domingo, 28 de setembro de 2014

Um projeto de traje para os estudantes de Lisboa e do Porto (1895)

Os sucessivos governos da monarquia constitucional procederam à criação de escolas públicas laicas para a formação de estudantes do ensino primário, médio e superior, de que foram exemplo as escolas normais, os liceus, os institutos de comércio, indústria, agronomia e veterinária, as escolas politécnicas (matemática, engenharia, química), as escolas de medicina e ainda o curso superior de letras.
No início, e durante décadas, estas escolas foram exclusivamente masculinas em matéria de alunos matriculados e de membros do corpo docente. Todas elas emitiam diplomas e certificados, mas não conferiam graus académicos. Excluindo as escolas politécnicas, onde os alunos militares usavam os uniformes da sua classe, sendo para todos os efeitos equiparados à categoria de traje académico, em todas as demais situações conhecidas os alunos e os docentes não usavam qualquer uniforme oficialmente aprovado pelo governo ou pelos órgãos de administração escolar. Era excepção à regra o estatuto conferido às escolas portuguesas de agricultura, estabelecimentos de ensino médio, dotados de internato, cujos alunos eram obrigados a ter enxoval constituído pelo menos por duas fardas, a farda n.º 1 e a farda n.º 2, sendo a primeira de gala e a segunda de trabalho nos campos agrícolas, estábulos, oficinas e máquinas.
As escolas públicas portuguesas de ensino primário, médio e superior distinguiam-se assim de estabelecimentos de ensino de natureza e missão semelhante em funcionamento no Brasil, Argentina, USA, Grã-Bretanha e França, onde existiam uniformes escolares aprovados. Estes uniformes traduziam com frequência influências da uniformologia militar masculina, com figurinos à marujo e à cadete, que também eram replicados nas casas de correção e detenção, nas librés dos funcionários dos hotéis, comboios e transatlânticos de luxo.
Na segunda metade do século XIX assiste-se em Portugal a um movimento apostado na procura de uniformes académicos destinados a suportar processos de construção de identidade e a reforçar uma imagem pública de credibilidade. Diretores de escolas, reitores de liceus, grupos de estudantes, representantes dos pais, namoram a indumentária dos estudantes da Universidade de Coimbra, conhecida por capa e batina. Um processo de procura no mínimo curioso, se atendermos a que no mesmo ciclo político os estudantes da Universidade de Coimbra não estimavam o seu traje de porte obrigatório e travavam ferozes campanhas em prol da sua abolição.
O governo central, por intermédio do Ministério do Reino, que então tutelava a pasta do ensino público, foi respondendo caso a caso aos pedidos escritos assinados por comissões de alunos dos liceus metropolitanos e insulares. Na maioria das situações conhecidas, o titular da pasta despachou favoravelmente os pedidos de autorização da capa e batina de modelo conimbricense, atitude que confirma que o governo central não tinha a menor intenção de abolir o porte obrigatório da capa e batina na Universidade de Coimbra. 
Mas quando chegou a vez de analisar e despachar os pedidos das escolas médias e superiores de Lisboa e do Porto, o Ministério do Reino parece ter hesitado. É pelo menos o que se infere da leitura de uma curta notícia publicada em tom sarcástico pelo jornal republicano O Defensor do Povo n.º 3, de 9 de maio de 1895. Nesse ano, ou talvez ainda em 1894, alunos dos liceus e das politécnicas de Lisboa e do Porto enviaram requerimentos ao ministro a solicitar autorização para o uso da capa e batina, numa altura em que se assistia um pouco por todas as capitais de distrito à febre de constituição de tunas estudantis.
O ministro encarregou Luciano Cordeiro de estudar a questão. A resposta de Luciano Cordeiro foi no sentido da criação de uma farda escolar conforme com os regulamentos dos colégios e escolas de ensino médio dos países ocidentais:

-calças compridas azuis (não se indica o tecido, possivelmente lã);
-"blusa" masculina azul, não se precisando se seria a camisa de ganga já em uso nas escolas de agricultura, se a blusa de marujo com cabeção e lenço ao pescoço (se atendermos à enunciação das restantes peças, verificarmos que se tratava de um traje à marujinho/costume marin, pelo que a "blusa" seria uma replicação das blusas dos fusileiros);
-capote azul, cortado um pouco abaixo da cintura;
-boina azul com borla (tipo pompom) na cor a aprovar para cada escola ou curso;
-cinto de couro com as armas nacionais gravadas na fivela.
Não consta que esta farda tenha chegado a ser aprovada oficialmente e não era este seguramente o traje que os estudantes de Lisboa e do Porto pediam ao ministro.

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