Terça-feira, 26 de Agosto de 2008

A herança dos trajes dos gadzarts

Popularização do traje gadzart
Os costumes e traje dos alunos das escolas francesas de artes e ofícios foram reaproveitados desde a segunda metade do século XX por estudantes do ensino superior politécnico. É o caso da École Nationale Supérieure d'Arts e Métiers, documentada nesta fotografia.
O modelo é ainda partilhado por alunos das "Quat'z'arts" que ministram cursos médios de arquitectura, pintura, escultura e gravura.

Zagalon
O "zagalon" é o uniforme de prestígio, ou farda de honra de escolas técnicas francesas. Em uso desde pelo menos 1806, o "zagalon" seguiu as reformas vestimentárias militares. Abolido o porte diário obrigatório no final da Primeira Guerra Mundial, o traje mantinha do passado o sobretudo, mas desde 1935 espelhava forte influência do modelo masculino consagrado pela marinha francesa: padrão azul marinho, botões dourados, galões nas mangas do casaco e boné.
Em 1964, a École de Cluny passou a regime misto, tendo o antigo aluno Jacques Estérel concebido o modelo feminino composto por saia-casaco e boné. Como se pode ver, o "uniforme de prestige" feminino segue de perto o tailleur das enfermeiras da Segunda Guerra Mundial, o chamado fato da hospedeira de aviação nos países ocidentais e o fato preto que fora consagrado pelas alunas dos liceus de Lisboa e Porto desde 1914, com posterior consagração no Orfeão da Universidade do Porto (1946) e Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (1951).
Imagem: colecção de uniformes da École de Cluny

Primitivo uniforme Gadzart
Reconstituição do uniforme militar das escolas francesas de artes e ofícios conforme o modelo napoleónico usado em 1806 e anos ulteriores.
Este manequim esteve em exposição na École de Châlons durante o bicentenário celebrado em 2006.
As semelhanças com o uniforme da École Polytechnique são evidentes, sem prejuízo das posteriores divergências: entre a segunda metade do século XIX e a Segunda Guerra Mundial, o uniforme das escolas francesas de artes e ofícios seguirá um figurino militar bastante simplificado, de par e passo com os modelos consagrados pelas corporações de bombeiros, polícias de segurança cívicas, carteiros e pilotos de aviação civil.
Na era pós-abolicionista, tal solução, não deixa de suscitar perplexidade, tanto mais que o favor tributado pelas elites francesas aos uniformes militares (Instituto de França, Escola Politécnica, escolas de artes e ofícios) foi secundado por movimentos de grande hostilidade face aos trajes talares e tradições das universidades.
Relativamente a Portugal, o porte de uniforme militar em contexto académico foi autorizado a alunos da Universidade de Coimbra com vinculação ao Exército, em alternativa à convencional e então muito hostilizada "capa e batina". Já as escolas politécnicas portuguesas de ensino superior e as escolas comerciais e industriais não deram mostras de seguir a moda francesa até 1974.
A Biaude
Os alunos das escolas técnicas francesas usam diariamente uma bata de trabalho oficinal, conhecida por "blouse" ou "biaude". No 1º e 2º anos, a "biaude" é em tecido cinzento, comporta nas costas uma tira amarela onde se gravam a alcunha e o número de matrícula, ficando a restante decoração ao critério e engenho do proprietário e amigos. No último ano, a bata passa a ser branca e continua a receber desenhos e dedicatórias.
Em Cluny e Châlons existem praxes social e culturalmente toleradas e bem aceites, embora ninguém assuma o termo "bizutages" para não entrar em rota do colisão com o proibicionismo imposto pelo ministério da tutela.
Em entrando em Cluny, os caloiros são apadrinhados por alunos mais velhos, os "anciens", que iniciam os seus pupilos na complexa gíria estudantil, no rico anedotário e nas canções goliardas, com base na construção de uma rede de laços familiares, com traços comuns às relações mestre-aluno praticadas nos antigos mosteiros e no sistema de apadrinhamento caloiro-veterano da Universidade de Coimbra.
Batas pintadas e grafitadas são também usadas por universitários belgas e por alunos de universidades politécnicas francesas que se inspiraram nos costumes "gadzarts".
(Imagem do acervo do Musée de l'École de Cluny)


A Clef d'Ex

A École Nationale Pratique d'Ouvriers et de Contremaires de Cluny foi oficialmente estabelecida na Abadia de Cluny no ano de 1891.

