Virtual Memories

terça-feira, 8 de agosto de 2017


Abafos próprios do hábito talar em estilo romano

Nos países católicos mais diretamente influenciados pelo código vestimentário da corte pontífica romana, os abafos próprios para completar as vestes talares eram as capas talares (ferraiolo, ferraiolone) e os capotes (tabarro). A primeira era uma capa talar de bom pano como a seda, comportando um corpo central que se plissava na costura do cabeção, duas gigantescas bandas dianteiras que se dobravam na vertical à direita e à esquerda, e uma gola cartonada e forrada do mesmo pano, conhecida por cabeção. A segunda era um capote, normalmente usado no inverno e como abafo de viagem, cujo corpo central cobria o corpo até aos calcanhares, fechando sobre o peito com um ou mais alamares de boa passamanaria, comportando uma murça entre os ombros e a linha dos cotovelos, e levando em torno do colarinho uma pequena golinha em veludo preto.
Um e outro foram usados em Portugal, confecionados por alfaiates que nem sempre tinham o requinte das alfaiatarias romanas. Na segunda metade do século XIX estes dois adereços foram por vezes substituídos por dois outros, o casacão assertoado à francesa (dito redingote) e o balandrau. Este último era uma túnica talar, de corpo amplo, comportando mangas e murça, avivado conforme o dignitário, e abotoando com alamares. Pelas imagens a que acedemos, o balandrau à portuguesa era ligeiramente menos complexo do que o espanhol especialmente no feitio da murça.

Galeria de imagens da capa de feitio italiano:
(na última imagem, Lizst com batina talar singela e capa de talhe simples)






Retrato do bispo de Viseu, D. António Alves Martins (1808-1882), com batina talar e balandrau de corte simplificado. O abafo distingue-se perfeitamente da batina. Sobre a mesa, a borla de Teologia, láurea obtida na FT/UC. Ficam dúvidas se seria em pano preto avivado a verde. Tudo indica que sim.

Imagens seguintes: indumentária do enxoval eclesiástico secular espanhol cujo uso se prolongou pela primeira metade do século XX, publicada in Ceremonia y Rubrica, http://liturgia.mforos.com/


Balandrau/balandran de um corpo talar em tecido preto, munido de carcela vertical frontal com caseado e botões planos forrados, mangas com pequeno canhão e murça de ombros. Em plano invisível, pela linha dos flancos, leva dois bolsos falsos. As bainhas são rematadas por pespontados à máquina e vivos pretos de cordãozinho de seda. A veste por debaixo do balandrau é uma batina talar.

A seguir, agasalhos comuns entre o clero secular católico europeu no século XIX e nos inícios do século XX. Espanha: batina com redingote/duleta/douillette (casacão assertoado à francesa) e batina com balandrau/baladran à espanhola, com vivos e murça gomada. O balandrau podia trazer-se vestido com os braços enfiados nas mangas ou deitado apenas pelos ombros com as mangas pendentes.


Um redingote monocromático de confeção recente, em preto integral, com gola de veludo (cf. duleta/douillette). O jogo de botões é de massa, sendo os clássicos forrados de tecido.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017



