quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Em cima: o Dr. António Forjaz presta provas para professor de Química no anfiteatro da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (edifício da antiga Escola Politécnica). Juri e candidatos à civil, tradição oriunda das escolas politécnicas oitocentistas que passou para as universidades de Lisboa, do Porto e Universidade Técnica de Lisboa e se manteve até 1974. Em Coimbra, o antigo costume estatutário de arguir provas académicas com hábito talar foi abolido em 1910, apenas tendo sido retomado nos alvores da década de 1920 (ca. 1921). Entre 1911-1920, a generalidade dos candidatos a lentes da Universidade de Coimbra apresentava-se ante os juris de casaca e cartola, sendo estes conhecidos na gíria por "noivos de Minerva", pois vestiam-se como os noivos burgueses que iam a casar. Excetuam-se deste figurino os lentes da Faculdade de Letras que a partir de 1916 começaram a usar o hábito talar reformado, indo com ele às provas, caso do futuro Cardeal Cerejeira. Este mesmo hábito também se generalizaria na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa como atesta uma fotografia do jovem Marcello Caetano na arguição de provas doutorais.
Seja como for, e para efeitos de história do cerimonial universitário, só após a Revolução de 1974 é que se generalizou em quase todas as universidades portuguesas a arguição de provas doutorais e pós-doutorais com hábito talar estatutariamente aprovado. O mesmo já não aconteceu quanto à arguição de provas académicas para obtenção dos graus de licenciado e de mestre, a eles se indo com vestes simples e frequentemente muito informais/casual.
Fonte: Ilustração Portuguesa n.º 842, de 15.4.1922

14 Comentários:

Blogger JVC disse...

Meu caro, não é bem assim. Falo pela experiência de muitos doutoramentos a que assisti ou em que participei.

Em Coimbra, até ao 25A, júri e candidato usavam hábito talar simples, o júri sem insígnias. Em Lisboa, variava conforme as faculdades mas, em regra, o candidato usava casaca e o júri hábito talar ou a beca de estilo judicial introduzida por Marcelo Caetano.

Depois do 25A (doutorei-me assim, em 1976) candidato e júri trajavam à civil, formal (fato e gravata). Depois, nos anos 80, o júri voltou a usar hábito talar, mas o candidato sempre fato normal, tanto em Lisboa como no Porto.

O meu último doutoramento, há poucos meses, foi de tanto júri como candidato em traje corrernte. Com a vulgarização, felizmente, dos doutoramentos, acho que é o aconselhável.

Diferente pode ser o caso da agregação, menos frequente e já numa fase mais avançada da carreira. Quando a fiz, em 1983, o uso em Coimbra, para o candidato, era o hábito talar e em Lisboa a casaca. O que vejo hoje, porque em geral os candidatos são professores, é usarem o traje académico das suas universidades, com a confusão que têm, nunca sei se simples se solenes. Assim foi há anos, por exemplo, a minha mulher, com o traje da UNL mas sem a insígnia, que seria despropositada numa cerimónia não solene.

27 de setembro de 2012 às 11:53  
Blogger Virtual Memories disse...

Só hoje pude ler o seu comment. Agradeço o interesse e o contributo para a discussão, este enriquecido pela prática e pela observação empírica.
A tendência portuguesa atual parece ser: a)jurados em traje profissional, examinados à civil, sobretudo quando os examinados não são membros dos corpos docentes da instituição; b) nos atos administrativos de licenciatura e mestrado, examinadores e examinados à civil e com indumentária informal.
Confirma?
AMNunes

29 de setembro de 2012 às 09:56  
Blogger Pulo Ds disse...

Gostaria muito de ver a fotografia das provas de Marcello Caetano de que fala.

25 de outubro de 2012 às 11:29  
Blogger Pulo Ds disse...