Os alunos adoptaram desde os primeiros anos o uniforme militar gadzart das escolas de artes e ofícios, consagrado em França, então composto por casaca munida de botões dourados, calça comprida, boné francês, laçarote e sobretudo.

Por volta de 1895, o primeiro curso iniciou a realização de uma festa de formatura (Promotion). Símbolo da qualificação técnica dos alunos, foi concebida uma chave de grandes dimensões que os alunos fizeram exibir nas ruas de Cluny durante três dias de festejos, quarenta dias antes do encerramento do ano escolar.

Trata-se, de certo modo, da reciclagem de tradições medievais que identificavam os ofícios através de símbolos como sapatos, serras, tesouras, ferraduras e pás. O arranque das festividades em Cluny coincide, no plano escolar internacional, com iniciativas emergentes em Portugal na Escola Médico-Cirúrgica do Porto (Festa da Pasta), Academia Politécnica do Porto, Escola Politécnica de Lisboa (Enterro da Farpa), Liceu de Braga (Enterro da Gata), Liceu de Ponta Delgada (Enterro da Bicha), Liceu de Beja (Festa do Galo/Enterro do Galo) e Universidade de Coimbra (Queima das Fitas).

Parecendo novas, na realidade estas festividades escolares de julgamento, enterramento e incineração do ano escolar, remontavam ao teatro popular europeu medieval e nos finais do século XIX ainda se podiam apreciar em Portugal, Espanha, Bélgica, França e Itália, através de ritualizações cíclicas como a Queima do Judas, o Enterro do Bacalhau, a Serração da Velha e a Queima do Galheiro.

Em 1997 os antigos alunos da École de Cluny fundaram um museu, onde reuniram maquinaria, maquetas, uniformes e 26 chaves, sendo a mais antiga de 1898.

As chaves são tradicionalmente guardadas por uma espécie de mordomo ou juiz eleito pelos alunos, podendo ser conservadas na casa do guardião, solução tradicionalmente usada nas comunidades rurais portuguesas por irmandades encarregues da promoção de festividades religiosas anuais, e solução anti-roubo praticada desde há séculos para sólios de pálios, coroas preciosas e alfaias litúrgicas. Caso o guardião da chave faleça, a École contacta a viúva do aluno para que esta proceda à respectiva devolução.

Algumas chaves chegam a atingir mais de dois metros de altura. Apresentam num dos lados as letras AM (Arts et Métiers) e no outro EX (Exance), que significa a partida do aluno após a formatura. Em anos mais recentes, as chaves também passaram a ser exibidas na "rentrée".

Fonte: Musée de l'École de Cluny. Association Historique Clunysoise des Arts et Métiers, http://ahclam.gadz.org/Accueil/Voir.


Uniformes gadzarts
Evolução dos uniformes dos alunos das escolas das artes e ofícios, instituições de ensino técnico estabelecidas em França no ano de 1780 (Écoles d'Arts et Métiers). Voltadas para a aplicação prática de conhecimentos em edifícios, maquinarias, engenhos, mobiliário e peças decorativas, este tipo de escolas foi também implantado em Portugal na Monarquia Constitucional, 1ª República e Estado Novo (escolas comerciais e industriais).
Entre 1806-1945, os gadazart usaram regularmente um uniforme militar, cujo figurino napoleónico acompanhou as tendências em voga no exército francês.
Gravura divulgada pela comissão do bicentenário da École de Châlons em 2006, apud http://www.chalons.ensam.fr/bicent/historique/gadazarts_renom.htm.

