domingo, 25 de Outubro de 2009

Insígnias doutorais na galeria de benfeitores da SCMC


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domingo, 4 de Outubro de 2009


Barrete doutoral de Medicina, século XVII: franjado e pega em amarelo-ouro. Pintura a fresco no tecto da Sala do Exame Privado da UC.

Barrete doutoral de Leis (Direito Civil), século XVII: franjado e pega em vermelho-rubi.

Barrete doutoral de Cânones, século XVII: estrutura troncónica preta, franjado e pega em verde esmeralda.

Barrete doutoral de Teologia, de estrutura preta troncónica, amplo franjado de seda branca e pega superior. Modelo redondo, típico do século XVII, tecto da Sala do Exame Privado da UC.

Figuração escultórica do barrete doutoral nos Gerais da UC, finais do século XVII. Predomínio do modelo redondo preto, com farta borla de tufos de seda a cobrir praticamente toda a copa e ilharga, com pega em forma de florão comedido.

A estátua de São Tomás de Aquino lavrada na segunda metade do século XVI para o colégio conimbricense que os domicanos edificaram na Rua da Sofia. Confirmando o costume, São Tomás enverga hábito talar dominicano e exibe barrete doutoral redondo com borla branca de Teologia. A borla de tufos de seda cobre sensivelmente metade da copa do barrete que ainda não apresenta vestígios da pega.

Barrete doutoral com borla de seda verde (Direito Canónico) e vivos nas cristas que ornam a copa. Modelo histórico usado desde o século XVI nas universidades católicas ocidentais, conheceu inúmeras variantes em Portugal, Espanha, França, Itália e Polónia.
O modelo quadrangular, de estrutura cartonada rígida, é o mais conhecido, embora os estatutos da UC admitissem em pé de igualdade o barrete redondo. Desaparecido das universidades francesas, ibéricas e italianas, este tipo de barrete ainda ocorre em algumas universidades católicas norte-americanas, sendo dificílimo encontrar quem ainda o conheça nas universidades católicas da cidade de Roma.
Hábito franciscano

Monge jerónimo com a respectiva indumentária e acessórios (guarda-chuva e tricórnio).

Hábitos de ordens relógiosas portuguesas que tiveram colégios estabelecidos junto da UC até 1834 para os seus alunos e docentes (franciscanos, dominicanos, carmelitas e beneditinos). Não deixa de ser curioso constatar que o hábito beneditino viria a ser re-adaptado pela Universidade do Minho em 1984 como traje do corpo docente.
O Padre Doutor Francisco Suarez, com o hábito jesuítico e o barrete doutoral de Teologia.

Figuração do hábito dos padres da Companhia de Jesus que entre meados do século XVI e meados do século XVIII liderou o Colégio de Jesus e a Faculdade de Artes Liberais ou Real Colégio das Artes. O hábito jesuítico usado pelos mestres e escolares era do mesmo figurino e cor: capa talar preta, de corte singelo, sem bandas dianteiras nem gola; túnica talar preta, ordinariamente conhecida por roupeta, que se apertava com cinto de pano, de enfiar pela cabeça, abrindo na frente, entre a base do pescoço e o meio do peito; barrete preto de quatro cantos, sobrepojado por cristas e pompom.
Monge trino, com sapato de fivela, hábito talar branco, escapulário branco, murça sobrepujada por cruz, capa preta talar e tricórnio de feltro. Exemplo do modo de vestir dos derradeiros ocupantes do Colégio da Santíssima Trindade.

Ainda não se procedeu a um levantamento minimamente satisfatório da multiplicidade de hábitos usados nos diversos institutos e colégios que integraram a UC entre o século XVI e 1834.
Chapéu, romeira e hábito semelhantes aos elementos representados supra seriam usados pelos inquilinos do Colégio dos Lóios ou Colégio dos Cónegos Regrantes de São João Evangelista.
Património vestimentário e insigniário... (cont.)
Olhares sobre as insígnias doutorais conimbricenses

As insígnias doutorais da UC, conjunto ostentatório e único no panorama artesanal ocidental, são constituídas por um anel, uma cobertura de ombros (capelo) e uma cobertura de cabeça (barrete de borlas). Ao contrário de situações observadas nos dignitários do clero romano, magistrados britânicos e franceses, e doutores italianos e polacos, os doutores conimbricenses nunca usaram insígnias revestidas de arminhos, coelho ou raposa.
O anel doutoral era privativo dos doutores, com base em ouro e gema na cor da especialidade científica, tradicionalmente ofertado pelo “padrinho”[1]. O anel não autoriza mistura de cores, a não ser que a cor oficial de uma Faculdade seja mista. O anel, com ou sem sinete, era uma insígnia comum a monarcas, bispos, cardeais e doutores de universidades italianas, ibéricas e inglesas.
O capelo dos doutores é confeccionado em dois padrões de tecido rico, a murça interna em veludo e a sobre-murça em cetim, com o trabalho de passamanaria em fio de seda natural. A borla apenas autoriza dois padrões de tecido, o forro da estrutura cartonada em cetim e a passamaria em fio de seda natural.
A seda preta, lavrada e lisa, era usada na confecção do hábito talar de gala dos doutores. Quando aplicada em insígnias, a seda lavrada e lisa era reservada aos capelos dos licenciados e bacharéis (séculos XVI-XVIII). Contudo, no século XVII e primeira metade do XVIII, a seda é aceite no forro dos capelos dos doutores/ou mestres de Cânones, Leis, Medicina e Artes Liberais, prática definitivamente abandonada após a reforma pombalina de 1772.
As insígnias próprias dos graus académicos de bacharel, licenciado e mestre/ou doutor, são referenciadas desde o século XV em sucessivos estatutos, sem que os articulados caracterizem o modelo adoptado. O cuidado do legislador centra-se primeiramente na identificação de cada uma das cores científicas e posteriormente nos tecidos a adoptar e na mistura de cores autorizadas. A morfologia e a ornamentação persistem longamente ao sabor da tradição oral, do gosto do graduando e das capacidades da bordadeira. Só muito tardiamente, no texto dos estatutos de 1772 ocorre uma referência aos alamares dos capelos, uma prática em uso generalizado desde o século XVI.
De onde promana o modelo de insígnias doutorais estabilizado desde os alvores do século XIX? De acordo com o relato oral, as insígnias doutorais com o capelo de romeira dupla e alamares barrocos, bem como o barrete redondo de borlas e pega, remontam à Reforma Pombalina de 1772. As pesquisas realizadas desde 1989 confirmam as linhas de força deste relato.
Tudo indica que do entendimento entre o reformador Marquês de Pombal e o Reitor D. Francisco de Lemos resultou a fixação dos mesmos tecidos em todas as Faculdades (veludo e cetim), a estandardização dos alamares e o triunfo definitivo do barrete redondo sobre o quadrangular. As insígnias expressamente confeccionadas para as investiduras dos lentes escolhidos pelo reformador durante os dias de estadia em Coimbra terão garantido o prestígio e a morfologia definitiva da borla e capelo. O barrete circular concebido como forma geométrica perfeita espelhava o brilho e esplendor dos estudos reformados. A estrutura cartonada preta passa a ser da mesma cor da especialidade científica, a copa ganha um fundo duplo, a pega passa de três para cinco bolbos e o fundo começa a ser profusamente ornamentado. Relativamente ao capelo, a murça interna que tinha carcela de botõezinhos e alamares (conforme o capelo dos cónegos da Sé de Lisboa), abandonou definitivamente a carcela.

Sinopse
Estatutos de 1431
[2]: referem sumariamente o cerimonial mas não a morfologia das insígnias, nem as cores. O texto é substancialmente omisso em matéria de tecidos. Na parte relativa à cerimónia de doutoramento distingue-se entre tecidos e de Verão e de Inverno, autorizando-se forro de pele no Inverno e de cendal no Verão.
Estatutos Manuelinos (ca. 1503)[3]: enunciam o cerimonial. Confirmam as cores das escolas existentes, vermelho para Leis, verde para Cânones, branco para Teologia, amarelo para Medicina e azul-escuro para Artes Liberais. Precisam que as insígnias doutorais são constituídas por anel, capelo e barrete com borla. Não facultam dados sobre a morfologia, numa época em que o barrete de borla era semelhante ao camauro ou coifa papal e o capelo abotoado na frente e munido de longo capuz dorsal;
Estatutos Joaninos (1559)[4]: confirmam as cinco cores herdadas do século XV. Definem as seguintes normas:
-doutores em Teologia que fossem possuidores do mestrado em Artes Liberais, capelo em veludo branco, sendo o forro em cetim azul e a borla branca (base preta);
-doutores em Teologia, capelo em veludo branco, sendo o forro em cetim branco e a borla branca (estrutura preta);
-doutores em Cânones, capelo em veludo verde, sendo o forro de cetim verde e a borla verde (estrutura preta);
-doutores em Leis, capelo em veludo carmesim, sendo o forro em cetim e a borla na mesma cor com tufos e retrós (estrutura preta);
-doutores em Leis detentores de mestrado em Artes Liberais, capelo em veludo carmesim, com forro de cetim azul-escuro e a borla vermelha (estrutura preta);
-doutores em “utroque jure” (Leis e Cânones): capelo em veludo na cor da primeira ciência em que foi obtido o grau e o forro cetim na segunda ciência. Borla com mistura de cores nos tufos (estrutura preta);
-doutores em Medicina, capelo em veludo amarelo, forro de cetim amarelo e borla amarela (estrutura preta);
-doutores em Medicina detentores de mestrado em Artes Liberais, capelo de veludo amarelo, forro em cetim azul-escuro e borla azul e amarela (estrutura preta);
-mestres em Artes Liberais, capelo em veludo azul vil, forro em cetim azul e borla azul (estrutura preta);
-bacharéis em Teologia, capelo de seda branca;
-bacharéis em Medicina, capelo de seda amarela.

Especifica-se ainda o porte do anel de ouro com gema para os doutores e mestres, mas nada se acrescenta quanto à borla que seria ornamentada com fios de seda lisa em todas as Faculdades, excepto na de Leis que tinha o privilégio do uso de fios de seda retorcidos. Relativamente aos bacharéis e licenciados não se referem coberturas de cabeça associadas aos graus. Enquanto que nas universidades britânicas e escocesas o bacharel e o licenciado tinham direito a capelo e borla individualizados, nas universidades ibéricas estes graus prescreviam apenas a existência de capelos para certas ciências. O que era imposto na cabeça dos graduandos era o barrete do doutor que presidia ao acto, tradição que se manteve na UC até 1910.

Estatutos Filipinos (1612, ou “estatutos velhos” reconfirmados em 1653)[5]:
-doutores em Teologia, detentores de mestrado em Artes Liberais, capelo de veludo branco, com forro de cetim/tafetá azul-escuro. Borla branca, sendo a estrutura cartonada preta[6];
-doutores em Teologia, capelo de veludo branco, forrado de cetim branco e borla de fiapos de seda branca (estrutura preta);
-doutores em Teologia, pertencentes ao clero regular e secular, tinham privilégio do uso de barrete sem capelo,
-doutores em Direito Canónico, capelos de veludo verde, forro verde de seda. Borla de tufos de seda verde sobre fundo preto;
-doutores em Direito Canónico com mestrado em Artes Liberais, capelo de veludo verde e forro de cetim/tafetá azul-escuro. Borla com mistura de verde e azul-escuro, sendo a estrutura preta;
-doutores em Leis (Direito Civil), capelo de veludo carmesim, forro de seda carmesim. Borla de retrós em seda carmesim sobre estrutura preta;
-doutores em Leis, com mestrado em Artes Liberais, capelo de veludo carmesim e forro em cetim azul-escuro. Borla carmesim e azul-escura, aplicada sobre estrutura redonda ou quadrangular preta;
-doutores in utroque jure (dois direitos), capelo de veludo na primeira ciência (Cânones ou Leis), forro de cetim na segunda ciência, e borlas com as duas cores misturadas;
-doutores em Medicina com mestrado em Artes Liberais, capelo de veludo amarelo, forro de seda azul-escura e borla amarela e azul sobre estrutura redonda ou quadrangular revestida de seda preta;
-doutores em Medicina, capelos de veludo amarelo e forro de seda amarela, sendo a borla toda amarela (excepto a estrutura cartonada que era em seda preta);
-mestres em Artes Liberais, capelo de veludo azul-escuro, sendo o forro de cetim/tafetá na mesma cor, e a borla de fios de seda azul-escura (estrutura redonda ou quadrangular revestida de seda preta);
-licenciado em Teologia, capelo de seda branca igual ao de bacharel;
-bacharéis em Teologia, capelo de seda branca;
-bacharéis em Medicina, capelo de seda amarela.

O anel de ouro com gema era reservado aos doutores de Teologia, Leis, Medicina e Cânones. Não se dispunha sobre a morfologia dos barretes, que podiam ser redondos e quadrangulares, nem sobre o talhe e ornamentação dos capelos. A análise detalhada do texto regulamentar e o seu confronto com a iconografia disponível permitem concluir que os capelos eram abertos sobre o peito, e ornamentados com alamares, sendo os dos bacharéis e licenciados de uma só romeira ou murça e os dos mestres e doutores de dupla murça. O texto não consagra barretes nem anéis para bacharéis e licenciados. O cerimonial relativo aos actos especifica que os candidatos deveriam arguir as provas com o capelo deitado pelos ombros, mas nunca abotoado, e cabeça descoberta, o que nos leva a concluir que as respectivas coberturas de cabeça eram os barretes pretos, redondos e quadrados, comuns aos estudantes.

Estatutos de 1772:
-doutores em Matemática, capelo de veludo azul claro, alamares e rosáceas de fio de seda branca, esfera armilar bordada a branco no lado esquerdo e borla azul-clara[7]. A UC, solícita às vontades do Marquês de Pombal, não aceitou a cor proposta, que curiosamente viria a impor-se nas faculdades de ciências após a Revolução Republicana de 1910. Na realidade, as insígnias confeccionadas pelas oficinas locais de passamanaria seguiram a velha tradição, isto é o capelo em veludo azul-claro forrado de cetim branco e barrete redondo com mistura de azul-claro e branco.
Nada se dispunha quanto a insígnias para bacharéis e licenciados das Faculdades de Matemática e Philosophia Natural. Quanto às cores, o azul-escuro de Artes Liberais transitou directamente para a nova Faculdade de Philosophia Natural. O azul claro e o branco foi consagrado a partir das cores identificativas das alegorias escolares medievais da Aritmética, Geometria e Astronomia, que por sua vez entroncavam na greco-romana Urânia com a sua túnica azul celeste, o globo terrestre, o compasso e o diadema de estrelas.

Antes da abolição do hábito talar e da suspensão do cerimonial conimbricense em 1910, não se registam por parte da UC nem dos etnógrafos portugueses qualquer curiosidade digna de registo pelas insígnias doutorais, simbologia, padrões texteis utilizados ou modo de confecção artesanal nas oficinas locais de passamanaria.
O trabalho de António José Teixeira, intitulado “Insígnias Doutoraes”, dado à estampa na Revista de Educação e Ensino, Volume V, 1890, páginas 145 a 151, emerge isoladamente na época.
Os retratos de antigos lentes e reitores da UC nunca foram alvo de qualquer projecto de análise iconográfica comparada nos séculos XIX e XX. Diversos retratos de lentes com hábitos religiosos e insígnias, oriundos de colégios extintos em 1834, não tiveram melhor sorte. Iconografia dispersa em baixos-relevos nos Gerais, frescos (tecto da Sala do Exame Privado, Capela da UC), arte sacra, retratos de benfeitores de irmandades, galerias de retratos de prelados diocesanos e figurinhas cerâmicas permaneceriam à distância dos investigadores. O desaparecimento da Faculdade de Cânones, em 1836, não motivou qualquer iniciativa da Casa Reitoral que visasse a preservação de um conjunto completo de insígnias, o mesmo tendo acontecido nos anos de 1910-1912 quanto à Faculdade de Teologia.
À medida que o discurso pró-abolicionista foi conquistando visibilidade em círculos restritos alimentados pelas elites burguesas, o cerimonial conimbricense, os hábitos académicos, as insígnias e os símbolos passaram a viver em estado de permanente acossamento entre defensores da manutenção/abolição. Procurando transpor as armadilhas da discursividade contingente que sistematicamente assimilou as insígnias conimbricenses à lenda negra da estética barroca e ao absolutismo político, importa sondar hipóteses interpretativas abertas que conduzam a novos olhares.

A morfologia aparentemente “bizarra” das insígnias doutorais deve ser comparada com insígnias que desempenharam funções contíguas na época da sua consolidação como produto artesanal individualizado. Importa compará-las com as coberturas de ombros e de cabeça usadas em galas e paradas públicas por dignitários de casas reais, cardeais romanos, militares e diplomatas.
Os conjuntos vestimentários de aparato que mais se aproximam da borla e capelo são:

-o manto de ombros e chapéu de Inverno dos antigos imperadores da China, em especial o último com pega superior alteada e abundante franjado de seda em torno da copa. Outra coincidência notável entre o conjunto insigniário conimbricense e o imperial chinês reside na estraordinária semelhança dos dois estojos onde eram guardados o capelo/manto e a borla/chapéu;
-a capa magna e o galero de borlas dos cardeais romanos, de porte continuado entre a Idade Média e 1969;
-o “traje de luces” adoptado pelos bandarilheiros, de origem espanhola setecentista, cuja ornamentação rocaille é próxima das insígnias conimbricenses;
-as vestes talares duplas e as coberturas de cabeça dos altos dignitários do antigo Império Otomano;
-a chapelaria religiosa dos monges do Tibete e Mongólia;
-o barrete dos doges italianos.

Em diversos países europeus e americanos, os capacetes e barretinas militares de aparato, adornados com penachos fixados em descansos metálicos, borlas e cordões, chegaram ao século XX. A tiara papal romana, e as tiaras dos patriarcas ortodoxos eram profusamente ornamentadas e em geral rematadas por florões ou pináculos exibitórios. Barretes redondos, de tipo fez, com copa circular plana e franjas ou borlas de fios nas ilhargas, eram confeccionados manualmente e usados por povos tão distantes como os clérigos etíopes ou as mulheres Adyga do Cáucaso Norte[8].
As coberturas de cabeça e vestes de aparato não se circunscreviam ao clero e à aristocracia. Em Portugal, entre o século XVIII e o primeiro quartel do século XX, incontáveis eram os camponeses e camponesas que usavam chapéus e gorros com pontas, rebordos e abas profusamente ornadas de borlas. As influências do “capello romano” e do galero dos cardeais parecem bem evidentes nestas soluções.
A título de amostragem, recordem-se:

-o sombreiro preto da Beira Litoral, usado entre Coimbra, Ovar e Murtosa, com derivações ovarinas em Lisboa, guarnecido de amplas abas ornadas de pompons e presilhas. Na sua versão mais complexa, o referido chapéu chegou a ter quatro pompons na aba e outros quatro dispostos na copa, ligados entre si por quatro presilhas ou cordões. Os chapéus eclesiásticos romanos da mesma época, e os dos rabinos franceses foram abundantemente figurados com este tipo de ornatos;
-o chapelinho de feltro feminino usado entre Vila Nova de Famalicão e Santarém, remontante a ca. 1870, quase sempre com aba dobrada em torno da copa e rebordo guarnecido de pompons ou “maçanetas”[9]. A semelhança deste chapelinho com o barrete dos bispos da Etiópia e da Roménia (skophia) dificilmente se poderá negar;
-símbolo de afirmação de poder e estatuto social eram também as mantilhas, biocos e capotes e capelos usadas desde o século XVI pelas mulheres da Flandres, Holanda, Espanha e Portugal, cujo uso se prolongou em Portugal até ca. 1950, e de que se conhecem ramificações na cidade brasileira de São Paulo.

No Álbum de costumes portugueses (1888), usam coberturas de cabeça ornadas com borlas o vendedor de palitos do Lorvão, a padeira de Avintes, o carregador de carvão dos barcos do Tejo, o condutor de tojo de Alcoentre, o campino ribatejano, a varina da Murtosa, o pastor da Serra da Estrela, a camponesa minhota, o camponês estremanho, o varino de Lisboa, o aguadeiro alentejano, a camponesa dos arrabaldes de Coimbra, os cegos cantadores, o moço de forcado ribatejano e a vendedeira do Porto. No que respeita aos uniformes, das oito recolhas documentadas no álbum apenas o remador das galeotas reais ostenta a tradicional barretina com a copa recamada de borlas franjadas.
Com funções de reforço da dignidade vicinal e comunitária semelhantes à borla e capelo eram também a coca e mantilha de Coimbra, o capote e capelo dos Açores, a capa de honras de Miranda do Douro, o chapeirão de pompons das mulheres da Beira Litoral e os chapéus em forma de raia gigante exibidos pelos docentes da UC que habitavam nos colégios dos franciscanos, beneditinos e carmelitas.

