sábado, 10 de março de 2012

Costumes e cerimónias académicas: Actus gallicus, gallus, gallina, vejamen, bejamen, vexamine, vexame, tourada, sermo iocosus, vejamen iocosum

Os antigos estatutos que regeram as universidades ibéricas entre a Idade Média e os inícios do século XIX consagravam a figura do actus gallicus como um importante momento do cerimonial académico. Um momento jocoso integrado na solenidade, cuja função e sentido se tornam difíceis de compreender nos tempos presentes.
Universo: há notícia da prática do actus gallicus em todas as universidades da Península Ibérica, incluindo o Studium General português, e as universidades da América Espanhola: México e San Marcos (Lima). Entre os séculos XVI-XVIII também foi praticado nas academias de belas letras de Espanha.
Origem: não se sabe ao certo qual seja a origem do actus gallicus. Sabe-se que surgiu nas universidades medievais, possivelmente na Faculdade de Teologia da Universidade de Paris. No século XV já se encontrava tradicionalizado nas universidades ibéricas.
Desaparecimento: os actus gallicus conheceram o seu grande pico de glória no período barroco, associados ao excesso retórico e à tolerância sócio-institucional da cultura burlesca. Os últimos de que há notícia realizaram-se em 1833 na Universidad de Alcalà de Henares (atual Complutense de Madrid).
Causas do desaparecimento: a cultura burguesa masculina marcada pelos valores do Iluminismo e do liberalismo era visceralmente inimiga dos excessos, desregramentos e troças comunitárias. Com as sucessivas revoluções liberais, os reformadores fazem publicar interdições oficiais que são policiadas por forças militares, tribunais e forças de segurança pública. Em Espanha, parte da cultura pícara seria expulsa dos claustros das universidades, tendo sido continuada pelas tunas escolares. Em Coimbra, os chamados estilos ou praxes autonomizaram-se do claustro universitário, tendo passado a ser geridos apenas pelos estudantes.
O processo de interdição foi acompanhado por campanhas de desacreditação, publicação de obras doutrinárias e manifestos à opinião pública. Passaram estão a coexistir dois tipos de instrumentos formativos:

a) nas escolas ditas sérias, os manuais de civilidade e boas maneiras, repletos de postulados disciplinares assentes numa moral de dever-ser que visava aperfeiçoar o ser humano;
b) em alguns redutos escolares os códigos de praxe (primeiro orais, depois postos por escrito), que apesar de terem assimilado parte dos ensinamentos dos manuais de civilidade mantiveram resíduos da cultura burlesca e pícara.

Quem eram os galos: na sua origem mais remota, na Universidade de Paris, e nas universidades ibéricas, eram chamados gallos os mestres de Teologia. Esta designação tinha a ver com as disputas teológicas. Ou melhor, com a dialética aristotélica. Tradicionalmente o animal símbolo da Dialética era e é a serpente, embora na iconografia medieval a “mordedura” possa ser figurada através de uma cabeça de mastim. A sua função era picar ou morder o adversário para que este reagisse com finura e inteligência ao desafio. Estamos a falar de uma pugna verbal e intelectual, como fazem os cantores de descantes ou desgarradas que se picam por palavras e ditos e vão improvisando e respondendo até que um dos contendores se canse. A pugna cantada, como se sabe, é ritualizada. Os cantores saúdam o auditório e identificam-se com versos cantados. Depois desenvolvem a luta cantada. Ao encerrar, pedem desculpas por alguma falta de engenho e despedem-se do auditório.
Os mestres de Teologia que arguiam as provas académicas eram gallos. Havia os gallos arguentes e havia os gallos de encómio. Os arguentes interpelavam rijamente o candidato a doutor. Esta tradição do exame em que arguentes e arguidos dizem coisas tremendas manteve-se na Universidade de Coimbra, muito particularmente na Faculdade de Direito. Quem assistiu na sala dos atos grandes à arguição de provas sabe que se davam (dão?) ali violentas bicadas e que a elas deve responder o candidato com engenho e desenvoltura. Lembro-me de uma vez, numas provas de Direito, ter ouvido ao então Reitor Rui de Alarcão que o candidato até tinha investigado muito bem, mas não sabia escrever, que fosse fazer melhor preparação para escrever bem. Assim, com todas as letras. A arguição era vista como uma luta de galos.
Além dos gallos arguentes, cujas bicadas feriam a crista do candidato, havia os gallos a quem competia troçar e louvar o candidato. Findas as longas horas de arguição e as angústias passadas ante o júri, vinha um momento de pausa e descontracção. No mesmo local do ato entravam em acção um ou mais gallos. Nalgumas universidades chegavam a ser quatro. Competia-lhes apresentar o elogio do candidato e o vejamen ou vexame. O vexame era um auto, ou melhor, uma peça escrita em latim macarrónico, que podia misturar italianismos, francesismos e até a imitação do sotaque dos escravos africanos. A peça era pregada como um sermão burlesco, metendo o que hoje designamos por apartes, dichotes, arremedos de vozes e pessoas, insinuações. Também podia ser cantada com solo e coros e acompanhamento de instrumentos, como que a imitar a missa cantada.

