sábado, 10 de março de 2012

O ex-Presidente do Brasil, Lula da Silva e a sua companheira são recebidos no pátio das Escolas da Universidade de Coimbra e caminham sobre as capas lançadas no chão pelos estudantes brasileiros que os aguardavam.
O lançamento de uma peça de indumentária no chão, para que sirva de tapete a quem a pisa é considerado na tradição europeia mediterrânea uma das mais nobres homenagens que se podem fazer a um dignitário. Quem o faz entende que o homenageado é detentor de altas virtudes e deve ser tratado com a mais alta deferência. Na visita de Lula da Silva a Coimbra, onde foi doutorado honoris causa pela Faculdade de Direito (30.3.2011), os seguranças da casa presidencial brasileira, por desconhecimento, tentaram afastar as capas. Este gesto não teve consequências protocolares, mas poderia ter originado um incidente. Pela tradição académica quem pisa as capas é unicamente o homenageado, não lhes podendo tocar pessoas estranhas. À luz dos costumes locais, pisar ou mexer sem autorização na capa configura uma espécie de sacrilégio. Quando os estudantes não aceitam que determinadas pessoas caminhem sobre as capas estendidas, ou levantam rapidamente a capa ou dão-lhe um sacão para que o caminhante se desiquilibre e caia. Corre nos relatos orais que em 17.4.1969 alguém terá feito este acinte ao então presidente Américo Tomás (gostaria de encontrar fonte segura que permitisse confirmar ou infirmar este relato).
Os estudantes da Universidade de Coimbra continuam a manter a antiga tradição do deitar a capa, que no fundo é um gesto de galanteria e de refinada etiqueta. Mas a tradição não é exclusiva de Coimbra, nem do mundo universitário. Os estudantes membros das tunas espanholas lançam com frequência as capas às mulheres que pretendem galantear. Estudantes de outros estabelecimentos de ensino superior portugueses, como os da Universidade do Porto, também praticam este costume, fazendo-o conforme a matriz conimbricense. Há ainda notícias de ter sido praticado pelos estudantes matriculados em seminários da Igreja Católica, caso do Seminário Diocesano de Coimbra.
Não é possível datar com segurança os inícios deste costume. Nos séculos XVII e XVIII era praticado por estudantes, eclesiásticos e fidalgos de capa e espada. A capa era lançada aos pés de imperadores, reis, altos dignitários e grandes divas da ópera. Consta que se praticava ao longo do século XIX durante as temporadas no teatro de S. João, no Porto. Os espectadores lançavam os capotes aos pés das divas nacionais e italianas, e quando não tinham capote tiravam e estendiam-lhes as casacas. Isto escreve Eça de Queirós, e penso que falará de coisas que observou e de outras que lhe possa ter confirmado Ramalho Ortigão.
Pelo que nos é dado saber, os estudantes de Coimbra deitavam capas nas visitas dos reis e às divas que no século XIX atuavam no teatro Académico (tapete de capas). O deitar capas pelo estilo conimbricense implica a formação de duas alas, facilmente se descortinando aqui uma raiz nobiliárquica praticada nas entradas régias por terra e por mar. No protocolo militar equivale à passagem num corredor fechado superiormente com espadas (em cerimónias em que os corpos municipais de bombeiros fazem guarda de honra, corredor com os machados levantados), tradição que também se pratica nas cerimónias académicas e bailes de gala das universidades escandinavas (ex: Finlândia).
Tenho precisamente ao alcance dos olhos o relato da visita do presidente brasileiro João Café Filho a Portugal em abril de 1955. No cortejo de doutoramento honoris causa pela Faculdade de Direito de Coimbra, durante o transito entre a biblioteca Joanina e a sala dos atos grandes (24.4.1955) é visível o tapete de capas. Noutra fotografia, quando Café Filho entra nos paços do concelho do Porto (então no edifício do paço espiscopal), os estudantes universitários também fazem o tapete de capas (25.4.1955).
Duas outras formas de homenagem a vistantes ilustres e dignitários também praticadas pelos estudantes de Coimbra eram o colocar a capa nos ombros (assim se fez ao Papa João Paulo II em maio de 1982) e proteger o homenageado deitando-lhe uma aba da capa sobre a cabeça.
Como devem os cerimonialistas lidar com estas tradições académicas ibéricas? O melhor é o anfitrião ter o cuidado de informar o visitante e a sua equipa de segurança da existência destas tradições e da forte possibilidade de elas serem praticadas. Na ótica dos estudantes, estamos em presença de tradições académicas, no caso de Coimbra genericamente conhecidas por "praxe" (normas que regulam a exercitação dos "trotes"). Para o cerimonialista ou profissional de protocolo, estas tradições também são costumes dotados de dimensão  protocolar. Quero dizer, se não fossem consideradas tradições académicas (frise-se que existem e são praticadas mas não foram consagradas nos articulados dos vários códigos de praxe/trotes), facilmente poderiam figurar num manual de civilidade. Com isto volto a uma ideia em que tenho pensado e repensado: não podem os códigos de praxe ser pensados como manuais de civilidade e protocolo, mesmo que considerados na fronteira oposta às representações mais convencionais do que sejam o protocolo e a etiqueta?

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