Não querendo entrar em qualquer polémica, da minha experiencia universitária em Lisboa e porque gosto deste tipo de assuntos, diria apenas que: a) coincidindo com o exercicio de funçoes de Reitor da Universidade de Lisboa por parte de Marcello Caetano foram definitivamente aprovados os trajes talares a usar pelos membros dos juris de provas de doutoramento e agregação em Lisboa, correspondendo esses trajes à beca com mangas largas e alamares usada pelos lentes da Escola Médico-Cirurgica de Lisboa; b) os doutorandos da Universidade de Lisboa, quer antes quer depois de passado o periodo revolucionário, em especial os da Faculdade de Direito, apresentavam-se de casaca (à maneira dos noivos de Minerva, como refere)v.g. foi o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, Fausto de Quadros, Servulo Correia, quando da realização das suas provas a que assisti; c) nas provas de agregação e em algumas provas de doutoramento passou tambem a ser comum o uso de capa e batina sem borla, naturalmente;d) já assisti a provas de outras faculdades em que o candidato se apresentou (quanto a mim erradamente!) de fato completo simples; d) os membros do juri de doutoramentos e de agregação apresentam-se em Lisboa invariavelmente ou com o dito traje docente (beca referida) ou com capa e batina. O funcionário administrativo presente nas provas usava capa de escrivão à semelhança dos judiciais. Uma nota:o tempo de arguição e resposta continuava até há bem pouco tempo marcado com ampulheta de 30 minutos.

25 de outubro de 2012 às 11:41  
Blogger Pulo Ds disse...

Data de 27 de Maio de 1960 a Circular do então Reitor Marcello Caetano em que se distingue as insignias doutorais e o traje professoral, adoptando-se a beca segundo modelo em uso na Faculdade de Medicina de Lisboa, a que se reportava, no seio da Universidade, a deliberação de 15 de Abril de 1915, do Senado. O objectivo principal da substituiçao do uso das insignias doutorais incluindo a capa e batina era justamente o de simplificar o uso do traje profissional sem necessidade de mudança de vestuário, uma vez que a capa e batina a isso obrigaria «e até de adpção comoda pelas Senhoras que, em numero crescente, vão ingressando no corpo docente», conclui a Circular de 1960.

25 de outubro de 2012 às 11:53  
Blogger Pulo Ds disse...

Os trajes professorais constantes da circular incluem apenas a diferença de uso com ou sem alamares, concretizando a diferença correspondente às categorias de professor catedrático e professor extraordinário então legalmente previstas. (Fonte: Boletim Trimestral da Universidade de Lisboa, 3º e 4º trimestres de 1960, Lisboa, 1960)

25 de outubro de 2012 às 11:56  
Blogger Virtual Memories disse...

Boa noite
Afazeres profissionais e familiares contribuem para que o blgue esteja um pouco parado pela minha parte. O blogue ganhou uma dimensão em Portugal/Brasil/Espanha a que tenho dificuldade em responder por manifesta falta de tempo.
Agradeço os valiosos contributos recebidos. Vou digitalizar e editar a foto de Marcello Caetano a fazer a arguição das provas doutorais da FD/UL no então edifício do Campo de Santana.
Seria possível digitalizar e enviar-me as páginas do boletim onde vem a circular do Reitor Marcello Caetano para edição?
AMNunes

25 de outubro de 2012 às 12:53  
Blogger Pulo Ds disse...

com todo o gosto! diga-me como é que posso enviar o anexo?

25 de outubro de 2012 às 13:57  
Blogger Virtual Memories disse...

agradeço imagens JPEG
antonio.m.nunes@netcabo.pt

Nota: está complicado digitalizara a foto do MCaetano pois está a meio da lombada de um livro...

25 de outubro de 2012 às 14:03  
Blogger Virtual Memories disse...