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008



Invocação da Reforma Pombalina

Estátua da deusa Minerva, entronizada em frente a um pequeno templete alusivo à Universidade de Coimbra. Estátua de vulto, em bronze, implantada no pedestal do monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa. A obra arrastou-se de 1926 a 1934, sendo o projecto escultórico inicial da autoria de Francisco Santos. A incorporação da estátua de Minerva no plinto do munumento foi decidida em reunião de 30.06.1928, numa alusão à Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra (1772). Esta escultura, concebida e executada em conjunto com as restantes figuras da base (República, Comércio e Indústria, Lisboa reedificada), foi inaugurada em 10.05.1929 e não escapou a duras críticas.

(mais informação em Joaquim Saial, "Estatuária portuguesa dos anos 30 (1926-1940)", Amadora, Bertrand, 1991, p. 139 e ss.)

Sábado, 19 de Julho de 2008

Memória visual do traje da Politécnica de Paris


Uniforme da politécnica
Visita do Primeiro Ministro da China, Wen Jiabao, à Escola Politécnica de Paris em 6.12.2005. O estadista exibe um bicórnio, testemunho público do prestígio da escola.
O desprestígio da toge talar das universidades, alvo de profunda estigmatização em 1968, não beliscou o traje militar da politécnica nem o "habit vert" do Institut de France. A intelectualidade francesa mais pró-abolicionista tem convivido pacificamente com a manutenção dos grandes uniformes militares, as paradas nos Champs Élysées durante a Tomada da Bastilha e as cerimónias de entrega de espadas a novos académicos. Num paradigma cultural onde as ciências naturais e as "engenharias" andam de braço dado com a mitologia do progresso indefinido, não deixa de ser sintomático que estas vestes e rituais tenham chegado à pósmodernidade praticamente incólumes. Sobre as cinzas do abolicionismo, a França já não tem propriamente nada de importante a oferecer. Ao nível da Ásia, da América Latina, de alguma Europa pós-abolicionista, a viragem eclética para o paradigma anglo-saxónico está longe de concluída. Daí que entre a solução militar perfilhada pela politécnica e pelo Institut, e a retoma envergonhada e mal assumida do que resta do universo da "toge", algumas instituições francesas apostem em "rentrées" e "honoris causa" puramente abstractos onde tudo se resume à exibição de um diploma.

Uniforme da politécnica
Aluna da politécnica com o bicórnio, cerimónia da Tomada da Bastilha, Paris, 2007. Fotografia de Jastrow.


Uniforme da politécnica
Uniforme da politécnica
Em 1972 ingressaram as primeiras alunas na politécnica de Paris. Aproveitando a espada e a casaca que passara de azul para preta em 1946, em 1974 começou a usar-se a primeira versão feminina do traje politécnico: botas pretas de cano alto, em couro, saia avivada, casaca assertoada, cinturão e tricórnio. Este tipo de chapéu, cujo modelo também viria a ser adoptado pelos estudantes da Universidade do Minho na viragem da década de 1980 para os anos noventa, foi abandonado ao fim de 22 anos. Com efeito, em 1996, as alunas da politécnica decidiram envergar o bicórnio napoleónico.
Uniforme da politécnica
Retrato do estudante George Bouvier, 1908, com bicórnio, casaca assertoada, calças com vivos vermelhos, luvas brancas, espada, cinturão e capote.
Uniforme da politécnica
O estudante Godefroy Mény, fotografado em 1909. A imagem documenta o capote militar azul, munido de carcela e capuz, em uso desde 1860.

Uniforme da politécnica
Registo fotográfico com retrato do estudante Jules Mény, realizado em 1909.
(clichés extraídos do endereço http://www.annales.org/archives/x/julesmeny.html)
Uniforme da Politécnica
Em 28.05.1894 o "Petit Jornal" conferiu honras de primeira página ao primeiro centenário da Politécnica. As comemorações estiveram na origem de um baile de gala no Trocadero, momento galente que se repetiu nos anos seguintes e pode ter influenciado os estudantes da Universidade de Coimbra que a partir da década de 1930 também passaram a dinamizar este tipo de eventos sociais.
Uniforme da Politécnica
No 2º Império generalizou-se a casaca munida de duas carreiras de botões metálicos, ou de tipo assertoado, que conheceu amplas adesões durante a Guerra Civil norteamericana e junto dos chefes de cozinha. Em alternativa ao bicórnio, politécnicos havia que aderiam ao képi. O capote azul, com carapuço pendente, popularizou-se a partir de 1860.