A incompreensão que fustigou as insígnias e o cerimonial da UC não se estendeu a outras instituições, tendo poupado o grande uniforme napoleónico generalizado em meados da década de 1850 nas Médico-Cirúrgicas e na Academia das Ciências de Lisboa. E argumentos não faltavam, pois além de ser um uniforme importado de França, fazia tábua rasa de respeitáveis librés portugueses cerimoniais como a dalmática, a opa das confrarias e o balandrau das misericórdias, conferindo ar sério a peças de recorte discutível como o bicórnio[10] e a casaca de abas de grilo.
Surpreendentemente, as únicas peças de vestuário, em geral oriundas do século XVI, que enfureceram os arautos dos bons costumes oitocentistas foram os capotes e mantilhas femininos rematados com rebuços, biocos e capelos. Com diversas designações, o capote e capelo, a coca e mantilha, ou mantilha e rebuço, foi usado pelas mulheres abastadas de Viana do Castelo, Guimarães, Braga, Porto[11], Coimbra[12], Lousã, Vila Velha de Ródão, aldeia de Monsanto[13], Portalegre[14], Olhão, Faro[15], Açores[16] e cidade de São Paulo[17].
Ao velho argumento que associava os rebuços à criminalidade, junta-se no decurso do século XIX o fantasma da burca islâmica. Mas as vozes que apoucavam a mantilha popular e o seu suposto atraso civilizacional eram as mesmas que consideravam a mulher menos apta do que o homem para os estudos, bem como mundo laboral e profissional.
Nas comunidades onde as cocas e mantilhas demoraram em uso, a possibilidade de possuir e exibir tal peça de vestuário em procissões, casamentos, baptizados, missas e funerais significava aquisição de estatuto social, e não o contrário como ventilavam interpretações desinformadas.
A coca e mantilha de Coimbra, com a sua vistosa calote em bico, sofreu diversas picardias na voz dos literatos Românticos. Por edital de 28 de Setembro de 1892 o governador civil de Faro, Júlio Lourenço Pinto, declarou o rebuço feminino interdito nos templos, povoações e actos públicos. Em São Paulo, D. João VI intentou proibir os mantos e rebuços femininos em 30 de Agosto de 1810. Escusado será dizer que nenhuma destas medidas proibicionistas alcançou resultados imediatos. No caso dos Açores o capote e capelo foi mantido como símbolo de aquisição de estatuto social até ca. 1950, altura em que foram avistados os últimos exemplares em missas e cerimónias fúnebres.
Já em relação aos capotes masculinos detectados nos meios provinciais, as atitudes dos alvitristas urbanos foram de grande condescendência. A capa de honras de Miranda do Douro, próxima de vestes eclesiásticas como a capa de asperges e a almucia dos monges de Santa Catarina do Monte Sinai, suscitou continuados embevecimentos. O capote alentejano, formulação local de um capotão urbano em voga nas cidades francesas e britânicas do primeiro quartel do século XIX, não sofreu qualquer depreciação. O gabão preto ou “varino” era uma veste de prestígio e continuaria a sê-lo mesmo depois de revelado o seu uso por um dos regicidas em 1 de Fevereiro de 1908.

As insígnias e o cerimonial serviam para reafirmar periodicamente a coesão interna dos três corpos constitutivos da Academia (lentes, escolares e funcionários). A ritualização da investidura doutoral possibilitava a pública encenação da produção do conhecimento e a renovação da Alma Mater, associando o saber à festa, vivência homeopática cujos benefícios o século XXI se encarregaria de reconfirmar.
O puritanismo burguês dos séculos XIX e XX não se esforçou por compreender a singularidade do fenómeno. Tudo parecia supérfluo, grotesco, como que apelando a um sensualismo esbanjador, num registo redutor que tanto condenava o cerimonial conimbricense, como o Mosteiro de Mafra, o Aqueduto das Águas Livres ou a peruca do rei D. João V. Seria necessário aguardar a década de 1960 para que o sistema cultural e moral burguês fosse também ele alvo de virulentas críticas. O estribilho cruel de Jacques Brel, “Les bourgeois c’est commme des cochons”, gravado em 1961 no tema “Les Bourgeois”, era apenas uma ponta do iceberg de um sistema cultural e ideológico povoado de obsessões e interditos, cuja faceta mais ridícula de há muito vinha a ser caricaturada sob a designação de “novo riquismo”.
As insígnias e o cerimonial serviam também para afirmar a imagem da UC no plano externo. Realçando a dignidade da instituição, permitiam construir uma poderosa imagem de singularidade inscrita no campo do património imaterial, tão eficaz como as mais bem congeminadas campanhas de marketing. Esta estratégia de poder radica numa identidade paradigmática, assumida e imitada ainda no século XIX pelas primeiras escolas de Direito do Brasil, a partir de 1915 pela Faculdade de Direito da UL, e em 1918 pelas universidades de Lisboa e Porto. O reconhecimento do desejo de apropriação do paradigma conimbricense, assumido descomplexadamente no Brasil, nem sempre foi afirmado em Portugal. E contudo, para além da questão da nacionalização das insígnias em 1918, os processos de imitação estenderam-se aos trajes e ao cerimonial, sinal indesmentível de admiração.

Um assistente da Faculdade de Medicina da UC, sensível a assuntos etnográficos e artísticos, Joaquim Martins Teixeira de Carvalho, não deixou de chamar a atenção numa crónica de 1902 para representações da borla e capelo pelos oleiros e decoradores de cerâmica de Coimbra[18]. Procurando ilustrar, referiu expressamente a temática do Menino Jesus entre os doutores. Era porém a voz isolada de um republicano sensível às questões do património, não corroborada pelas correntes abolicionistas e proibicionistas do tempo.
Poucos dias corridos após a implantação da República, no dia 17 de Outubro de 1910, um grupo de estudantes anarquistas, conhecido por Falange Demagógica, assaltou o Paço das Escolas Gerais com machados, revólveres e bombas artesanais[19]. Na Sala dos Capelos e nas salas de aula de Direito e Teologia foram danificados os retratos régios e as cátedras onde os lentes liam as lições. Num compartimento contíguo à Sala dos Capelos, conhecido por “vestiário dos lentes”, o grupo esventrou cacifos, destruiu mobiliário e quadros ornamentais e rasgou borlas e capelos de Direito e Teologia.
Algumas das insígnias foram lançadas da varanda da Via Latina para o terreiro e outras pontapeadas até à entrada da Porta Férrea. Jornais e revistas mundanas acudiram a Coimbra e registaram o rasto de destruição deixado pelos falangistas. O Occidente, nº 1149, de 30 de Novembro de 1911, divulgou duas fotografias relativas ao esventramento do vestiário dos lentes, capas e batinas lançadas ao chão, capelos rasgados e estojos de latão das insígnias pontapeados. Reportagem mais completa editou a Illustração Portugueza, nº 245, de 31 de Outubro de 1910[20], num texto que justificava a violência como terapia.
A redescoberta intra-institucional do valor cultural e simbólico das insígnias doutorais terá de aguardar o sentido de perda alimentado pela Primeira Guerra Mundial e o confronto entre a estranha paralizia da UC e a afirmação pública de instituições como a Academia das Ciências de Lisboa, a UL e a UP. Em 21 de Julho de 1915 a Gazeta de Coimbra alertava em tom sensacionalista “A Universidade de Coimbra. Novo perigo que a ameaça” para os propósitos do ministro da Instrução Pública que anunciara a criação de uma faculdade de letras na Universidade do Porto.
O titular da pasta levou a proposta de criação de uma faculdade de letras, de uma faculdade de direito e de uma escola normal no Porto ao Parlamento, na sessão de segunda-feira, dia 2 de Agosto de 1915, conforme noticiou a Gazeta de Coimbra, na sua edição de 4 de Agosto de 1915.
Alguns dias mais tarde, sob o título “Reabertura da Universidade”, a Gazeta de Coimbra, de 20 de Outubro de 1915, lamentava a inércia Coimbrã face às aberturas solenes anualmente realizadas na UP, UL e Academia das Ciências de Lisboa, e aproveitava para lembrar que não obstante as hostilidades ao hábito talar e insígnias, em Lisboa os lentes integrados na nova Faculdade de Direito haviam comparecido na sessão solene de abertura da Academia das Ciências, realizada em 16 de Outubro de 1915, em hábito e borla e capelo. Lembrava-se ainda que nas universidades estrangeiras mais prestigiadas os trajes e insígnias continuavam em uso. O articulista ia mesmo mais longe, afirmando a borla e capelo superiores ao grande uniforme de académico, ao espadim e ao bicórnio.
Tendo finalmente compreendido que o processo político de anatematização visara apenas a UC, o Senado designou em 13 de Novembro de 1915 uma Comissão do Traje e Insígnias, constituída por António Faria Carneiro Pacheco (1887-1957), da Faculdade de Direito, António Garcia Ribeiro de Vasconcelos (1860-1941), da Faculdade de Letras, e Álvaro José da Silva Basto (1873-1924), da Faculdade de Ciências[21]. A figura mais prestigiada desta equipa era o cónego doutor António de Vasconcelos, um erudito conhecedor da história da Alma Mater, suas insígnias e cerimonial, cuja discreta presença contribuiu decisivamente para a manutenção da borla e capelo como insígnias doutorais em Coimbra, escolha e mistura das cores das especialidades científicas e apoio à retoma das aberturas solenes e rituais de investidura doutoral[22].
A Vasconcelos se ficarão a dever discursos de imposição de insígnias proferidos na Sala do Senado, que apesar de terem sido descodificados no século XX apenas como enunciados conservantistas católicos, são notáveis peças de erudição sobre o legado mitológico greco-romano na UC e chaves incontornáveis de interpretação da cultura imaterial e das respectivas linguagens simbólicas: “Alocução pronunciada… em 30 de Janeiro de 1918 pelo Director da Faculdade de Letras… no acto de conferir as insígnias doutorais ao Novo Doutor Manuel Gonçalves Cerejeira” (Coimbra, França Amado, 1920), “Alocução pronunciada… em 16 de Dezembro de 1919… no acto de conferir as insígnias doutorais aos novos Doutores Ferrand Pimentel de Almeida e João da Providência Sousa Costa” (Coimbra, França Amado, 1920), e “O uso das insígnias doutorais”, Correio de Coimbra, nº 117, de 26 de Julho de 1924.
Em meados da década de 1930 o lente da Faculdade de Medicina Alberto Moreira da Rocha Brito publica O primeiro dia de aula, a primeira casa, o primeiro lente… da Faculdade de Medicina, desde a última transferência da Universidade para Coimbra, Coimbra, Coimbra Editora, 1935, onde pela primeira vez se opera o cruzamento de informação escrita e iconográfica sobre diversos aspectos do cerimonial conimbricense, rituais e insígnias doutorais. Não era nada que os docentes da casa Joaquim Martins Teixeira de Carvalho e António de Vasconcelos não soubessem, mas coube a Rocha Brito condensar a informação melhor conhecida à data da publicação acima referida.
O autor, através de reproduções fotográficas a preto e branco chama a atenção para as figurações das insígnias doutorais das antigas escolas maiores no tecto da Sala do Exame Privado e galeria dos reitores, exercitando em tom positivista algumas das linhas mestras da ulteriormente chamada história da vida quotidiana e recolhe iconografia variada.
Estão neste caso a estátua quinhentista de São Tomás de Aquino, com barrete doutoral de época, que na década de 1930 viera do Palácio da Justiça de Coimbra para o Museu Nacional Machado de Castro e um painel de azulejos do Mosteiro de São Jorge alusivo a um “Menino Jesus entre os doutores”. Neste último motivo, o capelo dos “doutores”, aberto na frente, e ornado com seis alamares, aponta para uma figuração do capelo anterior à reforma pombalina. Sem perguntar pelo grau de fidelidade da representação, atente-se no ano de 1756 como data marcante da decoração deste mosteiro sito na margem esquerda do Mondego, uns quatro quilómetros adiante da Lapa dos Esteios.
Rocha Brito não se limitou a recolher iluminuras de aulas medievais, azulejos, esculturas, gravuras de viajantes como George Braunio, frescos, ou ilustrações de gramáticas. De parceria com o artista Arcindo Madeira idealizou a reconstituição do acto de licenciatura de um estudante de Medicina reportado a 1538. O desenho padece de algumas vulnerabilidades, sobretudo no que toca aos trajes do graduando e do bedel e a uma certa clonagem não aprofundada da escultura do São Tomás de Aquino. A ideia em si afigura-se bastante interessante, apesar de não ter seduzido continuadores.
Na transição da década de 1980 para o decénio de 1990 as insígnias doutorais conimbricenses voltaram a chamar as atenções dos investigadores. Em 1989 o assistente de História da Faculdade de Letras da UC Fernando Taveira da Fonseca discorreu “Acerca das insígnias doutorais na Universidade de Coimbra. Breve nota sobre um episódio da vida académica”, MUNDA, nº 18, Novembro de 1989, páginas 86-92. Confrontando os Estatutos Velhos, os Estatutos (pombalinos) de 1772 e o Diário do que se passou em Coimbra desde 22 de Setembro de 1772, o autor proporciona informação consistente sobre as insígnias doutorais adoptadas oficialmente na então criada Faculdade de Matemática.
Pouco depois, o sacerdote e estudante da Faculdade de Letras da UC José Eduardo Reis Coutinho assina um artigo intitulado “Insígnias doutorais de Coimbra”, MUNDA, nº 21, Maio de 1991, páginas 77 a 87. Trata-se de uma incursão erudita, apoiada em fontes académicas e textos religiosos, que contextualiza a origem espiritual e religiosa das universidades, cerimoniais e insígnias. A iconografia recolhida e legendada ilustra eficazmente o texto. O investigador apoia-se em imagens medievais de monges copistas, aulas com lentes na cátedra, uma xilogravura da “gramática de Estêvão Cavaleiro”, entre outras, para cerzir com competência e rigor os traços comuns e as diferenças entre insígnias de doutores, cónegos, bispos e cardeais. Outro aspecto positivo neste pequeno artigo respeita ao registo de vocabulário tradicionalmente empregue pelos lentes e bordadeiras locais.

Representações na galeria reitoral da Sala do Exame Privado
Os retratos reitorais de corpo inteiro anteriores ao século XVIII foram realizados ou refeitos em 1701 pelo pintor António Simões na Sala do Exame Privado. A morfologia dos barretes figurados obedece a duas tipologias em uso nessa data: o barrete redondo troncónico (pileus rotundus) e o barrete quadrangular com quatro arestas salientes (pileus quadratus). Eram ambos confeccionados em cartão, com revestimento de cetim ou seda preta. No centro da copa fixava-se uma borla de fartos fiapos, da qual emergia um florão ou pega revestida.
O barrete redondo vinha pelo menos de meados do século XVI, e na origem tinha uma borla de fios de seda bastante comedida, de tipo pompom. Pode visualizar-se uma imagem do barrete doutoral redondo numa estátua quinhentista de São Tomás de Aquino, proveniente do Colégio de São Tomás, que se encontra num portal lateral do Museu Nacional Machado de Castro. Respeitando a tradição, São Tomás ostenta o barrete doutoral de Teologia, mas não o capelo, envergando o hábito dominicano.
Na segunda metade do século XVI, primeiro em Salamanca, depois em Coimbra, os doutores teólogos consagraram a moda das borlas de fiapos longos, a cobrir toda a copa do barrete e a escorrer ilharga abaixo. A moda pegou, alastrou a outras universidades como Alcalà de Henares, e passou a ser cobiçada pelos doutores de leis, medicina e cânones.
O barrete quadrangular tem uma origem mais recuada. No século XV tinha a forma de coifa, talhada em quatro quartos, encimada por borla. Na primeira metade do século XVI mantinha a antiga estrutura maleável, com os seus quatro quartos, a bainha posterior a tapar o cachaço e a bainha da frente arqueada sobre a testa. Era o modelo de corbertura de cabeça mais usual nos humanistas, letrados e docentes, de Bolonha a Oxford. Estabiliza na segunda metade do século XVI numa estrutura cartonada preta, rígida, com o rebordo da copa recortado por quatro “cornos”, arestas, “cantos” ou lobos, podendo ter copa plana, côncava, convexa, cristas superiores em forma de cerro de peixe e borla de variados formatos (pompom, fiapos, florão), com intenso uso por eclesiásticos romanos, doutores ibéricos, polacos, e ainda doutores e juristas franceses.
Os juristas, juízes e doutores ibéricos do século XV usavam como barrete cerimonial um camauro de tecido preto, com o rebordo recortado na testa, que arredondava junto das orelhas e protegia o pescoço. Talhado em quartos de pano, cujas costuras podiam ser rematadas por dentro ou por fora, em crista, exibiam no centro da copa generosa borla de fios de seda na cor da especialidade científica. Doutoramentos em duas ou mais especialidades autorizavam a mistura de cores: vermelho/verde (Leis e Direito); azul/vermelho (Artes Liberais e Leis); vermelho/banco (Direito e Teologia), etc.
Na primeira metade do século XVI, o camauro evolui para um boné ou gorra de quartos, mais comprida na zona do pescoço e orelhas, recortada sobre a testa, com a calote a sugerir quatro saliências. Este modelo, conhecido por “Canterbury cap”, foi usado em toda a Europa e espaços coloniais católicos por doutores, juristas, eclesiásticos e humanistas. Dele se conhecem figurações relativas às universidades de Bolonha e Paris, bispos britânicos e retratos de Erasmo de Roterdão e Martinho Lutero.
Feito este esclarecimento, não são credíveis as figurações dos barretes doutorais dos reitores Frei Diogo de Murça, Afonso do Prado e Martim Gonçalves da Câmara, nos quais o retratista abusivamente comete anacronismo. Independentemente de questionarmos o grau de veracidade dos rostos, centremo-nos na iconografia de Frei Diogo de Murça. Monge jeronimita, era doutorado em Teologia por Louvaina, pelo que o barrete exibido, de tipo conimbricense/salmantino, não se pode considerar correcto. Num outro retrato de corpo inteiro de Frei Diogo de Murça, actualmente no edifício do Arquivo da UC, feito ou refeito no século XVIII, a borla doutoral de Teologia configura o modelo rocaille conimbricense (base preta)[23]. No caso de Martim Gonçalves da Câmara, não é aceitável a borla doutoral branca de Teologia, pois este reitor apenas era licenciado em sagrada escritura. Outrossim, era mestre em Artes Liberais, pelo que o seu barrete teria obrigatoriamente franjas azuis escuras. No retrato de Aires da Silva registe-se uma dúvida. Doutor em Teologia, este lente fora nomeado reitor em 1564, data em que só tinha o grau de mestre em Artes Liberais. Como tal, a borla que orna o respectivo barrete deveria ser azul e branca, e não apenas branca, a não ser que os doutores de Teologia seguisssem regidamente o preceito de apenas misturarem cores nos capelos. Erro idêntico ao detectado em Aires da Silva persiste no retrato de Jerónimo de Menezes. O caso de Nuno de Noronha, é semelhante aos dois anteriores, não sendo muito claro se os tufos da borla são azuis-escuros e brancos, como preceituava a tradição. O barrete de Francisco de Castro, cujas franjas parecem esverdeadas, suscita interesse acrescido. Sendo Castro licenciado em Teologia e mestre em Artes Liberais, o seu barrete teria de apresentar borla azul escura, o que nos parece ser o caso. Vasco de Sousa, mestre em Artes Liberais e doutor em Teologia, volta a apresentar franja unicamente branca. E o problema repete-se no retrato de Álvaro da Costa, cujo barrete de teólogo omite a mistura de azul-escuro por força do mestrado em Artes Liberais.
Curioso também é o tratamento dado ao barrete de André Furtado de Mendonça que exibe borla branca, apesar de não ser doutor em Teologia, com omissão do seu mestrado em Artes Liberais (azul-escuro). O azul-escuro do mestrado em Artes Liberais permanece omisso no barrete de Manuel Pereira de Melo, que ostenta apenas o branco de Teologia.
As sucessivas inobservâncias da mistura de cores nas insígnias ostentadas pelos reitores dos séculos XVI e XVII, requerem que a informação patente na galeria reitoral da Sala do Exame Privado seja usada com certa reserva. Ao anacronismo morfológico apontado para o século XVI, acrescem seguramente o pouco cuidado da Casa Reitoral no acompanhamento da execução dos retratos à entrada do século XVIII. Quanto às persistentes omissões do azul-escuro, sendo certo que a Faculdade de Artes Liberais era uma escola menor, a sua gestão pela Companhia de Jesus estava ainda muito distante do processo de desacreditação encabeçado pelo Marquês de Pombal.
Sigamos a disposição das telas:

Frei Diogo de Murça (1543-1555): barrete preto troncónico, de Teologia, com franjas de seda a cobrir toda a copa (plana e sem cristas), descendo ligeiramente abaixo do rebordo. Borla central de tipo florão, de escassa altura. Veste hábito carmelita e não usa capelo. Modelo igual ao esculpido nos baixos-relevos das portadas das salas de aula dos Gerais e tecto da Sala do Exame Privado. Figuração idêntica num doutor da Universidade de Alcalà de Henares, herdado pela Universidade Complutense de Madrid. O “pileus rotundus” tem a mesma morfologia do barrete clerical ortodoxo russo, o kamilavkion;
Doutor Afonso do Prado (1555-1557): barrete doutoral idêntico ao de Frei Diogo de Murça. Hábito talar, sem capelo;
Dom Martim Gonçalves da Câmara (1563-1564): barrete de Teologia, com borla e franjado semelhantes aos dos prelados anteriores. A base do barrete parece quadrangular e não circular. Hábito talar, sem capelo;
Ayres da Silva (1564-1569): continuidade do modelo descrito, revelando o franjado tendência para descer até meio da ilharga do barrete. Enverga hábito talar eclesiástico, sem capelo;
Dom Jerónimo de Menezes (1570-1578): persiste o mesmo tipo de barrete;
Dom Francisco de Castro (1605-1611): o barrete preto, de base redonda, remata superiormente com quatro arestas ou picos muito recortadas, segunda a moda espanhola em voga (Salamanca, Alcalá). Do centro da copa descem franjas verdes até meio da ilharga, sendo o centro ocupado por uma borla de tipo florão. As franjas continuam a ser de fios, sem vislumbre de cachinhos florais ou de pingentes. Hábito eclesiástico, com murça;
Dom João Coutinho (1611-1618): barrete idêntico ao de Francisco de Castro;
Dom Vasco de Sousa (1618): barrete preto cilíndrico, com farto franjado a toda a volta da copa e borla central de florão. Hábito talar, sem capelo;
Dom Francisco de Menezes (1618-1624): barrete preto, com copa de arestas e franjado verde a descer generosamente pela ilharga. Hábito eclesiástico, com murça;
Dom Álvaro da Costa (1633-1637): barrete preto, redondo, com copa de arestas, franjas brancas e florão central;
Rodrigo de Miranda Henriques (1662-1663): barrete preto, troncónico, copa de quatro arestas recortadas, franja verde singela e florão central. Hábito talar, sem capelo;
Manuel Corte-Real Abranches (1664-1666): barrete idêntico ao de Álvaro da Costa. Hábito talar, sem capelo;
André Furtado de Mendonça (1667-1673): barrete preto, com franjado de Teologia, copa de quatro picos. Pega ou florão nitidamente desenhada. Trata-se de uma maçaneta de madeira, entalhada em torno, de altimetria comedida, revestida de seda. Hábito talar eclesiástico, com murça;
Manuel Pereira de Melo (1673-1675): barrete preto, copa de quatro arestas pontiagudas, franja branca descida quase ao rebordo inferior da ilharga. Hábito talar, sem capelo;
Dom José de Menezes (1675-1679): barrete preto de quatro arestas, ilharga baixa, franjado a toda a altura da ilharga e florão pequeno. Hábito eclesiástico, com murça;
Manuel de Moura Manuel (1685-1690): barrete de arestas, franjado verde singelo. Vestes eclesiásticas, com murça;
Rui de Moura Teles (1690-1694): modelo idêntico aos anteriores;
Dom Nuno Álvares Pereira de Melo (1703-1709): continuidade do modelo de arestas recortadas na copa;
Dom Gaspar de Moscoso e Silva (1710-1715): barrete preto, quatro arestas, franjado verde muito descido, pega central torneada e revestida. Enverga túnica de franciscano, sem capelo doutoral.

Representações no tecto da Sala do Exame Privado
Os frescos da Sala do Exame Privado, antigo salão nobre do paço real de Coimbra, resultam das obras de remodelação levadas a cabo em 1701. A ornamentação do tecto, idealizada pelo pintor José Ferreira Araújo, inclui diversos medalhões com os símbolos das quatro escolas maiores então existentes, executados por João Vidal. Os medalhões, são delimitados por molduras ovaladas, contendo livros, um barrete doutoral, frases bíblicas em latim e os símbolos de cada ciência.

Faculdade de Direito Canónico: tiara papal e chaves; 4 livros; frase latina; barrete doutoral preto, troncónico, franjado verde à base de fios simples, pequeno florão ou pega atarraxada no centro da copa;
Faculdade de Medicina: cegonha, bastão de Esculápio (na verdade, figuração errada do caduceu de Mercúrio e duas serpentes), livros, frase latina, sol resplandecente e barrete doutoral. Formato troncónico, estrutura preta, franjados e florão amarelos;
Faculdade de Leis: livros, espada e balança, frase latina, barrete preto troncónico com franjado e florão vermelhos;
Faculdade de Teologia: livros, cruz latina, sol, frase latina e barrete preto troncónico. Franjado branco simples, descendo pouco abaixo da copa. Pequeno florão central.

Sobre as portas foram executadas telas rectangulares com replicação dos símbolos e insígnias, estando omissas as da Faculdade de Artes Liberais.
Os barretes doutorais pintados no tecto da Sala do Exame Privado reproduzem o mesmo modelo esculpido nos vizinhos Gerais: formato troncónico, estrutura preta (tal como nas universidades espanholas), franjas de seda de fios simples, cobrindo toda a copa, e descendo mais ou menos até meio da ilharga. Fixação superior do franjado com uma borla ou florão revestido, de escassa altura. No tecto da capela da UC existiam barretes conformes ao modelo descrito que foram integralmente removidos no século XIX.

Representações nos Gerais das Escolas
O edifício da Faculdade de Direito da UC alberga um claustro, conhecido na gíria académica por Gerais (=claustro ou pátio dos estudos gerais), em torno do qual estão dispostas diversas salas de aula. No piso superior existiam salas de cada uma das escolas maiores, identificadas nas sobreportadas de pedra de Ançã por motivos ornamentais alusivos aos símbolos das Faculdades.
Para aquilo que mais directamente nos interessa, trata-se de medalhões circulares, em cujo interior ocorrem a tiara papal (Cânones), a espada e a balança (Leis) ou a cruz e sol (Teologia). Cada medalhão exibe um barrete doutoral, de morfologia troncónica. O franjado, de fiapos de seda, cobre toda a copa e escorrega bem até meio da ilharga. No centro, o florão ou pega, é uma característica conimbricense definitivamente afirmada.
Este trabalho, da autoria do escultor Claude Laprade, decorreu no reitorado de Nuno da Silva Teles, entre 1698-1702, e confirma o “pileus rotundus” abundantemente figurado na Sala do Exame Privado.

Representações na Real Capela de São Miguel
Integra o conjunto arquitectónico do Paço das Escolas Gerais a antiga capela real, da invocação de São Miguel Arcanjo, de traça manuelina (1517-1522). O estuque do tecto da capela-mor estava ornado com uma figura da Sapiência e medalhões ovais contendo os símbolos clássicos das quatro escolas maiores. Esta obra de pintura ficou pronta em 11 de Junho de 1697 e incluía os ornatos vegetalistas policromos do tecto do salão e a calote da capela-mor.
Os barretes doutorais pintados eram idênticos aos anteriormente identificados na Sala do Exame Privado e Gerais. Porém, a leitura atenta do programa decorativo diz-nos que no referido tecto não sobra o menor vestígio da antiga insígnia doutoral. Há uma explicação para este estranho desaparecimento. Ao longo do século XVIII e primeira metade do século XIX os estuques e frescos do tecto da Capela de São Miguel sofreram extensas deteriorações resultantes de infiltrações pluviais e humidades.
No mês de Fevereiro de 1858 suspenderam-se o culto religioso e as cerimónias académicas neste templo, em cujo interior foram montados andaimes para suporte de empreitada de restauro. A obra de renovação dos estuques arrancou a quatro de Junho de 1858, e a de pintura a 6 de Abril de 1859. O trabalho de decoração foi arrematado pelo pintor António José Gonçalves Neves e concluído em 1860[24].
No “registo dos relatórios” da obra, afirma-se que o pintor respeitou “escrupulosamente” o desenho de 1697, informação que não é inteiramente verdadeira. O respeito pelos dourados, marmoreados, folhagens, flores e molduras, reproduz a obra primitiva. Já no tocante ao tecto da capela-mor, o artista actualizou os quatro barretes doutorais pelo modelo redondo pombalino rococó. Certamente orientado pela Casa Reitoral, converteu a Sapiência numa espécie de Santa Catarina, por via da omissão da joeira, mocho e esfera armilar, tendo substituído esta por uma palma. No livro que exibe na mão esquerda lê-se “Initium sapientiae timor domini”. A explicação é simples. Após a Revolução Liberal, os simpatizantes da laicização da UC e da separação entre Estado e Igreja Católica preferiam chamar Minerva à Sapiência, fricção que se procurou neutralizar por via do recurso a uma Santa Catarina de Alexandria protectora dos estudos[25].
Galeria dos benfeitores da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra
O núcleo museológico da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra, instalado no antigo Colégio da Sapiência, conserva uma colecção de retratos a óleo de antigos benfeitores, cujas datas extremas vão do século XVII aos inícios do século XX. O século XX é representado por um Guilherme Moreira, lente de Direito e Reitor, com batina-casaca e capelo vermelho, destituído de valor informativo suplementar. A primeira metade do século XIX encontra-se representada por três retratos a óleo, sendo um deles um lente de Medicina com hábito talar e borla e capelo, numa figuração romântica que reproduz o modelo pombalino rococó conforme chegou ao século XX. O segundo fixa um lente de Direito, vestido com casaca preta civil, mas exibindo em cima de uma mesa de trabalho uma borla de Direito com a configuração contemporânea. O terceiro evoca o Doutor Francisco António Duarte da Fonseca Montanha Oliveira e Silva, cónego e lente de prima de Leis, falecido em 1825. Enverga batina romana preta, sobrepeliz e murça preta avivada a rosa. Em mesinha lateral avista-se uma borla de Leis, de formato cilindriforme, copa plana, pega alta, ornada de fios e passamanaria rocaille, com a estrutura cartonada vermelha. Francisco Montanha (1744-1825) doutorara-se em Leis no ano de 1762, podendo admitir-se que a borla figurada no retrato é anterior à Reforma Pombalina de 1772.
Noutros benfeitores mais recuados, o capelo permanece omisso. É o caso do Doutor Francisco Lopes Teixeira, cónego e lente de Teologia, falecido em 1662. O traje é idêntico ao de Francisco Montanha, mas a borla doutoral apresenta a estrutura cilíndrica forrada de cetim branco, e o trabalho de passamanaria e a pega colocam-nos de sobreaviso. Importaria realizar neste retrato análises dos pigmentos para determinar até que ponto o barrete doutoral é coevo do retrato (caso este não seja fini-setecentista) ou se foi acrescentado na segunda metade do século XVIII.
É duvidoso que o trabalho de passamanaria rocaille pudesse existir em finais do século XVII, como é inaceitável que o barrete fosse revestido de cetim branco, quando a cor usual era sempre o preto.
Dois outros retratos desta mesma galeria contraditam a informação presente em Francisco Teixeira. Na esfinge do cónego Sebastião ocorre uma rara figuração da borla de Artes Liberais, de morfologia quadrangular preta, sem cristas, franjado azul-escuro simples a descer desde o centro da copa em tufos que se prolongam até meio da ilharga e pega superior pouco alteada. Do mesmo tipo é a borla de Cânones do cónego doutor Caetano Correia, cuja morfologia quadrangular se aproxima do barrete eclesiástico/doutoral polaco. O franjado verde, simples, cobre toda a superfície desde o centro da copa até à base, sendo a estrutura cartonada revestida de cetim preto. O florão é assaz alto, em forma de balaústre ou pega de borla de reposteiro, em madeira entalhada e forrada a fio de seda.

Retratos do Arquivo da Universidade de Coimbra
Na caixa das escadarias, Sala D. João III e gabinetes do AUC encontram-se diversos retratos de antigos lentes com hábitos regulares e insígnias, que sendo oriundos dos extintos colégios universitários transitaram após 1910 para o Museu Nacional Machado de Castro.
Deste conjunto sobressaem dois jeronimitas, em particular Frei Diogo de Murça. Ambos exibem um barrete doutoral de Teologia, de formato redondo, não anterior aos reinados de D. José I/D. João V, com o tradicional fundo preto e o rebordo sem espiral.
Existe ainda um grupo de seis retratos de meio-busto com lentes de Teologia oriundos do Colégio de São Bento. Usam túnica preta talar de avantajados mangões e cabeção, mas à semelhança dos Jerónimos não ostentam capelo. Cinco dos barretes desenhados, algo toscos no debuxo, são quadrangulares, franjado branco liso e cascatas de borlas em florinhas campaniformes. A copa não contém espiral, flores ou folhas, limitando-se a exibir a pega de aparato. Comum a todos é a estrutura cartonada forrada de cetim preto. Num dos monges, a figuração do barrete redondo é bastante pormenorizada, apresentando este o típico formato de uma borla de reposteiro ou pincel de caiador: ilharga cilindriforme, copa circular plana, franja cobrindo integralmente a copa e a ilharga e pega de tipo maçaneta, aqui com uma base bastante larga.

Iconografia dispersa
Além da iconografia reportada ao longo deste estudo, existem figurações dispersas, oriundas dos séculos XVI, XVIII e XIX, da maior importância para o levantamento dos percursos morfológicos das insígnias.
No caso espanhol, para o período anterior à legislação uniformizadora de 1850, a Universidade Complutense de Madrid, herdeira de Alcalà de Henares, testemunha duas telas a óleo do século XVII, ambas de fulcral importância. Uma delas, de autor anónimo, retrata Santo Tomás de Villanueva no seu gabinete de trabalho[26]. O teólogo enverga loba castanha talar e estola de ombros. Sobre a mesinha de trabalho vislumbra-se um barrete doutoral cilindriforme, de estrutura preta, que alarga da base para a copa. A borla, de tufos de seda branca, cobre toda a copa circular e desce ligeiramente abaixo do rebordo. É o mesmo tipo de barrete assinalado nos Gerais e Sala do Exame Privado da UC (sendo que no modelo conimbricense a copa exibe pega ou florão), e ainda numa imagem de “Santo Ovídio Doutor” detectada num templo da cidade do Porto.
Na mesma universidade existe uma cópia de uma tela da primeira metade do século XVII, realizada por António Martinez Anaya, alusiva a uma Imposición del birrete doctoral em Alcalà de Henares[27]. Neste acto de colação do grau de doutor em Teologia, o doutorando permanece ajoelhado perante o cancelário, estando este ladeado por doutores de Teologia, Leis, Medicina e Artes Liberais. Dos dez barretes documentados, sete são quadrangulares, com a base preta e arestas salientes, descendo a borla em quatro cascatas de tufos. Nos três restantes doutores, o barrete doutoral é constituído por um sombreiro ou chapéu preto de copa calótica e aba larga, com a borla aplicado a toda a volta da copa como nos chapéus de gala dos imperadores chineses e dos dignitários tibetanos.
No que respeita à Universidade de Salamanca, saliente-se o retrato de corpo inteiro de um Doutor de Leis, realizado por Francisco de Zurbaran (1598-1664). O letrado veste ampla loba talar vermelha, murça doutoral vermelha e um barrete ornado de borla preta. A documentar a simbólica salmantina está ainda o grupo sacro em madeira policromada e estofada, do século XVIII, um São Cosme e um São Damião, num dos altares da Iglesia de San Julián y Santa Basilisa (Salamanca)[28]. Os dois santos são apresentados com lobas talares de corpo duplo, meias altas e calções, murça de Medicina munida de capuz e abotoada na frente com fileira de botõezinhos e barrete quadrangular preto munido de quatro tufos amarelos. Este barrete é igual ao patenteado pelo “Doctor Eximius”, Francisco Suarez, que após doutoramento em Teologia na Universidade de Salamanca, no ano de 1571, passou a ler em Coimbra.
A Universidade de Sevilha é também ela detentora de património artístico significativo. No campo da arte sacra, cite-se um San Damian, em madeira policroma, com 1,75m de altura, posterior a 1657, que pertenceu ao retábulo de São Cosme e São Damião na Iglesia de la Anunciación[29]. Esta peça, com o número de inventário 1498-00-IA-ESC, apresenta-se em túnica (loba?), capa talar, cabeça descoberta, e capelo doutoral de Medicina. Esta insígnia afasta-se da singeleza da murça doutoral assinalada em Salamanca e Alcalà de Henares, aproximando-se extraordinariamente do capelo barroco conimbricense que na segunda metade do século XVII era de murça dupla e tinha fechamento dianteiro à base de alamares. Os ornatos correspondem a uma fase anterior à solução rocaille coimbrã, sendo os jogos de 12 rosetas e 3 alamares aplicados no forro e na sobre-murça com base em fio de seda soutache.
Integram ainda o património da Universidade de Sevilha retratos a óleo de lentes, reitores, bibliotecários e notáveis, alguns deles em traje talar e insígnias. A colecção da Alma Mater sevilhana constitui uma boa surpresa, informando que após as leis uniformizadoras do traje e insígnias, promulgadas por Madrid em 1850, a estandardização não foi imediata. O retrato do bibliotecário Juan José Bueno y Le Roux, assinado por José Oliver em 1893, mostra um capelo vermelho duplo, conforme o modelo conimbricense, mas com ornamentação barroca pré-rocaille. De 1841 é o retrato de Manuel Maria del Mármol, com capelo azul claro e branco, e barrete preto de cantos franjado a azul claro e branco, próximo da tipologia conimbricense do século XVII e inícios do século XVIII.
No caso de Coimbra, entre o antigo capelo simples, abotoado sobre o peito e apetrechado com capuz caído pelas costas (=capelo), e o capelo duplo de passamanaria rocaille setecentista, há que considerar dois modelos intermédios:

-o capelo à século XVII, muito próximo das soluções patenteadas pelos cónegos capitulares portugueses em certas galas e momentos corais, iconograficamente documentado na Sé de Lisboa, Sé de Angra do Heroísmo, Sé de Braga e Sé de Coimbra. No vestiário da Catedral de Braga foi-nos dado estudar e fotografar em 1997 um modelo de luto, dotado de longo capuz de lançar pela cabeça, abotoadura peitoral à base de botõezinhos e rosetas aplicadas de ambos os lados do peito. Relativamente a Lisboa, o Cónego Doutor Isaías da Rosa Pereira permitiu-nos visualizar um capelo por alturas de Julho de 1990, em tom róseo. É o modelo reproduzido na obra de D. José da Cruz Policarpo, Cardeal Cerejeira. Fotobiografia, Lisboa, Notícias Editorial, 2002, página 110, a propósito de uma cerimónia realizada na Igreja de Lousado, Vila Nova de Famalicão, em 23 de Abril de 1961.
Quanto à catedral de Angra do Heroísmo, recolhemos no Verão de 1990 uma fotografia de inícios do século XX, do espólio de Monselhor Pereira da Silva, com belíssima figuração de um capelo artesanal ricamente ornamentado.
Em Coimbra, nos anos de 1989-1990, beneficiámos da colaboração do Cónego António Brito Cardoso, que nos guiou numa visita a antigos retratos do Seminário de Coimbra e ao seu guarda-roupa privativo. Na sala de actos do Seminário de Coimbra existe um retrato a óleo do Cónego Albino Coelho, de cor roxa, cujo trabalho de passamanaria é assaz próximo do capelo doutoral. O acabamento das rosetas e os cachinhos florais campaniformes são iguais aos empregues na ornamentação peitoral do capelo doutoral e nos franjados da borla.
O Cónego Brito Cardoso possuía um capelo canonical conimbricense confeccionado nos inícios do século XX, com as seguintes características: forro em tafetá preto; murça de cetim roxo, fechada sobre o peito com carcela ornamental de aparato à século XVII e fileira de botõezinhos revestidos de fio roxo bordado; longo capuz (=capelo), rematado em bico, a descer à linha dos joelhos, lembrando os capelos da Universidade de Oxford; ornamentação peitoral à base de rosetas de fio entrelaçado na técnica cochim de nozinhos com três voltas, guarnecido de jogos de cachinhos florais pendentes. À semelhança do capelo doutoral, em cada lado do peito e ombros eram aplicados seis jogos, num total de doze rosáceas. Quase idêntico ao capelo canonical português era o modelo adoptado pelos cónegos espanhóis, particularmente na região de Málaga. Apesar do peito inteiriço, o pano correspondente aos ombros era adornado com rosetas[30];

-o capelo doutoral de Coimbra e Sevilha com a sua dupla murça e capuz menos longo, aberto sobre o peito, de ornamentação barroca anterior à moda rocaille, donde deriva o modelo conimbricense remanescente.

