terça-feira, 25 de agosto de 2015

Insígnias que foram: um pouco de Santo Ivo para assinalar um fim que se adivinhava

Santo Ivo, Doutor em Direito canónico, com hábito talar de loba e mantéu e correspondentes insígnias doutorais: capelo verde, com alamares e capuz; livro e barrete preto quadrado com borla curta e franjas laureadas em seda verde. Escultura sacra em barro, policromada, proveniente de oficina portuense do século XVIII. Acervo do Museu de Aveiro/Portugal.
Fotografia de J. Baeta

Divulgamos esta imagem no ciclo de fim de tempo das insígnias doutorais da Univ. de Coimbra cujo modelo barroco deixou de ser confeccionado desde pelo menos 2012 devido ao preço incomportável do conjunto e ao desaparecimento de artesãs interessadas em aprender a arte de passamanaria e sirgaria em fio de seda.
Este desfecho já era previsível há vinte e cinco anos, quando um grupo de cidadãos interessados refletiu sobre o problema e procurou encontrar soluções sustentáveis para um fim que já se adivinhava irreversível caso não fosse definida no curto prazo uma política institucional-patrimonial proativa .
Alguns desses moicanos não pertencem já ao mundo dos vivos e outros desligaram-se completamente da questão para não serem tomados por loucos. E haveria outro caminho possível perante tanta inércia e ingratidão?
Façamos uma breve retrospectiva.
No seguimento das grandes revoluções liberais, as universidades europeias e as que tinham sido fundadas por antigas potências coloniais procederam à laicização e simplificação estética dos trajes corporativos e insígnias. Em Espanha, a reforma aconteceu em 1850, e passou pela abolição do uso das antigas insígnias barrocas e do traje de figurino eclesiástico. No final, o conjunto generalizado em todas as universidades públicas ganhou aspeto judiciário. O mesmo aconteceu com as universidades italianas e francesas. Nas universidades anglo-saxónicas não se procedeu a qualquer reforma conhecida. Estes países não sofreram processos fracturantes de laicização e separação entre o estado e as igrejas entre os séculos XVIII a XX. Os trajes e as insígnias já tinham sido simplificados anteriormente, tal como nas universidades escandinavas. Já na Polónia, na Hungria e na República Checa, os trajes e insígnias mantiveram sobrevivências do legado religioso e monárquico.
O Brasil dividiu-se entre o paradigma judiciário (trajes corporativos) e a herança conimbricense da borla e capelo. Contudo, naquele país, assinala-se desde a década de 1950 uma crescente dificuldade em confeccionar as insígnias segundo a arte, proliferando na atualidade modelos mais um menos livres nos diferentes estabelecimentos de ensino superior. De todos os casos conhecidos, a Universidade de São Paulo será a instituição que procura manter proximidade com a Alma Mater Conimbrigensis.
Em Portugal, nem o governo da 1.ª República determinou a reforma dos trajes e insígnias conimbricenses, embora não se identificasse com eles por suspeitar da sua proximidade com a herança católica e barroca, nem a universidade tomou a iniciativa de fazer a reforma. O que a UC fez em 1915-1916 foi uma reforma que não é reforma: nada decidiu para os estudantes em matéria de vestes, insígnias e cerimónias de graduação; quanto ao corpo docente, optou por  simplificar o traje masculino anterior, sem aprovar matéria relativa ao traje feminino, e manteve as antigas insígnias barrocas setecentistas. Dois anos volvidos, em 1918, o titular da pasta da educação aprovou um estatuto universitário que procedia à consagração desse modelo de insígnias doutorais nas três universidades então existentes em Portugal. Quanto a insígnias para bacharéis e licenciados, nem uma palavra. Não se percebe porque é que o governo republicano ficava tão incomodado com o cerimonial universitário, quando na mesma conjuntura se entendia muito bem com o protocolo militar e assistia sem complexos às cerimónias da Academia Militar e da Academia das Ciências.
Com os movimentos estudantis dos anos sessenta, o sistema simbólico académico tradicional sofreu um grande abalo principalmente nos países influenciados pela URSS e pela herança da Revolução Francesa.
Depois dos anos setenta verificam-se as mais insólitas experiências: mundialização do modelo norteamericano; invenção de trajes e insígnias sobretudo nos antigos países de leste; realização de eventos académicos sem quaisquer símbolos exteriores; progressivo abandono da influência conimbricense.

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