Aurora Egido, uma sumidade na matéria, ao estudar os vexames impressos relativos à Universidade de Granada nos séculos XVII e XVIII reconstitui o “bajamén” dado em 1675 no grau de Teologia do Padre Diego de Castelblanco. Após o costumado passeio doutoral com charamelas, iniciou-se o ato no teatro armado para esse fim. O gallo encarregue da paródia começou por imitar a bênção episcopal, aspergindo o claustro docente e os convidados com água. Em latim macarrónico recitou, entre outras coisas, as seguintes frases que transcrevo com liberdade:

“Minhas senhoras, ainda que me tenham debaixo de olho, não pensem que me hão-de por o pé em cima; porque se eu levanto a mão, nos investirei de baixo até cima, ou não vos conheça as mães que vos pariram”.

Outro tipo de gallo era o gallina, o seja, o gallo benéfico que findava a paródia proferindo um rasgado elogio às virtudes do candidato. Este elogio, que atinge o auge na época barroca, ainda hoje se faz na Universidade de Coimbra, sendo obrigatório o uso de vocabulário gongórico e encomiástico.

Os temas: os gallos versavam diretamente sobre os defeitos físicos do candidato, tiques de personalidade, suspeição de homossexualidade, plágio. As damas presentes não eram poupadas às graçolas licenciosas.
Função do ato: os gallos ou vexames tinham como principal função temperar a personalidade do candidato. Fazia-se sofrer o candidato para que este ao longo da vida se lembrasse dos valores da humildade e da moderação, tendo presente que as situações difíceis faziam parte da vida. Numa segunda acepção, os gallos sinalizam a morte simbólica do graduando e a sua integração numa nova condição institucional. Outro significado complementar prende-se com a dimensão do ato académico, simultaneamente séria e fruidora.
Tradição conimbricense: Teófilo Braga na sua “História da Universidade de Coimbra” (I: 1892, p. 302) foi um dos primeiros investigadores a chamar a atenção para o actus gallicus. Os Estatutos de 1431, do Studium Generale, na regulamentação do ato do magistério em Teologia referiam “Si magíster regens vult dicere alliqua jocosa in modum balini dicat”. Se “balini” significa banho ou pregão, então o mestre que presidia ao ato declamava uma espécie de sermão jocoso antes da universidade levar o novo mestre a jantar. Nos Estatutos de D. Manuel I, de ca. 1503, o gallus é referido como momento integrante do acto de doutoramento: “Dobrado e acabado isto, um homem honrado louvará, em latim, letras e costumes do graduando e, em linguajem, por palavras honestas dirá alguns defeitos graciosos para folgar que não sejam muito de sentir (…)”. Quer dizer, gozar sem ofender, arte certamente difícil de delicada. Nos estatutos posteriores, as orações laudatórias continuam a ser consagradas, mas o cariz jocoso não é referenciado.

