Segunda-feira, 13 de Julho de 2009


Jurisconsultos

Jurisconsultos

Lentes jurisconsultos
Figuração de quatro lentes da UC, criação de Almada Negreiros no pórtico do edifício da Faculdade de Direito da UL, 1958:
-Francisco Suarez
-Pascoal de Melo e Freire
-António Ribeiro dos Santos
-Coelho da Rocha

Domingo, 5 de Julho de 2009

Caricaturas de estudantes russos


Estudantes Judeus

Estudante da Arménia
Estudante da Polónia
Estudante da Ucrania

Estudante de Direito/futuro jurisconsulto

Estudante da Academia

Aluno de Medicina

Estudante de Medicina
Conjunto de caricaturas alusivas a estudantes publicadas por volta de 1900 numa obra impressa em língua russa. Nas situações assinaladas destaca-se a indumentária militar à base de bonés/gorros regionais e casacões de botões metálicos.

Sábado, 20 de Junho de 2009


Estátua de Bissaya
Estátua de vulto de Fernando Bissaya Barreto (1886-1976). Trabalho da autoria do artista Vasco Berardo, foi implantado na rotunda fronteira ao Portugal dos Pequenitos em 2000.

Estátua de Jordão
Estátua de vulto em bronze do Doutor Levy Maria Jordão (1831-1875), da autoria do escultor António Duarte, existente no tribunal de Chaves.
Notável penalista e um dos pioneiros do sistema penitenciário, Levy diplomou-se na Faculdade de Direito da UC, instituição onde obteve a laurea doutoral em 19 de Junho de 1853. À semelhança de todos os doutorandos da época, possuía hábito talar e insígnias, fez a sua imposição de insígnias pouco depois do doutoramento administrativo, mas não chegou a integrar o corpo docente da UC.
Dito isto, a opção de António Duarte pelo hábito talar e capelo da Faculdade de Direito parece-nos francamente discutível. A falta de iconografia de apoio levou o escultor a figurar Levy com calça comprida e casaca, anacronismo inaceitável em 1853. Como se isto não bastasse, o trabalho figurativo sai deveras comprometido nos pormenores errados da carcela e das mangas.

O Brotero de Soares dos Reis
O Brotero de António Soares dos Reis, em mármore, moldado em 1883, e finalmente assente no Jardim Botânico da UC em 4.04.1887. Soares dos Reis utilizou no modelo em estúdio as vestes talares e as insígnias que lhe foram temporariamente emprestadas por Júlio Henriques. A figuração obedece às representações pictóricas multisseculares, com o retratado sentado e o barrete doutoral pousado em credência próxima ou no regaço.

Salazar togado
Fotografia da estátua de vulto de Oliveira Salazar que entre 1958-1974 esteve implantada no pátio interior do Palácio Foz, Lisboa. Trata-se de uma réplica do original feito por Francisco Franco para a exposição de Paris em 1937, com presença num dos pavilhões da Expo 1940.
Após o Brotero de Soares dos Reis, este Salazar é a segunda escultura de corpo inteiro que se conhece de um lente da UC em hábito talar e insígnias doutorais. Ao longo da sua carreira política, Oliveira Salazar deu a entender aos seus próximos e admiradores que nunca teria usado borla e capelo, pelo que as estátuas e retratos produzidos seriam apenas representações virtuais.
Trata-se de um embuste propagandístico baseado numa confusão surgida em 1951 quando se realizou em Coimbra um congresso da União Nacional. Com efeito, na data referida, a comissão organizadora pretendeu exibir um retrato de Salazar, trabalho que resultou de uma fotomontagem entre a cara de Salazar e os ombros de Marcello Caetano que se encontravam cobertos por capelo doutoral.
Nunca se explorou satisfatoriamente o motivo ou motivos que terão levado Oliveira Salazar a fingir que nunca teria usado ou possuído insígnias doutorais. A chave para a descodificação desta atitude pode radicar na seguinte explicação:
-o peso da tradição praxística conimbricense. Salazar não prestou provas doutorais escritas perante júri administrativo, mas sim concurso público para assistente em 1917, tendo sido proclamado em 1918 doutor pelos seus colegas de Faculdade, ao abrigo da legislação republicana da altura que possibilitava proclamar doutores. Por desrespeitar os direitos praxísticos exclusivos do reitor, esta situação era mal aceite na UC e entre os estudantes, correndo piadas sobre os "doutores ipso facto" ou "doutores de aviário". Salazar não fez imposção de insígnias, mas teve borla e capelo, aparecendo numa fotografia da primeira metade da década de 1920 com o capelo pelos ombros. Posteriormente, em 1925, Salazar comprou insígnias doutorais novas, informação que Franco Nogueira não se dá ao trabalho de ocultar.
Outro dado curioso sobre a relação de Oliveira Salazar com a UC e as suas tradições prende-se com o doutoramento honoris causa que lhe foi concedido pela Faculdade de Letras em 22.04.1959. Não consta ter havido cerimónia de imposição de insígnias e no velório ocorrido em Julho de 1970 o ditador foi vestido com as insígnias da Faculdade de Direito. Embora a situação nunca tenha sido questionada, ela desrespeita o protocolo conimbricense, pois a segui-lo conforme as disposições dos "Estatutos Velhos", a partir de 1959 Salazar ficava obrigado a usar insígnias doutorais com mistura de vermelho e azul-escuro.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009


Brotero
Apontamento do remate posterior da capa (Lx.)

Brotero
Estátua de vulto de Felix da Silva do Avelar Brotero (1744-1828). Doutorado em Medicina por Reims, foi integrado no corpo docente da Faculdade de Filosofia Natural da UC em 1791, atingindo jubilação em 1811. Usou a loba dos doutores e a borla e capelo em azul-escuro. Cientista de reputação internacional, prestou contributo notável ao Jardim Botânico da UC, e ulteriormente ao Jardim Botânico do Paço da Ajuda.
Como na década de 1880 já não sabia ao certo o que tinha sido a loba dos doutores, António Soares dos Reis modelou o Brotero destinado ao Jardim Botânico da UC com anacronismos vestimentários, situação que vemos repetida neste trabalho do escultor António Duarte, assente numa praceta do Parque de Monsanto, Lisboa, em 1984.
Os principais erros detectados são:
-na capa talar, a bainha posterior ligeiramente em godés, corte inaceitável na altura, por ser próprio dos capotes;
-ausência de cabeção e de estolas no mantéu ou ferraiolo, que ao tempo não tinha o corte geométrico e singelo que ora se conhece;
-ocorrência de sapatos comuns, quando só poderiam ser de couro preto e ornados de fivela de prata;
-figuração incorrecta da batina talar, ademais avistada sob a capa, que não era uma batina clerical romana mas sim uma loba de dois corpos, pelo que teriam de avistar-se a parte dianteira inferior do corpo interno e as abas da chamarra.

Júlio Henriques
Estátua de vulto em pedra, do imponente e patriarcal lente da Faculdade de Filosofia Natural (=Ciências Naturais) Júlio Augusto Henriques (1838-1928). Trabalho da autoria do escultor Barata Feyo, foi instalado no Jardim Botânico da UC em 1951.
Abordagem correcta do conjunto vestimentário e insigniário, numa época em que as insígnias doutorais da Fac. de Ciências eram em azul-escuro, por herança das disciplinas "científicas" da antiga Faculdade de Artes Liberais.
Botânico reputadíssimo e cientista a par de tudo quanto de mais fresco se estava a fazer nas universidades ocidentais, Júlio Henriques foi o "pai" do projecto que conduziu à estátua de Brotero assente no Jardim Botânico da UC e revelou ao longo da sua vida especial sensibilidade face ao associativismo cultural, filantrópico e científico. Assim, foi Vice-Presidente da Sociedade Internacional de Agricultura Colonial, Presidente da Sociedade Filantrópica - uma das muitas instituições conimbricenses pioneiras, neste caso a anteceder os serviços de acção social escolar - , e um dos sócios da primeira fornada da Associação Académica de Coimbra que, sendo bem mais velha do que se faz crer, entrou a funcionar continuadamente em Dezembro de 1861 e não apenas em Novembro de 1887. Ou seja, nem os lentes da UC eram tão cientificamente reaccionários e desactualizados com os estudantes da época fizeram questão de dar a entender, nem certas instituições culturais são tão recentes como por vezes se vai dizendo. Mas isto é outra questão que nos levaria aos atalhos da micro-história...

Egas Moniz
Estátua colossal de vulto de António Caetano de Abreu Freire Egas Moniz (1874-1955), antigo estudante e docente da UC que a partir de 1911 integrou o corpo docente da Faculdade de Medicina da UL.
Trabalho da autoria do escultor Euclides Vaz, foi assente em 1974 no terreiro fronteiro ao Hospital escolar da Santa Maria, em Lisboa. A obra encontra-se assinada e datada.
A indumentária docente da UC ressente-se de falta de rigor, lacuna que começa em 1883 quando António Soares dos Reis molda a maquete do Avelar Brotero destinado ao Jardim Botânico de Coimbra, e se prolonga pelo século XIX, atingindo uma dimensão de guarda-roupa hollyoodesco/fantasioso nos jurisconsultos do pórtico da Faculdade de Direito da UL (Almada Negreiros).
Doutorado em 14 de Julho de 1900, em Medicina, Egas Moniz usou as insígnias doutorais conimbricenses e o hábito talar de figurino laico-burguês em voga entre os lentes não eclesiásticos, conjunto indumentário e insigniário que passou a envergar na UL após a sua integração ocorrida a 1 de Abril de 1911.
Euclides Vaz, certamente por desconhecimento e falta de apoio iconográfico, opta por figurar Egas Moniz com batina talar, capa talar e borla e capelo. O erro radica justamente na abordagem da batina, pois na época em que Egas Moniz se doutorou e leccionou na UC apenas os lentes eclesiásticos continuavam a usar a batina comprida, estando então vulgarizada uma casaca preta embainhada pela meia-perna, pequeno uniforme a que após 1916 a UC concedeu o sortilégio de traje de gala.

Domingo, 24 de Maio de 2009


Retrato de Sthamer
O burgermeister de Hamburg, Gustav Sthamer, fotografia de 1905.

Retrato de Petersen
Carl Petersen, fotografo ca. 1892, com o traje de gala dos burgumestres e senadores municipais de Hamburgo. Trata-se de um traje de invulgar riqueza simbólica e artística, constituído por sapatos pretos de couro ornados de fevela de prata, meias altas, calções, jaquetão de botões forrados, camisa com peitilho de folhos, gola quinhentista de canudos, toga de pelaria com meias mangas e chapéu de aba com copa cónica gomada. No que respeita à toga, é possível estabelecer algum paralelismo com o traje de cerimónia dos presidentes dos municípios da Grã-Bretanha.

Cónego de Embrun
Retrato de Elie Grimaud, cónego da Catedral de Embrun, França, com murça de cetim debruada a arminhos.

Murça de cónego
Pormenor do trabalho de costas e capuz adossado.
Sul de Espanha.
O corte da murça, descida sobre o peito e as costas e alteada pelo rebordo dos ombros sugere inspiração do cabeção monástico. Não deixa de ser curioso assinalar que entre finais do século XVIII e inícios do século XX as bordadeiras conimbricenses talhavam os capelos doutorais com o mesmo formato, para gáudio dos estudantes que se compraziam a comparar o capelo com uma albarda de jumento.

Murça de cónego
Pormenores do talhe do pescoço, distribuição dos arminhos sobre o peito e ligação às costas.
Sul de Espanha.

Capa magna de cónego, sul de Espanha

Capelo dos cónegos da Sé de Angra do Heroísmo
Conjunto notável constituído por barrete, sapatos pretos de fivela, batina talar, capa magna e murça com ornamentação barroca. A ornamentação da murça canonical açoriana segue o padrão geral português, mas apresenta algumas especificidades nas rosáceas.

Capelo fúnebre dos cónegos da Sé de Braga

Cortejo fúnebre na Catedral de Goa

Cónego da Catedral de Goa
Cerimónia fúnebre pascal na Catedral de Goa, com os cónegos capitulares no uso das antigas vestes de luto pesado. A fotografia é de invulgar interesse, na medida em que documenta a sobreviência de um costume católico e ibérico ligado ao uso de luto pesado nas cerimónias religiosas católicas, monárquicas e universitárias.

Cónego de Quito
Cónego da Catedral de Quito, Equador, com capa de cauda e capelo de luto pesado lançado pela cabeça. Cérimónia fúnebre pascal. Os cónegos de Quito realizam uma procissão fúnebre no interior da catedral, conhecida por "arrastre de caudas", semelhante à que ainda ocorre anualmente na Catedral de Goa.

Cónegos de Alicante
Parada com o bispo montado em burro, pajem e dois cónegos com murça de arminhos e tecido de seda.

Cónego belga com hábito de coro
Gravura de Ludovicus Clerq e Leo Vlaming, ca. 1812, num manuscrito.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009


Costas do capelo canonical
Feitio das costas do capelo canonical português (cor da Sé de Coimbra). O avantajado capuz fixa a meio das costas com um botãozinho bordado. Este capuz não era um elemento meramente exibitório, servindo para ser lançado pela cabeça nas cerimónias fúnebres que implicassem luto pesado.

Cónego de Coimbra
Capelo dos cónegos capitulares da Sé Catedral de Coimbra: longo capuz dorsal preto, com remate em delta invertido, carcela peitoral e jogos de alamares barrocos em roxo. Este exemplar, de confecção artesanal local foi pertença do falecido Cónego Dr. António Brito Cardoso.
Que seja do nosso conhecimento, o capelo canonical português caíu em desuso, apenas sendo usado na Sé de Braga um modelo preto de luto "çarrado" durante as ceremónias fúnebres pascais.
A sinalização deste exemplar ocorreu em Outubro de 1989 e, desde logo ficaram bem patentes as semelhanças ornamentais com o capelo doutoral da Universidade de Coimbra.
O capelo dos cónegos capitulares portugueses era de modelo semelhante, variando a cor conforme o cabido. Em Coimbra, os cónegos usavam cetim roxo no peito do capelo, cor comum aos cónegos da Catedral de Segóvia. De acordo com os dados recolhidos, não existe exemplar algum desta insígnia nos museus da cidade de Coimbra, nem na Sé Catedral de Coimbra (dita Sé Nova).

Cónego espanhol
Barrete de picos e pompom, idêntico ao barrete usado pelos doutores espanhóis antes das reformas das insígnias ocorridas em 1850. O capelo canonical é diferente do português: munido de capuz dorsal preto e cetim na zona do peito, é inteiriço. Pormenor digno de reparo, neste modelo do sul de Espanha ocorrem alamares ornamentais.

Cónego belga
Representação da murça de arminhos com o peito listado. Retrato do cónego Petrus-Ludovicus Stilleman (1849-1891).

Cónego helvético
Fotografia de um cónego de Friburgo com uma murça de peles, cuja bainha é ornamentada com rabinhos pendentes (foto de ca. 1900). Este modelo de murça, característico das catedrais germânicas e suiças, é muito antigo, ocorrendo em imagens quinhentistas reportadas à afirmação do luteranismo.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009


E. Benjamin
Na transição do século XIX para o século XX as primeiras mulheres formadas em Direito ingressaram em profissões jurídicas tradicionalmente monopolizadas por homens, como a advocacia e a solicitadoria. Nas universidades tributárias do paradigma anglo-saxónico a toga talar masculina foi convertida sem sobressaltos em veste unissexo. Em França, país onde se não realizava a cerimónia de formatura nas universidades (como tal, não havia traje discente), as primeiras advogadas começaram a usar a toga forense masculina. Curiosamente seria no "país da liberdade e da igualdade" que mais se levantariam vozes misóginas contra a presença da mulher na advocacia.
Nos EUA, não existindo veste profissional forense, as primeiras advogadas usarem traje civil de época. Em Portugal, a primeira advogada, Regina Quintanilha estreou-se no Tribunal da Boa Hora em 1913 com toga masculina. Reporta a comunicação social da época que foi bem recebida e aplaudida.
Em países como a Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, o ingresso das mulheres nas profissões jurídicas representou um processo bem sucedido. A peruca, o plastron e a toga foram transformadas em veste profissional unissexo. Serve de exemplo esta fotografia de Ethel Rebecca Benjamin (1875-1943), formada em Direito pela University of Otago no ano de 1897. Em 10 de Maio de 1897 foi admitida como primeira advogada e solicitadora na Supreme Court da Nova Zelândia. Imagem da época de estreia, com peruca, plastron e toga profissional de excelente confecção.

Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Primeiras formandas na Universidade de Sydney
Alunas do curso de Medicina formadas em 1898.
(Pioneer women group. 1898. University of Sydney, http://www.medfac.usyd.edu.au/museum/image.php?FMMUS=FMMUS88; Filtered images: vision of pioneering women doctors in thwentieth-century Australia, http://www.historycooperative.og/jounals/hah/8.2/mccarthy.html)

Presença feminina na Universidade da Pennsylvania
Registo fotográfico da década de 1880
(University Archives and Records Center. University of Pennsylvania, http://www.archives.upenn.edu/history/features/women/chron3.html)
Honoris na Queen's
O primeiro doutoramento honoris causa da University of Queen's, Canadá, foi conferido pela Faculdade de Direito à Condessa de Aberdenn Ishbel Marjoribanks, em Maio de 1898.
A laureada apresenta-se com a "cap and gown", confirmando uma vez mais a naturalização do paradigma unissexo adoptado pelos países anglo-saxónicos desde a década de 1860.

Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

A estudante Makereti
Uma aluna das possessões ultramarinas britânicas (Nova Zelândia) em Oxford com a "cap and gown". Fotografia da aluna Makereti, formada em 1927. O barrete, em tecido, é uma variante do modelo clássico.
C
"Cap and gown"
Versão feminina de catálogo norteamericano para o período 1890-1910. As universidades anglo-saxónicas e norteamericanas converteram o traje académico em modelo unissexo a partir das cerimónias de formatura das primeiras alunas matriculadas. A situação está fotograficamente documentada para as universidades da Inglaterra e Escócia desde a década de 1870 e para as norte-americanas pelo menos desde a década de 1890.
Situação semelhante seria vivida em universos contíguos onde existiam hábitos talares. Assim aconteceu na maioria dos países do ocidente com os trajes judiciários à medida que as mulheres foram ingressando na advocacia e nas magistraturas. E deveria ter sido também o caminho seguido pela Universidade de Coimbra caso tivesse conservado o antigo hábito talar de corpos sobrepostos, que era da mesma família da beca judiciária e do "convocation dress" de Oxford. Acontece que quando a Universidade de Coimbra começou a ser confrontada com a feminilização tinha optado pela casaca burguesa.
Está bem de ver que tal vestimenta (pese embora o prestígio assinalado nas academias científicas, figuras romanescas [Drácula, Fantasma da Ópera], prestidigitadores, dançarinos do Moulin Rouge e da Broadway, noivos burgueses e músicos clássicos), não possuía nem a riqueza estética nem a elasticidade das vestes talares.
No fim de contas, o conjunto vestimentário casaca/capa, nem conseguiu responder aos desafios da feminilização, nem reuniu condições para emparceirar com a riqueza etnográfica de trajes populares portugueses como o gabão rico da Beira Litoral, o capote alentejano, a capa de honras de Miranda do Douro ou o capote e capelo dos Açores.

Figura feminina de colegial
Cartaz publicitário norteamericano da década de 1940
Menina com "cap and gown", gravura de norteamericana de 1909

Togas académicas
Figuração de hábitos talares académicos britânicos. Cromolitografia de 1903

Domingo, 22 de Março de 2009



Loba salmantinense

Retrato de um doutor de Leis, com murça (muceta) vermelha e barrete preto, vestido com a antiga loba talar. Quadro de Francisco de Zurbarán, 1ª metade do século XVII

Sábado, 21 de Março de 2009


VI Encontro de Responsáveis de Protocolo das universidades espanholas

V Encontro de Responsáveis de Protocolo nas Universidades Espanholas

Nos dias 11, 12 e 13 de Maio de 2006 a Universidade de Navarra (Pamplona) acolheu as quintas jornadas sobre protocolo, trajes académicos, insígnias, cerimonial, autonomia e tradições universitárias espanholas.
Longe de esgotado o filão, e largamente afastada a visão distorcida que na transição das sociedades barrocas para liberalismo impôs uma leitura baseada no austero (pre)conceito de futilidades, o estudo do cerimonial ganha o seu lugar no campo da sociologia e da historiografia contemporâneas. Lugar que aliás nunca chegou a perder na sociedade britânica. Graças aos renovados e aprofundados contributos de especialistas como Norbert Elias, Ana Maria Alves, Rui Bebiano, Diogo Ramada Curto, Pedro de Almeida Cardim, Pedro Paiva ou António Filipe Pimentel (Real Edifício de Mafra, Corte de D. João V), o cerimonial barroco conquista toda uma inteligibilidade que, ultrapassando a estreita visão produzida pela Aufklarung burguesa, permite começar a compreender as instituições nas suas estratégias de construção e de reprodução de identidades.
A moda, os uniformes e as insígnias teriam forçosamente de sofrer os reflexos desse requestionamento, desde cedo expresso nas pesquisas de um Daniel Roche ou de um Gilles Lipovetsky.
Ainda não foram editadas as actas do V Encontro, pelo que nos limitaremos a reportar o elenco das matérias abordadas:
Dia 11
Presentación
“Conferencia inaugural”, por Joaquín Lorda, U. Navarra
“Autonomia universitária y protocolo académico en los Estatutos de las Universidades Españolas (1919-1921)”, por Jerónimo Hernández de Castro, U. Salamanca
“Análisis de un Acto Académico”, por Teresa Galino Mateos e Asunción Sánchez, U. Complutense
“Evolución de los Actos Universitarios y sus tradiciones”, por Salvador Martínez, U. Católica San Antonio de Murcía
Grupos de Trabajo
-Manual de Protocolo
-Movilidad del PAS-Página web
-Colores académicas
Dia 12
“Protocolo y Ceremonial navarro”, por Rafael Lopes, Chefe de Protocolo do Governo de Navarra, e Javier Mendoza, Chefe de Protocolo do Ayuntamiento de Pamplona
“Las cerimonias universitárias. Adaptación o pérdidad de sentido?”, por Júlio Panizo, U. de Vic
“El responsable de protocolo. Profesión de alto riesgo?”, por Francisca González, da U. Córdova, e José Reig, da U. Huelva
“El Protocolo entre bromas y veras”, por F. Xavier Rasilla, U. Navarra
Dia 13
Mesa redonda
Conferencia de clausura
Fonte: Asociación para el Estúdio del Protocolo…, http://www.protocolouniversitario.ua.es/.
IV Encontro de Responsáveis pelo Protocolo e Cerimonial das Universidades Espanholas
Nos dias 07, 08 e 09 de Abril de 2005 a Universidade de Cantábria (Santander) acolheu o IV encontro de estudiosos e de responsáveis de protocolo universitário em Espanha. Nas 138 páginas de actas persistem as reflexões sobre temáticas oriundas de encontros anteriores, com a abertura a estudos historiográficos e a especificidades patenteadas pelas universidades católicas onde se mantém a figura do Cancelário eclesiástico. A “Questão das Precedências” continua a marcar a ordem do dia, a avaliarmos o espaço concedido aos títulos de algumas comunicações e ao enfoque detalhado no conflito Universidade La Laguna/Governo das Canárias. De acordo com a exposição feita por Javier Rasila, da U. Navarra, o Governo da Comunidade Autónoma das Canárias fez aprovar o Decreto 2002/1997, de 07 de Agosto, mediante o qual afirmava a primazia do Presidente do Governo sobre o Reitor em actos internos da vida universitária como a Abertura Solene ou a Investidura Reitoral. Após corte de relações, a Reitoria da U. La Laguna apresentou queixa junto do contencioso administrativo do Tribunal Superior das Canárias, solicitando a anulação do disposto no diploma regional. Por sentença de 14 de Junho de 2000, o referido órgão judicial declarava nulas as pretensões do Governo Autónomo, decisão que levou o Governo das Canárias a recorrer para o Tribunal Supremo. Em acórdão de 05 de Outubro de 2004, o Supremo veio declarar nula a reclamação/pretensão do Governo das Canárias, dada a manifesta falta de respeito pela autonomia da Universidade.
Para o caso português, a Lei das Precedências do Protocolo do Estado Português, Nº 40/2006, de 25 de Agosto, publicada no Diário da República, I Série, Nº 164, de 25/08/2006, não deixa de suscitar reservas quando coloca os Reitores das Universidades em 38º lugar, atrás das Academias científico-literárias, ou comina a Presidência de actos académicos solenes ao Presidente da República (1º) e Presidente da Assembleia da República (2º), quando estes se achem presentes, não sendo suficientemente claro se a ausência destas autoridades delega poderes de representação no Primeiro Ministro ou mesmo no Ministro da Educação. Algumas das disposições presentes no referido diploma geraram protestos dos presidentes de câmaras municipais e Associação Nacional de Municípios Portugueses, manifestamente incomodadas com o 49º lugar inicialmente previsto, atrás dos chefes dos gabinetes ministeriais.
Na redacção final, os Presidentes de Câmara passaram a figurar em 41º lugar. As universidades públicas e privadas, bem como os polictécnicos, guardaram mutismo. No que respeita à Universidade de Coimbra, instituição onde o Reitor concentra desde 1834 os títulos inerentes às funções de Cancelário e de Prelado, e desde 1910 as honras tradicionalmente tributadas ao Chefe de Estado enquanto Protector, não é pacífica a leitura de todos os artigos da Lei Nº 40/2006, de 25 de Agosto.
Conteúdos tratados:
-Bienvenida, por Federico Salcedo, Reitor da U. Cantábria
“Conferência Inaugural: Protocolo y Civilidade en la Idad Moderna”, por Ramón Villanueva, U. Cantabria
“Situación actual del responsable de Protocolo en las plantillas de las Universidades”, por José Andreu, U. Miguel de Elche
“Protocolo y Relaciones Institucionales. Una profesión del siglo XXI”, por Manuela Pinilla, U. Granada, Belén Menasanch, U. Alicant, Celina Campo, U. Cantabria
“Normativa en materia de protocolo en las Universidades”, José Reig, U. Huelva, e Francisca González, U. Córdova
“El mejor reglamento: el que no existe (el sentido común)”, por Joseph Oliveras, U. Oberta de Catalunya
“Formación de Presidencias en Actos Universitários. Supuestos práticos”, por F. Javier Rasilla, U. Navarra“Precedencia del Presidente del Consejo Social de la Universidad”, por María Villa Sánchez, U. Complutense, e María Tersa Galino Mateos, U. Complutense
“Singularidades del Protocolo en las Universidades de la Iglesia”, por Salvador Martínez, U. Católica de Santo Antonio de Murcia
“Implicaciones normativas del Código del buen gobierno del Gobierno en protocolo universitário”, por Daniel Blasco, U. Alcalá, e María Dolores Sanz, U. Carlos III
“optimización de tiempos en actos de entrega de distinciones. Aplicación prática de una base de datos”, por Jerónimo Hernández de Castro, U. Salamanca
“Conferencia de clausura. Base para una teoría del protocolo en el siglo XXI”, por María Teresa Alvarado. U. Sevilla
Mesas/Coloquio/Conclusiones
Anexo
Lei das precedências do Protocolo do Estado Português (Lei n.º 40/2006, de 25 de Agosto)
A Assembleia da República decreta, nos termos da alínea c) do artigo 161.º da Constituição, o seguinte:
(…) Artigo 2.º
Âmbito de aplicação
A presente lei aplica-se em todo o território nacional e nas representações diplomáticas e consulares de Portugal no estrangeiro.
(…)SECÇÃO II
Precedências
Artigo 7.º
Lista de precedências
Para efeitos protocolares, as altas entidades públicas hierarquizam-se pela ordem seguinte:
1) Presidente da República;
2) Presidente da Assembleia da República;
3) Primeiro-Ministro;
4) Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e Presidente do Tribunal Constitucional;
5) Presidente do Supremo Tribunal Administrativo e Presidente do Tribunal de Contas;
6) Antigos Presidentes da República;
7) Ministros;
8) Presidente ou secretário-geral do maior partido da oposição;
9) Vice-presidentes da Assembleia da República e presidentes dos grupos parlamentares;
10) Procurador-Geral da República;
11) Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas;
12) Provedor de Justiça;
13) Representantes da República para as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira;
14) Presidentes das Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas;15) Presidentes dos Governos Regionais;
16) Presidentes ou secretários-gerais dos outros partidos com representação na Assembleia da República;
17) Antigos Presidentes da Assembleia da República e antigos Primeiros-Ministros;
18) Conselheiros de Estado;
19) Presidentes das comissões permanentes da Assembleia da República;
20) Secretários e subsecretários de Estado;
21) Chefes dos Estados-Maiores da Armada, do Exército e da Força Aérea;
22) Deputados à Assembleia da República;
23) Deputados ao Parlamento Europeu;
24) Almirantes da Armada e marechais;
25) Chefes da Casa Civil e Militar do Presidente da República;
26) Presidentes do Conselho Económico e Social, da Associação Nacional dos Municípios Portugueses e da Associação Nacional das Freguesias;
27) Governador do Banco de Portugal;
28) Chanceleres das Ordens Honoríficas Portuguesas;
29) Vice-presidente do Conselho Superior da Magistratura;
30) Juízes conselheiros do Tribunal Constitucional;
31) Juízes conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça, do Supremo Tribunal Administrativo e do Tribunal de Contas;
32) Secretários e subsecretários regionais dos Governos das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira;
33) Deputados às Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas;
34) Comandante-geral da Guarda Nacional Republicana e director nacional da Polícia de Segurança Pública;
35) Secretários-gerais da Presidência da República, da Assembleia da República, da Presidência do Conselho de Ministros e do Ministério dos Negócios Estrangeiros;
36) Chefe do Protocolo do Estado;
37) Presidentes dos tribunais da relação e tribunais equiparados, presidentes do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e do Conselho Coordenador dos Institutos Politécnicos, bastonários das ordens e presidentes das associações profissionais de direito público;
38) Presidentes da Academia Portuguesa da História e da Academia das Ciências de Lisboa, reitores das universidades e presidentes dos institutos politécnicos de direito público;
39) Membros dos conselhos das ordens honoríficas portuguesas;
40) Juízes desembargadores dos tribunais da relação e tribunais equiparados e procuradores-gerais-adjuntos, vice-reitores das universidades e vice-presidentes dos institutos politécnicos de direito público;
41) Presidentes das câmaras municipais;
42) Presidentes das assembleias municipais;
43) Governadores civis;
44) Chefes de gabinete do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República e do Primeiro-Ministro;
45) Presidentes, membros e secretários-gerais ou equivalente dos conselhos, conselhos nacionais, conselhos superiores, conselhos de fiscalização, comissões nacionais, altas autoridades, altos-comissários, entidades reguladoras, por ordem de antiguidade da respectiva instituição, directores-gerais e presidentes dos institutos públicos, pela ordem dos respectivos ministérios e dentro destes da respectiva lei orgânica, provedor da Misericórdia de Lisboa e presidente da Cruz Vermelha Portuguesa;
46) Almirantes e oficiais generais com funções de comando, conforme a respectiva hierarquia militar, comandantes operacionais e comandantes de zona militar, zona marítima e zona aérea, das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira;
47) Directores do Instituto de Defesa Nacional e do Instituto de Estudos Superiores Militares, comandantes da Escola Naval, da Academia Militar e da Academia da Força Aérea, almirantes e oficiais generais de 3 e 2 estrelas;
48) Chefes de gabinete dos membros do Governo;
49) Subdirectores-gerais e directores regionais;
50) Juízes de comarca e procuradores da República;
51) Vereadores das câmaras municipais;
52) Assessores, consultores e adjuntos do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República e do Primeiro-Ministro;
53) Presidentes das juntas de freguesia;
54) Membros das assembleias municipais;
55) Presidentes das assembleias de freguesia e membros das juntas e das assembleias de freguesia;
56) Directores de serviço;
57) Chefes de divisão;
58) Assessores e adjuntos dos membros do Governo.
Artigo 8.º
Equiparações
1 - As altas entidades públicas não expressamente mencionadas na lista constante do artigo anterior serão enquadradas nas posições daquelas cujas competências, material e territorial, mais se aproximem.
2 - Aos cônjuges das altas entidades públicas, ou a quem com elas viva em união de facto, desde que convidados para a cerimónia, é atribuído lugar equiparado às mesmas quando estejam a acompanhá-las.
Artigo 9.º
Eleição e antiguidade
1 - Entre as entidades de idêntica posição precede aquela cujo título resultar de eleição popular.
2 - Entre entidades com igual título precede aquela que tiver mais antiguidade no exercício do cargo, salvo se outra regra resultar do disposto na presente lei.
SECÇÃO III
Órgãos de soberania
Artigo 10.º
Presidente da República
1 - O Presidente da República tem precedência absoluta e preside em qualquer cerimónia oficial em que esteja pessoalmente presente, à excepção dos actos realizados na Assembleia da República.
2 - O Presidente da República é substituído, nos termos constitucionais, pelo Presidente da Assembleia da República, que goza então, como Presidente da República interino, do estatuto protocolar do Presidente da República.
3 - Para efeitos da presente lei, o Presidente da República não pode fazer-se representar por ninguém, não gozando, portanto, de precedência sobre entidades mais categorizadas qualquer delegado pessoal dele.
Artigo 11.º
Presidente da Assembleia da República
1 - Na Assembleia da República, o respectivo Presidente preside sempre, mesmo que esteja presente o Presidente da República.
2 - O Presidente da Assembleia da República preside a qualquer cerimónia oficial desde que não esteja pessoalmente presente o Presidente da República, excepto aos actos realizados no Supremo Tribunal de Justiça ou no Tribunal Constitucional.
(…)Artigo 12.
1ºPrimeiro-Ministro
1 - O Primeiro-Ministro preside àquelas cerimónias oficiais em que não estejam presentes nem o Presidente da República nem o Presidente da Assembleia da República.
2 - O Primeiro-Ministro pode fazer-se representar, na sua ausência ou impedimento, por um ministro da sua escolha, o qual goza então do respectivo estatuto protocolar.
Artigo 13.º
Presidentes do Supremo Tribunal de Justiça e do Tribunal Constitucional
O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o Presidente do Tribunal Constitucional presidem sempre nos respectivos tribunais, excepto estando presente o Presidente da República.
Artigo 14.º
Ministros
1 - Os ministros ordenam-se segundo o diploma orgânico do Governo.
2 - Nas cerimónias de natureza diplomática, o Ministro dos Negócios Estrangeiros precede todos os outros.
3 - Nas cerimónias de natureza militar, o Ministro da Defesa Nacional precede todos os outros, salvo nas que respeitem à Guarda Nacional Republicana, em que a precedência cabe ao Ministro da Administração Interna.
4 - Nas cerimónias do âmbito de cada ministério, o respectivo ministro tem a precedência.(…)Artigo 24.º
Altos magistrados
Os juízes conselheiros do Tribunal Constitucional, do Supremo Tribunal de Justiça, do Supremo Tribunal Administrativo e do Tribunal de Contas ordenam-se, dentro de cada uma das respectivas instituições, por antiguidade no exercício das funções, precedendo os vice-presidentes.
(…)SECÇÃO V
Poder local
Artigo 31.º
Presidentes das câmaras municipais
1 - Os presidentes das câmaras municipais, no respectivo concelho, gozam do estatuto protocolar dos ministros.
2 - Os presidentes das câmaras municipais presidem a todos os actos realizados nos paços do concelho ou organizados pela respectiva câmara, excepto se estiverem presentes o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República ou o Primeiro-Ministro, nas Regiões Autónomas, têm ainda precedência o Representante da República, o Presidente da Assembleia Legislativa e o Presidente do Governo Regional.
3 - Em cerimónias nacionais realizadas no respectivo concelho, os presidentes das câmaras municipais seguem imediatamente a posição das entidades com estatuto de ministro e, se mesa houver, nela tomarão lugar, em termos apropriados.
4 - Em cerimónias das Regiões Autónomas realizadas no respectivo concelho, os presidentes das câmaras municipais seguem imediatamente a posição dos secretários regionais e, se mesa houver, nela tomarão lugar, em termos apropriados.
(…)SECÇÃO VI
Outras entidades
Artigo 34.º
Altas entidades estrangeiras e internacionais
As altas entidades de Estados estrangeiros e de organizações internacionais têm tratamento protocolar equivalente às entidades nacionais homólogas.
Artigo 35.º
Altas entidades da União Europeia
1 - O Presidente do Parlamento Europeu, quando em Portugal, segue imediatamente o Presidente da Assembleia da República e as entidades parlamentares europeias as suas congéneres portuguesas.
2 - O Presidente do Conselho Europeu segue imediatamente o Primeiro-Ministro, excepto se for chefe de Estado, caso em que segue imediatamente o Presidente da República.
3 - O Presidente da Comissão Europeia segue imediatamente o Primeiro-Ministro e os comissários europeus os ministros portugueses homólogos.
4 - Às entidades judiciais e administrativas da União Europeia deverá ser dado tratamento análogo ao disposto nos números anteriores.
Artigo 36.º
Altas entidades diplomáticas
1 - Os embaixadores estrangeiros acreditados em Lisboa, quando não puder ser-lhes reservado lugar à parte, seguem imediatamente o secretário-geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, ordenando-se entre si por razão de antiguidade da apresentação das respectivas cartas-credenciais, salvaguardada a tradicional precedência do Núncio Apostólico, como decano do corpo diplomático.
Artigo 37.º
Familiares de chefes de Estado estrangeiros
Os familiares de chefes de Estado estrangeiros deverão ser tratados como convidados especiais do Presidente da República e colocados junto dele ou, não estando presente, de quem tiver, por virtude da mais alta precedência protocolar, a presidência.
Artigo 38.º
Autoridades religiosas
As autoridades religiosas, quando convidadas para cerimónias oficiais, recebem o tratamento adequado à dignidade e representatividade das funções que exercem, ordenando-se conforme a respectiva implantação na sociedade portuguesa.
Artigo 39.º
Autoridades universitárias
1 - Os reitores das universidades e os presidentes dos institutos politécnicos presidem aos actos realizados nas respectivas instituições, excepto quando estiverem presentes o Presidente da República ou o Presidente da Assembleia da República.
2 - As deputações dos claustros académicos que participem em cerimónias oficiais seguem imediatamente os respectivos reitores ou presidentes.
Artigo 41.º
Governadores civis
1 - Os governadores civis, no respectivo distrito, seguem imediatamente a posição do presidente da assembleia municipal do concelho onde se realizar a cerimónia, salvo quando se encontrarem em representação expressa de membro do Governo convidado para a presidir, caso em que assumirão a presidência.
SECÇÃO VII
Luto nacional
Artigo 42.º
Declaração
1 - O Governo declara o luto nacional, sua duração e âmbito, sob a forma de decreto.
2 - O luto nacional é declarado pelo falecimento do Presidente da República, do Presidente da Assembleia da República e do Primeiro-Ministro e ainda dos antigos Presidentes da República.
3 - O luto nacional é ainda declarado pelo falecimento de personalidade, ou ocorrência de evento, de excepcional relevância.
(…)Aprovada em 20 de Julho de 2006.
O Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama.
Promulgada em 11 de Agosto de 2006.
Publique-se.
O Presidente da República, ANÍBAL CAVACO SILVA.
Referendada em 12 de Agosto de 2006.
O Primeiro-Ministro, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa.
III Encontro de Responsáveis pelo Protocolo e Cerimonial das Universidades Espanholas

