domingo, 4 de dezembro de 2011

Cortesia e descortesia na cultura tradicional

Quando na segunda metade do século XIX os etnólogos aprofundaram as campanhas de recolha e registo das culturas orais ainda vivenciadas pelas comunidades tradicionais, as formas de cortesia e descortesia mantinham em vigor um vasto corpus de representações multisseculares. Porém, o património imaterial não era enformado por normas de conduta e formas de tratamento em "estado puro". Ao longo do século XIX a cultura popular de matriz oral tinha vindo a ser progressivamente influenciada pelos modelos comportamentais escritos urbanos cultivados pelas elites escolarizadas. Os preceitos de "civilidade" eram transmitidos a nível local pelos padres-que os tinha aprendido nos seminários católicos-nos sermões e na catequese-, e pelos mestres escola (professores de primeiras letras). Os jovens rurais eram ainda sujeitos aos códigos de civilidade sempre que se deslocavam às repartições públicas. Nas vilas e cidades, colégios privados, esquadras de polícia, casas de correcção, seminários católicos, liceus, quarteis militares, escolas militares, penitenciárias, os regulamentos internos impunham detalhados preceitos sobre a higiene, o comportamento, o relacionamento social, o tratamento das autoridades e o controlo do corpo. Por exemplo, o banho semanal de corpo inteiro, que só acontecia nas aldeias aos sábados, é adoptado como prática corrente nas instituições de internamento. Ou o uso diário do garfo, referido nos regulamentos militares oitocentistas como objecto obrigatório no enxoval do recruta em formação. Ou o cuspir para o lenço de bolso, costume citadino que parecendo absurdo e falho de higiene, motivava aos camponeses infindáveis risotas ("O que é que os ricos guardam na algibeira e os pobres deitam fora?").
Quem frequentou no período do Estado Novo instituições como escolas de magistério primário, liceus, escolas primárias, o colégio militar, os seminários católicos, as casas de correcção, as colónias penais, as escolas de fuzileiros, conhece e cita de cor um extenso rol de regras de conduta sobre a higiene, o corpo, as formas de tratamento, o convívio, a relação com as autoridades e o sexo feminino. De onde promanam essas regras, que na década de 1960 foram violentamente contestadas e denunciadas pela juventude como instrumentos de controlo e repressão impostos pela civilização burguesa? A resposta é fácil, dos velhos manuais de urbanidade e boas maneiras escritos entre os séculos XVI-XVIII para educar os cortesãos e as elites.

Eram preceitos de cortesia:

· levantar-se (por-se de pé) à passagem (entradas e saídas) ou na presença de autoridade de qualquer categoria (régia, fidalga, eclesiástica, militar, administrativa, académica);
· ajoelhar-se ante o sagrado (levantamento da óstia na missa, comunhão, passagem do pálio em procissão);
· fazer reverências à entrada e à saída (três vénias profundas, com a cabeça descoberta, uma à entrada da porta, outra a meio do recinto, outra junto do altar, trono, paraninfo);
· beijar a mão ao rei, à autoridade eclesiástica, aos pais, padrinhos e avós;
· pedir a bênção aos pais, avós, padrinhos;
· pedir à maior autoridade presente ou ao anfitrião o uso da palavra com vénia (mesura de cabeça);
· o anfitrião servir em primeiro lugar o prato e o copo do convidado, concedendo primazia às senhoras,
· nunca virar costas à autoridade/anfitrião (daí o costume de sair dos salões às arrecuas como o caranguejo);
· no uso da palavra, começar com saudações às autoridades e colegas de ofício;
· nunca pedir comida nem bebida ao anfitrião/anfitriã (próprio dos mendigos a quem a caridade cristã mandava abonar);
· só aceitar a comida/bebida oferecidas, após recusa simpática e palavras de desculpa por estar a causar incómodo;
· sentar-se sempre após o anfitrião e levantar-se em simultâneo com ele;
· pedir sempre “com licença”/”com a sua licença”/”com a vossa licença” quando após a despedida de visitante se fechava a porta;
· num baile, pedir licença à mãe ou à madrinha para dançar com mulher solteira;
· pedir a noiva ao pai;
· pedir sempre licença quando se passava em frente de outra pessoa;
· cumprimentar em voz alta visitantes e passantes, com os estilos habituais conforme a hora do dia;
· oferecer a melhor cama e a melhor comida às visitas;
· lançar a capa no chão à passagem de damas e autoridades (fidalgos de capa, estudantes de Coimbra, seminaristas, tunos espanhóis);
· colocar a capa de estudante nos ombros de visitante (estudantes de Coimbra);
· agradecer em voz alta gestos de simpatia, prendas, favores, com “Muito obrigado” (fórmula geral), “Bem haja” (região de Coimbra), “Deus te pague”;
· dar resposta aos agradecimentos: “Não tem de quê”, “Não há de quê”, “Nanja por isso “(Beiras) e “Muito beiçóm” e “Muito beiçónzinho” (Melgaço e Monção). Em épocas mais recuadas, o agradecimento era completado com beija-mão, donde a expressão “Beijo-lhe as mãos por este benefício”. Nas universidades de Coimbra e de Salamanca os graduandos em bacharel, licenciado, mestre e doutor agradeciam em latim os benefícios recebidos (Agora resta-me dar graças por…). No início das refeições campesinas rezava-se, agradecia-se à divindade e benziam-se os víveres;
· comer e beber à mesa em silêncio;
· aplaudir vigorosamente os espectáculos com palmas, assobios e vivas;
· mostrar satisfação e alegria através de palavras como “Viva”, “Muito estimo”, “Muito folgo”;
· emitir piropo masculino revelador de apreço, afeição ou galanteio (“meu bem”, “meu benzinho”, "olhos da minha alma", "alegria dos meus olhos", "a mais bela flor deste jardim");
· manifestar pesar, consternação e piedade com palavras como “Coitadinha” (em certas terras significa enganado pelo cônjuge),“Olha o pobre” “O pobre homem”, “Deus tenha pena da sua alma”, “Deus o leve em boa hora”, “Deus o tenha”, “Misericórdia”;
· desejar boas festas e bom ano novo aos vizinhos, amigos, familiares e visitantes: “um santo natal”, “feliz natal”, “boas festas e bons anos”, “boas saídas e melhores entradas”, “boas entradas”.