Sobrevivências: caído em desuso nos actos de colação dos graus académicos, o gallus sobreviveu na Universidade de Coimbra até finais da década de 1960 em duas modalidades:
·         O discurso do novato: ao entrar pela primeira vez na Universidade, os alunos mais velhos colocam o calouro sobre um banco, tradicionalmente com a batina do avesso, e davam-lhe um mote burlesco. Com base no mote, o calouro tinha de improvisar em português e em latim macarrónico um discurso pomposo, de cariz burlesco, onde discorria livremente lançando mão dos mais disparatados e risíveis argumentos. Um discurso bem imaginado e povoado de humor podia valer ao caloiro a carta de alforria.
·         A tourada ao lente: consagrada no Código da Praxe de 1957, esta tradição ainda se praticava esporadicamente na década de 1980. Quando o lente dava a sua primeira aula, independentemente do grau académico, era toureado por uma comissão de estudantes que incluía veteranos, quintanistas fitados e caloiros. Os caloiros entravam no auditório com ramagens e folhas para alimentar “o animal”. A tourada era conduzida por um padrinho, que podia ser um quintanista ou um veterano, competindo-lhe dar ordens ao lente para que vestisse a roupa do avesso, zurrasse, relinchasse, desse pinotes e proferisse um discurso rocambolesco em louvor das ciências. Os discursos constituíam o momento mais esperado, tendo ficado célebres alguns professores com excelente veia improvisadora. No fim, um quintanista fitado colocada a sua pasta aberta sobre a cabeça do lente, declarando o “está protegido”. Se fosse veterano mas estivesse sem pasta, protegia o docente com a aba da capa. Seguiam-se as felicitações e cumprimentos (Costume expressamente regulado no Código da Praxe de 1957, art.º 213.º, bem como no de 1993 revisto em 2001, art.º 224.º).

Tradições populares próximas: na cultura popular europeia foram sinalizadas tradições convergentes com o gallus. Deitar pulhas, leitura de testamentos, falas dos advogados nos julgamentos do Judas, do bacalhau e da velha, sermões pregados pelos irmandades do São Martinho (louvores aos ébrios) e do São Marcos (louvores aos maridos enganados). Vide deitar pulhas, cencerro, cencerrada (Espanha).

Fontes
ANDRADE, Mário Saraiva de; BARROS, Victor Dias – Código da Praxe Académica [aprovado por Decretus de 1.3.1957). Coimbra: Coimbra Editora, s/d [ca. 1985].
BRAGA, Joaquim Teófilo – História da Universidade de Coimbra. Tomo I. Lisboa: Academia Real das Ciências, 1892.
DURÁN, Abraham Madroñal – De grado y gracias. Vejámenes universitários de los siglos de oro. Madrid: Ministerio de Educación y Ciencia/Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2005.
DURÁN, Abraham Madroñal – Sobre el vejamen de grado en el siglo de oro. La Universidad de Toledo, s/d., http://digital.csic.es/bitstream/10261/9336/1/SOBRE%20EL%20VEJAMEN%20DE%20GRADO.pdf.
EGIDO, Aurora – «De ludo vitando. Gallos aulicos en la Universidad de Salamanca». Madrid, El Crotalón I, 1984, pp. 609-648.
EGIDO, AURORA - «Floresta de vejámenes universitários granadinos (siglos XVII-XVIII)». In Bulletin Hispanique, Année 1990, volume 92, n.º 92-1, pp. 309-332. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/hispa_0007-4640_1990_num_92_1_4702.
JESUS, João Luís; FERREIRA, Vítor – Código da Praxe da Universidade de Coimbra [de 1993, revisto em 2001]. Coimbra: MCVAC, 2001.
LE GOFF,Jacques; SCHMITT, Jean-Claude – Le charivari. Actes de la table ronde organizée à Paris (25-27 avril 1977). Paris: Mouton, 1981.
RANZ, Francisco Layna – «Ceremonias burlescas estudantiles (siglos XVI y XVII). 1. Gallos». In Criticón, n.º 52, 1991, pp. 141-162, http://cvc.cervantes.es/literatura/criticon/PDF/052/052_142.pdf.
RODRIGUES, Manuel Augusto (introdução) – Os primeiros estatutos da Universidade de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra, 1991.
SAUS, Antonio Luis Morán (e outros) – Cancionero de estudiantes de la tuna. Salamanca: Ediciones USAL, 2003.
Citar: AMNunes – Cerimónias e costumes académicos. Actus galicus…, 10.3.2012

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