedade conhece os mais novos graduados e os mais novos profissionais. Demonstrar a importância de padronizar uma linguagem que seja assimilada por todos os que se envolvem com as Colações de Grau é o grande objetivo deste trabalho.

2.3 Símbolos que compõem a ritualística de uma Colação de Grau
Juramento – compromisso público de bem-utilizar o poder de conhecimento em favor da promessa feita. Na origem desse ato reside a importância maior de se fazerem presentes, nas solenidades, pais, familiares, amigos e, também, membros de diferentes segmentos e instituições da sociedade. O juramento feito em ato público visa a reconhecer, publicamente, os direitos e deveres que os formandos possam a ter, a partir do ritual de colação de grau.

Diploma
– símbolo do retratamento legal, a ser exibido à sociedade dos direitos e deveres. O diploma constitui-se em metáfora do antigo pergaminho no qual se inscrevia e se registrava a posteridade o que publicamente fora declarado.

Toga – poder de inteligência, do conhecimento, da sabedoria, da ciência. A toga, usada na cor preta tem a função de comunicar que aos formandos está sendo concedida a autoridade para exercer uma profissão, a profissão para a qual se preparam e para cujo exercício a Instituição Universitária os julgou aptos. Segundo Speers (1998) a toga tem a marca eclesiástica, pois os mestres das primeiras universidades eram, seguramente, religiosos que se trajavam com vestes talares, presentes até hoje nas universidades modernas. Desta forma, reafirma-se o rigor que deve permear a solenidade de colação de grau.

Barrete – (capelo) símbolo maior do grau obtido e a expressão máxima do direito da lei, decorrente do exercício da profissão. Através do alto grau de estudo e persistência chegam ao poder. Portanto, o barrete é o símbolo do poder. (Bispos usam barrete dentro dos templos). Em decorrência do significado que o barrete possui é que na cerimônia de outorga de grau, realizada no gabinete do reitor, a autoridade que confere grau se utiliza do barrete como símbolo de imposição do poder.

Faixa – insígnia que identifica o campo de atuação do profissional. A faixa, utilizada sobre a toga de cor preta, é colorida. A classificação das cores, da referida faixa, dizem respeito às áreas específicas do conhecimento adquirido pelo grau que é concedido ao formato.


2.4 Modalidades de colação de grau
A seguir serão apresentadas as três modalidades de solenidades que a Universidade de Caxias do Sul realiza para conferir grau aos alunos de quatro tipos de curso, em que o aluno pode optar, ao escolher o curso superior. São; bacharelado, licenciatura, tecnólogos e cursos superiores de formação específica. (antigos seqüenciais).

2.4.1 Solene: é realizada com veste talar (toga) e com a presença do paraninfo, professores homenageados e orador, em local público e, em data e horário escolhido de comum acordo entre a Instituição e as Comissões de Formatura. Esta solenidade é organizada pela Instituição de Ensino com o envolvimento de comissões compostas por formandos, que organizam o ambiente, a criação do convite, a escolha das músicas e o motivo (mote) que será usado em todas as peças que divulgam e fazem parte da Colação de Grau. Nesta modalidade de celebração, existe a presença de empresas que auxiliam na organização do ato. Estas empresas, que não possuem vínculo com a Instituição de Ensino, são contratadas pelas comissões de formatura. Porém, as empresas ‘decoradoras’ de ambientes, contratadas pelos formandos, buscam o acompanhamento do cerimonial universitário que estabelece as mesmas, as normas para o desenvolvimento das ações propostas aos formandos sob os critérios que a Universidade adota para estas solenidades.

2.4.2 Solene integrada
: esta modalidade, instituída pela Universidade de Caxias do Sul em 2004, é realizada com veste talar (toga) em local designado pela Instituição, normalmente em ambientes da Instituição, em horário e data previamente agendados pelo Cerimonial. Pode reunir formandos de um mesmo curso ou de diversos cursos. Não há homenageados, paraninfos e/ou orador. Congrega alunos de vários cursos ou formandos de um mesmo curso. O número de formandos é que determina a forma de agrupamento de alunos. Nesta solenidade há um único juramento que é feito coletivamente e a indumentária do formando é disponibilizada pela Instituição (Universidade).