Uniforme da Politécnica
Grande uniforme em uso até finais do 2º Império.
Uniforme da Politécnica
Pequeno uniforme ou versão civil simplificada, referente ao período pós-napoleónico (1816 e ss.). As aproximações ao traje dos colegiais britânicos (Eaton Suit) não parecem simples coincidência.

Uniforme da Politécnica
Figuração reconstitutiva em postal ilustrado para os anos de 1804-1815.

Uniforme da Politécnica
Solução napoleónica institucionalizada a partir de 1804. O capote continua ausente. Foram também os anos do pequeno uniforme, mais simples, destinado a uso diário, e do grande uniforme ou traje de gala. Este modelo manter-se-ia sem grandes alterações até aos alvores da década de 1820, tendo surgido a partir de 1823 a calça comprida.

Uniforme da Politécnica de Paris
Modelo masculino usado entre 1796-1804. O bicórnio viria a ser consagrado pelos tunos universitários espanhóis.

Uniformes da politécnica de Paris
Em inícios de 2008 a École Polytechnique de Paris, fundada em 1794, inaugurou uma exposição diacrónico-iconográfica muito bem documentada sobre a origem e evolução dos trajes profissionais dos alunos (os "pipos").
Duradouramente marcado pelo paradigma militar, o uniforme da politécnica mudou de cores e de insígnias, oscilou entre o calção e calça comprida, a espada e o capote, o masculino e o feminino. Com a admissão das primeiras mulheres, em 1972, o antigo uniforme potenciou a abertura à feminilização (saia avivada, tricórnio).
Por força da vivacidade do modelo cultural e ideológico iluminista, os uniformes da politécnica e os dos académicos do Instituto de França conquistaram um lugar de imparável favor junto dos escolares, docentes e intelectuais ocidentais até bem depois da 2ª Guerra Mundial. Concomitantemente, a estigmatização do paradigma vestimentário e cultural talar foi sucessivamente associado ao catolicismo ultramontano e ao reaccionarismo.
Reactualizados no período napoleónico, os uniformes de gala da politécnica e do Institut de France exerceram imparável fascínio nos países da Europa continental e da América Latina em processo de independentização. Em Portugal, entre 1833-1910, os ministros e secretários de estado, os governadores civis e seus secretários, os administradores de concelho e seus secretários, os académicos da Academia das Ciências, os membros do corpo diplomático, os lentes da Academia Politécnica do Porto e os da Escola Politécnica de Lisboa, envergaram orgulhosamente o grande uniforme napoleónico. A própria Universidade de Coimbra, progressivamente encurralada pelas acusações aparentemente irrebatíveis de reaccionarismo, clericalismo e monarquismo, tentou na década de 1860 adoptar o grande uniforme napoleónico.
A colagem dos intelectuais às modas francesas não se confinou aos adeptos dos ideais republicanos. Entre as décadas de 1920-1940, os regimes autoritários italiano e português ainda invocaram este modelo como imagem de marca da afirmação da identidade da Academia de Itália ou da Academia Portuguesa de História.
Porém, algo estava a mudar lentamente no universo do até então incontestado modelo francófilo. Assim, na década de 1940, quando o Ministério da Educação aprovou o traje profissional da Universidade Técnica de Lisboa, a opção recaiu em veste talar afrancesada e não em uniforme militar. O mesmo aconteceria na Espanha de Franco, quando em 1967 se determinou que o uniforme e as insígnias das universidades politécnicas seria a toga preta, a murça e o barrete armado.
Em Portugal, o uniforme militar gozou de intocável favor durante o século XIX, a tal ponto que na Univerisdade de Coimbra e nas politécnicas de Lisboa e Porto se estatuíu que os alunos militares poderiam frequentar as aulas e actos de exame com os respectivos trajes castrenses. Mesmo assim, o traje militar da politécnica de Paris nunca chegou a ser adoptado pelos estudantes portugueses das politécnicas de Lisboa e Porto (1836-1911), nem pelos dos institutos superiores politécnicos portugueses do século XX. Comparativamente, na oitocentista Escola Médico-Cirúrgica de São Salvador da Bahia, alunos e docentes optaram pela toga talar de dois corpos e barrete redondo armado. E a partir de 1911, quando as escolas politécnicas foram integradas nas novas universidades de Lisboa e Porto, e convertidas em faculdades de ciências, a opção institucional recaiu na toga talar preta e não no grande uniforme napoleónico.
No mesmo período, as vestes talares continuaram a manter o seu prestígio nos territórios marcados pela influência cultural anglo-saxónica, os quais eram praticamente desconhecidos das elites portuguesas. Nos EUA, a a partir da década de 1890, a toga generalizou-se nas universidades mais prestigiadas, conquistou desde o primeiro momento utentes femininas e arriscou em crescendo o ritual da "graduation ceremony".
No caso de Portugal, a adesão ao uniforme napoleónico, não implicou apenas o combate às vestes, símbolos e insígnias da Igreja Católica e da Universidade de Coimbra. As antigas librés de gala à portuguesa, muito mais interessantes do que o grande uniforme francês, de que eram exemplo as dalmáticas, os tabardos, as opas e os trajes de capa e espada dos vereadores e oficiais administrativos, também conheceram tempos de estigmatização.

