sábado, 24 de julho de 2010

"Como se forma em Direito um bacharel coimbrão", foto-reportagem do estudante João Maria de Magalhães Colaço, na I. P., n.º 302, de 4 de Dezembro de 1911
A irritante petulância literária do autor não obscurece por inteiro algumas frases portadoras de interesse informativo. A maior parte das fotografias é detentora de interesse. As fotografias revelam em primeira mão que a capa e batina, cujo porte diário fora abolido em Outubro de 1910, continuava a ser usada em elevada percentagem pelos estudantes do sexo masculino. A Revolução trouxera algumas novidades, desde logo, a instabilidade cromática associada a actos de transgressão dos códigos vestimentários, a casaca definitivamente aberta, bandeada de cetim a imitar os burgueses endinheirados e bem postos na vida e nos negócios, a capa enrolada no colarinho e transportada heterodoxamente no ombro direito, no ombro esquerdo ou no braço esquerdo.
As fotos não são todas capatadas em finais de 1911. A que retrata a trupe é copiada de um postal ilustrado em circulação desde ca. 1905. O que estas fotografias demonstram é que os estudantes da UC continuaram a praticar as tradições e rituais sem que a Revolução de 1910 os tenha beliscado.
O maior interesse deste escrito reside na informação prestada sobre a pasta académica de couro. De acordo com o articulista, a pasta de dois fólios encontrava-se generalizada entre os alunos do quarto e do quinto anos. Os primeiros enleando-lhe uma fita estreita na dobra, os segundos fixando-lhe vistosos jogos de fitas de seda canelada e moiré.
Não se sabe exactamente em que data e em que faculdade começou a pasta de couro/cabedal a ser usada. Na primeira metade da década de 1890 há fotografias que ainda mostram os estudantes do quarto ano com os livros e folhas de apontamentos atados em cruz com o grelo ou fita de algodão. Entre os quintanistas, o que estava generalizado e era considerado chic era a pasta de luxo. A pasta de luxo não era de couro, porque o couro era tido por vulgar, não era preta, porque a pompa associada às vivências de então requeria que fosse inteiramente na cor do curso, e não era lisa, pois que sendo de luxo exibia bordados a fio de seda e missangas, pinturas sobre tecido ou adornos em prata lavrada.
O acervo fotográfico do Museu Académico de Coimbra poderá proporcionar surpresas nesta matéria. Sem provas seguras, diria que a pasta de couro terá surgido não na Faculdade de Direito, como parece pretender Magalhães Colaço, mas antes na Faculdade de Matemática ou na de Filosofia Natural. Há uma fotografia de uma turma do Doutor Bernardino Machado, dos anos de 1896-1897, onde um aluno exibe a tipologia de pasta de couro que se generalizou entre os estudantes da UC na primeira década do século XX. Indo um pouco mais longe, não terão sido os estudantes militares que frequentavam Matemática e Filosofia Natural (=Ciências) na década de 1890 a introduzir a pasta de couro na UC?
O modelo a que nos referimos estava bastante generalizado no século XIX entre militares, arqueólogos, oceanólogos e cientistas que faziam regularmente trabalho científico em contacto com a natureza e se confessavam adeptos do positivismo e do método positivista. Em França, os militares em campanha usavam a "porte-feuille", pasta de couro preta ou acastanhada, como resguardo de folhas de apontamentos, bloco de notas e agenda. Tudo leva a crer que é daqui que vem a pasta estudantil, da organização militar e científica dos projectos, mantendo até ao presente uma ligação à função de origem que consiste em nunca trazer a pasta vazia. Se não houver nada para a encher, então que se lhe meta ao menos uma folha, dizem os entendidos no assunto. Quando se generalizou a pasta, convém lembrá-lo, ainda não havia manuais escolares de uso regular, pelo que só era preciso transportar folhas de papel para escrita e folhas de litografia com impressão das lições mais recentes.
Antes de 1910 a pasta estudantil aparece documentada em alunos da Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Para aprofundarmos mais a radicação da pasta entre os académicos matriculados em estabelecimentos da cidade do Porto, valeria a pena estudar o acervo do Museu da Medicina da UP. Entre 1920 e 1944 a pasta foi alvo de grande atenção na UP, graças ao programa anual conhecido por Festa da Pasta. Terão os estudantes de Coimbra iniciado o uso da pasta de couro, com ulterior generalização noutros estabelecimentos de ensino, como sucedeu após 1910 e depois de 1974? Ou terá a pasta de couro aparecido nas escolas politécnicas do Porto fini-oitocentista? Um coisa se pode concluir, a pasta de couro tem aproximadamente cem anos de existência nos meios académicos portugueses. No início era em couro e cabedal (qual couro sintético!), em preto, castanho e ocre, trazendo por dentro um generoso bolso que depois se veio a atrofiar, de tal arte que só dá para porta-moedas.
Prática e funcional, a pasta de couro fez a democratização do ensino superior e atravessou os anos da massificação. Ao contrário da pasta de luxo, a de couro podia dobrar-se e meter-se no bolso, fazendo todo o garbo de muito académico de antes de 1974.

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