2.4.3 Gabinete: solenidade realizada no gabinete do Reitor, nos casos em que o formando na pôde comparecer, por motivo imperioso, à formatura solene ou solene integral. Neste ato, que também é público e não é realizado somente para os alunos que por diferentes motivos não puderam comparecer em outras modalidades, qualquer pessoa pode se fazer presente. O formando ou seu representante não usa a veste talar – toga. O Reitor concede o grau pela imposição do barrete (capelo) acompanhado de breve pronunciamento colocando, aos presentes, que o ato de colação de grau, por mais simples que possa ser, é legal e necessário.
A Reitoria da Universidade de Caxias do Sul sempre demonstrou, por meio de seus atos, a importância de manter os rituais acadêmicos, dada à importância dos mesmos no contexto da sociedade, sobretudo, por saber que a cultura universitária brasileira está no seu segundo século de existência e não pode ser alterada por alguém que ocupa o poder momentaneamente. Assim, os Gestores Acadêmicos entendem que necessário se faz zelar pela preservação dos valores para assegurar o brilho das solenidades com o objetivo de perenizar uma Instituição milenar.
Foi neste sentido quem, em meados de 2004, o então Reitor Dr. Luiz Antonio Rizzon buscou oferecer a todos os formandos, a oportunidade de participar do ato de Colação de Grau, com o uso de vestes talares e com toda a pompa que lhe é assegurada. Isso se deu com a aquisição, por parte da universidade, de todos os símbolos que compõem a ritualística de uma Colação de Grau para serem usados pelos formandos, símbolos estes que até então só existiam, na Instituição, para uso do corpo docente. A adoção dessa nova modalidade não eliminou as demais já existentes, como a Colação de Grau Solene e de Gabinete[3].

2.5 Elementos ritualísticos das colações de grau

2.5.1 Paraninfo
A função do paraninfo é a mesma do padrinho, ou seja, a de proteger, caminhar, amparar. O paraninfo é um padrinho coletivo, podendo haver um paraninfo para cada curso ou um paraninfo para vários cursos. A escolha fica a critério dos formandos que optam pela formatura solene. O mesmo acontece na escolha do Patrono.


2.5.2 Patrono
O papel exercido pelo patrono passa a ser o mesmo que o do paraninfo. Não faz parte da tradição acadêmica de muitas Unidades de Ensino, a presença desse figurante. Porém, tem ser tornado uma freqüência às presenças do Paraninfo e Patrono, uma vez que os formandos, ao inserirem as duas modalidades de ‘padrinho’, em suas solenidades, visam homenagear pessoas que foram importantes em suas caminhadas enquanto estudantes.
Têm-se observado que os formandos, ao selecionar os homenageados, este escolhem como paraninfo, um representante da Academia, aquele que mais se destacou durante o período que permaneceram na Instituição. Já o Patrono, este, muitas vezes, é um representante da sociedade civil. A escolha se dá, normalmente, pelo destaque que esta liderança possui na categoria profissional em que os formandos farão parte, ou ainda, pela representatividade que o mesmo possui no contexto em que futuros profissionais estão inseridos.


2.5.3 Orador
A escolha do orador de turma fica a critério dos formandos. Pode acontecer de uma turma escolher dois oradores, porém a UCS recomenda que tenha dois formandos, na condição de oradores, quando a turma exceder a 80 formandos de um mesmo curso, caso contrário, não é recomendado, pois normalmente turmas menores são agrupadas em mais de um curso, pertencentes à mesma área de conhecimento. Este procedimento é adotado somente nas Colações de Grau que optam pela modalidade solene.


2.5.4 Discursos
Para o Embaixador Estellita Lins (1991), a estrutura de saudação ou discurso deve incluir a invocação a quem se saúda, dando-lhe os cargos, nome, os títulos ou a função, bem como elogios. Alguns cuidados se devem ter ao proferir um discurso, como: pronunciar corretamente as palavras e construir bem as frases. Não suprimindo o final delas, não baixar a voz no final das frases. O bom discurso deve ser curto, sucinto, sereno e objetivo. Sua duração deve orientar pela expectativa que se cria. Um discurso de formatura de um paraninfo ou orador pode durar até cerca de cinco minutos, tempo suficiente para que o orador esgote os assuntos. Os oradores devem ter em mente que a formatura é um ato solene, caracterizado pelo final de uma longa caminhada. Em formaturas que agregam vários cursos, é recomendável que, no máximo, três paraninfos e três oradores se pronunciem, respeitando o tempo de três minutos cada pronunciamento.
As recomendações acima são feitas, pelo cerimonial da UCS, aos professores paraninfos e oradores que optam pela modalidade solene. Já nas solenes integradas, existe somente o discurso do Reitor ou de seu representante legal. Manifestações de formandos, enquanto representantes do grupo, já aconteceram, pois diante da aceitação dessa modalidade criada pela Instituição, em algumas ocasiões alguns formandos solicitam um espaço com o objetivo de agradecer à Universidade pela oportunidade proporcionada. Neste caso, é concedida a palavra a um representante do corpo discente, que faz o agradecimento. O formando representante é escolhido pelo próprio grupo minutos antes do evento, uma vez que muitos dos formandos não se conhecem antes de participar deste ritual.