Sediari de Sevilha
A libré dos sediari da Casa Papal foi concedida com privilégio aos transportadores do andor da Archiconfraria de Jesús Nazareno, de Sevilla, pelo Papa Pio VII, ainda hoje se podendo observar anualmente nas procissões religiosas sevilhanas.
Libré dos sediari
Antiga libré adamascada dos sediari, ou oficiais que até 1969 transportavam aos ombros a sedia gestatoria dos pontífices romanos. A libré é composta por calções, colete e opa.
Jesuíta em Oxford
Académico da Companhia de Jesus na Universidade de Oxford, envergando o hábito talar composto por duas vestes sobrepostas. Gravura de Robert Dighton, 1808.

Sábado, 5 de Julho de 2008

Oficiais da Casa Papal
Cortejo com transporte da mitra e tiara pelos antigos oficiais da Casa Papal, anteriormente às reformas do cerimonial implementadas por Paulo VI em 1969.
Nesta fotografia (décadas de 1950? 1960?), os "bussolanti" continuam a envergar a antiga loba talar de seda vermelha. Na sua fase final, verifica-se que a cor foi uniformizada (a sotaina era azulada) e a meia manga da crócia tornou-se ligeiramente mais comprida, porém mantendo o canhão e o pregueado na costura de ombros. A principal mudança parece registar-se na substituição do fanone humeral por murça de peito inteiriço e capuz dorsal pronunciado.

