sábado, 12 de novembro de 2011

Camponesas fornecedores de produtos à cidade de Coimbra atravessam o vau do Mondego com as saias repuxadas, cestos e carregos à cabeça. Como se pode observar, na execução dos trabalhos domésticos e campestres as mulheres raramente deitavam as mãos à cintura, postura considerada típica das regatateiras da praça e das peixeiras, associado a brigas e a actos provocatórios (deitar as mãos à cintura para provocar e investir exactamente como o cabo de forcados fazia ao touro). Havia certass localidades onde as mulheres deitavam as mãos à cintura, por exemplo em terras minhotas. Porém, esse gesto  não estava generalizado no Portugal rural e provincial feminino. Ir à missa, a um funeral, a uma repartição pública com as mãos nas ancas? Impensável. As comunidades rurais, apesar da rudeza de vida em que estavam mergulhadas tinham noções de polimento. A escola de arte dramática do Conservatório Nacional teve culpas no cartório pois em todas as peças onde as actrizes representavam costumes populares lá apareciam as mãos nas ancas, na convicção de que estavam a representar aquilo a que estão se chamada "castiço", "típico", "pitoresco". Estamos muito antes do Estado Novo e do SPN/SNI. No Estado Novo, os grupos folclóricos ensaiados para representação em palco inventam a moda das camponesas com mãos nas ancas, uma praga semelhante ao acordeão. Em localidades onde tal prática era residual e considerada grosseira, os ensaiadores dos ranchos passam a aconselhar as mãos nas ancas no entrar no palco, no dançar e no exibir os trajes reconstituídos. Curiosamente não se aconselhou o mesmo gesto aos homens, quando nos meios agropiscatórios e de lide de gado os homens lançavam frequentemente às mãos cintura para relaxar os músculos, avaliar o trabalho feito e a fazer e exibir virilidade.
Só aprofundando o assunto é que se poderá perceber que representações da cultura popular animavam os ensaiadores dos ranchos folclóricos. Numa primeira análise parecem óbvias duas inferências: a) a crença de que se estava a representar com maior grau de rigor a cultura rural, sem preocupação de situar tal prática no tempo e no espaço (exemplo extremo da perversidade das práticas de normalização); b) a vontade de reforçar a segregação dos sexos através de sinais exteriores alavancados no binómio mulher com mãos na cintura/homens com mãos nas abas do colete/jaleco. Eis um exemplo de reinvenção do património tradicional rural para uso ideólógico.
Fonte: O Occidente n.º 93, de 21.7.1881

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