Nos dias 19 e 20 de Abril de 1999 a Universidade Complutense de Madrid acolheu nas suas instalações os participantes no “III Encuentro de Responsables de Protocolo”. As diversas comunicações foram editadas num tomo de “Actas” com 101 páginas, consultável on line.
O III encontro deu continuidade a temas anteriores e promoveu novas reflexões, acolhendo a partilha de experiências sobre a modernização do cerimonial, pesquisas historiográficas em curso, o relacionamento entre universidades e a comunicação social, o lugar das autoridades eclesiásticas nos actos, a rentabilização de novos espaços arquitectónicos, a autonomia das universidades e sua relação protocolar com o governo central e regiões autónomas, a pragmática clássica e os desvios a que tem estado sujeita, bem como as cores distintivas das especialidades científicas mais recentes.
Se a relação protocolar com o Chefe de Estado, Ministro da Educação e eventuais convidados eclesiásticos não oferece problemas de monta, já o papel e funções a desempenhar pelos Presidentes das Regiões Autónomas é gerador de algum desconforto institucional. Em finais da década de 1990, a Reitoria da Universidad La Laguna e o Presidente da Região Autónoma das Canárias viveram momentos de tensão, conforme relata Teresa de la Rosa.
A aparente pujança do protocolo e das insígnias académicas em Espanha tem como contraponto os protestos de sectores que reclamam a abolição do cerimonial, rotulando-o de “arcaico”, à semelhança do ambiente vivido em alguns nichos da Universidade de Coimbra desde do Reitorado de António Ferrer Correia (1976-1982).
Num país onde as universidades se habituaram ao conforto da uniformização centralista, as violações da pragmática clássica suscitam inquietações (Guillermo Leal). São as novas especialidades científicas que ad hoc implementam cores não conhecidas, nem inteiramente reconhecidas inter pares. São docentes que envergam a toga preta com elementos vestimentários civis multicolores, quais sejam gravatas, camisas, calças, meias e sapatos, quando o conjunto deveria ser integralmente negro (salvo camisa/blusa e gravata). São licenciados que “abusivamente” se apropriam dos punhos nas cores reservadas aos doutores, de luvas, de crachás peitorais e até de barretes com borla própria para doutorados. São autoridades académicas e membros do corpo docente de diversas hierarquias que desrespeitam as cores oficiais dos cordões das medalhas, distintos conforme se destinam a reitor, vice-reitor e doutores.
Matérias tratadas:
Presidencia, Actores e Invitados en Actos Universitarios
“Los Actos Académicos y sus Protagonistas: viejas tradiciones y nuevas costumbres”, por Ana Villegas, da U. de Zaragoza
“Comunicación y Protocolo Universitario”, por Teresa Ferrón e Antonio Ruiz, da U. Granada
Distintos Roles de Asistentes a Actos
“Algunas consecuencias protocolarias sobre la nueva Normativa de Doctorado (Real Decreto 778/1998, de 30 de abril), por Manuela Pinilla, da U. Granada
Posición de la Iglesia en actos Universitarios
“Presencia de las autoridades eclesiásticas en los Actos Académicos”, por José Zumaquero, da U. Navarra
Espacios Clásicos y Adaptados, Salones Nuevos
“Nuevos recintos en la Universidad Complutense para Actos Institucionales y Científico-Culturales”, por Victoria Camargo, Brigitte Desbordes e Ana Limón, da U. Complutense
Distintos Roles de Asistentes a Actos
“Autonomía Universitaria”, por Teresa de la Rosa, da U. La Laguna
Nuevos Colores
“Problemática actual de los colores en Protocolo Universitario”, por Guillermo Leal, da U. Europeia de Madrid CEES
“La Simbología de los Colores en el Traje Académico”, por Teresa Galino Mateos, da U. Complutense“Desarrollo y Contenido del III Encuentro…”

II Encontro de Responsáveis pelo Protocolo e Cerimonial das Universidades Espanholas
Nos dias 24 e 25 de Abril de 1997 a Universidade de La Rioja (Logroño) acolheu os participantes e especialistas do II Encontro de Protocolo. O assunto tem vindo a ganhar crescente visibilidade e importância em Espanha. Assiste-se à proliferação de pós-graduações em protocolo e etiqueta. Mais de 150 anos decorridos sobre as leis liberais uniformizadoras e abolicionistas, as universidades espanholas esforçam-se por afirmar traços identitários diferenciados, para tanto recorrendo às brechas potenciadas pelo artigo 8º da Lei de 29 de Julho de 1943 e Lei da Reforma Universtária de 1983 (Preâmbulo).
Uma preocupação persistentemente aflorada pelos conferencistas respeitou ao lugar dos reitores na sua relação com o Chefe de Estado e com os presidentes das Regiões Autónomas. A questão não é pacífica nem se encontra resolvida a contento das partes. Se velhas universidades como Salamanca, acostumadas que foram a partilhar o poder com os antigos cancelários, reformadores e protectores, não se sentem beliscadas em ceder a presidência solene ao Rei, 1º Ministro ou Ministro da Educação, caso estejam presentes em determinados actos protocolares, já é menos consensual o papel e lugar a ocupar pelos presidentes das Regiões Autónomas.
O presidente da Região Autónoma da Galiza vai mesmo mais longe, sugerindo abertamente que os reitores galegos lhe cedam a presidência nos actos solenes da vida intra-universitária, reinvindicação por muitos considerada um intolerável abuso às autonomias universitárias.
A Universidade de Zaragoza (1583 e ss.) não se mostra convencida da bondade destas soluções, contra-argumentando que à luz do quadro autonómico-corporativo o seu reitor nunca se submeteu ao poder político, administrativo ou religioso, situação de privilégio consagrada desde os primeiros passos da instituição nos “Estatutos de 1583”.
Em Portugal, a abordagem do protocolo e cerimonial universitários tarda em debutar. Um dos raros documentos internos acessíveis para efeitos de consulta e de reflexão comparativa será «Universidade Católica Portuguesa. Cerimonial Universitário. Regras”, ano de 2000, 13 páginas, disponível em http://www.ucp.pt/.
Deste II Encontro foram editadas 85 páginas de Actas, pela Universidad La Rioja, em 1999, contendo as seguintes tabuadas:
-Inauguración Oficial-Conferencia Inaugural: “Las Precedências en los Actos Académicos”, por Manuela Suárez Pinilla, GRI da U. Granada
Bloco I – La Presidencia de los Actos Académicos
-“La Presidencia de los Actos Académicos y la Ubicación de los Actos Publicos. Tratamientos y Precedencias de Autoridades”, por D. Francisco Galino Nieto, Mestre de Cerimónias aposentado da U. Complutense
-“La Presidencia en los Actos Academicos Universitarios”, por Manuel Camargo, da U. de Oviedo
-“Rectores: Toma de Posesión e Investidura”, por Ana Villegas, da U. Zaragoza
Bloco II – La Casa Real en la Universidad
-“La Relación Corona-Universidad: Pasado y Presente”, por Asunción Sanchez, Chefe de Protocolo da U. Complutense
-“La Presencia de la Familia Real en los Actos celebrados en la Universidad”, por Daniel Barrientos, da U. da Alcalá
Bloco III – El Color de la Indumentaria Académica en las nuevas Titulaciones
-“Los colores en la indumentaria: pasado y futuro”, por Alberto Príncipe, da U. de Laguna
Bloco IV – Cambio de Paradigma en el Protocolo Universitario
-“El cambio de paradigma”, por José María Olivares, da U. Oberta
Bloco V – Estrutura Departamental en el Protocolo Universitario
-“Universidades Departamentales”, por Alicia Toda (U. de Navarra) e Sagrario Serapio (U. La Rioja)
-Conclusiones

Primeiro Encontro de Responsáveis pelo Protocolo e Relações Internacionais das Universidades Espanholas

Nos dias 06 e 07 de Março de 2006 decorreu na Universidade de Granada o primeiro encontro de responsáveis pelo protocolo e cerimonial universitário em Espanha. As comunicações e propostas formuladas foram publicadas em 1997 num volume pdf de 168 páginas de actas.
A leitura dos diversos textos, citações documentais e recomendações é deveras instrutiva. O hábito talar docente, o modelo de insígnias, as cores oficiais e os distintivos são matéria relativamente uniformizada à escala nacional e centralizada através de sucessivos instrumentos legais publicados pelo governo central de Madrid desde 1850, independentemente de estarmos em presença de universidades medievais, quinhentistas ou recentes, estabelecimentos públicos ou privados, universidades ou politécnicos.
Algumas universidades espanholas, particularmente as mais recentes, seguem o protocolo de Estado praticado na Corte, nas sedes das Regiões Autónomas e nos Municípios, prescindindo de instrumentos como a toga preta, a murça (muceta), o barrete, o anel, o bastão reitoral e os cortejos de investidura. Tudo se resume a uma exteriorização baseada na constituição de uma tribuna civil, cujo presidente entrega ao homenageado um diploma. Esta opção nada tem de invulgar, observando-se em instituições de ensino superior acreditados em França, Brasil, Rússia, Peru ou Guatemala.
Quanto às universidades espanholas de origem medieval e renascentista, a Coroa admite a existência e prática de peculiarismos como os bedéis com suas maças de prata, o "Vítor" dos novos doutores salmantinos, a troca de vestes e de insígnias entre reitor cessante e o reitor novo em Salamanca, o “osculum pacis” e os charameleiros (chirimias).
É nos estabelecimentos pluricentenários espanhóis que mais se nota a semelhança com os rituaisa Alma Mater Conimbrigensis. A leitura de fragmentos de vários estatutos promulgados até finais da União Ibérica de 1580-1640 permite-nos concluir pela existência de autênticos decalques normativos no território peninsular. A Universitas Studii Salamantini é, de entre todas as instituições espanholas, o exemplo que mais se aproxima do antigo splendor conimbrigensis. Enquanto Salamanca perdeu o ancestral hábito talar (loba e mantéu) e viu as insígnias nacionalizadas na década de 1850, Coimbra mantém no essencial a herança multissecular do seu riquíssimo e único cerimonial.
O referido tomo de actas pode ser lido on line e contém as seguintes intervenções:

-Palavras de Abertura-Conferência Inaugural: “Implicaciones Sociológicas del Protocolo”, por Júlio de Usel, Decano da Faculdade de Ciências Políticas e Sociologia da Universidade de Granada
-“El Espiritu del Cerimonial Universitário. Precedências e antiguidades", por D. Francisco Galino Nieto, do Gabinete de Protocolo da Universidade Complutense de Madrid
-“El Protocolo en los Actos Universitários. Actos proprios del protocolo universitario. La costumbre en la universidad. La figura del Rector”, por Alicia de la Iglesia Martínez de Toda, do Gabinete de R. I. da Universidade Pública de Navarra
-“Actos historicos. El doctorado honoris causa. Algunos aspectos del Doctorado Honoris Causa”, por Alberto Darias Príncipe, Mestre de Cerimónias da Universidade de Laguna
-“Actos Patronales. La festividad de Santo Tomás de Aquino”, por Silvia Núnez Moro, da Universidade de Salamanca
-“El papel del Consejo Social y su integración protocolaria”, por Manuela Suárez Pinilla, do Gabinete de R. I. da Universidade de Granada-“Precedencia y disposición de Autoridades en Actos Universitarios”, por Daniel Rivadulla Barrientos, Director de R. I. da Universidade de Alcalá
-“Participación y Precedencia en actos universitarios. Precedencia en asistencia por delegación”, por Isabel Garcia Malet, da Universidade de Barcelona
-“El Traje Académico. Rituales y Símbolos. Ritual y uso del Traje Académico”, por Ana Martín Villegas, da Universidade de Zaragoza-“Libros ritules: el libro de oro, honores, condecoraciones y tomas de posesión”, por José Sanchez, da Universidade de Almería
-“Soporte informatico en la preparación de actos universitarios”, por Margarita Rodríguez Cotelo, do Gabinete de R. I. da Universidade de Granada
-“Congresos e Exposiciones. Funcionamiento de la seccion de organización de congresos y exposiciones de la Universidad Complutense de Madrid”, por Ana González Limón
-“Propuesta para la creación de la Asociación para el Estudio y la Investigación del Protocolo Universitario”, por Teresa Ferrón Jiménez, da Universidade de Granada
-“Resumen y Conclusiones”Fonte: Asociación para el Estudio y la Investigación del Protocolo Universitario

Janízaros
Yenitcheri Acasi, chefe dos janízaros otomanos e outros dignitários, inícios do século XIX. Em três situações documentadas, a coincidência com os modelos de vestes académicas em uso no Ocidente entre os séculos XVI-XVIII é demasiado óbvia.