Eram manifestações de descortesia:
· ser recebido numa casa e a dona não oferecer uma visita guiada (Minho);
· um homem entrar em casa particular onde estivesse momentaneamente sozinha mulher casada ou donzela (devendo aguardar no exterior);
· ser recebido e os donos não oferecerem comida nem bebida (além de descortesia, era violação das Obras de Misericórdia);
· não se levantar ante a autoridade;
· injuriar familiares, vizinhos e amigos (também constituía violação do Decálogo);
· tratar visitantes com palavrões, expressões rudes ou pragas: “Cabeça de burro”, “Sua besta”, “Mamão” (Açores), Vai ladrar para a rua”,“Filho da púcara”, “Filho da polícia”, “Filha da sua mãe”, “Diabos te levem mais à tua família”, “Maldito sejas maila tua raça”;
· expulsar familiar ou visitante: “Põe-te na alheta”, “A porta da rua é a serventia da casa”;
· o anfitrião servir-se e começar a comer sem servir primeiro os convidados e respectivas senhoras;
· convidado ou familiar levantar-se da mesa da refeição sem autorização dos anfitriões;
· convidado ou familiar sair da mesa sem que todos os presentes tivessem terminado a refeição;
· iniciar o levantamento da mesa sem que todos os presentes tivessem concluído a refeição;
· proferir apreciações negativas sobre pessoa que demorava a terminar a refeição ou ingeria grande quantidade de alimentos;
· os comensais começarem a comer sem que estivessem sentados os anfitriões;
· partir alimentos e guardar para si a melhor parte, oferecendo aos convidados alimentos de inferior qualidade;
· desdenhar da comida e da bebida oferecidas pelos anfitriões;
· auto-servir-se dos últimos alimentos postos na mesa sem perguntar se mais alguém desejava compartir;
· proferir ameaças de agressão ou de vandalização de bens;
· tecer comentários ofensivos à memória de familiares falecidos (mesmo que verdadeiras, certas verdades não deveriam ser ditas em voz alta);
· puxar ruidosamente escarro ou escarrar em tom ofensivo em presença de pessoa detestada;
· cuspir no rosto de alguém;
· bater na cara ou cabeça de alguém (excepto nas situações de castigo parental, era considerada desonra muito grave, originando conflitos e duelos);
· declarar corte de relações a familiares ou vizinhos
· bater com as mãos nas próprias nádegas em sinal de desprezo;
· homem apalpar a nádega de mulher ou beliscar-lhe a nádega (era considerado comportamento identificativo de prostitutas);
· emitir piropo masculino com alusões sexuais explícitas;
· levantar as saias e exibir agressivamente a zona púbica;
· meter as mãos na cintura e provocar o interlocutor/adversário;
· não retirar o chapéu ante a autoridade/divindade;
· quando recebido um cumprimento/saudação, virar o rosto e não responder;
· desviar a mão a pessoa que estendia a mão para cumprimentar;
· fingir não ver pessoa conhecida ou mudar ostensivamente de sítio para não se cruzar com determinada pessoa;
· emitir ruídos em tom de mofa/desprezo (roncar, uivar, ganir, dar gargalhadas histéricas) e fazer esgares de desconsideração;
· receber prendas e não agradecer;
· fazer gestos obscenos com os dedos e os braços;
· receber prendas e desdenhar ou mostrar insatisfação;
· visitar uma autoridade aristocrática, militar, académica, policial, administrativa, eclesiástica e não levar uma prenda (comida, bebida, artesanato);
· não oferecer o assento as pessoas mais velhas ou doentes;
· deitar famas públicas contra familiares e vizinhos, atingindo o seu bom nome e reputação (versos satíricos, dichotes, testamentos, difamações);
· recusar convite para ser padrinho ou madrinha de alguém (mesmo que apresentando justificação);
· não retribuir os cumprimentos cristãos de paz na igreja;
· não aceitar pedido de desculpas e gozar com o protagonista do pedido;
· imitar tiques de pessoas conhecidas (modo de falar, gaguez, limitações psico-motoras) junto do próprio ou de seus familiares;
· dizer mal de filhos aos seus próprios pais;
· ser excessivamente curioso e alcoviteiro, e como tal, incapaz de guardar segredo ou de merecer confiança;
· faltar à palavra dada, não honrando determinados compromissos;
· prometer casamento com o objectivo de obter vantagens patrimoniais ou de natureza sexual.

Citar: AMNunes, Cortesia e descortesia na cultura tradicional [portuguesa], http://virtualandmemories.blogspot.com, 4.12.2011

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