O traje de abade de As Pupilas do Senhor Reitor (1935)
Indumentária civil masculina de abade, Portugal, 2ª metade do século XIX, recriação do guarda-roupa para a figura do abade no filme As pupilas do Senhor Reitor (1935), de José Leitão de Barros, baseado no romance homónimo de Júlio Dinis (1866), cuja ação decorre entre Ovar e Vila Nova de Gaia. O filme, inscrito na política do espírito do Estado Novo, procura reproduzir um ambiente campesino e bucólico assente na produção de tipos humanos idealizados. Algumas cenas deste filme foram introduzidas forçadamente pelo realizador, caso dos trechos iniciais filmados na Universidade de Coimbra e caso das vindimas nas arribas do rio Douro.
O senhor abade veste o chamado traje de rua/de viagem/hábito civil de viagem, que contém alguns elementos comuns aos usados no resto da Europa nas décadas de 1850-1860 como a sobrecasaca preta com corte de redingote, embainhada quase pela meia perna, com abotoadura de trespasse, machos posteriores e botões planos forrados de tecido. Elementos eclesiásticos propriamente ditos nesta indumentária sinalizamos apenas a volta branca em torno do pescoço e por debaixo do colete o cabeção preto de duas abas. O colete preto, com carcela alta, o chapéu de feltro, a bengala, as botas de couro preto e as calças compridas são peças da indumentária civil. Pela etiqueta britânica, uma veste deste tipo era considerada apropriada para sair de casa entre o entardecer e a noite.
As peças da indumentária civil masculina, de tecido liso, sem bordados, foram sendo lentamente introduzidas no enxoval eclesiástico a partir da Revolução Francesa de 1789 e da Concordata firmada entre o regime napoleónico e a Santa Sé (1804). Com efeito, a corte francesa de antigo regime admitia na etiqueta palaciana o traje de abade ou hábito curto, com sobrecasaca, capa curta, tricórnio de feltro, solidéu, calções, meias altas e colete, traje que também era admitido na corte pontifícia romana, nos palácios episcopais anglo-saxónicos, entre os alunos do Real Colégio dos Nobres (Portugal) e até na Universidade de Coimbra como hábito substitutivo da velha loba talar que Deus tenha e que me levou quase trinta anos a descobrir ao pormenor como era.
Nas décadas de 1850-1860, os contributos do enxoval eclesiástico à francesa começaram a fazer moda e a causar escândalo na corte pontifícia romana. Em vez do grande tricórnio preto de feltro, um chapelinho de castorina, de aba redonda, chamado saturno. No lugar da antiga capa/matéu talar, um casacão à militar, de trespasse, com a bainha pelos calcanhares. Este figurino parecia menos clerical e permitia conferir um certo ar paisano aos padres italianos que tomados de pavor assistiam ao avanço das tropas de Garibaldi e à ocupação dos Estados Apostólicos. Procurando acompanhar os tempos, o próprio pontífice romano regulou a etiqueta palaciana, dispondo que o clássico hábito curto à la française fosse substituído pela chamarra romana. Ora vem ao caso que a chamarra é uma batina talar de um só corpo, rigidamente confecionada na máquina de costura, geometrizada, com as famosas sobremangas entre a costura de ombros e os cotovelos, vistosos canhões nas bocamangas, vivos em preto ou nas cores dos dignitários e, no lugar da capa talar, uma capinha de ombros, de tirar e por, conhecida por murça ou romeira. A etiqueta lançada por Pio IX procurou espelhar a uniformização da Igreja em tempos de laicização e a autoridade do pontífice. A pouco e pouco a nova batina romana ou simarra espalhou-se pelos países católicos, graças à ação e autoridade dos bispos, alastrando também aos alunos dos seminários católicos.
Em Portugal, Espanha e países da América Latina, as antigas vestes eclesiásticas e adereços subsistiram até finais do século XIX, tendo sido algumas raras vezes fotografados ou desenhados. Desapareceriam sem ser musealizados, vazio que hoje cria sérios problemas aos investigadores.
Voltando ao traje do abade recriado no filme As Pupilas do Senhor Reitor, no geral os elementos indumentários trajados pelo ator estão historicamente corretos, exceto as calças compridas. Os clérigos católicos seculares, mesmo quando residentes em espaços vincadamente rurais como os descritos por Júlio Dinis, estavam obrigados a obedecer a disposições dos seus bispos diocesanos. Botas de couro de cano alto até poderiam calçar para ir à caça, cavalgar muar com chuço aberto, tratar das colmeias ou viajar. O que não podiam vestir nem tampouco era aceite num clérigo eram calças compridas, tendo permanecido até à Revolução de 5.10.1910 a etiqueta das meias altas pretas de seda com calções pelos joelhos.