Inspector
O inspector de caravanas do Império Otomano no primeiro quartel do século XIX.
Já não é a primeira vez que a semelhança entre as vestes talares duplas dos juristas, letrados, universitários e clérigos ocidentais reclama exercícios comparativos com as vestes de dignitários do Império Otomano e de militares da Polónia e Lituania.

Cardeal Jean Rolin
"Nativité du Cardinal Jean Rolin", quadro da autoria de Jean Hey, da ca. 1480, existente no Musée Rolin em Autun. O cardeal, em postura orante, ostenta uma loba de duas vestes sobrepostas, com abertura dianteira para a saída dos braços, e uma murça de veludo e arminhos. Este tipo de loba com orifício dianteiro foi usada na Universidade de Santiago de Compostela.

Cardeal Albergati
Retrato do Cardeal Nicola Albergati, da autoria de Jan van Eyk, de ca. 1432, existente no Kunstistorisches Museum de Viena. Nesta variante a sobreveste da loba tem duas fendas dianteiras para a saída dos braços. Trata-se de uma loba fechada ou "çarrada", expressamente referida em documentos seiscentistas da Universidade de Coimbra.
Os cardeais romanos usaram até 1969 um derivado desta veste medieval. Por cima da batina talar romana escarlate envergavam a antiga sobreveste da loba, em seda, mas sem quaisquer aberturas para a saída dos braços, conhecida por capa magna. Sobre o conjunto vestiam a murça de arminhos e o galero de borlas. Como a capa magna tinha vários metros de cauda rastejante, exigia a presença de pelo menos um pagem caudatário. Mas mais estranho é observar fotos dos cardeais romanos dos séculos XIX e XX, que figuram sistematicamente com a bainha dianteira da capa magna repuxada nos braços, bizarraria resultante do facto de os alfaiates romanos terem suprimido as fendas que permitiam a saída dos braços e mãos. Na antiga cerimónia de criação dos cardeais havia um momento em que os novos encardinados se sentavam com a capa magna, a murça de arminhos e o barrete posto na cabeça, tendo na sua frente os respectivos pagens caudatários. Com a longa cauda ajeitada no cadeiral, e vistos de frente, os novos cardeais davam ares de terem vestido um amplo saco cónico de seda moiré.

Quinta-feira, 19 de Março de 2009


Petrarca
Retrato de Francesco Petrarca, fesco da autoria de Andrea del Castagno realizado por volta de 1450. A figuração da loba talar, constituída por veste interna e sobreveste despojada de mangas, a que se junta um capelo inteiriço de capuz, é bastante rigorosa.

Saint Yves
Retrato virtual de Saint Yves de Tréguier, afamado jurisconsulto e padroeiro dos juristas europeus, cuja festa se celebra anualmente no norte de França e a cuja procissão concorrem advogados de inúmeros países em toga talar. Têmpera sobre madeira aparelhada, de autor não identificado, datável do período 1350-1400, Florença. O santo enverga loba talar dupla, sendo a veste interna preta, e a externa carmesim, com duas aberturas para a saída dos braços, e uma murça munida de capuz. Trata-se da mesma veste usada pelos lentes das universidades europeias e cardeais romanos.

Quarta-feira, 18 de Março de 2009


Winckelmann
Winckelmann e o reitor.

Pascal
Pascal estudante de geometria.

Pico de la Mirandola
O estudante Pico de la Mirandola junto da sua mãe.
As gravuras relativas aos jovens escolares Winckelmann, Pascal e Mirandola são da autoria do artista Valentin Fouquier e foram publicadas na obra de Louise Colete, «Enfants Célèbres", 4ª edição, Paris, Hachette, 1862. Digitalização disponível em http://www.gutenberg.org/files/20703/20703-h.htm.

São Ivo
Imagem sacra de São Ivo, aqui com a antiga veste talar dupla dos juristas franceses e barrete quadrangular encimado por borla. A partir da época napoleónica, o antigo traje talar dos juristas e docentes universitários foi fundido num corpo único.

Ram
F. Ram, primeiro Reitor da Universidade Católica de Louvaina, retrato de 1836 realizado por Lambert Mathieu.

Grande uniforme do Reitor da Universidade de Paris
Figurino desenhado para a cerimónia de coroação de Napoleão Bonaparte, não chegaria a fazer escola na França dos séculos XIX e XX.

Doutor em Medicina
Sorbonne, século XVI.

Estudantes de várias "nações" com o Reitor de Praga.
Gravura do século XIX.
Paris (1)
Reitor da Universidade de Paris no século XVI: toge talar lilás, cinto e bolsa, murça de arminhos e cetim e barrete preto quadrangular.
Paris (2)
Assembleia ou claustro pleno da Universidade de Paris em 5 de Março de 1717, com figuração da toge e do barrete doutoral anteriores às reformas implementadas na época napoleónica.


Antigas vestes da Universidade de Santiago de Compostela

Trajes talares e insígnias de membros do corpo docente da Universidade de Santiago de Compostela, anteriores às reformas operadas na década de 1850 pelo governo central de Madrid. Num caso vê-se um conjunto vestimentário constituído por loba dupla com abertura dianteira, murça (muceta doutoral) e barrete de picos ou arestas. Noutro, a sobreveste da loba está levantada e deitada pelos ombros. Contrariando uma ideia feita que associa as vestes académicas ao negro, Santiago confirma o castanho escuro, cor também usada em Salamanca e Alcalà de Henares.

Terça-feira, 17 de Março de 2009


Estudantes do VAMC em 1893

Estudantes do VAMC em 1888
No aluno posicionado no centro da fotografia confirma-se o traje de cadete com calça comprida avivada nas costuras, dólman curto e barretina circular. Quatro alunos envergam o traje militar herdado do período da Guerra Civil, comum aos capelães militares norte-americanos, com calça comprida avivada nas costuras, casaca e chapéu de feltro (sombreiro) ou boné militar (képi).
Se trocarmos o képi pelo gorro de tipo campesino e substituirmos a capa singela pelo capote militar, teremos com diferenças insignificantes o mesmo traje usado na mesma conjuntura pelos estudantes e docentes laicos da Universidade de Coimbra.

Estudante do VAMC em 1886
Aluno cadete do Virgina Agricultural and Mechanical College numa fotografia de 1886. Com raízes na década de 1850, esta escola politécnica foi fundada em 1872. Como traje de referência adoptou as soluções em moda nas escolas técnicas francesas.


Curso de anatomia na Queen's

Estudantes de anatomia da Queen's University, Canadá, fotografados em 1865. Cerca de 20 anos mais tarde, e à semelhança das universidades anglo-saxónicas, Queen's registará fotograficamente as suas primeiras alunas com o traje académico convencional.

Fonte: arquivo da Queen's Univertsity, http://alumnireview.queensu.ca/.


Uma aula renascentista
Uma aula com lente na cátedra e estudantes, gravura publicada em anexo aos "Comentários de Bártolo", em Lyon, no ano de 1523.

Uma aula de anatomia
Gravura alusiva a uma aula de anatomia na Universidade de Paris, ca. 1505, com o mestre na cátedra, estudantes e mesa de autópsias localizada no centro do teatro anatómico.

Mestre e estudantes
Representação de uma aula com o mestre sentado na cátedra, livros e estudantes.
Gravura de inícios do século XVI.

Quarta-feira, 4 de Março de 2009


Primitivo grande uniforme do Instituto de França

Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2009


Chapéus imperiais
Exemplares de Verão e de Inverno usados pelos imperadores da China até aos alvores do século XX.
Chapéu de Verão dos antigos imperadores da China
O trabalho de ornamentação da copa, baseado na aplicação de ampla borla de fios de seda, a copa circular falsa e o florão de aparato levam-nos a questionar até que ponto o barrete doutoral da Universidade de Coimbra não foi influenciado pelo conhecimento da chapelaria oriental dos aristocratas e altos dignitários de estado.


Barrete de mandarim

A estrutura preta do chapéu nada tem de extraordinário, com a sua copa calótica e a aba revirada, a lembrar os barretes dos bispos da Etiópia e Roménia, e até os chapelinhos oitocentistas de feltro que as mulheres portuguesas da faixa atlântica usavam enfeitados com pompons e plumas. Porém, o florão e a ampla borla de seda carmesim permitem estabelecer comparações com o trabalho artesanal desenvolvido pelas bordadeiras de Coimbra na confecção das insígnias doutorais.

Grupo de judeus numa xilogravura de 1483 com chapéus cónicos rematados por florões ou pegas, costume que em Portugal prevaleceria nos barretes da Universidade de Coimbra.

Imperador chinês
Imperador da China em 1667, com traje de cerimónia, murça e chapéu cónico rematado em florão.

Diplomata do Sião
Traje de gala documentado em 1749.

Diplomata chinês
Embaixador da China em 1749 com traje de gala, arco, adaga e chapéu ornado de borla e franja.
Lama
Lama da Mongólia com chapéu cónico rematado por borla de seda. Este tipo de cobertura de cabeça ocorre em gravuras europeias alusivas a judeus do século XV. Dele se conhecem derivados na China, Coreia e Filipinas (Manila).

Mandarim
Traje de gala de Inverno usado por um mandarim em 1700. O adorno de ombros e o chapéu com florão e borla de seda a toda a volta da copa remetem inevitavelmente para uma situação de semelhança no mundo ocidental: o conjunto artesanal surgido espontaneamente nas oficinas de passamanaria de Coimbra pela segunda metade do século XVIII, conhecido por borla e capelo.

Principe da Moldávia
Hábito talar de cerimónia e chapéu de aparato usado pelo Princípe da Moldávia numa deslocação à corte otomana (Biblioteca de Nova Iorque, gravura de ca. 1808-1826). Comparados com a bizarraria e aparato exibitório das coberturas de cabeça do Império Otomano, as borlas dos doutores conimbricenses e os galeros dos cardeais romanos parecem algo humildes.

Embaixadores
Comitiva diplomática do Burma/Tibete em Calcutá no ano de 1896 (Biblioteca de Nova Iorque). Os seis dignitários exibem coberturas de cabeça e de ombros marcadas pela linguagem do ostentatório, cujas parecenças com as insígnias rocaille da Universidade de Coimbra são indesmentíveis.

Dignitários afegãos
A gravura de 1843, do acervo da Biblioteca de Nova York, regista um grupo de quatro oficiais do governo do Afeganistão. Além do hábito talar duplo, são dignos de reparo os chapéus de aparato, exibidos por diversas civilizações asiáticas.

Retrato de Abaroska
Representação de vulto de Kristof Abaroska, realizado em 1622. Nesta imagem, obtida a partir de uma recolha alusiva a trajes militares da Polónia e Lituânia para os anos de 1633-1683, salientam-se dois traços curiosos: vestes talares masculinas de corpos duplos, confeccionadas em tecidos de luxo, que no essencial reproduzem o estilo cortesão praticado no Império Otomano; vestes talares de corpos duplos ou sobrepostos que apresentam profundas semelhanças com vestes usadas em Itália, Portugal, Espanha e Grã-Bretanha por dignitários religiosos, judiciais e académicos.

Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2009


João Meira
Retrato a óleo do médico João de Monteiro Meira, da autoria de Abel Cardoso. Meira formou-se na Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1907, ostentando a toga preta talar com os alamares de estilo portuense e o barrete oitavado. Este chapéu, distinto da solução adoptada pelas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e de São Salvador da Bahia (modelos troncónicos próximos da chapelaria ortodoxa russa), segue a tipologia consagrada pelos juristas e professores espanhóis e advogados portugueses.
Fonte: Sociedade Martins Sarmento/Guimarães, http://sarmento.weblog.com/pt/arquivo/2006/01/index.html
São Cosme e São Damião
Fresco da autoria de Juan Ibánez no santuário de Santa Eulália de Mérida, datado da primeira metade do século XVII.
Desde a Idade Média era habitual os artistas europeus representarem estes dois santos orientais como doutores de Medicina. O presente exercício pictórico confirma a tradição, com Cosme e Damião figurados com lobas talares duplas, barretes quadrangulares e num dos casos uma murça.

Estudantes chineses de primeiras letras
Postal ilustrado francês de ca. 1903, colecção do Museo Internacional del Estudiante.

Escola chinesa

Letrados chineses
Fotografia da primeira metade do século XX.

Estudante da Pérsia com traje tradicional e mitra. Gravura oitocentista.
(acervo da Biblioteca de Nova York)

Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009


Trajes de luto
Imagens francesas de 1683, representam situações masculinas de luto pesado e de luto aliviado. A gravura A corresponde ao traje usado em Portugal pelos vereadores municipais e funcionários da Universidade de Coimbra nas exéquias solenes e cerimónia da quebra dos escudos reais: mantéu talar preto, chapeirão e fumos pretos até à meia perna. No segundo caso, prescinde-se da capa e o fumo reduz-se a uma discreta fita presa no chapéu, esta a fazer lembrar a braçadeira de luto usada no século XX.

Traje de gala de vereador à portuguesa
"Vestido" ou traje de gala dos vereadores municipais portugueses comum à metrópole e antigos territórios ultramarinos. Existem fixações iconográficas conhecidas para Coimbra e Funchal.
Representação tomada no Rio de Janeiro por Jean-Baptiste Debret (1768-1848) durante a governação de D. João VI.
São bem notórias as influências do estilo império, dimanadas da corte napoleónica, nomeadamente o sapato de couro raso com a sua fivela de ouro ou prata, o colete curto bordado e a casaca preta burguesa de abas de grilo. Os elementos vestimentários mais genuinos são a vara de madeira sulcada de aneis e encimada pelo brasão real, a capa preta forrada de cetim branco, a espada pendente da cintura e o chapéu de aba revirada e copa adornada de plumas brancas.
Em versão mais luxuosa, a capa de vereador ou grande oficial tinha as duas estolas dianteiras e a gola bordadas a ouro. O chapéu podia ser confeccionado em feltro ou em cartão forrado de cetim preto, conforme vimos num exemplar da Câmara Municipal de Coimbra que ainda sobrevivia na década de 1980.
Este traje era usado em todas as cerimónias do calendário municipal, fossem elas políticas ou religiosas, e nas recepções aos chefes de estado. Nas exéquias por chefe de estado, em particular na extraordinária encenação pública que era a cerimónia da quebra dos escudos, era de tradição usarem-se varas integralmente pintadas de preto, capas pretas e chapeirões de abas descaídas, com fitas pendentes desde a copa até meio da perna (luto pesado).

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Figura com capa e cesto
Registo oitocentista de homem peruano com traje talar, capa, cesto e chapeirão, onde a influência eclesiástica parece marcante.
(gravura da Biblioteca de Nova York)

Traje registado no Peru
Notável recolha oitocentista assinalada no Peru, documenta a sobreviência da antiga loba académica e barrete de picos dos doutores de Salamanca, conjunto que fora abolido pelo governo central de Madrid em 1850. A cobrir os ombros, uma beca azul, que nas universidades de Coimbra e Salamanca se usava com o vértice lançado sobre o peito (nos alvores do século XX ainda era usada em seminários católicos espanhóis, Seminário de Viseu, Colégio dos Inglesinhos em Lisboa e até por advogados).
[gravura da Biblioteca de Nova York]

Traje peruano
Indumentária masculina monástica, ou de influência religiosa, assinalada no Peru no século XIX.
(acervo da Biblioteca de Nova York)

Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009


Lentes em Lisboa
Em Maio de 1908 deslocaram-se a Lisboa estudantes monárquicos e lentes da Universidade de Coimbra que foram apresentar felicitações ao novo rei D. Manuel II. A embaixada académica originou protestos nas facções republicanas radicadas em Coimbra e conflitos nas ruas de Lisboa, o que não evitou o acesso da comitiva ao paço das Necessidades.
Nesta fotografia de Alberto Carlos Lima, pertencente ao acervo do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa (cliché LIM000155), vislumbram-se dois lentes de Direito com insígnias doutorais vermelhas e pequeno hábito (capa singela, casaca e calça comprida), e um lente da Faculdade de Teologia com capa de gala, batina talar romana, cabeção e volta, sapatos pretos de laço, calções e meias altas e insígnias de cor branca. É uma das derradeiras fixações da riqueza e variedade dos antigos hábitos da UC. No caso específico do lente de Teologia chama-se a atenção para o uso da seda preta, padrão de tecido obrigatoriamente empregue na confecção do hábito de gala dos doutores conimbricenses, cuja memória se perderia no após 1910.

Parada
Cortejo público realizado em Lisboa, em data não identificada, posterior a 1918 e anterior a 1930.
Na linha da frente, entre trajes civis masculinos de época (casaca e cartola), avistam-se um bispo, um docente com toga talar preta herdada da Escola Médico-Cirúrgica e borla (reitor da Univ. de Lisboa?), e um lente de Direito (Faculdade de Direito de Lisboa?) com o traje e as insígnias de modelo conimbricense. Poderá tratar-se de uma abertura do ano escolar na década de 1920.
(Cliché ACU0001864 do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa)

Alunos do Colégio D. Pedro II
Brasil, 1855: os alunos do Colégio D. Pedro II seguem os regulamentos internos de colégios privados franceses e germânicos, tornando obrigatória uma farda à base de calça comprida, casaco curto e boné de pala, cobertura de cabeça semelhante ao figurino em processo de afirmação nas escolas superiores escandinavas e germânicas.