2.5.5 Precedência entre cursos
Os cursos que integram um grupo de formandos pertencentes ao mesmo Centro ou Faculdade terão a precedência constituída através do critério de antiguidade histórica, ou seja, o curso com maior tempo de existência na Instituição terá a precedência sobre os demais, salvo o curso que terá elegido, entre os formandos, o juramentista como seu representante.
Nas Colações de Grau denominadas solenes integradas, a sistemática adotada ao formar turma, atividade realizada pelo Cerimonial Universitário, é feita por áreas de conhecimento, ou áreas afins. Ex: todos os formandos que pertencem às ciências exatas compõem um grupo que colam grau em uma única solenidade e assim, sucessivamente, são montadas as demais turmas.


3 CONCLUSÃO
Os elementos simbólicos de uma formatura trazem, em seu arcabouço, um tipo de linguagem invisível que revela uma concepção de mundo produzido pelo imaginário dos sujeitos envolvidos ao evento.
Porém, com o passar do tempo, as características do ritual de colação de grau vem perdendo sua força para dar lugar a novos costumes da sociedade moderna. Diferentes fatores contribuem para estas mudanças, que ocorrem no modo de apresentar ou organizar a solenidade em questão. Uma delas é o caráter autônomo das universidades, que mesmo tendo um protocolo tradicional que deveria ser seguido, passa a estabelecer suas próprias regras internas que muitas vezes simplificam a ocasião. Outro elemento considerado influenciador de mudanças é a presença de empresas que, ao se dizerem organizadoras de formaturas, adotam critérios mercadológicos para a obtenção de clientes (grupos de formandos). Estas empresas, muitas vezes, não seguem o cerimonial universitário, até por não conhecer e ‘vendem’ aos formandos, um evento com características de espetáculo, quando a orientação para os mesmos deveria ser de que o momento da colação de grau se assemelha, em alguns aspectos, com um evento de julgamento, que acontece nos tribunais.
Logo, por entender que a solenidade de Colação de Grau é o ápice da vida acadêmica e a espetacularização do ato depõe contra o próprio formando foi que a Universidade de Caxias do Sul investiu na criação de uma solenidade ‘alternativa’, toda organizada pela própria Instituição, onde o aluno participa sem investimento algum, tendo ao seu dispor todo o cerimonial de organização, assim como a indumentária usada no momento.

REFÊNCIAS
BETTEGA, M. L . Manual de formaturas. Publicação da Universidade de Caxias do Sul, 2005.
FERNÁNDEZ, F. R. El protocolo universitário. Historia, tradiciones y práctica actual del cerimonial em la Universidad española. Consello Social Universidad de Vigo, Espanha, 2007.
GENNEP, A. V. Os ritos de passagem. Petrópolis: Editora Vozes Ltda., 1978.
LEACH, Edmundo. Cultura e Comunicação. A lógica pela qual os símbolos estão ligados. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.
LINS, Augusto Estellita. Etiqueta, Protocolo e Cerimonial. 2. Ed. Brasília: Linha Gráfica e Editora, 1991.
SEGALEN, M. Ritos e rituais contemporâneos. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002.
SPPERS, N. A universidade e o cerimonial na ótica das relações públicas. São Paulo: Hexágono Cultural, 2003.
VIANA, F. B. Universidade: protocolo, rito e cerimonial. São Paulo: Lúmen, 1998.
ANOTAÇÕES
[1] Professora Maria Lúcia Bettega é mestre em Letras e Cultura Regional pela Universidade de Caxias do Sul – UCS, com o trabalho intitulado: O casamento como manifestação de uma cultura: o caso de Nova Palmira. Atualmente é aluna especial do doutorado em Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atua como professora do Centro de Comunicação da UCS além de ser idealizadora e coordenadora da Especialização em Gestão do Cerimonial e do MBA em Cultura Organizacional e Comunicação com o Mercado, ambos pela UCS. Contato: primiero@terra.com.br e mlbetteg@ucs.br.
[2] Grifo do autor
[3] Grifos do autor

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