quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Sessão de homenagem aos exploradores Capelo e Ivens na Associação Comercial de Lisboa. Repare-se na mesa da presidência coberta com toalha, que ganhará enorme relevância em Portugal após 1910. A tradição protocolar da mesa da presidência é de raiz administrativa. Entronca nas antigas mesas de despacho das confrarias, sessões municipais, irmandades e tribunais superiores. As mesas eram espaços de trabalho, embora a sua constituição obedecesse a estilos consagrados nos regimentos e compromissos:

1-missa no oratório ou orações propiciatórias, feitas individualmente ou conduzidas por um capelão;
2-toque de sineta ou campanhia para reunir em proximidade da porta principal os convocados;
3-anúncio da chamada em voz alta pelo pregoeiro e/ou mestre de cerimónias (Intretis in congregatio, intretis);
4-entrada dos convocados na sala em fila, os mais novos na frente, os mais velhos na rectaguarda;
5-os mesários começam a dispor-se em torno da mesa, aguardando de pé que o presidente tome o lugar de honra;
6-os mesários só tomam assento após autorização do presidente;
7-os mesários sentam-se alternadamente à direita e à esquerda do presidente, por ordem de antiguidades (idade, data de nomeação).
8-os trabalhos são declarados abertos, interrompidos, adiados ou encerrados em voz alta pelo presidente da mesa;
10-caso as falas sejam proferidas por mestre de cerimónias ou oficial designado, este fala sempre "Em nome de... declaro...".

Há quem confunda a fala administrativa do presidente da mesa ou do seu porta-voz com a fala do pregoeiro. Recordemos, são papeis inconfundíveis. O pregoeiro cantava as frases num registo alto e dramático, como ainda hoje acontece nos leilões de algumas casas de antiguidades e nos sorteios de jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Quem tenha memória dos antigos pregões populares portugueses que se ouviam nas cidades e aldeias quando passavam os vendedeores e vendedeiras, não terá dificuldade em pereceber a diferença basilar entre o registo do porta-voz e a fala do pregoeiro. Em alguns tribunais franceses (cada vez menos) ainda se ouve a bastonada seca no estrado e o declamatório "Le Tribunal".
Na actualidade em Portugal, a constuição de mesas de presidência segue as mesmas formalidades em todas as instituições, sejam elas judiciárias, legislativas, executivas, militares, académicas, empresariais, centrais, regionais, locais. Os membros da mesa ocupam os lugares previamente marcados pela organização, sem as antigas solenidades. Já no Brasil, a constituição da mesa obedece às antigas chamadas em voz alta, entrando cada elemento por sua vez no paraninfo/palco. Apesar de sugestiva, a solução brasileira origina muitas tensões nas universidades, pois de cada vez que entra um professor ou um político menos amado, a plateia começa a assobiar e a vaiar.
Fonte: O Occidente n.º 246, de 21.10.1885

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