Estudante galante
Reciclagem de uma gravura de ca.1800, com o título "guarda-chuva do estudante galante", publicada na obra "L'Art des artifices de la beauté", Paris, 1902. Estudante francês da época napoleónica com vestário civil. Este tipo de bicórnio de feltro preto viria a ser adoptado pelos tunos espanhóis.

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009


A apropriação cinematográfica de Fausto
Cartaz fílmico ilustrado em língua alemã.

Fausto e "Mephisto"
Representação de Fausto
Gravura integrada numa edição espanhola de 1920 existente na Biblioteca Nacional de Madrid.

O estudante Fausto e o Diabo numa gravura de ca. 1850.
O escolar Fausto e o Diabo
Gravura do pintor Eugène Delacroix (1798-1863), integrada numa edição de 1828 da obra do poeta Goethe.

Fausto
Xilografia quinhentista alusiva ao estudante germânico Johan Faust (ca. 1480-1539.

Sábado, 24 de Janeiro de 2009


Peças de uma "ropa"
Esquema de corte e peças medidas em varas castelhanas (1v=85cm) de uma "ropa de letrado", de acordo com Juan de Alcega, "Libro de geometria, pratica y traça", Madrid, 1589, cuja configuração é bastante próxima do gabão.

Veste de letrado
"Ropa" ou gabão de letrado, desenho reconstitutivo a partir das peças desenhadas por Juan de Alcega em 1589.

Funeral de Isabel I
Indumentária oficial de luto do Rei de Armas William Segar no cortejo fúnebre da Rainha Isabel I de Inglaterra, em 1603. Nesta e noutras gravuras do acervo da Biblioteca Britânica alusivas ao funeral de estado, diversos oficiais envergam uma veste talar do tipo gabão com o capuz lançado pela cabeça.

Estudantes com gabão
O gabão, vareiro ou varino, é uma veste masculina amplamente usada na Europa desde a Idade Média. No século XVI era envergado por letrados ibéricos e em cerimónias fúnebres, com o longo capuz deitado pela cabeça.
Em Portugal, o gabão comprido, munido de mangas, romeira e capuz, usou-se em quase toda a faixa altlântica até depois da Grande Guerra de 1914-1918. Nas comunidades piscatórias da Póvoa de Varzim, Aveiro, Ílhavo e Nazaré, apresentava pequenas variantes, sendo habitualmente confeccionado com panos de lã castanha. Versões mais ricas, em lã preta, com pespontos e alamares, ocorriam na Murtosa, Aveiro, Coimbra e Lisboa.
Nos inícios do século XX, os "gabões de Aveiro" eram confeccionados em série pela Casa das Tesouras, localizada nos números 51 a 55 da Rua da Escola Politécnica em Lisboa, conforme anunciava um bilhete postal ilustrado da época (Cf. "A publicidade em Portugal através do bilhete postal ilustrado", Ecosoluções, 1998, p. 56). Foi com um gabão ou varino típico da Beira Litoral, veste apenas acessível a pessoas de posses, que um dos regicidas investiu sobre a família real em Fevereiro de 1908.
Diversas acções culturais foram desencadeadas desde finais do século XX para revitalizar o gabão:
a) adopção como traje académico unissexo pelos alunos da Universidade de Aveiro, em preto, que o usam sobre fato civil de tipo high school;
b) adopção como traje institucional de grupos vocacionados para o estudo, consumo e divulgação da gastronomia regional portuguesa: Confraria Gastronómica de São Gonçalo (Aveiro, castanho), Confraria Gastronómica do Bacalhau (Ílhavo), Confraria dos Gastrónomos do Minho, Confraria O Moliceiro (Murtosa, em preto), e Confraria dos Nabos e Companhia (Carapelhos);
c) reconstituição, divulgação e musealização por diversos grupos folclóricos activos na Póvoa de Varzim, Murtosa, Aveiro, Ílhavo, Águeda, Coimbra e Nazaré.
Imagem extraída do endereço http://conselhosalgado.web.ua.pt/salina4htm.

Estudantes de Saragoça
Turma de alunos do curso preparatório de Direito e Letras, Zaragoza, ano lectivo de 1888-1890. As coberturas de cabeça oscilam entre o boné de pala (igual ao da Escola Agrária de Coimbra) e o chapéu de coco. Sobre o fato civil, o capote marca generosa presença. Não é fácil de responder se o capote foi considerado como traje académico na Espanha de oitocentos. O traje académico histórico foi oficialmente abolido pelo governo central em 1834 e em 1849 o governo promulgou medidas que instigavam os alunos a frequentarem as aulas em casaca burguesa preta, cartola e certamente capote. Assumido por diversas gerações académicas, e em diferentes universidades e seminários católicos, o capote nunca chegou a usar-se de forma generalizada, nunca foi internamente reconhecido pelas reitorias e nunca ocupou qualquer espaço no imaginário das tunas académicas espanholas. No presente, a memória deste traje parece ter-se esvaído.
Fotografia do acervo do Museo Internacional del Estudiante.

Colegiais em Salamanca
Fotografia de 1889, do acervo do Museo Internacional del Estudiante, fixa alguns alunos com capote escuro e sombreiro de feltro de tipo equitação. Este chapéu, praticamente idêntico ao português de equitação, é conhecido no sul de espanha pelas designações de "cordobés", "sevillano" e "mazzantini". Em Portugal foi adoptado pelos alunos da Escola Superior Agrária de Santarém, que o usam com versões masculina e feminina do traje de equitação. O docente veste uma toga com apliques de veludo e folho de ombros, ornato que se aproxima da beca portuguesa. O barrete hexagonal é idêntico ao usado pelos advogados espanhóis.

Alunos de Vich
Seminaristas de Vich, Espanha, com fato preto, cartola e capote. Fotografia de 1947 recolhida e divulgada pelo Museo Internacional del Estudiante. De salientar as semelhanças entre esta cartola de feltro e o modelo conimbricense tradicionalmente exibido em cortejos alegóricos de Queima de Fitas, que praticamente desapareceu desde 1969. A cartola que se usa de forma generalizada em Coimbra desde 1980 é de tipo portuense, de ilharga baixa, forrada de tecido e com aba arqueada. As cartolas de fábrica artesanal local eram altas, forradas de papel de lustro e com aba de saturno (plana), sendo ainda mais altas e forradas de preto as dos alunos veteranos.

Alunos de Vich
Estudantes do Seminário de Vich, Espanha, com capote castanho e cartola. Pintura de Julio Moisés, divulgada pelo Museo Internacional del Estudiante.
Capote masculino
O capote integrou a indumentária urbana dos burgueses ocidentais entre finais do século XVIII e os inícios do século XX. Intimanente associado à toilette masculina oitocentista, e não raro completado por acessórios como as luvas, a bengala e a cartola, seria apropriado pela indústria de entretenimento para a composição de certos heróis popularizados como Drácula da versão hollywoodesca.
Não sendo originariamente um trajo académico, em Espanha o capote e cartola foram usados por estudantes universitários e seminaristas de Vich. Em Portugal, nos finais do século XX, o capote seria alvo de revitalização por estudantes e confrarias gastronómicas.
Exemplos de revitalização do património vestimentário, enquadráveis nas orientações internacionais propaladas pela Unesco e pelo ICCROM:
a) adopção como traje estudantil politécnico português, com experiências positivas em Beja, Portalegre e Bragança;
b) adopção, seguida de ampla divulgação na internet e em encontros periódicos, pelas Confraria Gastronómica da Panela ao Lume (Guimarães) e Confraria do Queijo da Serra da Estrela (Oliveira do Hospital).

Capote e cartola
Indumentária masculina urbana europeia do primeiro quartel do século XIX. A casaca preta à francesa tende a generalizar-se após a Revolução de 1789 em cidades como Paris, Londres e Nova York. Associada a esta indumentária masculina, generalizam-se a cartola de feltro preta e o capote, aqui com romeira, gola de pelo e alamares, mas sem mangas.
Em Portugal, o capote teve larga generalização nos meios rurais e urbanos. Na versão lisboeta, muito usada por mulheres, tinha mangas incorporadas e era conhecido por "josezinho". No Alentejo, originou uma variante rica, com dupla romeira (capote alentejano). Escritores, literatos e políticos como Alexandre Herculano, António Feliciano de Castilho, Almeida Garrett e José Estêvão usaram-no com gola de pelo e mangas. Na Ilha do Pico ou na aldeia de Rio de Onor assumia ares de capa de lã com romeira a descer aos cotovelos.
O capote de mangas e romeira não é propriamente muito antigo, derivando dos agasalhos militares do exército napoleónico. Por vezes aparece confundido com o gabão ou varino, peça de vestuário masculina oriunda da Idade Média usada nos funerais régios europeus, letrados ibéricos ("ropa") e gentes de posses, que em Portugal chegou ao primeiro quartel do século XX.

Rebuço de São Paulo
As mulheres da cidade de São Paulo, Brasil, usaram rebuço e manto ao longo do Antigo Regime, com sobrevivências desta indumentária assinaladas nas décadas de 1820-1830. À semelhança de Portugal continental, os rebuços, biocos e máscaras eram mal vistos pelas autoridades. Sem qualquer sucesso, o Princípe Regente D. João VI derminou a probição do uso desta veste em 30 de Agosto de 1810, medida retomada pelo governador civil do Algarve em 1892.
-http://www.fotoplus.com/dph/info17/i-manu.htm.

Bioco
Mulheres de Olhão, Algarve, com o antigo manto e bioco. Neste caso, a veste que cobre o corpo e ombros é uma espécie de capote com generosa romeira. Os biocos, cocas e rebuços foram alvo de desconfiança por parte das autoridades, em Portugal e no Brasil. Se os mantos, mantéus, capotes e mantilhas podiam acobertar pistolões, porros e mocas, a ocultação do rosto remetia para a delinquência clandestina. Daí que em 1810 D. João VI tenha proibido, sem sucesso, as damas de S. Paulo de usarem rebuço e mantilha. Daí que o governador civil de Faro, em 1892, tenha decretado a interdição do bioco e manto das algarvias, pelos vistos sem grande sucesso.
No caso dos estudantes de Coimbra, diversos alvarás e editais procuraram combater, sempre com escassos resultados, as máscaras e os rebuços. Com efeito, até bem entradote o século XIX, os escolares conimbricenses mantiveram o apego ao uso de máscaras fora da quadra carnavalesca. Entre os utentes pacíficos, havia sempre algum que incomodava as autoridades, pois que a coberto de máscara ou mascarilha proferia insultos e zurzia costados de populares. Mais temidos e detestados pelas autoridades eram uma tipologia de antigos mantéus estudantis, que em vez de estolas e cordão comportavam uma romeira em torno dos ombros. Em noites de frio, chuva e morrinha, o mantéu de romeira era o preferido dos escolares aventureiros que lançavam a dita peça pela cabeça, ficando inteiramente embuçados. E a coberto do rebuço, a violência não raro recrudescia. Em épocas mais recuadas, pelo século XVI, inícios do XVII, escolares houve que usaram mantéu com romeira e capuz, de remate semelhante ao gabão da Beira Litoral. Em bom rigor tratava-se de uma veste própria para luto, mas havia quem a envergasse no quotidiano e dela tirasse proveito para distribuir cacetada e pilhar capoeiras. Reminiscências deste passado brumoso e turbulento, na década de 1980 ainda se avistavam pela Alta de Coimbra em dias de "chuva futrica" estudantes com a capa deitada pela cabeça. O efeito visual era bizarro, lembrando justamente o bioco das olhanenses.
-http://www.olhao.web.pt/usos.htm;
-http://trajesdeportugal.blogspot.com/.

Capote e capelo
Mulher da cidade da Horta, Ilha do Faial, numa saída de missa em 1948 com o capote e capelo. Este modelo, com pequenas variantes (caso da Ilha de S. Miguel) foi usado em quase todas as ilhas desde o século XVI a ca. 1950. Entre 1948-1950, aproximadamente, foi derradeiramente avistado em dias de missa na Igreja de Santa Maria Madalena e na Igreja de São João Baptista da Ilha do Pico, território onde o gosto feminino terá favorecido o azul ferrete. O capote era confeccionado em lã ou merino, em tons de preto e de azul ferrete. Nas ilhas do Pico e Faial, a toda a volta do colarinho, o capote exibia um cabeção que caía em bico pelo dorso. Na Ilha de São Miguel, o capelo, também entretelado com cartão e armado com arames ou barbas de baleia, era ligeiramente diferente e independente do capote, na medida em que a ele estava fixado por colchetes e podia guardar-se no arquibanco doméstico em separado.
O capote e capelo avistado na cidade da Horta dera que falar em 1888, data em que dele saiu em Lisboa uma litografia de Manuel Macedo integrada no Álbum de Costumes Portugueses. O título da crónica anexa, assinada por Filaho de Almeida, é incorrecto e inapropriado ("O capuz-Trajo do Faial"). O cronista não se mostra nada compreensivo com este bizarro traje que considera herança das mulheres islâmicas e símbolo de estagnação cultural. Ainda assim, e esta é a parte mais aproveitável da crónica, informa que em 1888 trajes da mesma família ainda eram avistados em diversas localidades de Espanha, Beira Litoral, Beira Baixa, Algarve, Covilhã, Braga, paróquias de Trás-os-Montes e em Cernache do Bonjardim.

Coca e mantilha
Reconstituição da extinta coca e mantilha que se usou na cidade de Coimbra durante o Antigo Regime. Projecto e fotografia do Grupo Folclórico de Coimbra.

Coca e mantilha
Mulher da cidade de Coimbra com bioco e mantilha, num registo de 1814 por H. l'Éveque.

Mulher da Beira
Beirã com capote e coca. Nesta versão, que parece reportar-se à Região da Beira Baixa, a indumentária fixada não é exactamente a clássica coca e mantilha. O remate dianteiro do capelo aproxima-se do antigo bioco das mulheres do Algarve, de soluções usuais nas chamadas saias de ombros e em variantes da mantilha e coca avistadas em Portalegre e na Ilha Terceira. Um conjunto de três fotografias captadas no ano de 1944 em Fratel, Vila Velha de Ródão (José Leite de Vasconcelos, "Etnografia", VI, 1983, p. 508) parece confirmar a origem desta recolha. Admitimos que este modelo fosse conhecido noutros povoados da Beira, à semelhança da coca de arco e mantilha/manto que se usou em locais tão distantes como Viana do Castelo, Porto, Monsanto e Angra do Heroísmo.
(gavura publicada na "Cyclopaedia of useful knowledge", integra o acervo da Biblioteca Pública de Nova York)

Flamenga com mantilha
Mulher da Flandres com coca e mantilha (manto). Gravura oitocentista ("Costumes anciens et modernes", 1859-1860) do avervo da Biblioteca Pública de Nova York, baseada em documento do século XVI. Neste caso, a mantilha e a coca apresentam forro claro, distinto do panejamento exterior. A coca, ou calote entretelada, é gigantesca, remantando em bico (conforme a variante de Coimbra), e estreitado na direcção dos braços.
Holandesa com mantilha
Gravura divulgada na obra "Costumes anciens et modernes", 1859-1860, actualmente integrada no acervo da Biblioteca de Nova York, representa uma mulher dos Países-Baixos no século XVI. O traje não teria nada de extraordinário, não fora o estarmos em presença da mesma veste que se usou em diversas regiões de Portugal até aos séculos XIX-XX. Em Coimbra, era conhecida por "coca e mantilha", em Monsanto da Beira-Baixa por "mantilha" e na Ilha Terceira por "manto". O manto ou mantilha era quase sempre em tecidos pretos ou azuis escuros, sendo a coca armada sobre cartão e aros de barba de baleia (Açores). A coca podia ser em forma de concha ou abrir sobre a testa com um bico que a dama repuxava com a mão para cobrir ou embiocar o rosto. O manto podia cair a direito, como as capas e capotes, ou ser ajustado na cintura, como acontecia na Ilha Terceira. Nos Açores, entre 1958-1950 avistaram-se e fotografaram-se os derradeiros mantos e capelos em dias de ver-a-Deus.
Reitor de Pádua
Desenho reconstitutivo de um reitor da Universidade de Pádua no século XVI, aqui com veste civil à base de calções de entretalhos, gibão, gorgeira de canudos, toga de brocado e barrete de cantos ("Costumes anciens et modernes", 1859-1860, acervo da Biblioteca de Nova York).

Doutor italiano
Reconstituição de um doutor da Lombardia, Itália, século XVI, presente na obra "Costumes anciens et modernes", 1859-1860 (Biblioteca de Nova York). Enverga toga talar forrada de pelo, com as mangas talhadas segundo a moda usal nos pelotes. Este tipo de toga manteve-se em uso como agasalho de Inverno entre os eclesiásticos polacos pelo menos até à década de 1960. Existem fotografias que mostram o futuro papa João Paulo II com um derivado, de tipo viatório, forrado de pelo. O emprego de pelo nos forros e orlas das vestes masculinas era muito comum em Itália, Rússia, Alemanha, Suiça e Grã-Bretanha. Neste último país, as togas profissionais dos presidentes de câmara continham a manter os antigos debruns.

Jurista
Advogado ou doutor em Direito, Itália, século XVI, com gorra e toga talar de brocado. Reconsituição oitocentista in "Costumes anciens et modernes", 1859-1860, integra o acervo da Biblioteca Pública (Digital) de Nova York.

