sábado, 4 de fevereiro de 2012

Recordação de Coimbra (1)
Figurinha de vulto, em barro moldado manualmente e pintado a pincel, oriunda de oficina de olaria conimbricense. Integra o acervo do Museu de Arte Popular, n.º de Inv. CER 162/83. Disponível em http://www.matriznet.ipmuseus.pt/. Ficha muito incompleta e com erros.
Quanto à "Supercategoria", em vez de "etnologia" é mais correto registar artesanato. Quanto à "Categoria", fica mais escorreito "escultura cerâmica vernácula". Relativamente à data, confirma-se o século XX, e mais especificamente o modus faciendi das décadas de 1930-1940, dado que nas décadas de 1950-1980 a produção destas figurinhas entra em rarefacção e as que subsistem para a tipologia "estudante de Coimbra" vegetam numa exercitação kitsch de gosto duvidoso. A própria pigmentação, grossa e baça aponta para um tempo anterior à década de 1950, a última crescentemente marcada por pigmentos industriais, brilhantes e de textura fina.
No campo "Dimensões", haverá que precisar melhor os dados. 16,5cm de altura inclui a peanha? 5,5com é tirado junto da peanha, da bainha da capa, dos cotovelos, dos ombros ou da cabeça?
O campo descrição é o menos conseguido e contém erros resultantes de desconhecimento do conjunto indumentário, do conjunto insigniário e do património simbólico da Universidade de Coimbra. O texto existente é o seguinte: «Figura masculina, sobre peanha baixa de fundo esverdeado, com os lados pintados de preto. Num dos lados da peanha (frente da figura) está pintado a branco: "RECORDAÇÃO DE COIMBRA". A figura tem sapatos pretos. Capa e batina também preta. Estola azul. Capelo com borla também em azul. As mãos seguram na barriga parte da capa enrolada».
Vejamos:
1-A figura masculina é um Doutor em Ciências pela Universidade de Coimbra;
2-Enverga hábito talar masculino, conforme ao modelo adotado pela Universidade de Coimbra em 1915, que resultou da reforma republicana de outro mais complexo usado durante o período da Monarquia Constitucional;
3-O hábito talar está corretamente figurado, apresentando as duas peças principais (capa talar+abatina ou batina de lente), e as peças secundárias que são obrigatoriamente harmonizadas com as principais (sapatos pretos de pele, meias pretas, camisa branca sem gravata alguma, e luvas, sendo as últimas de porte facultativo);
4-O hábito talar referenciado é de porte comum a todas as categorias de docentes da Universidade de Coimbra, do monitor ao assistente e ao catedrático, apenas divergindo numa das peças secundárias do conjunto (saia para professoras, calças compridas para professores, podendo os professores de dignidade eclesiástica usar calções com batina romana se assim quiserem);
5-Estando o hábito talar corrente figurado conjuntamente com as insígnias doutorais, conclui-se que nessa peculiar circunstância tem equivalência a traje profissional de gala, pese embora o fato de ser confeccionado em lã e botões de massa, traduzindo assim a flexibilização da etiqueta clássica que exigia confeção em pano de boa seda e botões forrados;
6-Não há estola nenhuma nesta escultura, nem das insígnias dos graus académicos da Universidade de Coimbra constam estolas. Até 1834 existiram becas em alguns colégios, semelhantes às dos colégios universitários e seminários católicos de Espanha, mas a diferença técnica entre beca e estola está de tal modo clarificada que não merece delonga;
7-Não existe estola mas existe capelo doutoral na cor institucional da Faculdade de Ciências (excluídas as áreas afetas a Matemática), insígnia multissecular própria dos que colam o grau de doutor, de confecção artesanal em seda, cetim e passamanaria armada na frente da murça e da sobremurça. Por conseguinte, a insígnia que adorna os ombros da escultura é o capelo de dupla murça e capuz dorsal e não uma "estola". A cor científica é o azul claro, pois que o azul escuro está reservado institucionalmente às Artes Liberais (humanidades);
8-"Capelo com borla também em azul" não existe. O que existe é o barrete doutoral cilindriforme, adornado de passamanaria e laurea de borlas, rematado com pega superior, também em azul claro;
9-Capa repuxada na dianteira e presa sobre o ventre, modo caraterístico de segurar e de desfilar em cortejo dos clérigos e académicos ibéricos.
Campos relacionados: no acervo do Museu de Arte Popular existe ainda um doutor de Medicina, proveniente da mesma oficina de olaria conimbricense, cuja ficha de inventário contém erros. Coleção mais completa e de marcada originalidade pode ser visitada no Museu Académico de Coimbra, onde não falta a assinatura de António Augusto Gonçalves, com possibilidade de rastrear os primórdios oitocentistas deste tipo de bonecos posicionados algures entre a verve de Bordalo Pinheiro e a veia criativa de Honoré Daumier. Figurinha graciosa, bem proporcionada, de traço naturalista (tirado por obervação visual e por fotografia ou postal ilustrado), traduzindo o artesão correto conhecimento da cultura académica local.

2 Comentários:

Blogger JVC disse...

Parece-me que discorda do uso do termo borla para o barrete doutoral coimbrão. Teoricamente, tem razão, mas acho que a tradição já impôs o uso do termo, mesmo que as borlas sejam só um elemento decorativo do barrete.

4 de fevereiro de 2012 às 10:15  
Blogger Virtual Memories disse...

Não é propriamente discordância. Tem que ver com alguma falta de rigor subjacente. Repare que a borla é um dos 3 elementos constitutivos do conjunto: 1) barrete cilindriforme; 2) jogo amovível de franjas e borlas pendentes (impressionante a semelhança com a ornamentação dos chapéus de aparato dos imperadores chineses e altos dignitários tibetanos); 3) pega superior ou florão (faz lembrar uma maçaneta ou pega de borla de reposteiro). Embora se diga "borla" no singular, o certo é que o jogo de passamanaria contém quase uma vintena de borlas aplicadas a toda a volta da ilharga do barrete. É certo que a cultura portuguesa está repleta deste tipo de esquemas verbais-mentais, como as "tripas" que afinal são dobrada. O que é importante é que as palavras usadas não alimentem acriticamente equívocos.
Abraço, AMNunes

4 de fevereiro de 2012 às 13:35  

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