Além das fontes referenciadas, é tempo de chamar à colação espécimes dispersos em templos e paços episcopais. Em termos de pintura, não devem perder-se de vista dois retratos de prelados portugueses que prestaram serviço no Oriente:

-D. Frei Lourenço de Santa Maria, doutorado em Cânones por Coimbra, arcebispo de Goa em 1742, em hábito religioso, vendo-se o barrete doutoral quadrangular, com a base cartonada revestida de cetim preto, uma pega alteada de tipo maçaneta e abundante franjado verde a escorrer pelas quatro faces;
-Frei José de Santa Maria, doutorado em Teologia por Coimbra, bispo de Malaca e de Angra do Heroísmo, numa figuração setecentista. Ao lado do prelado, sobre uma credencia, desenhou-se a borla doutoral, base preta, quadrifacetada, pega alta forrada de seda branca e abundante franja na mesma cor.
Os dois retratos mencionados foram reproduzidos no catálogo Encontro de Culturas. Oito séculos de missionação portuguesa, Lisboa, Edição da Conferência Episcopal Portuguesa, 1994[31].
-Frei Marcelino José da Silva, bispo de Macau entre 1798-1800. Retrato de corpo inteiro com borla de Teologia sobre mesinha anexa. Modelo simples, constituído por barrete quadrangular preto, munido de três cristas na copa, pega seccionada em três bolbos e abundante franja branca. Esta obra de arte ilustra a sobrevivência do modelo quadrangular para além do favor tributado ao modelo redondo pelos adeptos da reforma pombalina. E no tocante às vestes talares, informa da existência da batina romana de um corpo, bem distinta da velha loba de dois corpos. Óleo reproduzido em Francisco Bethencourt e Kirt Chaudhuri (direcção), História da Expansão Portuguesa, Volume 3, Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, p. 350.
-Frei Clemente Vieira (1629-1692), dos Eremitas Descalços de Santo Agostinho, doutor e lente de Teologia na UC ca. 1673. Foi bispo do Porto e de Angra do Heroísmo. Existe um retrato de meio busto deste prelado na Sé de Angra do Heroísmo, realizado por 1688, figurando a mitra e a borla de Teologia sobre uma mesa. O barrete doutoral é quadrangular, tem a base forrada de preto, apresenta florão de madeira fixado no centro da copa e abundante franja de seda branca à base de cachinhos de flores e berloques. Modelo pré-pombalino, ainda não incorporou a coroa de louros em espiral no rebordo superior e a copa não foi ocupada por rosas e folhinhas.
-Frei José da Avé Maria, natural de Évora, doutorado pela Faculdade de Teologia de Coimbra, bispo de Angra do Heroísmo em 1782. Existe um retrato deste prelado na Torre do Tombo, com barrete doutoral quadrangular, ornado de pega, franja torsa e tufos brancos.
REFERÊNCIAS
[1] Na década de 1950 começou a generalizar-se entre os bacharéis e licenciados de Coimbra um anel de ouro com gema na cor científica. Trata-se de uma tradição espontânea. Os motivos cinzelados não correspondem com inteiro rigor a emblemas de cursos.
[2] Manuel Augusto Rodrigues (introdução), Os primeiros estatutos da Universidade de Coimbra, Coimbra, AUC, 1991. Veja-se a tradução do estatuto de 1431 por Geraldes Freire e Teresa Veloso, p. 23.
[3] Manuel Augusto Rodrigues, op. cit., p. 39.
[4] Padre Serafim Leite, Estatutos da Universidade de Coimbra (1559), Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1963, pp. 235-236.
[5] Aníbal Pinto de Castro (introdução), Estatutos da Universidade de Coimbra (1653). Edição facsimilada, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1987.
[6] Aníbal Pinto de Castro, op. cit., pp. 179-181: Título XXIV, “Das insígnias dos Doutores & Bacharéis formados nos actos públicos”.
[7] Estatutos da Universidade de Coimbra, 1772, Livro III, Título I; Capítulo II (reedição de 1972).
[8] Alguns trabalhos tradicionais de passamanaria realizados pelas tcherkesse, ou povo tártaro Adyga do Cáucaso Norte, foram divulgados em “La broderie d’or des Tcherkesse”, http://tcherkesse.free.fr/folklore/borderie.html (consultado em Janeiro de 2009).
[9] Embora tenha sido considerado um “chapelinho folclórico” pelos recolectores do século XX, esta cobertura de cabeça surgiu nos círculos aristocráticos ocidentais, após o que se popularizou nas grandes cidades. A grande duquesa Maria Alexandrovna é figurada com um exemplar numa gravura inserta na obra Tailor and Cutter, de ca. 1870. Em lugar do véu, as mulheres portuguesas passaram a usá-los com lenços de pontas caídas.
[10] Em Coimbra o bicórnio ou napoleão foi o chapéu de gala dos governadores civis, administradores do concelho e archeiros da UC. Após as invasões francesas as freiras do Convento de Santana inventaram uns pastéis muito apreciados, chamados napoleões, cuja forma era a mesma do bicórnio.
[11] Caiu em desuso na década de 1870.
[12] Caiu em desuso na década de 1850.
[13] Recolha de imagens em Maria Leonor Carvalhão Buescu, Monsanto. Etnografia e linguagem, Lisboa, Editorial Presença, s/d (1ª edição de 1958, 2ª edição de 1984), fotografia “mulheres de mantilha”.
[14] José Leite de Vasconcelos, Etnografia portuguesa, Volume VI, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1983, p. 510-555, documenta as cocas e mantilhas em Viana do Castelo, Vila Velha de Ródão, Portalegre, Olhão e Açores.
[15] Imagens e contextualização em Cristina Duarte, Trajes regionais, 2007, pp. 130-133; Madalena Braz Teixeira (coordenação), Traje do Algarve. Orla marítima, Lisboa, Museu Nacional do Traje, 2001.
[16] João Afonso, O trajo nos Açores, Angra do Heroísmo, Secretaria regional dos Assuntos Sociais, 1987, fotos das páginas 211, 214 e 215.
[17] Luís Soares Camargo, Dom João VI e o cotidiano das mulheres em São Paulo: um reflexo da moda, apud http://www.fotoplus.com/dph17/i-manu.htm (artigo editado na página Web do Arquivo Histórico Municipal de São Paulo, acedido em Janeiro de 2009).
[18] “Boas fardas”, in Bric-à-Brac. Notas históricas e arqueológicas, Porto, Livraria Fernando Machado, 1926, pp. 287-288.
[19] Cf. “Em Coimbra. Graves acontecimentos na Universidade”, O Primeiro de Janeiro, 3ª feira, nº 246, de 18/10/1910, p. 3; idem, “Em Coimbra. Os tumultos na Universidade. Intervenção do governo”, O Primeiro de Janeiro, 4ª feira, nº 247, 19/10/1910, p. 3.
[20] Fotografias reproduzidas por AMNunes, A Alma Mater Conimbrigensis na fotografia antiga, Coimbra, GAAC, 1990.
[21] Notícia em Joaquim Ferreira Gomes, A Universidade de Coimbra durante a Primeira República (1910-1926), Lisboa, Instituto de Inovação Educacional, 1990, p. 267; no mesmo sentido, “Pela nossa Universidade”, Gazeta de Coimbra, 4ª feira, 17 de Novembro de 1915, p. 1. Quanto aos registos biográficos dos três lentes indicados supra, siga-se Manuel Augusto Rodrigues, Memoria Professorum Universitatis Conimbrigensis (1772-1937), Coimbra, AUC, 1992, p. 49, p. 83, p. 164, p. 275, p. 298.
[22] A ele se fica a dever em 1912 a “oportuna” transcrição, estudo e divulgação do diploma régio fundacional: Um documento precioso. Notícia e descrição do diploma original da fundação da Universidade Portuguesa em 1290, recentemente descoberto, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1912. O diploma adquire forte carga simbólica e identitária, possibilitando à Alma Mater reinvindicar perante o ostensivo centralismo do governo republicano a sua remota criação, autonomia e privilégios. Num ciclo marcado por incorporações de fundos documentais de instituições religiosas na Torre do Tombo, Vasconcelos opta por não esclarecer quem, onde e como foi encontrado o pergaminho.
[23] Veja-se uma reprodução na História de Portugal, Volume IV, Barcelos, Portucalense Editora, p. 272.
[24] Elementos disponíveis em António de Vasconcelos, Real capela da Universidade. Alguns apontamentos e notas para a sua história, 2ª edição, Coimbra, AUC/Livraria Minerva, 1990, pp. 78-79.
[25] António de Vasconcelos, idem, pp. 86-87.
[26] Reprodução em Francisco Galino Nieto, 1999, p. 44.
[27] Reprodução em Francisco Galino Nieto, 1999, p. 46.
[28] Reprodução em Juan Luís Pólo Rodrigues e Jerónimo Hernández de Castro, 2004, p. 37.
[29] Cf. Património artístico da Universidade de Sevilha, com inventariação apud http://www.patrimonioartistico.us.es/lista_completa.jsp?campo=grupo (acedido em Novembro de 2008).
[30] Veja-se uma fotografia disponível no endereço http://thefarsigt2.blogspot.com/2008_10_01_archive.html (acedido em Janeiro de 2009).
[31] Agradeço ao Padre Dr. José Eduardo Coutinho o acesso a um exemplar desta obra.

domingo, 20 de Setembro de 2009


Estudante salmantino portador de loba talar, mantéu (daí o ser conhecido por "manteísta"), sapatos de fivela estilo império e sombreiro de feltro com abas reviradas. À semelhança de Coimbra, na Universidade de Salamanca existiam trajes para estudantes, mas não um uniforme de modelo único, variando muito as becas conforme os colégios.
Abolido o traje em 1834, os estudantes de Salamanca dele nada preservaram, nem sequer o mantéu. O que acaba por afirmar-se no século XIX são os trajes de fantasia consagrados como identidade visual das tunas. Esta situação tem vindo a gerar dificuldades em universidades espanholas onde se fala sobre a acuidade e benefícios a colher com a revitalização das cerimónias de colação dos graus de licenciado e de mestre. Não fazendo sentido adoptar um traje de tuna, algumas universidades como Navarra estão a apostar numa cerimónia simples onde se realiza a imposição da beca sobre os ombros do graduando em traje civil. Noutros casos, tem-se optado pela imposição do barrete doutoral na cabeça dos graduandos com indumentária civil (caso de Salamanca). Noutras situações, a imitação da "graduation" norteamericana parece imparável.
(gravura do Museo Internacional del Estudiante)

Retrato do docente de Direito da Universidade de Sevilha, I. Bueno, com o capelo doutoral duplo que apesar de ter continuado em uso na segunda metade do século XIX não sobreviveria ao processo de homogeneização implementado em todas as universidades espanholas.
(colecção de retratos da Universidade de Sevilha)

Um exemplo das políticas indumentárias e insigniárias uniformizadoras: retrato de Antonio Aguillar y Correa, docente de Direito da Universidade de Sevilha na segunda metade do século XIX, a traduzir as reformas implementadas na década de 1850 em Espanha: toga preta de advogado, barrete preto sextavado ornado de borla e tufos e murça de cetim sem passamanaria.
(colecção de retratos da Universidade de Sevilha)

Dois diplomatas portugueses em 1923

Retrato de Manuel de Marmol, docente da Universidade de Sevilha, com o capelo de dupla romeira e o barrete doutoral anterior às reformas insigniárias de 1850.
(colecção de retratos da Universidade de Sevilha)

Ramalho Ortigão com o grande uniforme napoleónico da Academia das Ciências de Lisboa (casaca bordada, calças avivadas, bicórnio, espadim), estando omisso o capote azul-escuro. Adoptado em 1856 pela Academia, este traje hoje caído em desuso nunca sucitou entre as elites portuguesas qualquer tipo de repúdio ou mofa, ao contrário do hábito talar e insígnias da UC. O traje de gala das médico-cirúrgicas era quase idêntico ao da Academia e dos membros do corpo diplomático, não tendo sido assumido após 1911 pelas novas universidades de Lisboa e do Porto.
Na UC, entre 1850 e 1915 vozes houve que se levantaram a favor da consagração do grande uniforme pelos corpos docente e discente, situação que resultava impraticável por colidir com o uniforme de gala do corpo dos archeiros.
Na Academia das Ciências, onde se preservam peças do antigo grande uniforme, e onde o bicórnio era conhecido por "abatjour", apenas chegaram ao presente o capote e o colar.

Fato trapezoidal adoptado pelas enfermeiras da marinha e da Cruz Vermelha em cenários militares durante a Grande Guerra. Modelo semelhante foi consagrado pelas alunas dos liceus de Lisboa e do Porto em 1915-1916.
Património vestimentário... (cont.)
A tardia afirmação das docentes

Por Decreto de 9 de Dezembro de 1911, Carolina Michaellis foi colocada na recém-criada Faculdade de Letras da UC. Festivamente recebida pelos lentes e alunos na Sala dos Actos Grandes, no dia 9 de Dezembro de 1911, Carolina Michaelis usou o traje civil feminino em voga nos meios urbanos. Menos de um ano depois, o Decreto de 31 de Agosto de 1912 nomeava-a professora extraordinária do 3.º grupo (Filologia Românica).
O seu nome havia conquistado fama e prestígio, sendo a primeira docente acolhida no claustro conimbricense. O Colégio de São Pedro, anexo à Reitoria, onde primeiramente funcionou a Faculdade de Letras, acolheu a sua lição inaugural.
Até à entrada de Portugal na Grande Guerra, a UC mantém-se à distância do cerimonial, trajes e insígnias, esforçando-se por dar mostras públicas da “cura” imposta pelos titulares da pasta da Instrução Pública. Vigiada de perto pelos reitores de nomeação governamental e governadores civis de Coimbra, nem sempre a instituição conseguiu convencer os titulares da pasta do seu público “arrependimento” e “regeneração”.
Em 1919 abate-se sobre a Alma Mater uma segunda intentona repressiva. Às suspeições de conspiração monárquica, de que foram alvo os docentes da Faculdade de Direito António de Oliveira Salazar, João Magalhães Colaço, Domingos Fezas Vital e António Carneiro Pacheco, seguiu-se a nomeação do bacharel Joaquim José Coelho de Carvalho para reitor, por força do Decreto de 18.03.1919, que representou na UC a política de intolerância praticada pelo Ministro da Instrução Pública Leonardo Coimbra. À data da tomada de posse de Coelho de Carvalho[1], a UC era acusada de “reaccionária”, “germanófila”, “sidonista” e pró-monárquica, enquanto a Faculdade de Letras era vista por Leonardo Coimbra como instituição “livresca” onde se praticava uma filosofia “tomista” e “escolástica”. Pelo Decreto n.º 5:770, de 10 de Maio de 1919, Leonardo Coimbra determina a transferência da Faculdade de Letras para a Universidade do Porto e a criação em Coimbra de uma Faculdade Técnica (=engenharia) e da uma Escola de Belas Artes.
Ao contrário da passividade evidenciada em 1910-1911, a Faculdade de Letras, os docentes em geral, o Senado e os estudantes mobilizaram-se contra o reitor e Leonardo Coimbra. No curto prazo Coelho de Carvalho optaria pela demissão, Leonardo Coimbra terminaria o mandato como “persona non grata”, e a Faculdade de Letras foi mantida em Coimbra conforme veio a dispor a Lei n.º 861, de 27 de Agosto de 1919.
As crispações de 1919 demonstram bem o quanto o estado de coisas havia mudado. Em 1910 grande parte dos membros do corpo docente da UC partilhava com o governo provisório da República a crença segundo a qual a UC atravessara o século XIX distanciada do “progresso” e da revolução industrial e tecnológica, pelo que careceria de uma profunda reforma. Forças radicais tinham defendido a extinção liminar da instituição, mas António José de Almeida e o seu grupo de colaboradores entendiam que a UC podia subsistir desde que aceitasse uma terapia de cura. O novo satus quo fora beneficiado pela forma positiva e demiúrgica como a UC via o papel dos chefes de estado protectores e a gesta de reformadores omniscientes como D. João III e o Marquês de Pombal. Este clima de esperança perante o papel quase divino e salvítico dos reformadores explica a euforia com que a UC acolheu em 19 de Outubro de 1910 António José de Almeida e Manuel de Arriaga.
Nove anos mais tarde, o contexto era outro. A UC tinha-se esforçado por cumprir as bases da reforma geral republicana, conforme explicou detalhadamente António de Vasconcelos ao Presidente da República António José de Almeida em 1 de Dezembro de 1919, quando o antigo titular da pasta da instrução se deslocou a Coimbra para presidir à cerimónia de abertura solene[2]. A dureza da Grande Guerra, a sensação do fim da hegemonia da civilização ocidental, a afirmação de movimentos ideológicos conservadores como o Integralismo Lusitano, o mal estar avolumado pela forma descortês como o governo vinha tratando a UC[3] e os fenómenos de recente apropriação do património visual e simbólico da Alma Mater pelas universidades de Lisboa e Porto indicavam uma mudança de atitude na relação da UC com o governo central.
Aos olhos dos actores mais activos parecia cada vez mais claro que o aniquilamento da memória, as políticas continuadas de repressão da identidade da UC e as campanhas de desmoralização visavam apenas a partilha dos despojos, acto que foi sentido como uma apropriação ilícita das vestes, insígnias, rituais, cores das especialidades científicas e de formas de tratamento como “magnífico reitor”.