Ver o filme: 

segunda-feira, 29 de maio de 2017



Muito raro exemplar do barrete francês usado por académicos, bedeis e pastores protestantes

Toque/coiffe/barrete de doutor, com variantes usadas no século XVIII por pastores protestantes e bedeis paroquiais. Formato troncónico em veludo ou lã entretelada, subdividido em seis faces, com grande borla de seda na cor institucional.
Proveniência: exemplar existente no acervo do Musée du Desert/Mialet, datado do século XVIII, dado como pertencente a pastor protestante. Fotografia disponível em Musée Virtuel du Protestantisme.

sábado, 27 de maio de 2017


Indumentária de bedel paroquial, de figurino pré-napoleónico, composta por toga, barrete agaloado e vara do ofício.
Postais circulados em França nos inícios do século XX.



domingo, 14 de maio de 2017



Imagem sacra de Santa Catalina de Siena, doutora da Igreja Católica, com barrete doutoral de Teologia, Espanha, monastério de Santa Maria Real, Sevilha.

domingo, 26 de março de 2017



Correio dos leitores

Ana Brito deixou um novo comentário na sua mensagem "Estatueta de Afonso Costa (1915)":

Bom dia! Poderia informar-me sobre as dimensões desta peça? Agradeço antecipadamente.
Com os meus cumprimentos
Ana Brito

 Não dispomos de elementos para responder a esta pergunta. É admissível que andasse entre os 15 e os 20cm de altura.

sábado, 14 de janeiro de 2017


Uma crónica do médico Ricardo Jorge sobre a «Capa e batina» (1934)

Ricardo de Almeida Jorge (1858-1939) era diplomado pela Escola Médico-Cirurgica do Porto (1879).
Os alunos deste tipo de estabelecimentos de ensino não usavam uniforme, ao contrário dos estudantes das grandes escolas politécnicas francesas que tinham farda de gala de inspiração militar.
Replicando a opinião comungada por vultos da sua geração, caso de José Leite de Vasconcelos, Ricardo Jorge não vê sentido na continuidade do uso da capa e batina após a revolução republicana de 1910 ou mesmo da sua generalização facultativa aos estabelecimentos de ensino médio e superior portugueses.

Fonte: Diário de Notícias, 24.12.1934
Enviado por J. Baeta


Uma curiosa quadra popular

O meu amor é estudante
Usa bata e batina
Quando vai para o liceu
Sempre diz: "adeus menina"!
(recolhida em Vila Velha de Ródão)

sábado, 31 de dezembro de 2016


Garrett, BD e imaginosa indumentária

Duas de três vinhetas insertas no álbum BD de José Ruy - Almeida Garrett e a cidade invicta, Lisboa, Âncora Editora, 1999.
Vinheta 1, em cima, pág. 7: ano letivo de 1816, [João Baptista da Silva Leitão de] Almeida Garrett (Porto, 1799; Lisboa, 1854) matricula-se na Faculdade de Leis da UC. Tertúlia informal de escolares no paço das escolas, nas imediações da Via Latina. Traje corporativo apenas esboçado em tosco, com mantéus excessivamente curtos, incorreta figuração de calças compridas e de livros na mão esquerda, acrescida de tendência para fixar uma uniformidade vestimentária ainda inexistente. Mesmo tipo de abordagem na página 8, à entrada da porta férrea.
Vinheta 2, em baixo, pág. 9: após participação da revolução liberal de 1820, em 1821 Garrett forma-se em Leis. Figuração completamente errada quanto ao local e cerimonial associado à colação do grau de bacharel. Do ponto de vista da etiqueta, nenhum candidato comparecia aos atos de gorro na cabeça. Quanto ao local, os graus de bacharel eram colados nas salas de aula das faculdades e os de licenciado na capela da UC e não na sala dos atos grandes. E nunca com os candidatos de pé.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Uma arqueologia dos hábitos de gala e librés grandes da UC (1905-1910)



