segunda-feira, 6 de setembro de 2010


Primeira entrega de diplomas de doutoramento na Paris VI
Ao apropriar-se da imagem mediática das universidades norte-americanas e e ao fazer suas as estratégias de promoção empresarial, a jovem Universidade de Paris VI - Pierre-et-Marie Curie tem dado que falar em França desde 2009.
O estar nas bocas do mundo começou com a edição da primeira festa de formatura e a entrega de diplomas aos cursos de licenciados, estes em toga de licra e barrete à americana. Houve falas de desdém, houve quem falasse na morte do espírito abolicionista do Mai 68. Das várias Paris, outras universidades se colocaram em campo como a Paris Descartes, a Paris 3 e legítima Paris medieval. Por enquanto, Paris 3 tem realizado cerimónias totalmente civis, de cunho mais politécnico e empresarial. Poitiers também já foi referenciada nos medias como instituição reprodutora da graduation à moda dos EUA.
Em Junho de 2009, a UPMC aproveitou o Anfiteatro Farabeuf para promover a sua primeira gala de entrega de diplomas aos novos doutorados.
Os membros do corpo docente e o Presidente, Mr. Jean Chambaz, apresentaram-se em toge et toque. Os 300 novos doutores presentes envergavam gown preta e barrete de tipo norte-americano, trazendo aos ombros um cachecol branco.
Visando afastar as desconfianças e as inevitáveis alusões ao Mai 68, Chambaz fez questão de salientar que considera este tipo de cerimónias como importantes instrumentos de promoção da universidade, dos recém-formados e dos contactos com a comunidade, os empregadores e os patrocinadores. Procurou sossegar os anti-americanos, dizendo-lhes que a UPMC não estava propriamente a americanizar-se mas sim a apanhar o barco da globalização, fazendo aquilo que muitas outras universidades fazem a nível mundial. Acrescentou ainda, como argumento de peso, que a colação de graus era uma tradição universitária europeia praticada desde a Idade Média.
Contudo, a retórica do Presidente da UPMC não deixa lugar a equívocos. A instituição não efectuou uma cerimónia de colação de graus mas uma entrega de diplomas, ou como lhe chamam algumas universidades espanholas, uma diplomatura. Os novos doutores não deram mostra de qualquer apego à tradição universitária francesa, pois em vez da toge e da toque envergavam vestes norte-americanas para bachareis e licenciados, o que é ainda mais estranho. O grande final é também ele americano, popularizado pelos filmes e pelos medias, com o lançamento do barrete, tal qual fazem os marines, os liceus e as universidades.
A lição neoliberal é muito clara, vazada nos grandes números anuais de diplomados e de teses aprovadas com sucesso que Chambaz debitou. Resta saber, no médio e no longo prazo, o que será deste tipo de produtos cuja comparação com a linha de montagem taylorista é inevitável.
Chamar "cérémonie solennelle" ao que se divisa na fotografia pode corresponder a publicidade enganosa. Trata-se evidentemente de um evento académico, mas a forma de vestir banal dos presentes e a informalidade dos momentos associados ao acto não revestem qualquer solenidade, aproximando-se mais do conceito de festa-fantasia. Actos revestidos de solenidade assumem características específicas em ternos de espaços, ritos, indumentária e etiqueta que não estão presentes nesta festa. Ela é do domínio do protocolo, não do cerimonial.
A posmodernidade tem destas coisas, permite simular ser o que não se é e possuir o que não se tem. O resultado final pode ser uma espécie de carnaval em que cada sujeito veste democraticamente as licras e os velcros do Batman, do Spiderman, da Barbie ou do Zorro. Onde fica a credibilidade das instituições públicas subvencionadas pelos impostos dos cidadãos? Os agentes do mundo comercial e empresarial sabem por exepriência acumulada e estudos comparativos que há produtos de primeira, segunda e terceira classe e uma espécie de quinta essência polarizada pelos artigos de luxo. A diferença reside no preço, na qualidade da confecção e no prestígio do nome do fabricante ou da marca. Falar a linguagem comercial e industrial neo-liberal num mundo globalizado e aculturado exige da parte das universidades, ou de quem as governa, o pleno conhecimento destes códigos e estratégias. De contrário, corre-se o risco de saturar o mercado com produtos de 3.ª classe, dizendo embora que os mesmos são de luxo. Quem acredita nas virtualidades de produto publicitado como sendo de excelência, quando o mesmo é apresentado embrulhado em licra, calças de ganga, sapatilhas e chinelas de praia?

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