A UC demorou a retomar o cerimonial, inércia que manteve a discussão sobre os trajes profissionais e insígnias à distância. Para a consciência da perda da identidade visual e simbólica parecem ter contribuído o lento evolucionar e a violência da Grande Guerra.
O cerimonial fúnebre foi mantido, pese embora com alguma discrição até 1914. Em 9 de Julho de 1911 docentes e alunos acompanharam ao Cemitério de Santo António dos Olivais a urna do lente Francisco José de Sousa Gomes que fora velado em hábito talar e insígnias[4]. A Gazeta de Coimbra, na sua edição de 15 de Julho de 1914 relata o funeral do Doutor António dos Santos Viegas feito pela forma tradicional, com os lentes em préstito, o transporte do barrete doutoral e a oração fúnebre. O antigo cerimonial fúnebre é retomado com esplendor aquando da morte do Presidente da República Sidónio Pais, com uma missa realizada na Capela da UC na 5ª feira, 19 de Dezembro de 1919[5] e deslocação ao funeral realizado em Lisboa. Foi precisamente na deslocação a Lisboa que a UC se mostrou pela primeira vez extramuros em hábito talar e insígnias doutorais[6], costume que não era praticado desde os funerais do rei D. Carlos. Seguem-se sem sobressaltos a presença nas cerimónias fúnebres de Manuel Chaves e Castro (1919)[7], Bernardo de Albuquerque e Amaral (1919)[8], reitor Filomeno de Melo Cabral (1921)[9], e Daniel de Matos (1921)[10].
Quanto aos actos de investidura reitoral, só em 4 de Julho de 1916 se retoma o antigo cerimonial para receber pelo modo tradicional na Sala dos Actos Grandes o Juiz Desembargador da Relação de Lisboa Arnaldo Norton de Matos. É de supor que o magistrado tenha comparecido em beca talar judiciária e que os docentes e funcionários envergassem a respectiva indumentária. O ritual repete-se em 9 de Abril de 1918 com Joaquim Mendes dos Remédios[11], em 10 de Dezembro de 1921 com António Luís Gomes, e em 1 de Junho de 1925 com Henrique Jardim de Vilhena.
Este era seguramente o ritual que mais irritava os titulares da pasta da instrução. Nomeados em Lisboa, os titulares do cargo deslocavam-se a Coimbra acompanhados do ministro ou de um seu delegado (que podia ser o governador civil de Coimbra). Os nomeados tinham de ser introduzidos no Claustro Pleno reunido na Sala dos Actos Grandes, empossados pelos vice-reitores ou pelo decano e sentados na respectiva cátedra, ambiente que contraditava em tudo a posição de predomínio que os ministros esperavam impor à UC.
Relativamente à abertura solene, a UC demorou em cumprir a disposição do Estatuto Universitário de 1911. Em Outubro de 1912 o Director da Faculdade de Letras, António de Vasconcelos, proferiu uma oração inaugural numa cerimónia de abertura a que compareceu o Ministro da Marinha, João de Meneses, como representante do governo. A oração de sapiência estava inicialmente indigitada a Carolina Michaelis que afinal não a proferiu. Os archeiros deram a conhecer nesta cerimónia o grande uniforme napoleónico reformado com as cores oficais da república, agora sem bicórnio. Discutiu-se no Senado a questão da retoma da abertura solene no reitorado de Guilherme Moreira (1913-1915), mas seria necessário aguardar 1918 para a revitalização desta cerimónia de raízes medievais.
No que respeita ao recebimento de chefes de Estado, cerimónia interrompida desde a visita oficial de D. Manuel II em 1908, só a 17 de Janeiro de 1918 o Presidente Sidónio Pais abriria as portas à retoma[12]. Delirantemente aclamado como herói de guerra, o mesmo Sidónio Pais proporcionaria à UC um segundo momento de esplendor, aquando da abertura solene de 30 de Novembro de 1918[13]. O terceiro momento foi proporcionado pelo Presidente António José de Almeida que visitou a UC em 1 de Dezembro de 1919 segundo o cerimonial tradicional[14].
Outros momentos da vida interna da Alma Mater se prestaram à revitalização do património simbólico, como a homenagem feita na Sala dos Actos Grandes ao lente Júlio Henriques no dia 29 de Maio de 1918. A ela estiveram presentes investigadores da UC, UL e UP. Actuou o Orfeon Académico. Entre os conimbricenses trajados avultava Carolina Michaelis que se sentou nos doutorais com vestido preto e capa talar[15]. Próxima desta foi a homenagem feita a Daniel de Matos no dia 5 de Março de 1919, na Sala do Senado, pelo corpo docente e directores das Faculdades[16].

Mas nem só a Grande Guerra parecia convidar os europeus à reflexão sobre o sentido de destruição e de perda. Enquanto a UC se esforçava por não assumir o seu património simbólico e afectivo, com receio de voltar a ser publicamente acusada de reaccionária, jesuítica e corruptora da juventude, os jornais locais começaram a alertar desde 1915 para iniciativas de apropriação do património visual conimbricense em Lisboa e no Porto. Na linha da frente do combate posicionou-se o periódico Gazeta de Coimbra. Em 20 de Outubro de 1915 este jornal denuncia a diferenciação de tratamento, afirmando que na UL, UP e Academia das Ciências de Lisboa se realizam anualmente sessões solenes de abertura. Em 27 de Outubro de 1915 reclama-se a reposição de tradições e cerimónias como o toque da Cabra, a colação do grau de doutor e o uso de insígnias doutorais. Alerta-se que os estudantes de Lisboa deliberaram usar capa e batina. Alguns meses mais tarde, em 4 de Março de 1916, o mesmo periódico relata uma reunião dos estudantes do Porto que decidiram usar capa e batina e distintivos nas cores dos cursos. Lamentando a não realização da cerimónia de abertura solene na UC, o jornal citado, na edição de 18 de Outubro de 1916, relata em tom crítico a sessão realizada na UL, e em particular a presença de antigos lentes transferidos de Coimbra com hábito talar e borla e capelo.

Aproveitando o clima de abertura e tolerância proporcionado pelo reitor Arnaldo Norton de Matos e pelo vice-reitor Eusébio Tamagnini, os estudantes mobilizam-se em prol da revitalização do cerimonial universitário. A partir de Outubro de 1916 discute-se intensamente no meio estudantil a retoma do toque da Cabra, a abertura solene, o porte generalizado da capa e batina, o cerimonial de doutoramento, o uso da borla e capelo e a revitalização da colação do grau de bacharel[17]. A 27 de Novembro de 1916, o Movimento pela Tradição, constituído por alunos do Liceu de Coimbra e da UC entregou ao reitor um manifesto com 900 assinaturas onde se reclamava o retorno das tradições da Casa Reitoral[18]. Os adeptos da praxe e das tradições académicas, que não só não foram beliscadas pela Revolução Republicana como lograram expandir-se a novos territórios, aproveitaram para editar em volume impresso um repositório dos velhos e novos costumes: Barbosa da Carvalho, Leis extravagantes da Academia de Coimbra ou código das muitas partidas, Coimbra, 1916.
Para quem acreditara que a Academia de Coimbra abandonaria as velhas tradições e praxes, era a desilusão completa. Em bom rigor, abandonados eram apenas o canelão à Porta Férrea e a palmatória. Quanto ao mais, os estudantes mantinham o traje masculino reformado, as festividades cíclicas e os rituais punitivos de iniciação e passagem. Entre 1912-1914 os estudantes inventaram mesmo um ritual novo, o julgamento, que consistia em julgar caloiros num cenário de paródia aos tribunais criminais e aos ritos iniciáticos da maçonaria.

A reforma universitária de 1911 gerou descontentamentos entre os docentes detentores do grau de doutor e os professores nomeados por decreto governamental que não possuíam tal grau. Particularmente em Coimbra, e a traduzir ecos jocosos do fenonómeno de criação governamental de "doutores", entrou em circulação na gíria académica a expressão "doutores de aviário".
Procurando matizar o escândalo e o mal-estar que atingia com maior intensidade as novas Faculdades de Letras de Coimbra e Lisboa (que acolheu os docentes do Curso Superior de Letras), o Ministério da Instrução Pública sugeria, pela letra do artigo 16.º da Lei nº 116, de 16 de Junho de 1916, que todas as Faculdades das Universidades de Coimbra, Lisboa e Porto pudessem conferir o grau de doutor aos seus professores ordinários com três anos de serviço efectivamente prestado, caso não possuíssem o dito grau. Esta situação era extensiva a individualidades que cada Faculdade considerasse dignas de obter tal distinção.
O diploma que vimos de citar legitimava em Portugal aquilo a que ulteriormente se convencionou chamar "doutoramento honoris causa", nada precisando quanto a insígnias e cerimonial.
Em Coimbra, aproveitou-se o hábito talar masculino de finais do liberalismo, que expurgado de qualquer ornato exterior ficou reduzido a um conjunto extremamente despojado e singelo. Por inércia ou incapacidade dos interveninentes no processo de reforma, não se debateu a questão em sentido mais global, isto é, à luz da feminilização emergente do corpo docente, nem se aproveitou o contributo das soluções unissexo que vinham a ser consagradas nas universidades dos EUA, França, Itália e Grã-Bretanha e seus domínios, bem como no mundo judiciário.
Com os olhos postos na revitalização do cerimonial, hábito talar e insígnias, o lente António Carneiro Pacheco propôs na sessão do Senado de 13 de Outubro de 1915 que se retomasse o antigo ritual da abertura solene das aulas. O Senado nomeou para o efeito uma Comissão do Traje e Insígnias, onde foram elementos decisivos o Cónego Doutor António Garcia Ribeiro de Vasconcelos (1860-1941), oriundo da extinta Faculdade de Teologia), o jovem lente de Direito António Faria Carneiro Pacheco (1887-1957), e o lente de Ciências Álvaro José da Silva Basto (1873-1924), oriundo da extinta Faculdade de Philosophia Natural. Foi ainda nomeada uma segunda Comissão de Estética Universitária, com vista a estudar o restauro da Sala dos Actos Grandes e a valorização do património da UC, constituída por Joaquim de Vasconcelos, António Augusto Gonçalves e Eugénio de Castro.
De que matérias foi incumbida a comissão nomeada pelo Senado da UC em finais de 1915?

-estudar o programa para a revitalização da abertura solene em Outubro de 1916;
-estudar qual o “traje oficial” a adoptar pelo corpo docente da UC;
-propor a lista dos alunos distintos a premiar na abertura solene;
-pensar o modelo de insígnias doutorais.

Não se conhece o documento elaborado pela comissão. Sabe-se, no entanto, que na sessão do Senado de 18 de Dezembro de 1915 António de Vasconcelos leu a proposta sobre “O traje oficial e as insígnias dos professores da Universidade”.
Em relação ao primeiro ponto foi decidido retomar a cerimónia com os ingredientes anteriores a 1910, suprimindo apenas a realização da Missa do Divino Espírito Santo na Capela da UC e os juramentos de fé. Quanto ao traje oficial terá havido alguma discussão entre o conjunto capa/casaca e o grande uniforme militar usado nas academias e corpos diplomáticos. Venceu o partido capa/casaca a título provisório[19], que apesar da probreza estética patenteada não se diluía nas librés dos archeiros. A longo prazo, a solução provisória tornar-se-ia definitiva, com o antigo pequeno uniforme de trabalho convertido naquilo que não é. Décadas mais tarde, a UL e a UP denunciariam a pobreza estética inerente a esta solução, considerando que o conjunto capa/casaca não era adequado ao estatuto dos professores catedráticos.
Não se conhecem actas, relatórios ou outro tipo de documentos produzidos pela comissão, salvo uma minuta sintética destinada à recuperação da cerimónia de colação do grau de doutor. Sabe-se que os três elementos depreciaram a hipótese de adopção do grande uniforme militar napoleónico que havia sido a farda de gala das Escolas Médico-Cirúrgicas e que continuava em uso na Academia das Ciências de Lisboa. Por se entender que a borla e capelo conimbricenses configuravam um património artístico singular, propôs-se a sua mantutenção sem alterações. Quanto à escolha do traje docente, a solução foi manifestamente infeliz. Não respondia às solicitações femininas, não se coadunava com a pompa e ostentação inerante ao cerimonial e insígnias barrocas, e não respondia aos insistentes pedidos dos alunos que apelavam ao retorno da cerimónia de formatura ("cerimónia do bacharelato", segundo a imprensa de 1916).
Em tempos de 1.ª República e de espírito subjacente à Grande Guerra, o hábito talar retomado não a partir do antigo traje de gala mas do pequeno uniforme masculino burguês de porte quotidiano adoptado em 1863 parecia agradar aos simpatizantes da causa militar na medida em que se assemelhava vagamente a um dólman, piscava o olho aos burgueses laicistas com o seu ar de casaca puritana, e não deixava totalmente de lado os católicos (na verdade, era uma versão pobre do clergyman habit ou da frock coat usada pelos capelães militares norte-americanos desde a Guerra Civil). Era uma espécie de meio termo entre o legado patrimonial e a vontade de boa vizinhança com as casacas de abas de grilo dos noivos, dos diplomatas, dos divos da ópera, dos instrumentistas de grande orquestra, dos dançarinos do Moulin Rouge/Broadway e dos prestidigitadores. Sem o saber, a UC sintonizava com as universidades da Suécia e da Finlândia, faltando apenas dar o passo em direcção à cartola. Foi o que fizeram os estudantes nos alvores da década de 1930, ainda que em contexto parodial de cortejo alegórico de Queima das Fitas.
Comparativamente, à data da tomada de decisão ainda estavam em uso em algumas comunidades tradicionais portuguesas trajes masculinos de cerimónia como o gabão da Beira Litoral, a capa de honras de Miranda do Douro e o capote alentejano, peças de indumentária mais interessantes do que o conjunto universitário conimbricense. Lançando olhos ao mundo judiciário de expressão portuguesa, o uniforme escolhido em 1915 ficava ostensivamente aquém de vestes talares como a toga dos advogados, a beca de dois corpos dos juízes e magistrados do Ministério Público e o conjunto beca/capa de gala usado pelos juízes dos supremos tribunais de Portugal e do Brasil. Importa também recordar que na tradição conimbricense os lentes da Faculdade de Direito portadores de carteira de advogado podiam advogar nos tribunais portugueses e internacionais em capa e batina e borla e capelo.
A pobreza do conjunto adoptado é ainda acentuada pelos seguintes aspectos:

-espelhando a austeridade burguesa e o despojamento do vestuário masculino, a seda dos doutores é substituída por tecidos industriais à base de lã;
-desaparecem acessórios como o sapato preto de fivela de prata e as luvas debruadas e bordadas no peito da mão;
-triunfa uma geometrização excessiva da capa e da casaca que perdem o clássico efeito evasé para se transformarem num conjunto tubular, com a casaca excessivamente cingida ao corpo e consequente arrebitamento da carcela sobre o peito;
-substituem-se os botões forrados por botões de massa;
-a carcela ornamental dianteira de aparato é suprimida;
-passa a predominar um desiquilíbrio estético entre a riqueza das insígnias doutorais barrocas, os tecidos utilizados na confecção da capa/casaca e o excessivo alteamento da bainha da casaca, por força do desaparecimento do hábito grande ou hábito talar de cerimónia;
-é visível a incapacidade de associar ao traje escolhido os membros do corpo docente não doutores, ao arrepio da tradição multissecular;
-paira um espesso silêncio sobre o lugar da mulher docente na paisagem visual ocupada pelo traje. Carolina Michaelis é aconselhada pelos seus colegas a seguir o receituário oferecido em 1891 à estudante Domitila de Carvalho: vestido escuro comprido e capa preta;
-o conjunto referido pode ser visualizado numa fotografia relativa ao ano lectivo de 1919-1920 que mostra um curso do 5.º Ano da Faculdade de Letras no portal da Capela da UC, dois archeiros com farda de trabalho e diversos lentes em hábito talar reformado, entre os quais Carolina Michaelis (capa e vestido preto), Amorim Girão, Eugénio de Castro, António de Vasconcelos e Gonçalves Cerejeira[20].

A posição adoptada em 1915 evidencia o quanto a UC permanecera limitada pelos preconceitos do paradigma moral e cultural burguês, alheia aos contributos das universidades anglo-saxónicas nos últimos 24 anos. Os membros da comissão não reflectiram o figurino das librés dos archeiros, a adaptação do traje de gala dos oficiais maiores ao surgimento de novos cargos ou a libré dos charameleiros[21]. O que Carolina Michaelis se prepara para ostentar até à data da sua morte em 1925 não se pode considerar nem hábito talar docente feminino, nem hábito talar docente unissexo. É no fundo um traje feminino domingueiro, de festa ou de ir à ópera e ao teatro[22]. O resultado, marcado pela incapacidade criadora, é decepcionante, sobretudo quanto se confronta a singela capa preta de Carolina Michaelis com os mantéus, capotes e mantilhas de festa das mulheres de Barcelos, Douro Litoral, Ovar, Coimbra, Açores ou Algarve[23].

A Lei n.º 616, de 16 de Junho de 1916, que permitia proclamar "doutores ipso facto", aproveitou as propostas vestimentárias formuladas no ano anterior. O enunciado no artigo 16.º daquele diploma foi expressamente regulamentado pelo Decreto nº 2:944, de 18 de Janeiro de 1917, no que respeitava às Faculdades de Letras. Neste regulamento precisava-se que a proposta deveria ser apresentada por um mínimo de três docentes do quadro a lentes ordinários não doutores com três anos de serviço e a figuras eminentes. A proposta deveria ser submetida e apreciada pelo Conselho da Faculdade, estudada por uma comissão de cinco elementos e dada a conhecer ao Director. Caso a votação atingisse pelo menos três quartos de bolas brancas, seria o candidato proclamado "Doutor em Letras" pelo Director da Faculdade, dando-se conhecimento da decisão ao Reitor. Em cerimónia posterior, o laureado poderia receber o respectivo diploma, sob a presidência do Reitor.
Escusado será dizer que este decreto desrespeitava o cerimonial e as enraizadas tradições conimbricenses, atribuindo ao Director de Faculdade funções que eram reserva exclusiva do Reitor e tentando substituir a criação reitoral pela figura da proclamação que em Portugal era específica do reconhecimento e aclamação dos novos monarcas. Na prática, as proclamações beneficiavam quem não defendera actos de conclusões magnas, criando situações de injustiça para com os lentes que já eram detentores do grau de doutor. Em Coimbra procurou atenuar-se esta injustiça alimentada pelo ministério da tutela através da visibilidade conferida às insígnias doutorais com recurso à mistura de cores das especialidades científicas.
Com base nos diplomas citados, o Conselho Directivo da Faculdade de Letras proclamou doutores em letras, a 1 de Julho de 1916, António Garcia Ribeiro de Vasconcelos, Porfírio António da Silva, Joaquim Mendes dos Remédios, Augusto Joaquim Alves dos Santos, José Joaquim de Oliveira Guimarães, Eugénio de Castro e Almeida e Carolina Michaelis. A eles se juntou António José Gonçalves Guimarães (da Fac. de Ciências, a reger uma cadeira em Letras), no dia 3 de Fevereiro de 1917.
Esta leva de honoris causa na Faculdade de Letras foi apoiada por um Regulamento escrito em 1916 pela Comissão do Traje e Insígnias e deu azo a imposições de borlas e capelos na Sala do Senado. O evento, feito à porta fechada e sem o antigo aparato da Sala dos Actos Grandes, não foi apercebido pelos alunos nem deixou memória na imprensa periódica. António de Vasconcelos desempenhou papel incontornável nestas cerimónias. A ela compareceram os lentes laicos com a nova versão do hábito talar reformado, excepto Carolina Michaelis que usava capa talar e vestido preto comprido, e os lentes eclesiásticos que iam em hábito talar romano. Quanto às insígnias, foi a primeira vez que a Faculdade de Letras se apresentou com a borla e capelo em azul-escuro (cor que entre 1772 e 1911 fora usada pela Faculdade de Philosophia Natural). Os lentes que já eram doutorados em Teologia tinham mandado confeccionar em oficina local insígnias com as cores misturadas (branco e azul escuro).
Seguindo o exemplo da Faculdade de Letras, nos anos seguintes Direito, Ciências, Medicina e Farmácia, também foram proclamando "doutores" os seus lentes ordinários. O Decreto nº 337-C, de 15 de Setembro de 1917, autorizava o Conselho Directivo das Faculdades de Direito a proclamarem doutores os seus professores ordinários e extraordinários com três anos de serviço, bem como indivualidades de reconhecido mérito.
Assim aconteceu em Direito, no dia 19 de Fevereiro de 1918, com António Carneiro Pacheco e Paulo Merea, no dia 10 de Maio de 1918 com Oliveira Salazar, e no dia 20 de Outubro de 1918 com Domingos Fezas Vital e João Magalhães Colaço, que haviam apresentado trabalhos científicos em casaca burguesa preta para professores assistentes. Foram os anos dos “noivos de Minerva”, com os júris e candidatos trajados com labita e cartola, conforme ironizava Luís Cabral de Moncada (1888-1974) que assim fez e concluiu sua arguição de provas em 20.12.1919[24].
Relativamente à Faculdade de Ciências, não estão ainda apuradas as circunstâncias que estiveram na origem da opção pelo azul celeste, cor que também prevaleceria em Lisboa e Porto. Tudo indica que a questão da cor oficial foi debatida no contexto da atribuição do doutoramento honoris causa aos heróis aliados da Grande Guerra (15.04.1921), tomando por base dois princípios vertebradores: retoma do azul claro, solução adoptada a partir da leitura literal do texto dos Estatutos Pombalinos de 1772; manutenção do azul claro e branco na Secção de Matemática, situação que demonstra o quanto os lentes da extinta Faculdade de Matemática não estavam dispostos a diluir-se na nova Faculdade de Ciências.
O critério dual não é convincente, pois na Faculdade de Ciências da UC ficariam em uso três cores, o azul celeste para as várias ciências exactas/e ou naturais e o azul e branco para a Secção de Matemática. Acontece que, de acordo com os usos e costumes da instituição, na Faculdade de Ciências, estabelecida em 1911 a partir da fusão das Faculdades de Matemática e Philosophia Natural (1772) deveria ter prevalecido o azul claro e o branco, com o símbolo de cada ciência bordado no capelo, uma vez que a proposta de cor redigida segundo a vontade do Marquês de Pombal não se afigura correcta.
Quanto a Farmácia, cuja escola menor foi transformada em Faculdade pelo Decreto nº 7:238, de 18 de Janeiro de 1921, não consta que antes desta data os lentes usassem insígnias, situação que a ter acontecido nos remeteria para o amarelo de Medicina, escola maior em cuja dependência funcionava a escola menor de Farmácia.
Logo a seguir à publicação do decreto citado, por 22 de Março de 1921, foram proclamados doutores em Farmácia Manuel José Fernandes Costa, Luís Pereira da Costa (de Medicina), Vicente José Seiça, José Cipriano Rodrigues Dinis e Víctor Henrique Aires Mora. Estes lentes, em articulação com os aconselhamentos prestados pela Faculdade de Letras e pelo Reitor Interino Joaquim de Oliveira Guimarães, optaram pelo roxo que era a cor oficialmente consagrada em Espanha desde 1850. Como se pode constatar, entre Janeiro e Março de 1921 foram confeccionados em Coimbra cinco conjuntos de novas insígnias doutorais. Luís Pereira da Costa, doutorado em Medicina no ano de 1882, poderia ter usado insígnias com mistura de roxo e amarelo, situação que não se conseguiu documentar durante a recolha de dados. Cerca de um ano mais tarde, pelo Decreto nº 8:165, de 31 de Maio de 1922, o Ministro da Instrução Augusto Pereira Nobre (membro da UP) dispunha sobre os modelos de diplomas de farmácia, referindo expressamente o roxo.