 Doc. 1: hábito talar de lente. O traje dos membros do corpo docente era do mesmo corte e figurino para os lentes de todas as categorias e faculdades. Dividia-se em hábito talar ordinário e em hábito talar de gala. Para as grandes cerimónias, o tecido deveria ser a seda preta para a abatina e calções. A capa, de tipo mantéu grande, admitia tecidos próprios para inverno e para verão, rematando o colarinho com cordão de borlas. Nos contextos cerimoniais eram usadas insígnias dos graus, luvas, meias altas de seda e sapatos de pele de verniz com fivelas de prata. Nos finais da monarquia constitucional os lentes eclesiásticos continuavam a usar cabeção e volta e podiam optar por vestir o hábito talar romano que era considerado hábito académico supletivo nas universidades ibéricas e latinas. O hábito talar romano admitia as vestes das congregações regulares e as do clero secular, pelo que as cores em uso e os vivos eram autorizados.
Retrato do Dr. Luís da Costa e Almeida, decano da Fac. de Matemática da UC, com hábito talar e capelo, fotografado nos gerais das escolas. Não são visíveis a borla, as luvas e o anel. Abas dianteiras da capa repuxadas para a cintura e presas com as mãos, como era antigo costume.
Não existiam vestes nem insígnias distintivas para os membros da equipa reitoral, decanos das faculdades ou diretores de unidades integradas. Sendo os reitores lentes e graduados, usavam o hábito talar com borla solo. Sendo de nomeação governamental e externos à instituição, nas cerimónias apresentavam-se com  indumentária civil de gala ou com vestes corporativas associadas à sua profissão/títulos.
O hábito talar sem insígnias era usado para dar aulas teóricas e práticas. Os lentes podiam ir vestidos de casa ou fazer a muda de roupa num vestiário que existia na via latina, ao lado da sala dos atos grandes. Quando se encontravam devidamente ataviados, saiam do vestiário para os gerais com os bedeis na frente. As portas eram abertas e fechadas por contínuos de libré e as chamadas feitas pelos bedeis.

 Doc. 1.1: o reitor, representantes das faculdades e dos estudantes na apresentação de cumprimentos a D. Manuel II, Lisboa, 1908. Os decanos de Medicina, Matemática e Ciências Naturais com insígnias e hábito talar com calças compridas. Os representantes de Teologia e Direito com hábito talar de grande gala, em tecido de seda, com calções. O representante dos estudantes com hábito talar ordinário. O reitor, Alexandre Cabral, que era bacharel pela FD/UC, não pertencia ao corpo docente nem tinha insígnias do grau, apresenta-se com a farda de conselheiro de Estado.




Doc. 2: hábito talar de estudante, vulgo capa e batina. No final da monarquia constitucional, a norma estatutária e os estilos orais admitiam três modelos. O traje ordinário, que se vestia diariamente e com o qual se frequentavam as aulas e laboratórios, constituído por abatina de sarja ou lãzinha, capa, calças compridas, colete preto, camisa branca, gorro e sapatos pretos sem modelo definido. O traje de gala, em pano de seda, com botões forrados, volta e cabeção, meias calças de seda, calções e sapatos de verniz com fivela. O hábito romano, que podia ser trajado pelos alunos eclesiásticos. O traje de gala admitia capa de verão e capa de inverno, em tecidos de qualidade.
Em cima, duas fotografias do estudante e futuro político Ernesto Hintze Ribeiro, datadas de 1869 e de 1870 com hábito talar de gala, completado com pasta de luxo, usado desde as reformas de 1863 e até à legislação abolicionista de 1910 nos atos de formatura ou na colação do grau de bacharel.
Em baixo, alunos das Fac. de Teologia e de Direito com hábito de gala e pastas aguardam nos gerais a chamada para os atos. Fotografia de 1909 (?). Concluídos os atos (exames), os alunos aprovados colavam o grau de bacharel nas salas de aula no mesmo dia ou em data próxima. Chamados nominalmente, os alunos prestavam juramento, pediam o grau em latim, o mais antigo e/ou graduado recebia a borla na cabeça, subia à cátedra e proferia em nome do curso uma breve alocução. Não havia entrega de diplomas nem existiam os chamados anéis de curso. As cartas de curso eram posteriormente levantadas na secretaria, sem qualquer cerimonial.
Esta era a cerimónia oficial. À margem dela, os estudantes foram criando a récita de despedida, as baladas de despedida, o rasganço das vestes e os anéis de curso.

 Doc. 3: hábito de gala de secretário e mestre de cerimónias, que pelos estatutos deveria trajar de estudante. Até 1910 o mestre de cerimónias usou no dia a dia o traje de abatina com capa e calças compridas e nos dias de atos grandes abatina de seda preta com meias calças, calções, capa, luvas, cabeção e volta, sapatos pretos de verniz com fivela de prata, exibindo o bastão de prata.
Retrato de Manuel da Silva Gaio que se fez fotografar muito senhor de si na cadeira do reitor.