Pagem caudatário
Oficial da Casa Papal em gravura datável das décadas de 1820-1830: sapato preto napoleónico com fivela de prata, sotaina talar interna abotoada na frente e apertada com faixa de pontas, crócia de meias mangas acanhoadas, fanon de ombros em seda e barrete quadrangular.
Camareiro papal (I)
"Bussolante che porta la tiara", registo anterior a 1844, divulgado por Nicolas Dally.
Nos cortejos solenes pedestres e nas cavalgadas de aparato, as coberturas de cabeça eram publicamente exibidas com grande ênfase, na continuidade do triunfo romano.
O costume, comum às instituições monárquicas, militares e judiciárias, manteve-se até pelo menos 1969.
O camareiro transporta a tiara num suporte oval de madeira e não em almofada agaloada ou salva de prata.
Os oficiais "bussolanti" não envergavam "mantelletta" (opa curta, sem mangas), nem mantellone (sobreveste munida de mangas, tipo sobretudo ou gabardine, mas distinta do viatório), mas a antiga loba, composta por sotaina azulada e soprana ou chamarra vermelha com as típicas meias mangas. Contudo, na gíria da Casa Papal, a chamarra ou garnacha dos camaristas tinha a peculiar designação de "crocia", curioso termo que em Portugal serviu para designar as capas de palha dos camponeses. A referida veste era completa por cinto de pontas e murça de avantajado capuz dorsal.
Camareiro papal (II)
"Cameriere particolare del papa", ou porta-flabelo, funcionário da Casa Papal encarregue de refrescar o pontífice com leques de plumas de avestruz, antiquíssimo costume pré-cristão que se pode detectar em relevos egípcio-faraónicos.
Em actividade até ao pontificado de Paulo VI, os porta-flabelos figuravam habitualmente atrás do trono papal, em cortejos solenes (nas imediações da sedia) e demais cerimónias.
Neste registo, anterior a 1844, o camareiro enverga murça de arminhos e loba talar composta por sotaina azulada e chamarra ou sobreveste munida de mangas acanhoadas pela linha do cotovelo.
O privilégio do uso cerimonial do flabelo foi concedido no século XVIII pelo pontífice romano ao patriarca de Lisboa, razão pela qual se podem visualizar dois flabelos oriundos de Roma no Museu de Arte Sacra da Sé de Lisboa. Fotografias de época, mostram que estiveram em uso até finais do governo do Cardeal Cerejeira.
As gravuras I e II integram a recolha de Nicolas Dally, "Usi e costumi sociali, politici e religiosi di tuti i popoli del mondo...", Torino, 1844-1847.

Trajes Portugueses na obra da Nicolas Dally

Mulher da cidade do Porto
Gravura baseada em relato de viagem anterior a 1844: trajo citadino de arruar, predominando o preto da saia e do amplo manto de merino que recobre a cabeça e descai quase até à meia perna. Este manto parece constituir uma variante do modelo que então se usava na Ilha Terceira, Beira Baixa (Monsanto), alguns povoados do Alentejo e no sul de Espanha. A versão portuense não comporta entrela na zona da cabeça e não aperta na linha da cintura.

Vendedor de passarinhos de Pardilhó
Gravura baseada em recolha da primeira metade do século XIX, anterior a 1844: camponês da Beira Litoral, descalço, a apregoar passarinhos. Enverga amplo camiseiro de linho ou estopa, desabotoado no peito e apertado com faixa de pano, e um colete azul. A cobertura de cabeça parece ser não um gorro mas im um lenço de baeta cujas pontas foram atadas atrás da nuca.

Peixeira de Pardilhó
Indumentária feminina da primeira metade do século XIX, mas herdada de setecentos, comum a muitos povoados litorâneos de entre Mondego e Douro. Estatura entre o meão e o baixo, pés descalços, pele fortemente bronzeada, mãos calosas; andaina rústica constituída por saia cobalto de pregueados ampos, repuxada na anca com corda, colete de atacas dianteiras, blusa de linho grosseiro, protegida com gola derreada de tipo romeira, amplo lenço, chapeirão de feltro com pompoms, rodilha e cesta de peixe.
Estas gravuras foram obtidas a partir de desenhos contidos em relatos de viagens e publicadas pela primeira vez por Nicolas DALLY, "Usi e costumi sociali, politici e religiosi di tutti i popoli del mondo da documenti autentici e dai viaggi migliore e piu recenti: traduzione reviduta dal cavalieri Luigi Cibrairio", Torino, Stabilimento Tipografico Fontana, 1844-1847. Um exemplar desta obra pertence ao acervo da Manhatan Library, que procedeu à sua digitalização e divulgação on line: NYLPDigitalGallery, http://digitalgallery.nylp.org/nylpdigital/dgbout.cfm.