Carolina Michaelis jubilou-se em Fevereiro de 1925, tendo falecido no Porto a 16 de Novembro de 1925. Durante o seu magistério e nos anos seguintes, o corpo docente da UC não recrutou mulheres. Em 1933, Ester da Conceição Pereira de Sousa, que se licenciara em Biologia no ano de 1933, foi contratada como 2.ª assistente provisória de Abril a Outubro de 1934. Em 23 de Maio de 1938 seria contratada como assistente de Química da Faculdade de Ciências Leonor Maria da Piedade Flores. Nenhuma das duas assistentes referidas seguiu carreira docente na UC, não tendo chegado a usar hábito talar numa altura em que a escola realizava cerimónias de abertura solene, investidura de reitores, rituais fúnebres, recebimento de chefes de estado e altos dignitários, imposição de insígnias a novos doutores e doutoramentos honoris causa. Para esta inércia contribuiu ponderosamente o entendimento distorcido do cerimonial e das vestes como património centrado nos docentes doutorados.

A UP adiantar-se-ia à UC e à UL na abordagem das vestes e insígnias para elementos femininos do seu corpo docente. Na UP prevalecera algum consenso na Faculdade de Medicina e na Faculdade de Ciências quanto à herança da toga preta talar herdada da Escola Médico-Cirúrgica do Porto e Academia Politécnica do Porto. Com excepção das duas faculdades referidas, na UP passou a entender-se a toga como veste identificativa dos professores catedráticos. Desde o estatuto universitário de 1918 que se praticou na UP uma certa dualidade entre as faculdades de toga (em particular Medicina) e as faculdades divididas entre a solução toga com borla e capelo ou capa e batina/borla e capelo no pós doutoramento e toga na prossecução da carreira. Será pois a UP, concretamente na Faculdade de Ciências e na Faculdade de Farmácia, a intentar uma aproximação das mulheres docentes ao universo da “capa e batina” e borla e capelo:

-Leopoldina Ferreira Paulo, doutorada na especialidade de Biologia, na Faculdade de Ciências da UP, em Novembro de 1944. Não terá defendido provas académicas com traje profissional, mas em 1945 fez imposição de borla e capelo com um conjunto adoptado a partir de Coimbra (capa talar, saia pelo joelho, casaca pelo joelho)[25];
-Judite dos Santos Pereira, doutorada em Geologia, na Faculdade de Ciências da UP, em Janeiro de 1945. Situação idêntica à de Leopoldina Paulo, fez imposição de borla e capelo no decurso de 1945;
-Maria de Serpa dos Santos, que sendo preparadora na Escola de Farmácia da UC prestou provas de doutoramento na Faculdade de Farmácia da UP em Novembro de 1947. Logo após a arguição de provas, passou a usar nos préstitos e cerimónias da UC borla e capelo em roxo com saia tubular preta pela linha do joelho e casaca igualmente pelo joelho, luvas brancas e meias “cor de pele”. Com esta indumentária e insígnias aparece entre os seus colegas Campos Neves, Aloísio Costa, Barros e Cunha e Ramos Bandeira numa fotografia captada em 1960[26].

Atendendo à forma coimbrocêntrica como é produzida e transmitida a memória interna na UC, Maria de Serpa Santos não viria a ser considerada uma das pioneiras na consagração do hábito talar. Dois motivos de “peso” poderão ser aduzidos. Em primeiro lugar porque era docente do quadro da Escola de Farmácia, apenas tendo ascendido a catedrática em 1972, na sequência da transformação daquela escola menor em escola maior (1968). Em segundo lugar doutorara-se na UP e não em Coimbra, distinção que à época pesava na forma mentis dos lentes do claustro pleno conimbricense.

De acordo com o relato institucional, a invenção do hábito talar feminino ocorreu em 1956, a propósito da prestação de provas de doutoramento de Maria Helena Monteiro da Rocha Pereira, na Faculdade de Letras da UC, onde aliás já era assistente por Despacho de 13 de Dezembro de 1951. Sendo certo que o desenho das linhas de força do conjunto vestimentário resultou de um trabalho desenvolvido conjuntamente por Maria Helena da Rocha Pereira e o Secretário-Geral e Mestre de Cerimónias António Pimentel de Sousa, era impossível aos dois protagonistas desconhecerem o caso de Maria de Serpa que desde o ano lectivo de 1948 se dava a ver nas cerimónias da UC com hábito talar e borla e capelo. No caso específico dos préstitos académicos, Maria de Serpa desfilava na frente dos cortejos, logo atrás dos archeiros, no local protocolarmente reservado à Escola de Farmácia.
Na UL e na UP podia-se prestar provas académicas em traje civil e ulteriormente optar por traje profissional aprovado pelo Senado ou imitado a partir do paradigma conimbricense. No caso específico da Faculdade de Letras da UL situações havia em que não se usava traje profissional durante as provas académicas nem após. André Cabré Rocha (Filologia Germânica, 1944), Virgínia Rau (História, 1947), e Maria de Lurdes Belchior (Filologia Românica, 1953), terão prestado provas para obtenção do grau de doutor em traje civil. Cabré Rocha e Virgínia Rau usaram ao longo da sua carreira nos momentos cerimoniais não a toga talar mas um simples tailleur preto (saia-casaco) com capa de tipo estudante.
Não era esta a situação autorizada pelo protocolo na UC, onde existe não um hábito talar reservado a doutores e catedráticos, mas uma veste de modelo transversal a todos os docentes independentemente da sua categoria profissional. Outras condicionantes de monta devem ser tomadas em consideração para se inteligir a decisão tomada em 1956. Desde logo, a prestação de provas de doutoramento e de agregação obriga ao porte do hábito talar, situação que além de estar sujeita ao controlo do protocolo por parte do Secretário-Geral, pode suscitar sanções aplicáveis por estudantes em virtude da violação da “praxe”. Tal obrigatoriedade é extensiva aos graus de licenciado e mestre, embora esteja caída em desuso. Em segundo lugar, ao docente não é permitido optar pelo uso de trajes de outras instituições de ensino superior, com excepção das situações seguintes:

-docente diplomado por estabelecimento de ensino superior português ou estrangeiro, cujo diploma esteja reconhecido nos serviços académicos;
-docente membro do clero secular ou regular católico ou de outras religiões acreditadas pelo Estado Português, cujos hábitos talares são para todos os efeitos equivalentes ao hábito talar da UC.

Maria Helena da Rocha Pereira e o Secretário-Geral António Pimentel de Sousa, sendo Reitor Maximino Correia, definiram o seguinte modelo:

-saia preta tubular, embainhada pela meia perna;
-blusa branca lisa, que no caso da UC não admite laço, gravata ou folhos;
-frock coat idêntica ao modelo masculino, ligeiramente mais cintada, com pinças na linha dos seios, carcela vertical dianteira à direita e bainha uma mão travessa abaixo do joelho;
-luvas brancas de pele ou tecido (pretas para situações de nojo);
-meias “cor de pele”;
-sapatos de couro pretos de modelo comum.

Com a indumentária descrita fez Maria Helena da Rocha Pereira a sua imposição de insígnias doutorais da Sala dos Actos Grandes no dia 18 de Novembro de 1956. Ficava definido o paradigma vestimentário feminino na UC. Consagrado o paradigma, com ele se doutorariam na Sala dos Capelos Maria Manuela Figueiredo Assalino (Ciências, 1965), Deolinda Costa Martins (Medicina, 1969)[27], Maria Margarida Carmona (Farmácia, 1985), e Luísa Maria Morgado (Psicologia, 1987).
REFERÊNCIAS
[1] Relato da cerimónia na Gazeta de Coimbra de 22.03.1919, p. 1. Coelho de Carvalho apresentou-se com indumentária civil e o grande colar da Academia das Ciências de Lisboa.
[2] “A visita do Chefe de Estado a Coimbra. A abertura solene da Universidade”, Gazeta de Coimbra, nº 941, 3ª feira, 1.12.1919, pp. 1-2.
[3] Em Junho de 1914 voltam a levantar-se vozes na Câmara dos Deputados na discussão de um projecto de lei que propunha aextinção da UC. Rejeitada esta proposta, seria aprovada outra em prol da criação da Faculdade de Direito de Lisboa.
[4] Notícia em O Século, de 10.07.1911, p. 5.
[5] Relatos detalhados na Gazeta de Coimbra de 19.12.1918 e 21.12.1918.
[6] Notícia na Gazeta de Coimbra, de 24.12.1918, e imagens na Ilustração Portuguesa, II Série, N.º 671, de 30.12.1918.
[7] Notícia na Gazeta de Coimbra de 17.04.1919, p. 1.
[8] Relato na Gazeta de Coimbra de 1.03.1919.
[9] Relato detalhado na Gazeta de Coimbra de 25.01.1921.
[10] Gazeta de Coimbra, 1.03.1921.
[11] Segundo a Gazeta de Coimbra, Ano VII, N.º 699, de 11.04.1918, p. 1, quase todos os lentes presentes trajavam hábito talar.
[12] Reportagem na Gazeta de Coimbra de 19.01.1918, p. 1.
[13] Reportagem minudente na Gazeta de Coimbra de 30.11.1918.
[14] Reportagem na Gazeta de Coimbra de 2.12.1919.
[15] Gazeta de Coimbra, 1.06.1918, p. 1.
[16] Notícia na Gazeta de Coimbra de 13.03.1919.
[17] O debate não se cingia apenas a Coimbra. Em 15 de Maio de 1915 o Senado da UL discutira a adopção de uma veste profissional docente. Em 5 de Junho de 1915 o mesmo Senado aprovara a toga talar herdada da Escola Médico-Cirúrgica, decisão aprovada por Despacho do Ministro da Instrução Pública de 3 de Julho de 1915.
[18] Gazeta de Coimbra de 22.11.1916 e 29.11.1916.
[19] Um desenho deste traje, pensado em função de encomendas para a UL, figura em Manuel Guilherme de Almeida, Método de corte Maguidal, 1.ª edição, Lisboa, Edição do Autor, 1948.
[20] Padre Moreira das Neves, O Cardeal Cerejeira…, 1948, p. 166.
[21] Fruto desta omissão não se chega a reflectir sobre a libré dos charameleiros, constituída por opa de damasco vermelho agaloado a ouro, mitra, colarinho de rufos, calções e meias brancas, bem como sapato branco guarnecido de fivela de prata. Esta indumentária, caída em desuso no século XIX, era completada pelos pendões de seda verdes, bordados com motivos heráldicos, que se fixavam aos instrumentos musicais.
[22] Quanto à visualização da capa urbana de ir à opera e ao teatro, ainda em uso na década de 1940, siga-se o desenho presente em Manuel Guilherme de Almeida, Método de corte sistema Maguidal, 1.ª edição, Lisboa, Edição do Autor, 1948.
[23] Visualização de algumas fotografias na obra de Cristina Duarte, Trajes regionais. Gosto popular, cores e formas, 2007, p. 13 (traje feminino de festa, Barcelos), p. 78 (mantilha e chapeirão, Aveiro), pp. 80-81 (mantilha e chapeirão de pompons, Ovar), p. 130 (capote e bioco, Algarve), p. 147 (capote e capelo, Açores).
[24] Luís Cabral de Moncada, Memórias ao longo de uma vida. Pessoas, factos, ideias, Lisboa, Verbo, 1992, p. 127. Ao contrário do que parece deixar antever nas suas memórias, Cabral de Moncada gostava de uniformes e na década de 1930 chegou a militar no movimento nacional-sindicalista os Camisas Azuis.
[25] Situações documentadas por Cândido dos Santos, Universidade do Porto. Raízes e memória da instituição, Porto, UP, 1997, e esmiuçadas por Armando Luís de Carvalho Homem, O traje dos lentes, 2007, pp. 24-25, em particular anotação n.º 41.
[26] Apud Manuel Augusto Rodrigues, Memoria professorum…, 1992, p. 362.
[27] Sendo docente da Universidade de Lourenço Marques.

Peças que se começam a juntar: o antigo capelo doutoral da Universidade de Sevilha assinalado neste São Damião setecentista (Medicina). As rosáceas diferem da solução conimbricense pois em vez de serem em passamanaria armada são em soutache. Contudo, o capelo é de duas murças sobrepostas, tal como acontecia em Coimbra. O tipo sevilhano, que se usou até finais do século XIX, corresponde a um barroco pré-rocaille.
(peça de arte sacra da Universidade de Sevilha)

Peças que se começam a juntar: na grande exposição jubilar de 2000, a Diocese do Porto divulgou este notável Santo António Doutor Evangélico, assinalado na Ordem de São Francisco em Lamego. Uma análise detalhada dos pormenores deste trabalho setecentista revelam jogos de rosáceas e alamares sobre o peito e murça dupla. A peça reproduzida parece retratar um capelo de cónego capitular, não fora o importante detalhe da murça dupla doutoral, situação que na Península Ibérica apenas foi documentada em Coimbra e em Sevilha.
Colação do grau de Doutor em Sacra Teologia. Trabalho de Antonio Anaya para a Universidade Comptlutense de Madrid, a partir de uma tela original de inícios do século XVII que documentava um doutoramento na antiga Universidade de Alcalà de Henares.
Como se pode constatar, o grau era colado com o neófito de joelhos ante o cancelário, como ainda hoje acontece nas universidades históricas britânicas, mormente Orxford e Saint Andrews. O capelo mantém-se igual à versão nacionalizada em 1850, com o longo capuz dorsal afunilado. O barrete preto de cantos, ornado de tufos na cor da especialidade científica, corresponde ao modelo geral consagrado nas universidades católicas ocidentais. No caso de Coimbra, além dos tufos de seda, acrescia um florão ou pega fixada sobre o centro da copa. Curioso é também o chapéu doutoral de abas, a replicar soluções conhecidas na casa imperial chinesa, nos dignitários tibetanos e até nos altos dignitários da Igreja Católica.
Património vestimentário... (cont.)
Desmantelamento identitário

Os propósitos de laicização, estatização e uniformização das três universidades oficialmente reconhecidas pelo governo da República em 1911 alimentaram um continuado mal-estar entre as forças mais conservantistas da UC que assumiam a preservação do património identitário herdado e o ideário republicano. Encurralada entre acusações de monarquismo, clericalismo, mandarinato do corpo docente e falta de capacidade para protagonizar um projecto industrial e tecnológico semelhante ao patenteado pela Escola Politécnica de Lisboa, a UC viveu anos difíceis. Se não era honroso assumir e exteriorizar as marcas da identidade cultural multisseclar, a UC deveria passar a ser exactamente que tipo de instituição? Apesar de o Decreto de 5 de Maio de 1835 ter extinguido a Fazenda da UC, transformando o Studium Generale numa universidade estatal, a instituição comportara-se ao longo do liberalismo constitucional como uma universidade autónoma. E volta a fazê-lo no após 1910, utilizando a sua herança cultural para afirmar que já existia antes da estruturação do estado.

Entre Outubro de 1910 e Junho de 1911 a ira republicana e anarquista abateu-se sobre a Alma Mater Conimbrigensis, associada aos processos de descristianização e dessacralização . Implantada a República a 5 de Outubro, a UC encontrava-se em período de actos (exames), aguardando-se mais uma cerimónia solene de reabertura das aulas.
No dia 7 de manhã tomou posse como governador civil de Coimbra Francisco José Fernandes Costa e a bandeira do partido republicano foi içada no alto da Torre da UC . Os negócios da instrução pública corriam pelo Ministério do Interior do Governo Provisório, pasta assumida por António José de Almeida, titular que em 14 de Outubro designou João Duarte de Menezes Director da Instrução Secundária e Superior, cabendo a João de Barros a Direcção da Instrucção Primária.
A intervenção do governo provisório não se fez esperar. O Decreto de 13.10.1910 demite o reitor monárquico Alexandre Pais do Amaral e nomeia interinamente para o sólio reitoral o Decano e Director da Faculdade de Philosophia Natural António dos Santos Viegas. Na mesma data, outro decreto extingue os feriados religiosos e institui feriados cívicos substitutivos, disposição que interferia directamente com o calendário religioso-académico. A 17.10.1910 o Pátio das Escolas, a Sala dos Capelos, a Secretaria-Geral, o Vestiário dos Lentes e as salas de aulas dos Gerais foram invadidos e vandalizados por um grupo de estudantes radicais e anarquistas intitulado Falange Demagógica .
A falange deixou um rasto de destruição no Paço das Escolas, com tiros desferidos nos retratos régios da Sala dos Actos Grandes, as cátedras partidas à machadada, as insígnias doutorais de Direito e Teologia rasgadas e pontapeadas, uma bomba artesanal rebentada numa das retretes dos Gerais e tentativas para localizar e linchar o lente e ex-ministro da Justiça de João Franco António José Teixeira de Abreu (1865-1930) e sanear José Maria Joaquim Tavares (1873-1938), Rui Enes Ulrich (1883-1966), António de Assis Teixeira Magalhães (1850-1914) e José Gabriel Pinto Coelho (1886-1978) .
Com a UC e a cidade em pânico, e havendo perigo de incêndio do Paço das Escolas e de linchamamento de lentes suspeitos de monarquismo, o Ministro do Interior António José de Almeida e o novo reitor Manuel de Arriaga chegaram a Coimbra no dia 19 de Outubro.
Arriaga foi empossado na Sala dos Actos Grandes pelo Decano, em cerimónia civil, e aproveitou o disposto no artigo 1.º do Decreto de 18.10.1910, da lavra do Ministro da Justiça e dos Cultos Afonso Costa, que declarava abolido o juramento religioso nas repartições públicas. O Vice-Reitor Sidónio Pais ordenou ao sineiro que deixasse de tanger o sino das aulas, conhecido na gíria académica por “cabra”.
A 8.10.1910 fora publicado um decreto que introduzia profundas alterações nos formalismos associados à produção documental. A invocação “In nomine Dei, Amen”, desaparecia, bem como a frase de abertura dos autos e termos “Ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nos requerimentos e petições instituía-se o “Excelentíssimo Senhor”, que no caso da UC passou erradamente a sobrepor-se aos tratamentos protocolares “Magnificientíssimo Reitor” e “Senhor Reitor”, devendo os documentos terminar com a expressão “Saúde e Fraternidade”.
A 22.10.1910 o Ministro José Relvas sancionou um decreto onde se estipulava que as estampilhas fiscais com as esfinges régias passavam a receber uma sobrecarga a vermelho com os dizeres “República” enquanto não ficassem prontos os novos selos. Seguiram-se os decretos de 23 de Outubro que desmantelavam o sistema religioso, disciplinar e parte da identidade visual e simbólica da UC. O quarto desses diplomas era marcado pelo demagogismo propagandístico, determinando a abolição do “foro académico”, que na realidade não existia, e o encerramento da cadeia académica (efectivamente encerrada em 19.10.1910):

-Decreto n.º 1 de 23.10.1910, abole os juramentos religiosos católicos dos lentes, estudantes, reitor e funcionários, e o juramento do dogma da Imaculada Conceição;
-Decreto n.º 2 de 23.10.1910, anula as matrículas no 1.º ano da Faculdade de Teologia, medida que deixava antever o encerramento da escola;
-Decreto n.º 3 de 23.10.1910, suprime a presença obrigatória às aulas e os antigos formalismos da chamada em voz alta pelo bedel e da marcação de falta ;
-Decreto n.º 4 de 23.10.1910, declara facultativa a capa e batina dos alunos da UC e abole o regulamento disciplinar de 1839.