 Doc. 4: traje de mantéu ou de oficial maior, uma libré de corte usada com modificações pontuais desde o século XVI. No século XIX, sob o mantéu de bandas de cetim os funcionários vestiam casaca preta com punhos de renda e exibiam plastron à francesa (bacalhau). Em vez de espada era usado um punhal. No dia a dia, simples fato preto civil com mantéu.

 Doc. 5: traje de oficial maior adaptado aos bedeis das faculdades, cuja insígnia era a maça com roca e corrente. Este traje terá sido adotado no século XVIII, pois o que consta dos estatutos velhos é a loba e, comparativamente, nas irmandades e catedrais europeias os bedeis/maceiros usavam invariavelmente hábitos talares, embora no Vaticano tenha prevalecido o traje renascentista de meia abatina.

Doc. 6: o guarda-mor das escolas com libré de gala e vara.

Doc. 7: libré napoléónica de gala para archeiro, constituída por farda direita em lãzinha azul ferrete agaloada de prata: casaca e calções com bicórnio de pasta preta, tabalarte, espada e alabarda brunida.

Doc. 8: um aspeto do préstito académico em trânsito da Sé Nova para a UC com a presença de D. Manuel II (1908): archeiros em duas alas, oficiais maiores, charameleiros em traje civil, lentes de Filosofia Natural, etc.

COMMENTS:
 Boa noite.
Sou estudante do 1.º ano do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e estou prestes a adquirir o traje académico, sendo o mesmo o traje dito "nacional" (que se usa nas Universidades de Coimbra e Lisboa).
Porém, antes de o fazer, e vendo que o administrador deste blog é um entendido em assuntos relacionados com trajes talares, tanto novos como atuais (costumo ler, quando tenho disponibilidade, as publicações que realiza), gostaria de lhe perguntar se tem conhecimento da existência de algum estabelecimento comercial na cidade do Porto e/ou arredores que fabrique/venda trajes para a dita faculdade de "qualidade", e seguindo as normas que antigamente os alfaiates usavam no fabrico dos mesmos (quando estes eram feitos unicamente pela via artesanal). Pergunto isto pois gostaria de adquirir um "verdadeiro" traje (ou seja, o mais parecido possível com o "modelo conimbricense", desde que válido para usar na FLUP) e de "qualidade", não querendo, portanto, ser enganado na minha compra. Desde já agradeço a atenção dispensada.
Com os melhores cumprimentos,

João Durães 
(27.11.2016) 

Hoje em dia serão raríssimos os estabelecimentos de alfaiataria ou de modistas com conhecimentos especializados na tiragem de medidas, corte de moldes, acertos de medidas e acabamentos manufatureiros de hábitos talares. Em Coimbra ainda estão em atividade alguns alfaiates, mas este tipo de encomenda comporta demora na entrega e as convencionais visitas para escolha de tecidos, tiragem de medidas anatómicas e provas de acertos (ombros, cintura, etc.).
Para quem tem preocupações ligadas às boas práticas de alfaiataria e valoriza o trabalho artesanal, o pronto-a-vestir e as chamadas casas de fardas não oferecem garantias quanto a medidas, qualidade do corte e pormenores de acabamento.
Não conheço casas de fabrico artesanal no Porto e arredores. Julgo poder indicar uma casa existente na Praça da República, n.º 181. Pode também contatar o editor do blogue Porto Académico e pedir algum tipo de ajuda.
Levar fotografias ou desenhos pode facilitar e muito o diálogo com um alfaiate e ou modista.
AMN


Uma reportagem sobre a Escola Médico-Cirúrgica do Porto (1905)







Revista Serões n.º 1, julho de 1905


Hábito dos alunos/internos do Colégio dos Órfãos de São Caetano
(Braga)