Escolar chinês
Figuração de um estudante chinês com túnica tradicional e chapéu cónico de franjas de seda e borla superior. Gravura impressa na obra de Gérard Edlinck, "Nouveau mémoires sur l'État present en Chine", 1701, integra as colecções da Biblioteca Pública (Digital) de Nova York.

Domingo, 18 de Janeiro de 2009


GC & SC (1)

GC & SC (2)
As fotografias GC & SC 1 e 2, do acervo do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, documentam a cerimónia de atribuição do grau de doutor honoris causa ao Contra-Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959), e ao Capitão de Mar-e-Guerra Artur Sacadura Freire Cabral (1880-1924), pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa no dia 6 de Maio de 1922.
Um apontamento de reportagem foi publicado nas páginas da revista Ilustração Portuguesa, de 2/12/1922. A cerimónia parece ter decorrido no edifício da Academia Politécnica. Entre os convidados ilustres figura o Presidente António José de Almeida. O orador está identificado como sendo o Prof. Eduardo Ismael dos Santos Andréa (1879-1937), que enverga hábito talar e insígnias de matriz coimbrã. Parece advinhar-se uma adaptação simplificada do cerimonial conimbricense.
A sagração universitária dos heróis militares fora lançada no final da Grande Guerra pelas universidades Católica de Louvaina (Clemenceau, Foch, Wilson) e Paris (Wilson) nos anos de 1918-1919. Em 1922 celebrava-se o centenário da independência do Brasil, ano em que os aviadores GC e SC se afadigaram na proeza de ligação aérea Lisboa/Rio de Janeiro. A viagem, testada entre 30 de Março e 17 de Junho desse ano, foi acompanhada pela imprensa e alimentada pela propaganda política da época. Considerados heróis nacionais, celebrados na iconografia, toponímica e escultura um pouco por todo o Portugal, GC e SC foram proclamados doutores honoris causa em Ciências pela Universidade de Lisboa. Na segunda fotografia, captada após a cerimónia, entrevê-se um passo do cortejo, com dados bem curiosos: os dois laureados ostentam as insígnias de cor azul celeste, nacionalizadas em 1918, sobre os respectivos uniformes militares, em reprodução da situação protagnizada no ano anterior no Porto e em Coimbra pelos heróis das potências aliadas. Na vanguarda avistam-se dois docentes com a toga preta talar herdada da Médico-Cirúrgica, ambos com lacinho branco e fita peitoral. O passeio, aparentemente insólito, remete para o clássico triunfo dos generais romanos, que em Coimbra continua a constituir um momento alto do cerimonial.
Ainda no mesmo ano, a 24 de Outubro, a Faculdade Técnica da Universidade do Porto (=Engenharia) mimoseou GC e SC com idêntica cerimónia. Presume-se que ambos tenham comparecido com as respectivas fardas militares. Quanto às insígnias, é possível que tenham recebido borla e capelo naquilo que poderá ter sido um dos primeiros momentos de visibilidade cromática do castanho-tijolo de engenharia. A ter sido assim, valeria a pena descortinar as origens e fundamentação desta cor e, concomitantemente, averiguar se as insígnias foram confeccionadas localmente.

Sábado, 17 de Janeiro de 2009

Honoris dos heróis aliados
Universidade de Coimbra, escadório da Via Latina, 15 de Abril de 1921: primeiro doutoramento honoris causa concedido pela UC a vultos eminentes exteriores ao seu corpo docente. À saída da cerimónia avistam-se o Generalíssimo de Itália Armando Diáz, o General britânico Horace Dorrien, e o Marechal de França Joseph Joffre. Embora pareçam ser as insígnias de cor azul celeste da Faculdade de Ciências (cor inventada a partir de 1911, cuja fundamentação se desconhece), na realidade as borlas e capelos são em azul claro e branco, cores da Secção de Matemática da Faculdade de Ciências que remontavam à reforma pombalina de 1772.
O registo fotográfico deste evento que levou a Coimbra altos dignitários, políticos e jornalistas, não é minimanente satisfatório. Conhecia-se uma fotografia de má qualidade impressa nas páginas da Ilustração Portuguesa, II Série, nº 793, de 30 de Abril de 1921, p. 278, que mostrava Joffre nas escadarias da Via Latina, desbarretado, com o capelo sobre a farda militar, e diversos lentes e archeiros em grande uniforme mas com a cabeça descoberta.
O Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa divulgou a imagem acima representada, em tudo superior à da Ilustração Portuguesa, mas insuficientemente legendada. Com efeito, o entusiasmo gerado em torno dos heróis militares aliados no rescaldo da Grande Guerra não deixou indiferentes os meios universitários europeus. Em 1918, a Universidade Católica de Louvaina concedeu o doutoramento honoris causa a Clemenceau e a Foch, e em 1919 ao Presidente dos EUA Woodrow Wilson. O mesmo Wilson foi recebido na Universidade de Paris e proclamado doutor honoris causa pela Faculdade de Direito em 2 de Julho de 1918. Conforme relatam o Le Journal, de 2/07/1918, e o New York Times, de 3/07/1918, durante a cerimónia de homenagem a Wilson foi lida uma mensagem assinada por 600 docentes de Direito de países como a França, a Inglaterra, Portugal, Bélgica, Sérvia, Roménia, Japão e Rússia. Com esta cerimónia a Universidade de Paris concedia o seu primeiro honoris causa, enquanto que a Católica de Louvaina se limitava a repetir uma tradição praticada desde 1874.
Em Portugal, a Universidade do Porto não foi imune ao movimento de sacralização dos heróis das potências aliadas. A Faculdade de Ciências atribuiu o honoris causa a Joffre no dia 6 de Abril de 1921, seguindo-se idêntica cerimónia para Diáz e Dorrien no dia 11 de Abril. Seria interessante aceder a descrições e eventuais fotografias destas cerimónias, que terão sido forçosamente relatadas pela imprensa periódica portuense, para se confirmar se os candidatos se apresentaram com fardas militares e se receberam borla e capelo em azul claro. É possível que estas insígnias tenham sido encomendadas e adquiridas em oficina de passamanaria coimbrã, mas também será de admitir que a confecção tenha ocorrido na casa de artigos funerários que hoje em dia ainda manufactura esta obra prima do património simbólico-imaterial conimbricense, uma vez que o Decreto nº 4:554, de 6 de Julho de 1918, impusera a nacionalização das insígnias doutorais de matriz conimbricense.
A vinda dos militares aliados a Portugal gerou uma onda de frenesim em Coimbra. Na sua edição de 5 de Abril de 1921, a Gazeta de Coimbra reportava que o Reitor Interino Oliveira Guimarães oficiara ao Ministro da Guerra que pretendia acolher Joffre na Casa Reitoral e prestar-lhe as máximas homenagens. O Senado preparava-se para reunir e deliberar o programa de recepção. Na edição de 7 de Abril de 1921, o jornal referido precisava que o Instituto de Coimbra ofertaria a Joffre o seu grande colar. Em sessão realizada no dia 6, o Senado da UC deliberou atribuir o doutoramento honoris causa a Joffre pela Secção de Matemática da Faculdade de Ciências. O comissário da cerimónia seria o Director da Faculdade, Souto Rodrigues. A 6, o Reitor Interino deslocou-se a Lisboa para negociar os pormenores do programa com o Ministro da Guerra.
Ainda não se falava nos nomes de Diáz e de Dorrien, precisando-se apenas que Joffre viria do Porto para Coimbra no dia 15. Ficou acordado que Joffre seria recebido pela UC na Estação Nova e levado em cortejo até à Câmara Municipal, e dali para o Paço das Escolas. A comissão propunha ainda um almoço no Buçaco e um sarau de gala no Teatro Avenida.
No dia 9 de Abril, terceiro aniversário da Batalha de La Lys, decorreu no Mosteiro da Batalha uma sessão de homenagem ao soldado desconhecido, a que estiveram presentes o Reitor Interino, os Directores das Faculdades e o Secretário-Geral da UC em hábito talar e insígnias. Marcavam presença no Mosteiro da Batalha Dorrien e Diáz e respectivas legações diplomáticas, tendo ficado decidido que estes se juntariam a Joffre na laurea honoris causa.
A Gazeta de Coimbra, de 9 de Abril de 1921, dava conta que o Reitor Interino estabelecera um acordo com o Director da Faculdade de Ciências quanto ao cerimonial a seguir. No essencial recuperava-se o cerimonial clássico, actualizado pelo "regulamento" de 1916, mas abandonando os ritos católicos. No leque das novidades, o Director da Faculdade outorgante passava a substituir o Decano e o graduando receberia o grau de pé. Situação não autorizada pela tradição, mas certamente inspirada pela conjuntura político-militar e pelo gesto ensaiado pelo Presidente Sidónio Pais na sua visita de 1918, a UC aceitava realizar a cerimónia com o(s) candidato(s) em uniforme militar.
A UC comprometia-se ainda a assumir as despesas com as insígnias (anéis, borlas e capelos). Do elogio seria incumbido o mais novo doutor da Faculdade de Ciências, Diogo Pacheco de Amorim. Prosseguindo o acompanhamento dos momentos que antecederam o evento, a Gazeta de Coimbra, de 12 de Abril de 1921, confirmava a presença dos três militares aliados para o dia 15. Em 16 de Abril de 1921, a Gazeta de Coimbra relatava jubilosamente os acontecimentos ocorridos no dia anterior, uma sexta-feira, recorrendo ao título "Uma data gloriosa. A visita dos representantes das Nações Aliadas a Coimbra". Notícia mais pormenorizada teria lugar dias mais tarde, na edição de 28 de Abril de 1921 ("A chegada dos ministros. Na Câmara e na Universidade").
Os militares aliados, a comitiva governamental e o corpo diplomático, estando o Presidente da República António José de Almeida representado pelo Ministro da Marinha (apresentante dos laureados), foram recebidos na Estação Nova pela UC em hábito talar e insígnias pelo modo tradicional. Dos Paços do Concelho, o préstito seguiu para o Paço das Escolas. À Porta Férrea, Reitor Interino e Charamela destacaram-se e saudaram os convidados. A charamela interpretou os hinos nacionais de Portugal, Itália, França e Inglaterra. A entrada foi marcada por repiques festivos no sino. Seguiu-se um banquete de gala num dos salões da Casa Reitoral, com as convencionais libações e, após este, pelas 15 horas, a cerimónia honoris causa.
Formou-se préstito no Pátio das Escolas, vendo-se os archeiros, a charamela, os lentes, os bedeis, os contínuos, o mestre-de-cerimónias e o guarda-mor, cada qual com seus trajes e insígnias. Sinais de flutação protocolar, o Reitor Interino proferiu o discurso de saudação no início da função, quando o cerimonial dispunha expressamente que perante chefes de estado e altos dignitários a oração de recebimento fosse dita pelo Decano na cátedra, e a banda da GNR que estava na Sala dos Actos tocou "A Portuguesa". Pacheco de Amorim louvou os três candidatos. Logo a seguir, o Director da Faculdade de Ciências elogiou em francês os heróis aliados e em representação do Reitor impôs-lhes as respectivas insígnias. Após a execução dos hinos, o silêncio seria cortado por uma revoada de aplausos e repiques de sinos.
O regime que se prestara a capturar o património simbólico da Alma Mater Conimbricense, vigiando-a e ameaçando-o com rédea curta, era o mesmo que se lançava no aproveitamento desse património, enquadrando-o nos marcos ideológico-propagandísticos do fervor patriótico, do culto dos heróis militares, e da embriaguês vivida pelas potências aliadas.
Tirando partido da vacatura do cargo reitoral por morte do Prelado Filomeno Cabral e da demora governamental na nomeação de mais um reitor da confiança do Ministério da Instrução Pública, o Reitor Interino Joaquim de Oliveira Guimarães aproveitou de forma exemplar o fervor nacionalista, o culto emergente ao soldado desconhecido e o triunfo aliado. No momento em que convergiam para Coimbra os heróis aliados, suas comitivas diplomáticas e imprensa internacional, a UC não se limitava a ser governada por decreto e telegrama ministerial. Lambia as feridas das prepotências praticadas pelo reitor Joaquim Coelho de Carvalho (1919) e das arbitrariedades cometidas pelo Ministro da Instrução Leonardo Coimbra sobre a Faculdade de Letras (1919).
Sensível ao património e à etnografia, a ideologia republicana não soube compreender nem cativar a UC. Entre 1910-1919 alimentou periodicamente focos de tensão, nalguns casos agravados por arbitrariedades dos titulares da pasta da instrução pública. A nomeação de reitores da confiança governamental constituiu um instrumento continuado de controle e repressão, numa época em que as mais banais minudências de gestão das Faculdades e Casa Reitoral eram comunicadas à administração central por ofício, telegrama e telefone.
O honoris causa dos heróis aliados, tendo polarizado um acto de homenagem em contexto de pós-guerra, foi cima de tudo um inteligente momento de gestão propagandística canalizado em proveito da reafirmação nacional e internacional da imagem da UC.
-"Doctorates Honoris Causa", http://www.uclouvain.be/en-dhc.html;
-"Honoris Causa. Coimbra", http://www.uc.pt/depacad/pedagogica/honoris_causa/ (listagem por Faculdades, incompleta, facultando informação apenas a partir de 1932);
-"Doutores Honoris Causa pela Universidade de Lisboa", http://www.ul.pt/portal/page?_pageid=173,178379&_dad=portal&_schema=PORTAL;
-http://arquivomunicipal.cm-lisboa.pt/ (cota EFC00181, de autor desconhecido).

Mulher com cap & gown
Fotografia inglesa do período eduardiano. A retratada enverga toga de seda, capelo e barrete. À semelhança dos trajes talares e profissionais da época, a bainha mantém-se quase ao nível do chão. À medida que o século XX avança, afirma-se a tendência para a subida das bainhas que nas universidades francesas e espanholas passam a ser talhadas pela meia perna.