Domingo, 15 de Junho de 2008


Maça da Universidade de Indiana
Reprodução da maça da University of Indiana, EUA, fabricada em 1949. As universidades norte-americanas possibilitam informação interessante sobre a evolução do protocolo e insígnias. Enquanto na Europa Continental a ideia de progresso/vanguarda proposta pelas elites universitárias se mostrava partidária do abolicionismo, associando de forma redutora e distorcida rituais, insígnias e trajes profissionais a paradigmas reaccionários, nos EUA viveu-se movimento de sentido inverso. A partir de meados da década de 1890, as universidades norte-americanas adoptaram trajes de raíz britânica para utentes masculinos e femininos, começaram a praticar as formaturas colectivas (graduation ceremony) e iniciaram uma corrida às maças distintivas, reciclando em proveito próprio insígnias medievais que as universidades históricas estavam a rejeitar ou a abandonar (França, Itália). Como reinvenção de tradições que é, este movimento (ainda em aberto) escolhe e consagra uma maça única para representar a totalidade da instituição de ensino superior, insígnia que é de imediato transformada em instrumento de marketing e aproveitada para consolidar a imagem de credibilidade junto do grande público.
O caso norte-americano aproxima-se mais do figurino britânico e seus antigos domínios, territórios onde o abolicionismo continental nunca chegou a conhecer credibilidade suficiente para conquistar as elites.

Segunda-feira, 9 de Junho de 2008


Bastão ortodoxo
No exterior dos templos, os bispos e arcebispos ortodoxos substituem o báculo de luxo por um bastão com base em ébano e castão em prata ou prata e esmaltes. Este bastão acaba por configurar uma tipologia semelhante à observada no bastão de porteiro, reitores das universidades espanholas, batuta dos regentes das orquestras barrocas e primitiva insígnia dos académicos do Instituto de França. O bastão do Mestre de Cerimónias da Universidade de Coimbra também segue esta tipologia, embora seja integralmente fabricado em prata lavrada.
Fotografia de Patrick Barnes captada em 2005, documenta um encontro entre o Metropolita Amphiloje e o Bispo Longin (Diocese Ocidental dos EUA de expressão sérvia).

Sábado, 7 de Junho de 2008


Báculo ortodoxo
Momento protocolar ocorrido em 2004, com o Metropolita Ambrósio, do Kosovo, o Bispo Ireneu (no meio, na função de tradutor), e o Bispo Teodósio, este último com o tradicional báculo cerimonial: fuste esculpido, sulcado de aneis e dourado, remate superior em cruz sustentada por duas serpentes. Reivindicando a herança simbólica da vara de Araão e do cajado do "Bom Pastor", a versão ortodoxa invoca também a ligação de Moisés à serpente e a disputa dialéctica.

Báculo episcopal
Remate superior do báculo do Cardeal Ruini, Presidente da Conferência Espiscopal italiana. Remetendo a um tempo para a vara de Aarão e para o cajado do "Bom Pastor", o báculo episcopal rematava com empunhadura recurvada, visualizando-se em espécimes mais ancestrais uma serpente enrolada. O elemento referido é bem mais explícito no báculo dos bispos ortodoxos.
Varas de confrarias
Modelos em prata, disponíveis em Espanha, para confrarias e irmandades.

Sexta-feira, 6 de Junho de 2008


Vara de Vereador
Capa, faixa, chapéu e vara dourada de vereador da Câmara Municipal de Coimbra, usança que perdurou até 1910. Falta neste conjunto a espada. Nos finais da década de 1980 estas varas estavam acondicionadas na Torre de Almedina, conjuntamente com as de juiz e de oficial de justiça, e chegaram mesmo a ser utilizadas na cerimónia de investidura da equipa do Presidente Manuel Machado, situação reportada pela imprensa local.
A CMC é detendora de uma colecção bastante completa de varas de edil, preservada na Casa da Cultura. Quanto à cidade do Porto, também há notícia de espécimes preservados do arquivo histórico da Casa do Infante. As de VNFamalicão foram canalizadas para o Museu Bernardino Machado.