Internos do Colégio dos Órfãos de São Caetano, cidade de Braga, fundado em 1791, com o traje corporativo em uso entre a segunda metade do século XIX e os inícios do século XX. Não se trataria de um balandrau nem de uma toga, mas da batina talar romana de um corpo, em preto, complementada por carcela vertical frontal, romeira preta amovível e canhões de bocamanga avivados de vermelho (?). São visíveis sapatos pretos de fivela de prata, que se usavam com meias calças e calções. Este vestido seria envergado com camisa branca, cabeção preto de duas abas (peitilho e dorsal) e volta branca. Sobre a romeira vem fixada uma beca de cetim/seda (?) vermelha (?) que se deitava em V sobre os ombros, rematada por duas compridas e esvoaçantes pontas que desciam pelas costas até à barriga da perna.
Este conjunto indumentário vem confirmar a presença de becas nas universidades do eixo península Ibérica/América Latina/Filipinas, seminários católicos e nalguns colégios católicos que recolhiam crianças órfãs ou abandonadas.
Não dispomos de  quaisquer dados sobre este traje que terá desaparecido em 1910 (?), do qual o mais certo é não terem sido preservados exemplares, e que antes do período liberal teria outra morfologia.
Fotografia publicada na revista Serões, n.º 6, dezembro de 1905.

quinta-feira, 16 de junho de 2016


Um artigo sobre o acervo da Aula-Museo do Instituto Profesor Dominguez Ortiz



Vestuario académico en el Aula-Museo del Instituto “Profesor Domínguez Ortiz”. El ceremonial histórico de la Segunda Enseñanza y su simbología
Prof. Dr. Miguel Mayoral Moraga
 Instituto “Profesor Domínguez Ortiz

terça-feira, 14 de junho de 2016

Retratos doutorais do Museo del Virreinato (México)



Retrato do cónego borlado e doutor em Cânones pela Real y Pontifícia Universidad (México) de Jacinto Olivera y Pardo (1662-1733), bispo de Chiapas (1712 e ss.).
Hábito episcopal, vendo-se em cima de uma mesa o barrete doutoral de quatro picos, forrado de preto, ornado com borla laureada, composta por franja de seda verde e florão sobreposto em capela de três níveis. Será um modelo manufaturado em finais do século XVII, ainda sem a capela floral barroca que vemos nalguma retratística de finais do século XVIII.
Tela existente no Museo del Virreinato, México, Mediateca/INAH, em linha


http://mediateca.inah.gob.mx/islandora_74/islandora/object/pintura%3A2270


Grande plano: barrete doutoral laureado com borla franjada e capela floral.





Retrato do bispo Andrés Ambrosio Lhanos y Valdés (1726-), formado em Retórica e Filosofia no seminário católico de  San José de Nueva Galicia, graduado in utroque iure (Cânones e Leis) pela Real y Pontifícia do México, reitor da mesma universidade. Veste hábito coral episcopal. Sobre mesa exibe a beca do seminário de San José e o barrete de graduado. Quadro a óleo datado de 1793. Dúvidas sobre as cores, que parecem ser vermelho (Leis) e azul (Filosofia).

Chapéus masculinos tibetanos usados em danças cerimoniais budistas. A chapelaria religiosa e política do Tibete/China atinge grande aparato no século XVIII, ostentando ornatos convergentes com soluções presentes nas insígnias universitárias iberoamericanas do período barroco.