Carolina Michaelis
Integrada no quadro da Faculdade de Letras da UC por Decreto de 21 de Junho de 1911, Carolina Michaelis de Vasconcelos apresentou-se em Coimbra no dia 19 de Janeiro de 1912, tendo sido festivamente recebida e aplaudida por estudantes e docentes. O seu nome havia conquistado fama e prestígio, sendo a primeira docente acolhida no claustro conimbricense. O Colégio de São Pedro, anexo à Reitoria, onde primeiramente funcionou a Faculdade de Letras, acolheu a sua lição inaugural.
A reforma universitária de 1911 gerou descontentamentos entre os docentes detentores do grau de doutor e os professores nomeados por decreto governamental que não possuíam tal grau. Particularmente em Coimbra, e a traduzir ecos jocosos do fenonómeno de criação governamental de "doutores", entrou em circulação na gíria académica a expressão "doutores de aviário".
Procurando matizar o escândalo e o mal-estar que atingia com maior intensidade as novas Faculdades de Letras de Coimbra e Lisboa, o Ministério da Instrução Pública sugeria, pela letra do artigo 16º da Lei nº 116, de 16 de Junho de 1916, que todas as Faculdades das Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto, pudessem conferir o grau de doutor aos seus professores ordinários com três anos de serviço efectivamente prestado, caso não possuíssem o dito grau. Esta situação era extensiva a individualidades que cada Faculdade considerasse dignas de obter tal distinção.
O diploma que vimos de citar legitimava em Portugal aquilo a que ulteriormente se convencionou chamar "doutoramento honoris causa", nada precisando quanto a insígnias e cerimonial.
Em Coimbra, aproveitou-se o hábito talar masculino de finais do liberalismo, que expurgado de qualquer ornato exterior ficou reduzido a um conjunto extremamente despojado e singelo. Por inércia ou incapacidade dos interveninentes no processo de reforma, não se debateu a questão em sentido mais global, isto é, à luz da feminilização emergente do corpo docente, nem se aproveitou nada das interessantes soluções unissexo que vinham a ser consagradas nas universidades dos EUA, França, Itália e Grã-Bretanha, bem como por advogadas.
Na Comissão do Traje e Insígnias, nomeada pelo Senado em 13 de Novembro de 1915, foram elementos decisivos o Cónego Doutor António de Vasconcelos (oriundo da extinta Fac. de Teologia), o jovem lente de Direito António Carneiro Pacheco, e o lente de Ciências Álvaro Basto (oriundo da extinta Fac. de Philosophia Natural).
Não se conhecem actas, relatórios ou outro tipo de documentos produzidos pela comissão. Sabe-se que os três elementos depreciaram a hipótese de adopção do grande uniforme militar napoleónico que havido sido a farda de gala das Escolas Médico-Cirúrgicas e que continuava em uso na Academia das Ciências de Lisboa. Por se entender que a borla e capelo conimbricenses eram únicas no seu género, propôs-se a sua mantutenção. Quanto à escolha do traje docente, a solução foi manifestamente infeliz. Não respondia às solicitações femininas, não se coadunava com a pompa e ostentatação inerante ao cerimonial e insígnias, e não respondia aos insistentes pedidos dos alunos que apelavam ao retorno da cerimónia de formatura ("cerimónia do bacharelato", segundo a imprensa de 1916).
Em tempos de 1ª República e de espírito subjacente à Grande Guerra, o hábito talar retomado não a partir do antigo traje de gala mas do pequeno uniforme de porte quotidiano adoptado em 1863 parecia agradar aos simpatizantes da causa militar na medida em que se assemelhava vagamente a um dólman, piscava o olho aos burgueses laicistas com o seu ar de casaca puritana, e não deixava totalmente de lado os católicos (na verdade, era uma versão pobre do clergyman habit ou da frock coat usada pelos capelães militares norte-americanos desde a Guerra Civil). Era uma espécie de meio termo entre o legado patrimonial e a vontade de boa vizinhança com as casacas de abas de grilo dos noivos, dos diplomatas, dos divos da ópera, dos instrumentistas de grande orquestra, dos dançarinos do Moulin Rouge/Broadway e dos prestidigitadores. Sem o saber, a UC sintonizava com as universidades da Suécia e da Finlândia, faltando apenas dar o passo em direcção à cartola. Foi o que fizeram os estudantes nos alvores da década de 1930, ainda que em contexto parodial de cortejo alegórico de Queima das Fitas.
O Reitor Norton de Matos empenhou-se seriamente na revitalização do cerimonial, traje e insígnias, sem que nesse ano de 1916 tenha conseguido retomar a Abertura Solene. Em Julho de 1916, os quintanistas de Medicina, com a conivência dos lentes da sua Faculdade, solicitaram ao Reitor a retoma da formatura, interrompida desde o Despacho ministerial de 2 de Novembro de 1910. O pedido de Medicina adquire pleno significado se tivermos em linha de conta que desde meados do século XIX os graduandos associavam ao acto solene de formatura serenatas fluviais, parada pública com pastas de luxo, filarmónica e foguetório, e apresentação de cumprimentos aos lentes, a que mais tarde se juntariam a récita e balada de despedida. Em vez de decidir ou de consultar o Senado, o Reitor, numa atitude de subserviência, consultou o Ministro da Instrução por ofício de 12 de Junho de 1916. Na opinião do Reitor Norton de Matos, que fora nomeado pelo governo, a proposta parecia contrariar o despacho ministerial de 1910, e a ser retomada carecia de reforma. A inércia institucional prevaleceu.
A Lei nº 616, de 16/06/1916, que permitia proclamar "doutores ipso facto", não foi aplicada antes de 1917. Pelo menos assim aconteceu em Coimbra. O proposto no artigo 16º daquele diploma foi expressamente regulamentado pelo Decreto nº 2:944, de 18 de Janeiro de 1917, no que respeitava às Faculdades de Letras. Neste regulamento precisava-se que a proposta deveria ser apresentada por um mínimo de três docentes do quadro a lentes ordinários não doutores com três anos de serviço e a figuras eminentes. A proposta deveria ser submetida e apreciada pelo Conselho da Faculdade, estudada por uma comissão de cinco elementos e dada a conhecer ao Director. Caso a votação atingisse pelo menos três quartos de bolas brancas, seria o candidato proclamado "Doutor em Letras" pelo Director da Faculdade, dando-se conhecimento da decisão ao Reitor. Em cerimónia posterior, o laureado poderia receber o respectivo diploma, sob a presidência do Reitor.
Escusado será dizer que este decreto desrespeitava o cerimonial e as enraizadas tradições conimbricenses, subalternizando o Decano da Faculdade em função do Director, atribuindo ao Director de Faculdade funções que eram reserva expressa do Reitor e tentando substituir a criação reitoral pela inexpressiva figura da proclamação que em Portugal era específica do reconhecimento e aclamação dos novos monarcas. As proclamações beneficiavam quem não defendera actos de conclusões magnas, criando situações de injustiça para com os lentes que já eram detentores do grau de doutor. Em Coimbra procurou atenuar-se esta injustiça alimentada pelo ministério da tutela através da visibilidade conferida às insígnias doutorais através da mistura de cores.
O certo é que, com base nos artigos 2º a 5º do Decreto 2:944, o Conselho Directivo da Faculdade de Letras proclamou José Gonçalves Guimarães (da Fac. de Ciências, a reger uma cadeira em Letras), "Doutor em Letras" no dia 3 de Fevereiro de 1917. Seguiram-se, a 1 de Julho de 1917, as proclamações de António de Vasconcelos, Porfírio da Silva, Mendes dos Remédios, Alves dos Santos, Eugénio de Castro e Carolina Michaelis. A eles se juntou António José Gonçalves Guimarães, tendo cada um recebido insígnias doutorais na Sala do Senado.
Esta leva de honoris causa na Faculdade de Letras foi apoiada por um Regulamento escrito em 1916 pela Comissão do Traje e Insígnias e deu azo a imposições de borlas e capelos na Sala do Senado. O evento, feito à porta fechada e sem o antigo aparato da Sala dos Actos Grandes, não foi apercebido pelos alunos nem deixou memória na imprensa periódica. António de Vasconcelos desempenhou papel incontornável nesta cerimónia. A ela compareceram os lentes laicos com a nova versão do hábito talar reformado, excepto Carolina Michaelis que usava capa talar e vestido preto comprido, e os lentes eclesiásticos que iam em hábito talar romano. Qanto às insígnias, foi a primeira vez que a Faculdade de Letras se apresentou com a borla e capelo em azul escuro (cor que entre 1772 e 1911 fora usada pela Faculdade de Philosophia Natural). Pormenor importante, os lentes que já eram doutorados em Teologia tinham mandado confeccionar em oficinal local insígnias com as cores misturadas (branco e azul escuro).
Seguindo o exemplo da Faculdade de Letras, nos anos seguintes Direito, Ciências, Medicina e Farmácia, também foram proclamando "doutores" os lentes ordinários. O Decreto nº 337-C, de 15 de Setembro de 1917, autorizava o Conselho Directivo das Faculdades de Direito a proclamarem doutores os seus professores ordinários e extraordinários com três anos de serviço, bem como indivualidades de reconhecido mérito.
Assim aconteceu em Direito, no dia 19/02/1918, com António Carneiro Pacheco e Paulo Merea, no dia 10/05/1918 com Oliveira Salazar, e no dia 20/10/1918 com Domingos Fezas Vital e João Magalhães Colaço, que haviam apresentado trabalhos científicos em casaca burguesa preta para professores assistentes. Durante o seu longo consulado político, Oliveira Salazar, pouco confortável com o estatuto de "doutor ipso facto", fez questão de reiterar que nunca usara as insígnias doutorais, situação diversas vezes glosada acriticamente pela propaganda do Estado Novo. Este jogo de falsa humildade é facilmente desmontável. Com insígnias se deixou Oliveira Salazar fotografar, chegando mesmo a ofertar cópia de um retrato em hábito talar e capelo à Confraria e Refúgio da Rainha Santa Isabel. Na sua hagiografia do ditador, Franco Nogueira embora procure empolar a singularidade do jovem candidato a lente e a aura de "predestinação" que supostamente o envolvia (Salazar. A mocidade e os princípos, I: 1977), não oculta: primus, Salazar prestou provas orais e escritas perante júri em 1916 apenas para assistente; secundus, nunca apresentou tese nem foi examinado em actos magnos; tertius, foi proclamado "doutor" em 1918 pela sua Faculdade; quartus, possuía hábito talar e insígnias (que usou sem cerimónia de imposição) e em 1925 encomendou e comprou um capelo novo em oficina de passamanaria local.
Recorde-se que a Faculdade de Letras atribuíu a Oliveira Salazar o título de doutor honoris causa em 22 de Abril de 1959, situação que implicava obrigatoriamente a outorga de insígnias com mistura de vermelho e azul, mas a Faculdade de Letras, a Reitoria e o próprio Oliveira Salazar fecharam os olhos aos ditames protocolares. Contrariando o cerimonial conimbricense, Oliveira Salazar ostentaria no velório as insígnias doutorais de Direito e não com mistura de vermelho e azul.
Relativamente à Faculdade de Ciências, não estão ainda apuradas as circunstâncias que estiveram na origem da opção pelo azul celeste, cor que também prevaleceria em Lisboa e Porto. Parece ter sido o ministério da tutela a impor a cor, por via de regulamentação do modelo dos diplomas. Porém, a solução não é convincente, pois na Faculdade de Ciências de Coimbra ficariam em uso 3 cores, o azul celeste para as várias ciências exactas/e ou naturais e o azul e branco para a Secção de Matemática. Acontece que, de acordo com os usos e costumes da instituição, na Faculdade de Ciências, estabelecida em 1911 a partir da fusão das Faculdades de Matemática e Philosophia Natural (1772) deveria ter prevalecido o azul claro e o branco, com o símbolo de cada ciência bordado no capelo.
Quanto a Farmácia, cuja escola menor foi transformada em Faculdade pelo Decreto nº 7:238, de 18 de Janeiro de 1921, não consta que antes desta data os lentes usassem insígnias, situação que nos reportaria para o amarelo de Medicina, escola maior em cuja dependência funcionava a escola menor de Farmácia. É possível que entre 1911 e 1921 os alunos de Farmácia tivessem adoptado espontaneamente grelos e fitas roxas, situação que não está estudada.
Logo a seguir à publicação do decreto citado, por 22 de Março de 1921, terão sido proclamados doutores em Farmácia Manuel José Fernandes Costa, Vicente Seiça, José Rodrigues Dinis e Víctor Aires Mora. Estes lentes, em articulação com os aconselhamentos prestados pela Faculdade de Letras e pelo Reitor Interino Joaquim de Oliveira Guimarães, optaram pelo roxo que era a cor oficialmente consagrada em Espanha desde 1850. Cerca de um ano mais tarde, pelo Decreto nº 8:165, de 31 de Maio de 1922, o Ministro da Instrução Augusto Pereira Nobre (membro da UP) dispunha sobre os modelos de diplomas de farmácia, referindo expressamente o roxo.
O Presidente Sidónio Pais visitou oficialmente Coimbra e a Universidade em 17 de Janeiro de 1918. O discurso proferido na Sala dos Capelos encorajou a Reitoria, os estudantes e os lentes a reactivarem o cerimonial. Fevereiro de 1918 foi um tempo de acalmação, tendo sido reintegrado em Direito o lente saneado pelo 5 de Outubro de 1910 José Lobo d'Ávila Lima. A 9 de Abril de 1918 tomou posse na Sala dos Actos Grandes o Reitor Mendes dos Remédios. Pela primeira vez desde 1910, a maior parte do claustro docente apresentou-se em hábito talar e insígnias doutorais.
A 29 de Maio desse mesmo ano de 1918, em luzidia cerimónia de homenagem ao Doutor Júlio Henriques, a que estiveram presentes na Sala dos Capelos investigadores de Coimbra, Lisboa e Porto, e onde cantou o Orfeon, muitos lentes estavam em hábito talar, neles se contando Carolina Michaelis, cuja figura mereceu referências positivas.
No que respeita a esta cerimónia, nunca foi esclarecido se Júlio Henriques compareceu com o hábito talar reformado, se com a sua antiga casaca oitocentista de carcela ornamental, se trazia as insígnias azuis escuras da sua Faculdade de origem (Philosophia Natural, no que se confundiria com os doutores da nóvel Fac. de Letras), se tinha encomendado as novas insígnias em azul claro de Ciências, ou se mandara confeccionar insígnias com mistura de azul escuro e azul claro. Mais para o final do ano, a 18 de Novembro de 1918, seria proclamado doutor em Letras Anselmo Ferraz de Carvalho, que sendo do quadro da Faculdade de Ciências assegurava cadeiras na de Letras.
Confrontado com o lento acordar simbólico da Universidade de Coimbra, o Ministério da Instrução aproveitou a preparação do Estatuto Universitário constante do Decreto nº 4:554, de 6 de Julho de 1918, para no seu artigo 101º declarar nacionalizadas as insígnias doutorais de modelo conimbricense nas três universidades portuguesas então existentes.
Manifestação de centralismo e de uniformização, esta medida tentava replicar a situação vivida nas universidades francesas desde o período napoléonico e nas universidades espanholas a partir de 1850. Era também o reconhecimento público das apropriações em curso na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa desde 1915, numa época em que as insígnias conimbricenses eram de há muito usadas nas escolas jurídicas brasileiras.
Este mesmo decreto não dispunha quanto a traje ou trajes docentes, deixando aos senados de cada instituição a escolha de eventual modelo. As soluções seguidas por cada uma das três universidades, de acordo com estudo monográfico assinado por Armando Luís de Carvalho Homem em 2007, são no mínimo versáteis.
O grande momento de reaparição da UC ocorreria em 30 de Novembro de 1918, quando o Presidente Sidónio Pais visitou a cidade e presidiu ao acto solene de Abertura da Universidade. Os lentes, em hábito talar e borla e capelo, esperavam-no na Estação Nova, de acordo com o antigo cerimonial, e acompanharam-no até ao Bairro Latino, com o mestre-de-cerimónias, os bedeis, os archeiros e a charamela (reorganizada por Elias de Aguiar em Julho de 1918). Sidónio, em vez de presidir, como dispunha o protocolo, levantou-se da cadeira presidencial e foi sentar-se no seu doutoral de Matemática. Havia trazido consigo a borla e capelo, que colocou sobre o uniforme militar, sendo delirantemente ovacionado.
Parecendo ridículo, o gesto presidencial constituía um acto de contrição público pela forma como o Estado tinha humilhado a UC e aniquilado seu património simbólico nos últimos oito anos. Na grande parada pública realizada entre a Estação Nova e a Alta, a UC não se limitou a reparecer e a consagrar as cores adoptadas pelas novas Faculdades e a posição de primazia concedida à Faculdade de Letras. O Chefe de Estado e os altos dignitários desfilaram no lugar que lhes era próprio, isto é, atrás do Reitor.
A conjuntura política sofrera modificações e a Grande Guerra abalara as convicções. Em 1918 Sidónio já não era definitivamente o mesmo antigo lente que proferira a inflamada e provocatória Oração de Sapiência de 16/10/1908, nem o Vice-Reitor que em finais de 1910 mandara suspender o toque da Cabra. O gesto presidencial encenado por Sidónio talvez encerre a chave para a compreensão dos primeiros honoris causa concedidos pelas universidades portuguesas a partir de 1921 a heróis militares que se apresentaram em uniforme militar.
O assassinato de Sidónio, a 14 de Dezembro, dá azo a que a UC se mostre extramuros. Em 19 de Dezembro de 1918 é celebrada uma missa de sufrágio na Capela da UC, cujas portas se abrem pela primeira vez ao culto após oito anos de silêncio.
Dezenas de estudantes e diversos lentes em hábito talar e insígnias decidiram ir aos funerais, em Lisboa. Os doutores presentes no préstito fúnebre compareceram em hábito talar e borla e capelo, dando continuidade a uma ascentral tradição que se avistara pela última vez no cortejo fúnebre do Rei D. Carlos. Fotografias do cortejo, publicadas na revista Ilustração Portuguesa, II Série, nº 671, de 30 de Dezembro de 1918, suscitaram perpexidades no após 1974 quanto à proveniência dos retratados (alguns eram da Fac. de Direito de Lisboa), que se ficam a dever à erosão da memória das especificidades do antigo cerimonial fúnebre conimbricense.
Antes de 28 de Maio de 1922 (investidura de Amorim Girão), a UC não parece realizar qualquer cerimónia de imposição de insígnias aos seus novos doutores nem aos chamados doutores ipso facto na Sala dos Actos Grandes. Antes desta data haveria que estudar melhor a proclamação de José Maria Rodrigues pela Faculdade de Letras a 1 de Abril de 1922. Embora Rodrigues não conste da lista dos doutoramentos honoris causa, a verdade é que apesar ser antigo doutor e lente da Faculdade de Teologia integrava nesta data o quadro docente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Como tal, tratou-se de um honoris concedido a um dignitário exógeno, logo a seguir à laurea dos heróis aliados.
Não dispomos de informação sobre esta cerimónia. A observar-se o protocolo, Rodrigues poderia envergar o hábito talar romano e, dado que já era doutorado por Coimbra em Teologia, as suas insígnias admitiam mistura de branco e azul escuro.
O espaço escolhido entre a Grande Guerra e o advento da década de 1920 é a Sala do Senado. Manuel Gonçalves Cerejeira ali recebe as insígnias em 30 de Janeiro de 1918, com o elogio comovido do Cónego Doutor António de Vasconcelos. De eclesiástico para eclesiástico era impensável não ritualizar o momento ou fazer tábua rasa da espiritualidade e simbologia inerentes à investidura e insígnias. António de Vasconcelos não o diz em voz alta, mas ambos traziam bem interiorizado que a essência do acto radicava não em mera proclamação administrativa mas na criatio reitoral, numa conjuntura em que a Igreja Católica mantinha o cerimonial em toda a sua pujança e o papa continuva a criar os cardeais.
Não sem alguma nostalgia, Vasconcelos contextualizava o acto e desvelava alguns dos seus significados, esquecidos ou desprezados, lutando pela revitalização daquilo a que mais tarde se chamaria património imaterial. Sabe-se hoje que Cerejeira elaborou e entregou a tese mas não a chegou a arguir, justamente porque o júri declarou não estar provido de sábios bastantes, mas este pormenor não foi aflorado por Vasconcelos. João Providência e Costa e Ferrand Pimentel, de Letras, foram também eles insigniados na Sala do Senado no dia 16 de Dezembro de 1919, com elogio tecido pelo mesmo António de Vasconcelos.
Do que se exarou, importa concluir:
-os doutoramentos honoris causa iniciam-se na UC não em 1921 mas em 1917;
-os primeiros doutoramentos honoris causa centraram-se exclusivamente em membros do corpo docente da Faculdade de Letras;
-só em 1921 é que a UC estendeu os doutoramentos honoris causa a vultos eminentes externos;
-entre 1917 e 1921 os doutoramentos honoris causa e as imposições de insígnias foram realizadas na Sala do Senado da Casa Reitoral e não na Sala dos Capelos;
-o cerimonial tradicional completo foi retomado pela primeira vez no contexto da Abertura Solene de 1918, mas só viria a ser aplicado aos doutoramentos feitos na Sala dos Capelos numa primeira versão experimental (generais aliados, 15/04/1921) e de forma consolidada no ano seguinte (imposição de insígnias Amorim Girão, 28/05/1922);
-em 1916 a Comissão do Traje e Insígnias exarou um regulamento de apoio à cerimónia de doutoramento que mantinha no essencial os momentos fulcrais do cerimonial anterior a 1910, mas expurgava-o dos juramentos e liturgia católica (ex: Missa do Espírito Santo);
-a realização de doutoramentos honoris causa não foi uma iniciativa da UC, dada a situação de submissão da Alma Mater ao governo e a desconfortável posição de vigilância a que estava recorrentemente sujeita por parte dos reitores de nomeação governamental e governadores civis de Coimbra. Foi o Ministro da Instrução Pública que por diploma de 1916 abriu portas a este tipo de premiação nas três universidades públicas existentes, sem que a expressão honoris causa seja expressamente referida;
-em termos da realização das cerimónias honoris causa, a UC revela alguma distância em relação a outras instituições congéneres. A Universidade Católica de Lovaina começara em 1874 e a de Bolonha em 1888;
-relativamente aos honoris concedidos a vultos externos eminentes, a UC está relativamente sintonizada com as universidades continentais: Paris (1918), Complutense de Madrid (1920), Porto (1921), Coimbra (1921), Salamanca (1922), Lisboa (1922);
-o "regulamento de 1916", não estabelecia diferença entre doutoramento honoris causa e cerimónia de imposição de insígnias aos novos doutores, tendo a UC utilizado o mesmo texto até ao presente para ambas as situações. Este documento que se encontra resumido na entrada DOUTORAMENTO da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Volume IX, s/d, p. 285, ainda é utilizado na actualidade com a designação incorrecta de "doutoramento solene";
-o Cónego Doutor António Garcia Ribeiro de Vasconcelos foi um protagonista central na conjuntura de restauração do cerimonial conimbricense. De forma discreta, sapiente e perseverante, lutou pela dignificação do património imaterial da sua Alma Mater, tendo deixado trabalhos paradigmáticos como as alocuções de imposição de insígnias a Gonçalves Cerejeira, Ferrand Pimentel de Almeida e João Providência Sousa Costa, ou o artigo "O uso das insígnias doutorais" (Correio de Coimbra, nº 117, 26/07/1924). Num ciclo de aviltamento da UC e de ameaça de encerramento da instituição, a nacionalização dos bens da Igreja e o conhecimento privilegiado que detinha dos arquivos permitiram-lhe aceder em primeira mão e no timming certo ao pergaminho dionisiano da fundação que desveladamente estudou, traduziu e revelou em 1912.
Maria Montessori
Retrato de Maria Montessori (1870-1952), primeira doutorada contemporânea pela Universidade de Roma. Fotografia de ca. 1920, com Montessori em "toga e toco". À semelhança dos EUA, França, Grã-Bretanha seus domínios, as universidades italianas também enveredaram pelos trajes unissexo.