Isso da ampulheta e da capa tipo ofical de justiça parece ser costume levado de Coimbra para a FD/UL criada em 1913. Como se sabe as primeiras fornadas de lentes eram integralmente constituídas por antigos bachareis e doutores formados em Coimbra, ou então por alunos que tinham começado a estudar em Coimbra e depois foram concluir o curso a Lisboa.
O que é interessante salientar nesta conversa é que a FD/UL surgiu como reação ao que era e ao que representava a escola de Direito de Coimbra. Como a nova FD/UL absorveu diversos lentes conservadores oriundos de Coimbra, estes acabaram por ganhar peso. Repare-se que no processo de planificação da nova cidade universitária Direito e Letras ladeiam a reitoria (cabeça simbólica), com prejuizo protocolar das escolas que foram primeiramente convertidas em faculdades como Medicina e Ciências. Lembro, a 1.ª faculdade criada e integrada na UL foi Medicina e não Direito. Fico com a sensação que a FD/UL cultivou um discurso algo ambivalente: não queria confundir-se com o ethos da FD/UCoimbra, criticava as tradições de Coimbra (releim-se as memórias de Marcello Caetano a chamar desdenhosamente provincianos aos lentes de Coimbra) mas na afirmação da sua identidade imitava as tradições de Coimbra.
Na década de 1980 assisti a muitos doutoramentos na UC e lembro-me que na sala dos capelos o bedel estava com capa, vigiava e virava a ampulheta que estava sobre uma mesa (noutro tempo rematava dizendo "hora est"). Segundo me informou o mestre de cerimónias (dados de 2007) a ampulheta já se não usa na UC.
AMNunes

26 de outubro de 2012 às 12:09  
Blogger Pulo Ds disse...

Sem dúvida. A propósito era para lhe falar justamente de uma colectanea de discursos e documentos respeitantes ao periodo do reitorado de Marcello Caetano que se chama «Pela Universidade de Lisboa!» e que começa justamente com uma frase de André de Resende relativa ao orgulho da Universidade que deverá ser pelo menos tão boa como a sua própria cidade o é em relação ao mundo... Em 1537, a UL «mudou-se» definitivamente para Coimbra e só aqui «regressou» na refundaçao de 1911 (se não considerarmos o Curso Superior de Letras e a Escola Medico Cirurgica). Se achar que se enquadra neste lugar, e tiver algum interesse nisso, posso aqui relatar sumariamente a polemica entre Lisboa e Coimbra a proposito das comemoraçoes henriquinas, em 1960, em que Marcello Caetano se levantou em defesa da legitimidade da sua Universidade para assumir e relembrar o Infante como Protector do Estudo Geral de Lisboa!

26 de outubro de 2012 às 12:22  
Blogger Virtual Memories disse...

Conheço alguns contornos da polémica. Soube por um dos secretários de estado da Educação do Manuel Lopes de Almeida que o Caetano se demitiu encolerizado com o ministro Lopes de Almeida porque este era seu "adversário" na pugna pelas celebrações do infante D. Henrique. Penso que pode relatar sumariamente o que foi essa polémica. Não acha que o principal legado dela trouxe como grande benefício à UL um reforço da sua identidade corporativa. Antes de 1960 cada faculdade vivia muito fechada sobre si própria. Acho que a UL deve bastante ao MCaetano nesta matéria.
AMNunes

26 de outubro de 2012 às 12:51  
Blogger Pulo Ds disse...

Sem duvida. Pensar nesses factos e pensar no que foram as comemorações do chamado centenário da Universidade de Lisboa - e no pendor vincadamente ideológico delas, aliás ele próprio em total anacronismo (veja-se como começa o site do patrimonio da UL com a lista de professores afastados durante o Estado Novo e o enfoque dado ao Dia do Estudante de 1962, como se essas fossem as datas ou os factos mais significativos ou prioritários na historia do século da «refundação» de Lisboa), fará dar muitas voltas no tumulo aos que como Marcello se bateram pela verdadeira autonomia universitária.

26 de outubro de 2012 às 18:33  
Blogger Virtual Memories disse...

Desconheço as linhas de força que nortearam a ação e o programa gizado pela comissão do 1.º centenário da UL. Quero acreditar que a comissão foi enformada por académicos de todas as faculdades, de reconhecido mérito e competência. Penso que a UL fez aquilo que é comum fazer-se na maior parte das celebrações universitárias: exposições, congressos, palestras, cortejos, banquetes, reflexão crítica. A mim, o que me preocupa mais é saber se a comunidade se deu conta do programa cultural e da sua importância. Digo isto porque nem sempre os cidadãos e os utilizadores (estudantes, investigadores) se apercebem do valor da instituição.
AMN

27 de outubro de 2012 às 06:43  

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