terça-feira, 1 de maio de 2012

Folia da Ilha Graciosa/Açores (2010)

Performance da Folia da Ilha Graciosa, Açores, nas festas do Divino Espírito Santo promovidas pela Casa dos Açores no Algarve, Faro, junho de 2010

I) Arruada com a folia (tambor, pandeiro, alferes da bandeira) e irmãos/vereadores com varas; II) Canto cerimonial durante o serviço de mesa (bodo)

Em conversa recente com o Diogo Gouveia falámos com alguma demora do notório e ostensivo emprego do cerimonial monárquico português/ibérico e imperial europeu nestes festejos de raiz medieval.
Os foliões do Espírito Santo tiveram expressiva existência cerimonial, visual e sonora até ao século XIX. No tocante às vestes, predominaram as opas com e sem mangas, e a título de cobertura de cabeça as mitras e os lenços garridos atados em modo de turbante. Nos instrumentos, os tambores, pandeiros de soalhas, pratos islâmicos (Ilha de Santa Maria) e gaitas de foles. Em Castelo Branco e na Ilha de São Miguel, as folias integravam as respetivas violas de arame. Na Estremadura, ostensiva presença de alferes da bandeira, tamborileiro e gaiteiro.
Cabia às folias abrir os cortejos e procissões, atuando nas festividades municipais, procissões do Corpo de Deus, festas do Espírito Santo, casamentos e momentos celebrativos do calendário. Os primeiros a esgrimir contra as folias foram os bispos diocesanos, animados dos princípios do Concílio de Trento, que foram proibindo as folias de entrar nas igrejas. E bem sabemos que, cortejo chegado ao adro com foguetório e repiques festivos de sinos, o padre recebia a folia à porta principal do templo com uma sonora vocalização da peça Magnificat, entrando logo os foliões a tocar, a cantar e a dançar nave central fora até ao altar-mor. Outro amigo pouco saudável para a sobreviência das folias foi a proliferação de bandas (filarmónicas) na segunda metade do século XIX, que começaram a entrar nas procissões dos imperadores, mas nunca na vanguarda dos cortejos.
Proibir a entrada dos foliões nas igrejas em dia de coroação de imperador era um ultraje e um contrasenso no entendimento das folias. A folia era o equivalente das charamelas reais e competia-lhe ocupar o lugar de maior honra nos atos, tocando obrigatoriamente no rito da coroação. Ora, a interdição de entrar no templo implicava que a coroação ocorresse sem  folia. Para tentar preencher este vazio muitos párocos tentaram implementar missa solene cantada com coro e órgão.
Em que momentos atuava a folia?

1-toques de alvorada e arruada nos dias destinados à função;
2-mudança da coroa da capela imperial (ou da casa do imperador velho) para a casa do novo imperador (nalgumas terras chamado mordomo e rei);
3-condução do gado dos pastos/curros para o local do abate ("açougue"), indo os bovinos engalanados com fitas e flores (na Ilha Terceira, uma folia com sopros, a cantar o conhecido Pezinho dos Bezerros);
4-entrada do imperador no pátio da casa e meio da casa (sala principal onde estava armado o trono do ES) no 1.º dia da novena (terço cantado);
5 - peditórios de víveres e dinheiros para a irmandade com carros de bois e carroças engalanadas;
6 - transportes da lenha para a copeira (carnes, vinhos, temperos, pães de trigo, pães doces, banha, malagueta, sal, hortelã, louro, frutos em carros de bois);
7-procissão da coroação (ida do novo imperador à igreja);
8-chegada à igreja (porta principal);
9-cortejo solene de entrada do imperador e da sua casa civil e militar na igreja;
10-rito da coroação;
11-cortejo de saída da igreja e regresso ao império (ramada, teatro, cadafalso, capela, conforme as localidades);
12-transporte das sopas, carnes, pães doces e vinhos da copeira para o local do bodo [esta é uma imagem que retenho, a folia a tocar e a dançar na frente dos moços da copeira que traziam os alguidares das sopas e os jarros dos vinhos, distando a copeira uns bons 50 a 60 metros do local do bodo que corria dentro da própria capela em duas mesas corridas];
13 - serviço de mesa durante o bodo (havendo loas próprias para os diversos momentos de serviço de mesa conduzido pelo mestre-sala, pelo trinchante  e pelo escanção);
14 - procissão da recolha dos cestos/açafates dos pães ofertados pelos irmãos;
15-distribuição dos pães e das pensões (oferendas) a todos os presentes e passantes;
16-na visita do novo imperador às casas dos habitantes da localidade para elaborar a lista dos irmãos que se propunham cozinhar e ofertar pães para o ano seguinte.

Leite de Vasconcelos informa que nalgumas terras (Penacova? Beira Baixa?) a folia era composta por seis elementos, sendo três "duques" e os restantes três "marqueses". A casa civil e militar do imperador ou rei era constituida por uma "companhia" de sete oficiais maiores anualmente eleitos: rei, alferes da bandeira, pajem da coroa, juiz da irmandade, tesoureiro e dois mordomos. Curiosamente não refere as figuras dos vereadores ("briadores") das varas, tradição com forte radicação nos Açores, Brasil e comunidades emigrantes nos EUA e Canadá. Para Lisboa e Alenquer fala no pajem do estoque ou condestável do estoque imperial.

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