Por Despacho de 29.10.1910, António José de Almeida declarara abolido o porte quotidiano do hábito talar docente, e a 1 de Novembro suprimia-se o cerimonial inerente à colação do grau de bacharel. Seguiu-se o Decreto de 14.11.1910 que extinguiu a cadeira de Direito Eclesiástico ministrada na Faculdade de Direito. No início do ano seguinte, o Decreto de 21.01.1911 suprimiu o culto religioso na Capela da UC e nela mandou instalar um museu de arte sacra. Por Decreto de 23.01.1911 procedia-se à supressão do exame de licenciatura e e substituía-se o acto de conclusões magnas pelo exame de estado. A obtenção do grau de doutor passava a depender da entrega e arguição de uma dissertação impressa perante um júri administrativo, podendo o acto decorrer em traje civil. Algumas destas medidas do governo central foram antecedidas por propostas da lavra do Vice-Reitor Sidónio Pais, nomeadamente o porte facultativo de trajes e insígnias para discentes e docentes, a supressão do cerimonial de colação dos graus e a reforma das antigas cartas de curso , agora substituídas por certidões autenticadas com o selo branco da secretaria.
As medidas enunciadas foram secundadas por saneamentos encapotados no seio do corpo docente. O anterior selo da UC, reformado em 1901 por António Augusto Gonçalves em estilo neomanuelino seria alvo de atitudes iconoclastas . A face anterior do estojo de prata do selo pendente em uso nos diplomas solenes foi mandada reformar, com amputação da coroa que desde os alvores do século encimava o brasão de D. Manuel I. A legenda latina, extraída do versículo 15 do Livro dos Provérbios de Salomão, “Per me reges regnant et legum conditiores iusta decernunt”, sofreu hostilização. Propunha-se a adopção de uma extensa legenda laica, que não vingou, com os dizeres do credo positivista “A Ciência leva a toda a parte a Verdade e, com esta, a Liberdade, o Progresso e a Paz dos Povos”, situação que levou a Casa Reitoral a trocar o selo com a Sapiência entronizada por uma variante neogótica de 1897 em que a alegoria surge em pose erecta e legenda simples (Insígnia Universitatis Conimbrigensis). As implicações foram extensivas à coroa da Sapiência e à cruz que rematava o ceptro manuelino .
O autor dos referidos desenhos, António Augusto Gonçalves (1848-1932), docente da Faculdade de Philosophia Natural, abriria em 1913 o Museu Nacional Machado de Castro com os acervos do Museu de Arte Sacra da Sé de Coimbra (criado em 1884) e parte do património museológico da UC, decisão que o ciclo político sonegou à discussão. Lembremos as origens deste acervo. Com a reforma dos estatutos da Academia Dramática de Coimbra, os institutos dramático, de música e de pintura originaram apenas um instituto que em Março de 1851 se autonomizou com a designação de O Instituto [de Coimbra]. Constituído por lentes e estudantes, o Instituto de Coimbra passou a ter sede no Bairro Latino, no Colégio de São Paulo-o-Eremita, e em Abril de 1852 deu à estampa o primeiro número de uma das mais duradouras e prestigidas revistas de estudos literários, científicos, históricos e arqueológicos editados em Portugal, “ O Instituto”.
Com características de academia de artes e ciências, o Instituto de Coimbra criou em 1874 uma Secção de Arqueologia e respectivo museu anexo, passando a reunir no piso térreo estatuária da UC, baixos relevos, telas oriundas dos colégios extintos em 1834, lápides e moedas romanas da antiga Aeminum, diplomas e diversos materiais doados. O prestígio destas colecções era reforçado por visitas de estudiosos e referências no Catálogo de 1873-1877 e no Primeiro Suplemento de 1877-1883 . Em 26.04.1883 as colecções numismáticas, epigráficas, escultóricas e pictóricas do Instituto de Coimbra foram inauguradas com a designação de Museu de Antiguidades do Instituto de Coimbra, de que havia passado a ser conservador António Augusto Gonçalves.
O ambiente de hostilidade e de diabolização que rodeava a UC nunca permitiu reconhecer o pioneirismo local do Instituto de Coimbra, que era um prestigiado organismo da UC, nem o contributo que prestou ao projecto do Museu Nacional Machado de Castro. No dizer dos estudantes, os sócios do Instituto de Coimbra reuniam-se para “jogar voltarete”, visão que fez época na opinião pública.

Como se pode constatar, uma percentagem bastante expressiva dos vociferantes com capacidade de intervenção na produção legislativa era enformada por antigos estudantes da UC. Bom conhecedor do ideário biológico-positivista que lia as instituições como corpos arruinados pelo atavismo de miasmas, quistos e sintomas degenerescentes, António José de Almeida aplica à UC o tratamento esperado pelas elites reformistas. Amputam-se os órgãos considerados gangrenados, procede-se à ablação dos quistos e espera-se que o tratamento produza rapidamente efeitos de confirmação da regeneração e do progresso.
Considerada instituição em estádio teológico por excelência e acusada de intoxicar os jovens estudantes, importaria confirmar a previsão comtiana e numa aceleração do tempo da história precipitar a irrupção do estádio positivo, cujos sintomas de materialização seriam o cientismo e a tecnologia . Embora existissem grupos radicais de pressão no interior do republicanismo que reclamavam a extinção da UC, António José de Almeida defendia que a instituição deveria ser sujeita a uma terapia de cura apta a neutralizar-lhe as patologias.
À maior parte das críticas esgrimidas subjazem três traços vertebradores:

-o cerimonial académico exibiria alguns pontos de sintonia com o cerimonial católico e o cerimonial monárquico. Ao contrário do que foi dito e escrito, não se confundia nem diluía neles, assentando numa identidade multissecular própria - o cerimonial académico universitário -, próximo de soluções que estando em processo de desaparecimento na Europa Continental manifestavam grande pujança nas universidades britânicas. Em momento algum se reconheceu ao cerimonial académico conimbricense o valor que efectivamente tinha em termos de coesão institucional, reforço da identidade, dinamização cultural e emotiva dos cenários urbanos, encantamento do quotidiano, reforço do prestígio internacional, capacidade para afirmar a diferença da UC bem como o fascínio que exercia sobre outras escolas portuguesas e brasileiras;
-afirmava-se haver uma relação determinística de causa-efeito entre o património cultural e simbólico e a produção científica e o discurso pedagógico. Esta relação nunca chegou a ser satisfatoriamente demonstrada. A análise das lições, sebentas, visitas científicas, recepção de obras oferecidas, citação de autores estrangeiros e recheio das bibliotecas das Faculdades existentes revela não propriamente um atraso científico e cultural mas antes a persistência de uma pedagogia assente na lição magistral, atitude que irritava os estudantes e originava inflamados manifestos. O sentimento de frustração de alguns estudantes era comungado por muitos docentes que periodicamente reclamavam ao governo central reformas que não chegavam a ser apreciadas ou eram adiadas. A maior parte das críticas centrava-se nas rotinas das aulas magistrais da Faculdade de Direito, escola maior que não representava Medicina, Matemática, Ciências, Teologia ou Farmácia;
-insistia-se na ausência de uma missão tecnológica vincada na UC, quando a instituição não fora redefinida ao longo de oitocentos como instituto politécnico e a cidade de Coimbra não se tinha afirmado como urbe industrial. A este propósito, não deixa de ser estranho e até paradoxal que o fascínio das elites portuguesas pela industrialização e seus derivados, as tecnologias e as maquinarias, tenha ocultado no debate perversões já então bem conhecidas como a poluição das cidades britânicas, as doenças respiratórias e as malformações ósseas, a exploração do trabalho infantil e feminino ou as mazelas do proletariado .

Ângelo Rodrigues da Fonseca (1872-1942) , docente da Faculdade de Medicina da UC, nomeado Director-Geral da Instrução Secundária, Superior e Especial, por Decreto de 23.01.1911, preparou a reforma da UC e das novas universidades a estabelecer em Lisboa e no Porto. Entre Fevereiro e Maio de 1911 o Ministério do Interior publicou o essencial das reformas do ensino superior, seguindo-se em Agosto os respectivos regulamentos internos. Em todos estes diplomas o clássico “lente” que lia a lição teórica é extirpado e substituído pelo “professor”.
A intensa produtividade do Ministério do Interior seria de alguma forma secundada pelo Ministério do Fomento sob tutela de Brito Camacho. Coube a este ministro reorganizar as bases do ensino superior politécnico nas áreas de engenharia, comércio, indústria, agronomia e veterinária.
Traduzindo os ensinamentos da lição iluminista e burguesa, as instituições universitárias semelhantes são tratadas em plano de igualdade, assim acontecendo com as faculdades de Medicina, as de Letras e as de Ciências. O laicismo é levado ao extremo no governo e gestão das faculdades. A obtenção dos graus académicos é associada à aprovação administrativa na última cadeira de curso ou à defesa de uma tese impressa. No caso dos doutoramentos, a legislação consagra a expressão “doutor ipso facto” que alongados remoques suscitaria em Coimbra. A carta doutoral é referida mas com formalidades minimalistas. A Faculdade de Direito de Coimbra, que continua a ter o monopólio do ensino em Portugal até 1913, é alvo de uma longa peroração pedagógica e científica, esperando o governo provisório republicano a completa “regeneração” desta escola. As Bases da Nova Constituição Universitária de 19.04.1911 assumem-se como uma diploma orgânico centralizado e vigilante, afirmando sem ambiguidades a primazia do poder central e sua última palavra no que respeitava ao funcionamento interno e derimição de crispações nas três universidades.
Tentava-se forçar a abertura das instituições universitárias à comunidade, através da participação dos estudantes, governo civil, câmara municipal e protectores ou notáveis locais, todos com assento no Senado , num país onde o entendimento corporativo das instituições lia a participação de elementos exógenos como intoleráveis intromissões. Propunha-se que em cada circunscrição universitária, os municípios e as instituições contribuíssem activamente para o desenvolvimento da respectiva universidade. No caso específico de Coimbra, o apelo era feito aos municípios e instituições compreendidas nos distritos de Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Aveiro, Viseu e Guarda , o qual ficaria em letra morta.
Privada da sua identidade simbólica, a UC é convertida numa repartição ministerial sem autonomia financeira ou administrativa. Competências multissecularmente atribuídas ao cancelário-reitor aparecem diluídas nas figuras dos directores das faculdades. O paradigma mediterrâneo da “inceptio”, que atribuía aos papas, bispos e reitores a “criatio”, aparece agora substituído pelo modelo francês escorado na “disputatio”.
Embora reclamasse a laicização, a UC não estava culturalmente preparada para assumir que os seus doutores fossem apenas fruto de proclamação administrativa de um júri. Em 1916, a legislação que abre as portas aos doutoramentos honoris causa volta a insistir na atribuição da legitimidade institucional aos directores das faculdades, situação que uma vez mais colidia com os poderes tradicionalmente reservados aos cancelários-reitores. Definitivamente, os ministros da instrução pública não estavam interessados em compreender a UC, nem em dar um sinal de aprovação em relação ao que quer que fosse do legado patrimonial da instituição.
A tentativa de imposição de reitor da confiança governamental percorre o regime . Desarticulada a Casa Reitoral, cuja equipa não elabora nem cumpre programas culturais-simbólicos anuais, ao contrário da tradição plurissecular, o reitor transforma-se num delegado nomeado pelo poder central que em actos triviais de gestão corrente da instituição consulta a opinião do titular da pasta por ofício e telegrama. A função de representação é cometida ao Senado, órgão que no caso de Coimbra não consegue suprir o vazio deixado pelo dessoramento da Casa Reitoral. A situação agrava-se com o Estatuto contido na Lei n.º 861, de 27 de Agosto de 1918. Se entre 1911 e 1918 se utilizou a fórmula dos estatutos manuelinos que consistia em a UC eleger três nomes de docentes que depois eram propostos ao titular da pasta, entre 1918 e 1926 as universidades perdem o direito de escrutinar os nomes dos eventuais candidatos.
A universidade entendida como uma instituição laica apta a formar novos cidadãos saudáveis física e psicologicamente é afirmada, sobretudo nos diplomas que regulamentavam as escolas menores de Farmácia, de Educação Física (as últimas nunca chegariam a funcionar) e Normais Superiores.

A preocupação efectiva com a situação económica dos estudantes originou o Decreto de 22.03.1911 que pela primeira vez tentava superar o ciclo da caridade e o âmbito restrito das sociedades académico-filantrópicas e instituir um serviço público de bolsas de estudo. Excluindo a cerimónia de abertura do ano escolar, expressamente referida na nova lei de bases do ensino universitário, todos os diplomas eram omissos em matéria de identidade visual e simbólica, sinal eloquente de que o património identitário acumulado pela UC era considerado inimigo da formação do novo perfil do jovem “normal”. Subjacente ao processo de erradicação do cerimonial estava um preconceito moral semelhante ao praticado por seitas radicais, assente na frugalidde e no despojamento. A nível do governo central houve mesmo lugar a uma espécie de ritual inaugural em que Teófilo Braga, na qualidade de presidente do governo provisório, se deixou fotografar em casaca, guarda-chuva e chapéu de coco, no percurso entre a sua casa e o local de trabalho, sem segurança, sem viatura de serviço, sem aparato algum, usando o eléctrico como os demais cidadãos. As fotografias de Joshua Benoliel foram divulgadas na Illustração Portuguesa n.º 244, de 24.10.1910, e no L’Illustration n.º 3530, de 22.10.1910, suscitando nas elites liberais e nos meios diplomáticos a reaccção inversa da desejada. Não era possível acreditar na Europa dita civilizada de 1910 um regime cujo presidente se dava a ver publicamente nos antípodas das imagens de acreditação do poder.
Vejamos mais de perto a legislação produzida:


Entidade Produtora/ Instituição Regulamentada/ Natureza do diploma/ Identidade Visual/ Património Simbólico e Emocional:

M. Interior/D. de 22.02.1911/Fac. Medicina UL, UC, UP/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. de 18.04.1911/ Fac. Direito UC/ Reforma jurídica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. de 19.04.1911/ Estatuto Universitário da UC, UL e UP/ Estrutura orgânica, missão e competências/ Omisso/ Refere a “sessão inaugural”/ Diploma de aluno Premiado/Diploma de Estado
M. Interior/D. de 27.04.1911/ Hospitais da UC/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Fomento/D. de 1.05.1911/ Escola de Medicina Veterinária/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. de 9.05.1911/ Faculdades de Letras da UC e UL/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. de 12.05.1911/ Faculdades de Ciências da UC, UL e UP/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. 21.05.1011/ Escolas Normais Superiores da UC e UL/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. 22.05.1911/ Escola da Arte de Representar/ Estrutura orgânica/ Prémios e diplomas/ Omisso
M. Fomento/D. 23.05.1911/ Instituto Superior Técnico e Instituto Superior do Comércio/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/Decretos de 26.05.1911/ Escolas de Farmácia da UC, UL e UP e Escolas de Educação Física da UC e da UL/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. 26.05.1911/ Escolas de Belas Artes de Lisboa e Porto/ Estrutura orgânica/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. 19.08.1911/ Secretarias-Gerais da UC, UL e UP/ Regulamento/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. 19.08.1911/ Faculdades de Letras da UC e UL /Regulamento/ Omisso/ Omisso
M. Fomento/D. 19.08.1911/ Instituto Superior de Agronomia Regulamento/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. 21.08.1911/ Faculdade de Direito da UC/ Regulamento/ Omisso/ Omisso
M. Interior/D. 22.08.1911/ Faculdades de Ciências da UL, UC e UP/ Regulamento/ Omisso/ Omisso
M. Fomento/D. 22.08.1911/ Escola de Medicina Veterinária/ Regulamento/ Omisso/ Omisso
M. Fomento/Decreto de 14.07.1911, DG nº 209, de 7.09.1911/ Instituto Superior Técnico/ Regulamento/ Omisso/ Omisso .


A crença nas infinitas potencialidades da razão enquanto discurso omnisciente que viria libertar os seres humanos dos grilhões da inteligiência emocional não deu os resultados esperados em territórios ainda profundamente marcados por identidades visuais e emocionais fortes como eram os casos de Coimbra e do Porto.
Os reformistas republicanos mais activos partiam da premissa que os universitários atingiriam um estádio de conhecimento que se bastaria a si próprio, libertando o ser humano da necessidade de rituais, charivaris, vestes cerimoniais, heráldica e função simbolizadora . No limite, aceitava-se ser possível suprimir os símbolos existentes e impor outros através de diploma positivado nas páginas do diário oficial.
Este modo de ver as instituições e os seus actores parece contraditar a prática pedagógica e propagandística republicana que demonstrou estar muito atenta à heráldica, à bandeira, ao hino, à moeda padrão, à toponímia e a determinadas festividades centradas no culto de mortos ilustres e heróis como o soldado desconhecido. Num registo comparado, a instituição republicana que mais se aproxima daquilo que o governo esperava da UC é o casamento civil. Confinado a uma austera sala de actos de conservatória que pelo seu extremo despojamento artístico e simbólico pretendia ser uma alternativa credível aos sumptuosos cenários dos tempos católicos, o casamento civil arriscou ser considerado pelos portugueses um falso casamento ou uma mera formalidade imposta pelo Estado.
As atitudes de aniquilamento da identidade patrimonial da UC e o clima de negativização a que o Studium Generale foi sujeito não obtiveram equivalente no universo militar ou paramilitar. No máximo, não houve abolicionismo nem detracção, tendo as coroas régias dos botões das fardas sido substituídas pelas esfinges e frases alusivas à República. Assim aconteceu efectivamente com o Plano de Uniformes da Guarda Republicana (Decreto de 29.10.1910), o Plano dos Uniformes dos oficiais, guarda-marinhas e aspirantes das diversas classes da Armada (Decreto de 19.01.1911), o Regulamento Geral da Academia das Ciências de Portugal (Decreto de 24.01.1911), o Regulamento do desenho e normas para a atribuição da medalha militar (Decreto de 6.02.1911), o Regulamento das Continências e Honras Militares (Decreto de 16.03.1911), o Regulamento das cores e a heráldica da nova bandeira e hino nacional (Decreto de 8.07.1911), o Plano dos Uniformes do Exército (Decreto de 7.08.1911, DG nº 227, de 28.09.1911), e o Plano de Uniformes e pequeno equipamento para praças da Armada (Decreto de 23.09.1911, DG nº 224, de 25.09.1911).
Cansada do papel de bode expiatório, da interiorização de uma imagem negativa de si própria e do reformismo imposto como dickat, no médio e no longo prazo a UC não só retomará o seu cerimonial como parte significativa dos seus alunos e docentes aderirão ao Estado Novo .

domingo, 6 de Setembro de 2009


O rei Óscar II da Suécia aquando do seu doutoramento honoris causa na Universidade de Lund em 1893.

Cerimónia de investidura honoris causa de Verner Stengel na Universidade de Goteborg em 2005. De anotar a coroa de louros que também ocorre nalgumas universidades italianas e está obrigatoriamente presente na UC na decoração do Paço das Escolas e na espiral que orna o rebordo do barrete doutoral.

Docente da Universidade de Helsínquia em traje de cerimónia

Acolhimento de participantes em cerimónia doutoral na Universidade de Vasa em 9.06.2006. A casaca preta de abas de grilo, considerada traje oficial das academias literário-científicas, universidades e politécnicos dos países escandinavos não é usada pelas professoras. Estas comparecem nas cerimónias oficiais com vestido preto, cartola e espadim.
Onde é que já ouvimos falar de algo parecido, ah, sim, na UC entre 1891 e 1956! Ao contrário dos hábitos talares que são facilmente convertíveis em vestes profissionais unissexo, a grande casaca é vincadamente masculina, revelando insuperáveis dificuldades quanto à inclusão de elementos do sexo feminino. Atente-se no caso do Instituto de França que só muito recentemente criou uma variante feminina do "habit vert".