 Retrato de Frei Antonio Claudio de Villegas de la Blanca (1700-1754), dominicano, qualificador a Santa Inquisição e bispo de Nueva Galicia. Era natural de Tialtelolco. Figura neste retrato com o hábito talar dominicano (túnica, escapulário, capelo e capa), exibindo na mão o barrete de mestre em Sagrada Teologia pela Real y Pontificia Univ. do México.
No grande plano podemos observar um bonete/barrete cartonado, forrado de pano preto de seda, com base redonda, encimado por quatro picos ou cornos que representam os quatro evangelistas e as quatro virtudes cardiais. Na parte central do barrete está atarraxada borla, com recurso a um parafuso metálico que atravessa verticalmente a copa e os bolbos da borla, tal e qual como nos chapéus cerimoniais dos mandarins e imperadores da China e nos barretes das universidades iberoamericanas. A borla é de seda branca, constituída por três partes complementares: a laurea de fiapos de seda, muito comprida, que desce da base da pega para a base do barrete em quatro fartas madeixas lisas (nos barretes barrocos a laurea ficava mais descida do que o rebordo inferior do barrete em cerca meio palmo); a pega ou maçaneta, formada por quatro bolbos de madeira afeiçoados num torno de carpinteiro, perfurados, forrados a fio de seda com agulhão e montados no parafuso, fechando superiormente com um florãozinho forrado; a capela floral, armada com três envoltas de florinhas forradas de fio de seda e dispostas em torno da pega. Na segunda metade do século XVIII o barrete da Real y Pontificia do Mexico ganhará um aparato barroco ultra ornamentado, semelhante às capelas exibidas por dançarinos em números da procissão do Corpo de Deus.
O retratado não exibe o capelo, por se tratar de um dignitário eclesiástico.
Na base de dados do INAH este retrato está trocado com o de Juan Pérez de la Serra.


 Dois exemplos de capelas florais armadas como florinhas artificiais (hastes, florinhas com quatro pétalas e corola), ornamentação aplicada nas coroas de prata do Divino Espírito Santo, ilha Terceira, Açores.

domingo, 8 de maio de 2016



«Traje masculino/estudante de Coimbra», fotografia n.º 21 da exposição realizada em Lisboa entre 7 de abril e 31 de dezembro de 1994 e catálogo Trajes Míticos da cultura tradicional portuguesa. Lisboa: Museu Nacional do Traje/Electa, 1994, p. 165, com texto de apresentação da coleção assinado pela museóloga Madalena Braz Teixeira.
Os manequins 21 e 22 foram vestidos com peças de indumentária e acessórios de diferentes proveniências, guarda-roupa da companhia de teatro Verde Gaio e doações de particulares. No catálogo e na exposição, inscrita num registo erudito e de reprodução de conhecimentos positivistas não confrontados com trabalhos de campo e pesquisa universitária, este traje é conotado apenas com a Beira Litoral e com os estudantes de Coimbra.
Perpetua-se assim, sem discussão, um discurso de malas artes herdado da etnografia descritiva oitocentista (litografias e postais ilustrados) que se consolidara no período do Estado Novo nos serviços de oferta turística e organismos oficiais como o SNI, a Mocidade Portuguesa ou o bailado Verde Gaio. A reprodução de um estereótipo masculino/feminino que simbolizaria o património indumentário popular da cidade de Coimbra e da região em que se insere. Não fica esclarecido que esta conjugação binária é falsa, resultando da associação arbitrária e fantasiosa de um traje feminino urbano da segunda metade do século XIX com um hábito corporativo masculino estabilizado entre 1907-1911, e entretanto generalizado aos liceus e escolas superiores entre o ocaso do liberalismo e os anos da 1.ª república. Resta saber porque é que este traje concreto foi inventado como popular e outros com profunda inscrição no imaginário ficaram excluídos, caso do balandrau dos irmãos da Santa Casa da Misericórdia, das capas e túnicas das irmandades, da capa dos vereadores, dos trajes de músicos de bandas filarmónicas.
Em nossa opinião, o MNT perdeu uma boa oportunidade para promover uma síntese história sobre os trajes masculinos e femininos dos estudantes portugueses e denunciar as mistificações produzidas até ao limite do absurdo sobre este traje corporativo no período do Estado Novo.
Perdeu-se também a oportunidade de produzir conhecimento sobre alguns pequenos mas importantes pormenores das peças doadas, caso de uma capa anterior a 1974 que ostenta um emblema cosido no interior que remete para a Real República dos Lysos (UPorto, Rua de António Granjo, fundada em 1957). À data da concepção e realização desta exposição o traje masculino de capa e batina já não era mais o único traje dos estudantes portugueses do ensino superior. Um ciclo de criação e regulamentação de novos e diferentes trajes corporativos estava em curso desde 1980 para membros de corpos docentes e discentes, com predomínio do talar unissexo no primeiro caso e do fato/tailleur dimórfico no segundo caso. Nada disto fica referido ou esclarecido.
A master piece desta exposição radicou elaboração do catálogo/inventário de 46 peças, um instrumento positivista clássico que evidencia os conhecimentos dos técnicos da idade clássica da museologia, mas também os seus limites quando se trata de identificar e descrever elementos da cultura material provenientes de comunidades expressivas desconhecidas ao olhar e às categorias mentais do museólogo. Veja-se o caso da subjetivização da abordagem conferida à capa de honras (Trás-os-Montes), ao capote (Alentejo) e ao capote e capelo (Açores) para se perceber que algumas dessa peças de indumentária não tinham de todo o significado que lhes é atribuído pelo museu. Inventar significados também é produzir cultura, mas não é produzir conhecimento no campo das ciências sociais e humanas, significa apenas que quem musealizou não percebeu o imaginário das comunidades de prática.

