quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Imagens da Festa da Queima das Fitas
Fotografias de quatro momentos da Festa da Queima das Fitas dos Estudantes da Universidade de Coimbra (1959)
Foto 1: quartanistas novas fitadas em carro alegórico engalanado de flores. O tailleur com capa era uma invenção muito recente. Fora imposto como uniforme académico feminino pelo Conselho de Veteranos em Maio de 1954. O cortejo de viaturas alegóricas nas festividades académicas conimbricenses é de remota fábrica, não se podendo assacar uma data de começo. O que se pode documentar e com grande rigor é a passagem do uso de burros e de carros de tracção bovina às viaturas motorizadas. Os carros engalanados com flores, festões, canas e bandeirolas eram uma tradição rural muito difundida em Portugal nas romarias, peregrinações, bodos, arraiais e entradas régias. O cortejo alegórico da Queima das Fitas herdou esta tradição rural e acrescentou-lhe nos anos de 1890-1910 o costume galante e carnavalesco da Batalha das Flores que se fazia em Paris, Lisboa ou Guimarães: desfile de viaturas engalanadas de flores, cujos ocupantes se divertiam a simular batalhas, lançando flores, bolas de cera recheadas de líquidos, jactos de seringas e serpentinas multicolores. Nos anos de 1980 ainda se viam em Coimbra os quartanistas a "atirar" plaquetes de caricaturas de curso sobre a multidão, resíduo da antiga batalha que se perdeu;
Foto 2: novos fitados de Medicina com batas de prática laboratorial. A tradição de queimar as fitas pelos quartanistas de Medicina começou após Direito e Teologia, por volta de 1900. Nas primeiras tentativas, em vez de altar incinerador usou-se um balão voador semelhante ao popularizado nos festejos do São João do Porto;
Foto 3: ritual da Queima das Fitas. O rito da incineração dos grelos ou fitilhos enquadra-se na tradição europeia e peninsular dos julgamentos do tempo, com consequente aplicação de sentenças aos condenados. Subjacente ao rito estão o julgamento do ano escolar e do bode expiatório (o caloiro), exorcizando-se o primeiro através de uma queimada purificadora e o segundo por meio de tourada. Originalmente, a Queima das Fitas é apenas a festa dos alunos do quarto ano de Direito e de Teologia que vão buscar no fim do ano as suas fitas de seda na cor do respectivo curso;
Foto 4: cartolado com cartola de fantasia na cor do curso, casaca com lapelas forradas de cetim, bengala e charuto. Na década de 1930 os quintanistas que se preparavam para celebrar o fim de curso começaram a participar na Queima das Fitas dos seus condiscípulos do 4.º ano. Para que esta intromissão pudesse acontecer foi necessário fundir na mesma estrutura duas festas académicas já antigas e totalmente distintas, a Queima das Fitas dos quartanistas e a Festa de Despedida dos Quintanistas, mais conhecida por Récita de Despedida. Os quintanistas trazem à Queima das Fitas a récita teatral de despedida, a balada de despedida, o livro de caricaturas e o desfile no cortejo alegórico com traje carnavalesco ou de fantasia. A moda das cartolas e bengalas começa na Faculdade de Medicina, no alvorecer da década de 1930 e rapidamente alastra às demais escolas. Na segunda metadade da década de 1940 é apropriada e tradicionalizada pelos estudantes da Universidade do Porto. Como traje de fantasia que era, usavam-se pijamas, casacas, vestidos e outras peças de roupa não combinadas. A cartola era de estrutura manufacturada, em cartão forrado de papel de lustro na cor científica do curso. Lapelas de cetim, papillon e bengala eram também na cor do curso. Por vezes aparecia uma flor na botoeira (que não era a roseta de seda que foi criada pelos estudantes da Universidade do Porto a partir das insígnias das comendas de Estado). A cartola conimbricense tinha aba plana, de tipo saturno, copa de ilharga alta e chegava a ser muito altarrona e forrada de preto caso o seu portador fosse veterano. O charuto vistoso, tradicionalmente ofertado por caloiro-afilhado, e a garrafa de espumante, compunham a toilete dandy do quintanista que se despedia lacrimogéneo.
Fonte: Frederic P. Marjay - Coimbra. A cidade universitária e a sua região. Lisboa: Bertrand Editora, 1959, p. 39

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