Elisabeth Ross
Retrato de Elisabeth Ness MacBean Ross (1878-1915), no dia da sua formatura em Medicina, em Julho de 1901, na Universidade de Glasgow.

Marion Gilchrist
Retrato de Marion Gilchrist, em cap and gown no dia da sua formatura em Medicina na Univ. de Glasgow no mês de Julho de 1894. O contraste com Coimbra não poderia ser mais flagrante, numa época que a formatura das alunas era feita com vestido preto de porte corrente, limitando-se o lente que presidia ao acto a formular as falas rituais e a colocar o seu próprio barrete doutoral na cabeça da graduanda (estando caídos no esquecimento por incúria patrimonial e inércia institucional os capelos dos bacharéis e licenciados).
Imagem do arquivo da Univ. de Glasgow.
Agnes Pichen
Retrato de Agnes Pichen, em "cap, gown and hood", que em 1908 ingressou no corpo docente da Universidade de Glasglow como lente de inglês. Em Glasgow, como nas demais universidades anglo-saxónicas, o hábito talar académico masculino foi convertido pragmaticamente em traje unissexo à medida que as primeiras alunas e discentes acederam formatura e ensino.
Foto do arquivo da Univ. de Glasgow, disponível em http://www.university.gla.ac.uk/women-backgrownd/.

Domingo, 11 de Janeiro de 2009



Garnacha

Exemplo de uma garnacha de seda preta, munida de meias mangas, estolas verticais dianteiras, cabeção dorsal e cauda. Trata-se de uma variante da sobreveste, peça de indumentária usada pelos estudantes e lentes de Coimbra, juizes portugueses, funcionários da Casa Papal, e dignitários franceses no período anterior a 1789. O retratado é David Lewis MacPherson (1818-1896), na qualidade de presidente do Senado de Otawa, em 1881.

Matteo Ricci
O jesuíta Matteo Ricci (1552-1610) acompanhado pelo estudante chinês Xu Guangqui (1562-1633). Gravura do século XVII.

Dorothea Beale
Retrato de Dorothea Beale (1831-1905). Sufragista, fundou em 1885 em Oxford o St. Hilda's College, de que foi directora, vocacionado para a preparação de professores.
Conforme já referimos noutros comentários, as universidades britânicas e de tradição anglo-saxónica transformaram os seus trajes corporativos em vestes unissexo desde o ingresso das primeiras alunas. Esta seria também a solução adoptada nos países ocidentais onde se registou a feminilização de certas profissões e actividades, servindo de exemplo a advocacia, a magistratura, e mais recentemente a ordenação de mulheres pela religião anglicana.
Universidade de Munique
Parada pública realizada em 1926, vendo-se membros do corpo docente da Universidade de Munique revestidos com toga talar e barrete de cantos.
As cores das especialidades científicas são as seguintes:
Filosofia: azul
Medicina: verde
Leis/Direito: vermelho
Teologia: preto
Medicina Veterinária: castanho
(agradeço a Dieter Philippi os contactos com a Reitoria da Universidade de Munique e a clarificação da data da fotografia e das cores das faculdades).

Domingo, 4 de Janeiro de 2009

Costumes escolares norte-americanos

Aluno da escola de agricultura da Vírginia
Uniforme de cadete, constituído por sapatos de couro preto, calça comprida branca, casaco azul escuro e kepi, conforme modelo adoptado em 1897 pelos alunos do Virginia Agricultural and Mechanical College and Polytechine Institut, EUA.
Segue-se de perto o paradigma francês, segundo o qual as escolas técnicas de ensino médio e os institutos politécnicos envergavam fardas de tipo militar, numa aproximação aos regulamentos internos e organização das academias militares e escolas de cadetes. A única excepção conhecida era consubstanciada pelo modelo "farm school" ou escolas práticas de agricultura, cujos alunos envergavam boné de pala, camiseiro de ganga e calças compridas, solução que teve acolhimento nas escolas agrícolas portuguesas e nas quintas de internamento de menores a cargo do Estado. Até finais da Segunda Guerra Mundial, os uniformes escolares e os das instituições civis baseadas na organização militar gozaram de enorme prestígio, mobilizando funcionários de hotéis, empregados de companhias de aviação e transportes marítimos de luxo, carteiros, padeiros, maquinistas e carregadores de caminhos de ferro, para apenas citar algumas profissões.

Desportos em Harvard
Regata e baseball em Harvard no ano de 1867.

Equipa de Princeton
A equipa escolar de baseball de Princepton em 1891. Enquanto nas universidades alemães, suiças e austríacas a actividade física masculina mais conceituada era a esgrima, apoiada em equipamentos militares, na Grã-Bretanha e nos EUA, as universidades fomentaram práticas desportivas mais democráticas, ligadas ao remo, ao baseball e ao rugby. O desenvolvimento dos desportos escolares anglo-saxónicos incentivou a emergência de vestuário desportivo e funcional, baseado no recurso a cores claras, botinas, meias altas à escocês, calções, camisolas, blusas e bonés de pala. Caminho idêntico foi trilhado pelas primeiras formações futebolísticas amadoras. Daí que, no abrir do século XIX, em Portugal, as tácticas desportivas, o nome e posição dos jogadores, e os equipamentos desportivos fossem em língua inglesa.

Competição entre Harvard e Yale
A regata académica entre as universidades de Harvard e Yale é um clássico do desporto norte-americano que replica a competição iniciada entre Oxford e Cambridge no rio Tamisa no ano de 1829. Ao longo do século XIX foram criados inúmeros clubes de remo em universidades da Grã-Bretanha e dos EUA, com derivas na Europa Continental e na Austrália. O clássico Harvard/Yale debutou em 1867, sendo a imagem supra alusiva à competição travada em 26 de Junho de 1891.
Os alunos da Universidade de Coimbra não se mostraram adeptos da modalidade, tendo aproveitado o Rio Mondego para banhos estivais, simulação de paradas navais (Centenário da Sebenta: 1899) e afamadas serenatas fluviais festivas de conclusão de cursos e festejos pontuais (serenata da Queima das Fitas: 1905).
Ao nível da cultura popular ficariam igualmente famosas as serenatas fluviais integradas nos festejos da Rainha Santa Isabel, realizadas entre 1892-1936, que tiveram derivados no Rio Leça e no Rio Lima. Relativamente às festividades da Senhora da Agonia, por aquilo que conseguimos apurar, as chamadas serenatas fluviais da década de 1890 não eram propriamente serenatas musicais como as realizadas no Rio Mondego e na Baía de Nápoles, mas belíssimos espectáculos de lançamento de fogo de artifício lançados a partir de barcos ancorados no meio no Lima.

Ida às aulas
Cena galante da Belle Époque, mostra alunos de Harvard a caminho das aulas, devidamente togados e acompanhados por figuras femininas, no ano escolar de 1893.


Ginásio

Classe de ginástica escolar noPratt Gymnasium do Amherst College, EUA, 1885, com acompanhamento de piano.

Sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009


Desporto em Harvard
Notícia de actividades desportivas em 1889. A partir da década de 1850, as regatas interuniversitárias e os campeonatos de baseball sofreram enorme incremento nas universidades norte-americanas. No final do século XIX o desporto universitário mobilizava grande número de praticantes femininas. Poucos estabelecimentos de ensino superior europeus se podiam vangloriar de possuir infra-estruturas de ocupação de tempos livres como as dos estudantes norte-americanos, nas quais se incluíam ginásios, tanques de treino de remo e pistas fluviais. Contudo, vale a pena lembrar as pistas fluviais a serviço dos alunos de Oxford e Cambridge, os clubes de esgrima dos estudantes alemães, suiços e austríacos, os ginásios e picadeiros dos académicos de Uppsala, o Teatro Académico dos escolares de Coimbra e os picadeiros de equitação dos alunos das escolas portuguesas de agricultura. Comparando as escolas civis portuguesas com as escolas militares, conclui-se que os estabelecimentos de ensino militares portugueses estavam bem melhor apetrechados, seguindo de alguma forma a tradição curricular que fora ensaiada no Real Colégio dos Nobres.
Em Coimbra, os desportos escolares eram actividades exclusivamente masculinas. Ao longo da segunda metade do século XIX sucederam-se agremiações mais ou menos efémeras de esgrima, levantamento de pesos, natação no Mondego, caçadas nos bosques dos arredores da cidade e burricadas ao Buçaco. Na década de 1890 a Associação Académica aproveita a devoluta igreja do Colégio da Trindade para manter um amplo e bem apetrechado ginásio. Nos alvores do século XX, equipas de amadores jogam futebol nas dunas do Mondego e na Praça da República. Em finais de 1910, o Reitor Manuel de Arriaga promove a terraplanagem de um campo de ténis na horta da Casa Reitoral, actividade aristocrática que não consegue competir com a popularidade emergente do futebol.

Cortejo dos alunos do Columbia
Cortejo alegórico dos alunos do Columbia College, de Nova York, em 14 de Abril de 1887, numa evocação parodial do centenário fundacional. Gravura reproduzida no Harper's Weekly de 23 de Abril de 1887. A parada assume coloração de charivari, proximando-se assim dos cortejos festivos estudantis à época praticados em Coimbra, França ou Alemanha, numa época em que eram mais as semelhanças do que as diferenças entre festividades estudantis e festividades populares cíclicas.

Jantar em Dartmouth
Jantar anual no Dartmouth College, de Nova york, promovido pela Alumni Association em 1876. O periódico Illustrated Newspaper, de 19 de Janeiro de 1876, informa tratar-se da 12ª edição do evento, fazendo-o recuar a 1864. Ao nível das práticas culturais militares, religiosas, políticas e académicas, a refeição comunitária integra desde o período medieval os programas festivos e a celebração colectiva de momentos significativos da vida social. Na cultura popular portuguesa, as grandes festividades e os rituais ciclícos implicavam obrigatoriamente a partilha ou distribuição gratuita de alimentos através de magustos, distribuição de pão doce e vinho (bodos), e funções de mesa (Festa dos Rapazes em Bragança, Festas do Espírito Santo nos Açores, bodas de casamento).
Na Universidade de Coimbra subsistem resídios do antigo prandium (refeição festiva) nas imposições de insígnias a novos doutores, nos doutoramentos honoris causa, na recepção solene a dignitários, nos jantares de cursos, nas reuniões de antigos cursos e nos jantares de formatura. Outro tipo de refeições colectivas, de raízes medievais, como a patente (setenças em comes e bebes pagas por caloiros), eram ainda praticadas na década de 1980.
Abertura do ano escolar
Representação humorística de trechos da abertura do ano escolar ou "the commencement season" nas páginas do Harper's Weekly de 1873. Este tipo de figuração, assente em aspectos da vida e do calendário escolar, também era abordado em pinturas murais nas efémeras repúblicas de Coimbra. Um conjunto de pinturas bastante mais tardias, realizadas na década de 1950 na extinta República dos Paxás, revela traços de proximidade temática. Outro aspecto a destacar é a figuração burlesca então praticada nos cortejos carnavalescos e de fim de ano em Coimbra e nalgumas universidades francesas.
Cerimónia fúnebre no Columbia
A iconografia académica é bastante rarefeita em termos de informação sobre rituais fúnebres. Neste caso, os alunos do Columbia College, de Nova York, celebram em 1868 o "Burial of the Ancient". Gravura publicada pelo Illustred Newspaper de 4 de Julho de 1868, que especifica tratar-se de um evento anual.
Bicentenário de Yale
Cortejo académico celebrativo do bicentenário da Yale University em 1907. Integraram a parada alguns dignitários célebres como o Presidente T. Roosevelt. Ao contrário de algumas universidades europeias que proclamavam o abolicionismo vestimentário, insigniário e cerimoniário como valor supremo, as universidades norte-americanas definiram em finais da década de 1890 um conjunto de normas comuns relativas à "academic gown" e ao cerimonial ("academic regalia). Com os britânicos, foram pioneiros na definição do traje académico unissexo para docentes e discentes. Aproveitando o legado da herança britânica, os norte-americanos foram os primeiros a descobrir aquilo a que 100 anos mais tarde os economistas passaram a designar por património imaterial, economia do saber, capitalismo cognitivo e activos imateriais. E aqui, não deixa de ser curioso que nunca se tenham dado ouvidos a clérigos, historiadores e etnólogos, que ao longo do século XX chamaram a atenção para o valor do património simbólico/imaterial, o qual só foi conscencializado muito tardiamente pela Unesco, pelos professores de Stanford Paul Romer e Stephen Krasner, ou pelos franceses Maurice Lévy e Jean-Pierre Jouyet.

Baile em Yale
Baile de gala na Yale University no ano de 1893, segundo gravura do Harper's Weekly. O baile de gala das universidades e politécnicos é uma tradição de origem aristocrática, intimamente ligada à cultura palaciana, que na década de 1890 se estendeu às universidades europeias, escolas politécnicas, universidades norte-americanas e transatlânticos de luxo.
Fontes:
-http://www.printsoldandrare.com/colleges/;
-Intercollegiate Regata, http://www.archives.upenn.edu/img/;
-http://www.rowinghistory.net/Collecting/post_cards.htm.

Quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

Costumes de Cambridge

Proctor
Pensionista
Aluno pensionista do Trinity College.
Estudante pensioner
O traje do pensionista é marcado pela modéstia de tecidos e de aparato, lembrando situações próximas vividas em Coimbra, Salamanca e Valladolid, onde os estudantes humildes eram conhecidos por gorristas ou capigorristas, dado usarem um gorro parecido com os dos pescadores e agricultores.
Aluno nobre
Nobleman of fellow of King's College.
Nobre
Aluno nobre com gown agaloada a ouro, numa imitação dos trajes de gala dos detentores de altos cargos.
Fellow
Fellow Commoner do Trinity College com toga debruada (gown) sobre traje civil e barrete preto (square).
Fellow Commoner
Membro do Em. College, com traje civil, toga agaloada a ouro e cartola de feltro preto.

Bedel de Cambrigde
Nesta gravura de 1803, o "esquire beadle" enverga traje civil, toga preta (chimera) de mangas fendidas e cartola (top hat), que desde a década de 1770 era o chapéu de gala consagrado na Academia e nas universidades suecas.
Desenhos de Richard Harraden, "Costume of the various orders in the University of Cambridge", 1803.