sábado, 2 de abril de 2016



O escritor Mia Couto honoris causa em humanidades e literatura pela Universidade Politécnica de Maputo, setembro de 2015.
Fotografia de António Silva, em linha, http://www.independenciaslusa.info/mia-couto-apela-aos-politicos-mocambicanos-para-nao-usarem-povo-como-carne-para-canhao/

Traje e insígnias patenteando tendências hibridizantes: indumentária de base influênciada pelo modelo conimbricense abatina+capa em tecido preto, de confecção simplificada; capelo vermelho, a remeter para o mundo académico anglo-saxónico, com possível influência de universidades da África do Sul; barrete de veludo preto, gomado, ornado com galão azul e cordão de borla em dourado, de modelo luterano, comum a diversas universidades germânicas.

Cerimónia honoris causa na Universidade Federal de Pernambuco






Nelson Lima: Professor Honoris Causa pela /of the Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

No dia 18 de Março, realizou-se a cerimónia de imposição de insígnias de Professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco (Recife, Pernambuco, Brasil) ao Prof. Nelson Lima, Diretor da Micoteca da Universidade do Minho (MUM) e Presidente da Organização Europeia de Coleções de Culturas (ECCO), como reconhecimento pela sua dedicada colaboração ao desenvolvimento da Micologia e da preservação ex situ dos recursos genéticos fúngicos no Estado de Pernambuco.

A Reitoria da Universidade do Minho esteve representava pelo Pró-Reitor Prof. Filipe Vaz e a Presidência do Instituto de Educação representada pela Prof.ª Graça S. Carvalho, que acumulou, igualmente, a representação do Departamento de Estudos Integrados de Literacia, Didática e Supervisão e como Diretora do Centro de Investigação em Estudos da Criança. O Centro de Engenharia Biológica, onde o Prof. Nelson Lima é membro integrado participou no evento através de uma vídeo-mensagem enviada para o efeito pelo seu Diretor Prof. Eugénio Ferreira.

Várias Instituições Brasileiras e a Universidade de La Frontera do Chile estiveram presente, fruto das colaborações existentes entre elas e a Micoteca da Universidade do Minho. A Federação Mundial de Coleções de Culturas (WFCC) esteve representada pelo membro da Direção Executiva Dr.ª Manuela da Silva, Assessora da Vice-Presidência de Pesquisa e Laboratórios de Referência da Fundação Oswaldo Cruz/FIOCRUZ, Rio de Janeiro, Brasil. 

Vários projetos de investigação têm sido desenvolvidos entre os dois lados do Atlântico, bem como tem sido constante a colaboração na formação intensiva e avançada de pesquisadores ligados ao programa de pós-graduação em Biologia de Fungos.

Durante a solenidade, também foram celebrados os laços históricos de cooperação e do convénio específico entre a Micoteca da UMinho e a Micoteca URM. A Micoteca da UMinho através da sua Direção tem contribuído ativamente, já há vários anos, para o desenvolvimento da Micologia em Pernambuco, onde se destaca, mais recentemente, o apoio à reforma das novas instalações da Micoteca URM, através de consultoria do projeto FINEP, e ao processo de certificação na ISO 9001:2008, permitindo à URM ser a 1.ª coleção certificada neste normativo no Brasil e em toda a América Latina.



Informação enviada pelo Prof. João Caramalho Domingues
(22.03.2016)