Afinal com quem nos tornámos parecidos? Eis uma divertida pergunta que pode ser formulada pelos guias aos grupos de visitantes que demandam a UC. O que há de mais parecido com os actuis trajes masculinos dos docentes e discentes da UC são as vestes de cerimónia das universidades e politécnicos dos países escandinavos.
Eis um exemplo ilustrado a partir de uma cerimónia doutoral na Universidade de Vasa, Finlândia, realizada em 9 de Junho de 2006: dois docentes envergam a casaca preta de abas de grilo, cartola forrada de seda preta e espadim. O reitor e os reitores convidados exibem o mesmo trajo, mas completado por grande colar e manto.
No caso das universidades suecas esta paisagem vestimentária tem vindo a mudar nos últimos cinco anos, com procura oficial de togas desenhadas por estilistas.

sábado, 5 de Setembro de 2009


A indústria da moda não se rege por pruridos intelectuais nem atende a preconceitos mal resolvidos. Depois dos fenómenos de rejeição de que foi alvo nos meios universitários e políticos, e vencidos os grandes ciclos do abolicionismo, a indústria cinematográfica coloca a batina de novo na moda. Visual do actor Keanu Reeves em 2003 no filme The Matrix Reloaded que relançou por toda a década os casacos de inverno masculinos com talhe de batina romana.

A abolição do porte diário do traje académico masculino em finais de 1910 e o estado de policromia a que chegara criaram alguns problemas à TAUC e ao Orfeon Académico. Percebendo o quanto tinham a perder caso apostassem em digressões sem capa e batina, em 1911 as direcções destes dois organismos promulgaram orientações internas que exigiam a capa e batina em actuações artísticas e a padronização das cores (preto integral com camisa branca).
Um exemplo da invenção de um uniforme após 1910: digressão do Orfeon a Paris na Páscoa de 1911.

Um par idealizado e inventado pela indústria turística. Uma tricana aguadeira com indumentária anterior a 1900 e um estudante da UC com capa e batina adoptada após 1910 e capa traçada segundo a imagem-força que só se afirmou durante o Estado Novo. Faiança conimbricense.

Um estudante da UC de inícios do século XX em conversa com uma tricana aguadeira. Nos alvores do século XX o turismo emergente e os postais ilustrados tentam apropriar-se de alguns temas e convertê-los em sedutoras imagens cristalizadas. O fenómeno foi transversal a outras cidades universitárias europeias, tendo sido postos em circulação postais ilustrados de estudantes galanteadores à conversa com mulheres: Coimbra, Paris, Suiça, Alemanha. Na sociedade civil proliferavam séries de postais ilustrados com pares de apaixonados em vários estados de alma.
Os adeptos da fotografia pericial estavam a tentar provar que existiriam tipos humanos estáveis, identificáveis através de características externas como peças de indumentária, que os cientistas e turistas poderiam identificar a olho nu.
A etnografia estava na moda e alguns dos adeptos dos género tinham vindo a escrever que existiriam em Portugal alguns "tipos" de mulheres descendentes de "raças" ancestrais. Da mesma forma que as avós decidem com quem é que os seus netos se parecem, mesmo quando o não são, também houve estudiosos que acreditaram ver olhos gregos nas mulheres de Aveiro. Uma das musas seria a tricana de Coimbra. A invenção de pares idealizados leva os fotógrafos e ceramistas a inventar o par tricana/estudante, omitindo o futrica e fazendo crer que a capa e batina podia ser considerada um traje popular.

A indumentária masculina adoptada pela burguesia urbana exercia profundo fascíno sobre os estudantes da UC. A casaca e a cartola eram a imagem de marca dos empresários, homens de negócios e profissionais liberais de sucesso. A Greve Académica de 1907 transforma a "batina" herdada de oitocentos numa casaca desabotoda com lapelas de cetim, um dos símbolos ostentatórios do novo-riquismo Belle Époque. No período republicano este conjunto vestimentário é convertido em traje académico pelos próprios estudantes e estabilizado em figurino e em cor.

A gloriosa Singer dos alfaiates e dos serões invernais das avós portuguesas. Comercializada em larga escala desde a década de 1850, a máquina de costura testemunhou as grandes mutações morfológicas sofridas pela capa e batina. Variante de pedal assente em mesa com pernas metálicas.

A revista Ilustração Portuguesa dedicou alguma atenção às alunas matriculadas na UC logo após a implantação da República. Uma dessas alunas distintas era Regina Quintanilha, inscrita na Faculdade de Direito da UC em 1910. No n.º 310, de 29.01.1912 a refereda revista divulgou fotografias de estudantes, entre as quais figurava Regina Quintanilha, em traje civil. As estudantes, cujo número tinha vindo a aumentar lentamente, não encontravam ambiente interno favorável a uma adaptação do traje masculino nem evidenciavam vontade de criar qualquer indumentária distintiva.
A mesma Regina Quintanilha que vemos em 1912 sem hábito talar pleiteia no Tribunal da Boa Hora em 13.11.1913, não tendo ainda o curso terminado, com toga forense. Era a primeira mulher a fazê-lo em Portugal, facto que foi motivo de capa da Ilustração Portuguesa de 24.11.1913.

Uma hipótese alternativa de abordagem da simplificação do hábito talar. A proposta britânica implementada na segunda metade do século XIX aproxima-se mais do viatório e dos hábitos talares do que propriamente da casaca. O bispo Arthur, capelão militar na Household Brigade de Windsor, numa gravura divulgada na Vanity Fair de 23.12.1897.

Contigente militar alemão na recta final da Grande Guerra (1917) acompanhado pelo respectivo capelão.
Património vestimentário... (cont.)
O fim da hegemonia conimbricense

A UC e a sua Academia chegaram à Crise Académica de 17 de Abril de 1969 orgulhosas da hegemonia dos seus paradigmas culturais e simbólicos. No plano interno e externo, as exibições futebolísticas da Académica, as digressões artísticas do Orfeon Académico, a mediatização dos doutoramentos honoris causa, a leitura de coloridas sagas juvenis protagonizadas e escritas por antigos estudantes , as transmissões televisivas e radiofónicas de serenatas, a assumida imitação dos costumes conimbricenses pela maioria dos liceus, Faculdade de Direito da UL e UP, conferiam à UC uma clara posição hegemónica. Entre o mandato presidencial de Sidónio Pais (1917-1918) e a Crise Académica de 1969 apenas o Patriarcado de Lisboa nos anos da liderança do Cardeal Manuel Gonçalves Cerejeira (1929-1971) terá conseguido rivalizar em esplendor com a UC.
Excluindo as escolas de regentes agrícolas, não havia notícia de qualquer outro uniforme estudantil civil usado em Portugal. Apesar da sua originalidade e função cultural nos meios onde se inscreviam, importantes eventos liceais como o Enterro da Gata (Liceu de Braga), as Nicolinas (Liceu de Guimarães), o Enterro da Bicha e Procissão dos Caloiros (Liceu de Ponta Delgada), e Festa do Galo (Liceu de Beja) , e a Corrida e Julgamento do Galo das escolas de ensino primário não eram estudados nem referidos em pé de igualdade com os costumes conimbricenses. Práticas culturais e símbolos estudantis das universidades históricas europeias eram desconhecidas ou omitidas, não obstante a existência de chapelaria académica na maior parte das universidades europeias e a realização de festividades anuais nos espaços anglo-saxónicos, germânicos, finlandeses e franco-belgas (regatas, bailes, charivaris).
Aparentemente sólido e indestrutível, o parelho cultural e ideológico patenteado pela UC entrou em pulverização acelerada em 1969. À data da Revolução de 25 de Abril de 1974 pouco mais era do que uma memória nostálgica cultivada por antigos estudantes radicados em Coimbra e dispersos pelo país.
A partir de 1976 emerge na Academia de Coimbra um ambiente favorável à reinvenção de tradições entre as camadas juvenis. Até meados da década de 1980 consolidam-se na UC e na UP as grandes ofensivas de restauração das praxes, da retoma de costumes interrompidos em 1969 e da efectiva ocupação do território urbano pelas facções adeptas das múltiplas formas de vivenciar as “tradições”.
Em Coimbra, todos os estabelecimentos de ensino superior imitaram a UC no que concerne ao porte massificado da capa e batina, pasta académica, insígnias e festividades, com obstinada recusa de definição de qualquer política cultural ou associativa diferenciadora . As atitudes de ortodoxia que rodearam o processo de restauração das tradições académicas no após 1974 e a segunda longa revivescência do Código da Praxe de 1957 inviabilizariam qualquer possibilidade de discussão sobre o tailleur, os caminhos da feminilização da Academia e da UC ou a possibilidade de reinvenção democrática do processo de construção da identidade.
Em muitos aspectos, o desacerto cronológico entre a construção identitária como fenómeno de comunicação de massas e a aposta na comunicação cultural de modelo elitista retiraram à UC e à Academia de Coimbra qualquer possibilidade de protagonismo criador.
A maior parte dos estudantes matriculados nos institutos politécnicos e nas novas universidades apropria-se entusiasticamente dos bens culturais e simbólicos tradicionalmente produzidos pela UC, revelando identidades camaleónicas pós-modernas capazes de adaptação aos novos valores sociais e à importação do conceito de imagem organizacional difundida desde a década de 1950 pelo mundo empresarial norte-americano.
A Academia de Coimbra é frequentemente citada pela comunicação social e pelos estudantes de ensino superior português desses anos como reserva estática de apropriação ou identificação, qual metáfora do grande armazém de onde se retiram produtos em stock sem que nada se reponha.
Comunidade imaginada, trata-se de uma imagem inerte e implosiva que nas décadas de 1980-1990 nunca afirma a cultura académica conimbricense como paradigma dinâmico ou laboratório onde por via da imaginação criadora ou da ligação sincrética à cultura etnográfica regional estejam a emergir novos rituais ou a experimentar-se a re-invenção de tradições. No plano interno, os grupos que controlam o discurso tradicional e as normas praxísticas afirmam-se em relação ao passado e não ao presente, invocando incessantemente valores tributários da “autenticidade” e “antiguidade”, argumentos esgrimidos para afirmar a primazia da Academia de Coimbra ou a sua suposta “pureza” e “ancestralidade” num confronto contra os “imitadores” e os “contrafactores”.
Que tamanha inércia ou desatenção poderiam custar caro, já o tinham vindo a demonstrar ao longo do século XX clubes de futebol profissional que se haviam apropriado de cores, de símbolos heráldicos municipais ou regionais e de animais míticos, convertendo-os em capitais extremamente rentáveis. Por outro lado, nem a Academia de Coimbra nem a comunicação social desatenta e pouco informada assinalam o sentido bilateral das relações inter-comunidades académicas. Sem o querer reconhecer, e porque a história narrada é de trama coimbrocêntrica, a Academia de Coimbra também agiu como importadora de costumes, seja das escolas de magistério primário (futuras escolas superiores de educação), seja da UP ou da UL.
Exemplos:

-a fundação do primeiro Orfeon Académico em 1880 inspirou-se directamente no Allmana Sangen (1830) e no Orphei Drangen (1853) da Universidade de Uppsala;
-a Tuna Académica, apresentada ao público em 1888, constituiu uma reacção de brio à visita da Tuna Universitária Compostelana a Coimbra no Carnaval de 1888 ;
-ao longo de toda a década de 1980 eram bem visíveis em Coimbra, no início de cada ano escolar, as semanas de recepção ao caloiro com a sua parafrenália de chupetas, bibes infantis e martelinhos do São João. Tanto a designação das festividades, como a imagética de “creche” que substituiu a simbologia taurina multissecular pelos signos e cores infantis (rosa para caloiras, azul para caloiros), era uma imitação de festividades de há muito realizadas nas escolas de magistério primário e nas escolas primárias ;
-a imagem comunicacional adoptada desde 1979 pelos estudantes da Faculdade de Economia, incluindo as fitas vermelhas e brancas, a roseta de lapela dos cartolados e o cifrão ($) , constitui traslado directo de práticas implementadas na Faculdade de Economia da UP a partir da década de 1950;
-a cartola de fantasia usada em Coimbra desde 1979 é do tipo portuense, conforme modelo fabricado em série desde a década de 1950 , de ilharga baixa e forrada de cetim, ao arrepio do tipo conimbricense, artesanal, de ilharga alta e forrado de papel de lustro;
-o Baile de Gala das Faculdades (Queima das Fitas), iniciado em 1937, já era realizado em universidades francesas e austríacas e na École Polytechnique de Paris desde finais do século XIX. O dos estudantes de Lyon remontava a 1877 ;
-a missa da Bênção das Pastas dos estudantes católicos foi iniciada pelos alunos finalistas da UL em 1926 e continuada nos anos ulteriores. Em Maio de 1932 seria apropriada pelos quintanistas católicos da UC que se fizeram consagrar ao Sagrado Coração de Jesus.

A corrida pós-moderna ao simbólico e aos referentes identitários tem para a UC um sabor de amargura. A maior parte dos valores propostos pelas instituições de ensino superior concebidas como empresas, os fenómenos de markting e o papel atribuído às capacidades criadoras na construção e gestão do imaginário, já existiam na UC antes do abolicionismo de 1910 e da campanha denegridora de que a instituição foi alvo. Mesmo considerando que as universidades clássicas radicavam em identidades visuais e emotivas tendencialmente fechadas, elitistas, burocráticas e rígidas, com escasso sentido de participação dos seus elementos, a UC ostentava em 1910 um património simbólico e imaterial invejável que após 1974 não foi renovado:

• sistema cerimonial, vestimentário e insigniário integrado, que abarcava os titulares dos órgãos de gestão, os docentes, os alunos e os funcionários, mediante um complexo dispositivo de investiduras, rituais fúnebres, paradas públicas, jubilações e atribuição de graus de bacharel, licenciado e doutor;
• um calendário anual homeopático e afectivo, marcado por momentos festivos e ritualizações que delimitavam com grande eficácia os momentos de trabalho, lazer, entrada e passagem, contrariando o mito do progresso e o entendimento empobrecedor do tempo linear;
• instituições extra-curriculares diversificadas que, à semelhança do ambiente das universidades norte-americanas, britânicas e suecas possibilitavam aos estudantes o acesso democrático ao desporto, ao teatro, à prática coral e instrumentística e digressões amadoras periódicas a espaços portugueses e estrangeiros, com resultados positivos em termos de maturação da personalidade, responsabilização e autonomização dos jovens alunos;
• uma Casa Reitoral que, por semelhança com a cultura palaciana das instituições aristocráticas, eclesiásticas e municipais, liderava as tendências da moda em termos do lançamento e gestão daquilo que na década de 1990 as novas universidades designaram por “negócio de comunicação”, “marca institucional”, “logótipo”, “embaixador cultural”, “lembranças institucionais”: insígnias, vestes, pastas de despacho, sapatos forrados/avivados, alfinetes de gravata, botões de punho, luvas bordadas, hino, heráldica, alegorias greco-romanas, cores específicas de cada uma das escolas, a música associada à imagem do reitor, a distribuição de prémios a alunos distintos e o baile que lhe estava associado;
• apresentação pública como corpo dotado de coesão interna e identidade forte em paradas públicas, cerimónias de Estado e programas religiosos;
• um riquíssimo património imaterial assente em manifestações emblemáticas como as obras literárias/musicais/vocais da Canção de Coimbra e da paisagem sonora da guitarra de Coimbra, bem como o sistema simbólico e mitológico repousante num imaginário baseado no livre uso da mitologia greco-latina (símbolos das Faculdades e cursos), no bestiário medieval e nas sagas antropomórficas (mitologia associada à imagem taurina dos caloiros), com profunda inscrição no folclore português (ditados populares, contos tradicionais, quadras circulantes na tradição oral) ;
• ao longo do século XX, a eficácia simbólica e emotiva do património herdado possibilitou a consagração de ex-libris identitários como a Torre de Universidade (caricaturas, crachás, logótipos do Orfeon e da TAUC), as insígnias doutorais e a guitarra de Coimbra.

Alguns dos problemas associados à incapacidade de reinvenção simbólica da UC no após 1974 radicaram na liderança da Casa Reitoral por actores enformados no modus operandi mental e cultural anterior à Revolução de 25 de Abril de 1974, na obstinada recusa da Alma Mater em estreitar relações culturais e emocionais com o património da região e da cidade (a fobia de passar a ser uma universidade regional), e na restauração das tradições académicas por grupos masculinos adversos da assunção de uma visão assente em valores como a participação democrática, a integração regional/local, a proximidade entre os actores e as instituições tradicionais herdadas ou a flexibilização da “praxe” académica.
O imobilismo simbólico e visual do cerimonial universitário erradamente centrado em actos doutorais, a marginalização continuada dos eventuais contributos da imaginação criadora no meio estudantil e a ausência de uma estratégica de construção identitária integrada por docentes/funcionários/estudantes ficariam indelevelmente associados à imagem da UC das décadas de 1980-1990, servindo de exemplo a ausência de algo simples e eficaz como a produção e oferta de prenda institucional para distribuição nas reuniões anuais de antigos cursos ou na conclusão dos cursos de férias de alunos estrangeiros .
Ao contrário dos excelentes resultados inventivos e simbolizadores construídos pela Reitoria/docentes/alunos da Universidade do Minho , a UC revelou nas décadas de 1980-1990 atitudes de fechamento perante as propostas inventivas, desconforto e xenofobia perante os actos imitativos e predatórios das novas universidades e politécnicos, falta de sentido de acolhimento face aos contributos criativos dos estudantes e funcionários e escassa capacidade de rentabilização das imensas potencialidadades do seu património imaterial.

Mas a adopção de uma “marca-universidade” implica falar a linguagem empresarial e reinvindicar os direitos de criação original do que lhe está associado em termos de herança identitária, enquanto estratégia assumida como esteio da “missão do ser-se diferente .
Vejamos uma amostragem de dezasseis “produtos” culturais apropriados desde a segunda metade do século XIX, com picos de intensidade imitativa registados entre 1890-1930 e 1979-2000:

-Capa e Batina, remontante ao século XVI. Apropriação desde 1860. Ensino secundário e superior. Portugal continental, insular e antigas colónias;
-Insígnias da Praxe: colher, moca, tesoura. Origem medieval Apropriação liceal entre ca. 1890-ca. 1970. Universidades e politécnicos;
-Pasta académica, grelos e fitas. Uso desde o século XVIII. Apropriação desde a década de 1890. Universidades e politécnicos;
-Cartola e bengala e dia do quintanista com Venda da Pasta. Criação em 1932. Apropriação desde ca. 1945. Universidades e politécnicos;
-Programa da Queima das Fitas. Origem nos charivaris medievais. Apropriação desde a década de 1920. Universidades e politécnicos;
-Cartaz da Queima das Fitas e selos para pastas. Criação em 1899. Apropriação desde a década de 1960. Universidades e politécnicos;
-Anel de curso. Criação espontânea na década de 1950. Apropriação desde da década de 1980. Universidades e politécnicos;
-Código da praxe. Editado em 1957. Imitação desde a década de 1980. Universidades e politécnicos;
-Canção de Coimbra. Origem espontânea na 1ª metade do déculo XIX. Práticas imitativas desde ca. 1911. Universidades e politécnicos;
-Latadas e Imposição de Insígnias. Institucionalização espontânea desde ca. 1941. Imitação desde inícios da década de 1980. Universidades e politécnicos;
-Hábito talar docente. Versão reformada em 1915. Desde 1915;
-Insígnias doutorais. Modelo setecentista barroco. Desde a década de 1820. Universidades portuguesas clássicas e brasileiras;
-Abertura solene das aulas. Ritual medieval Desde 1911. Universidades e politécnicos;
-Imposição de insígnias a novos doutores. Desde década de 1920. Universidades clássicas;
-Doutoramento honoris causa. Desde 1917 por imitação de outras universidades ocidentais Desde 1921. Universidades clássicas;
-Emblema da AAC. Criado em 1928. Desde 1939. Diversos clubes desportivos portugueses.

Na área metropolitana do Porto, a UP lideraria o restauracionismo praxístico, funcionando como uma “segunda Coimbra”. Os múltiplos estabelecimentos de ensino superior universitários e politécnicos, públicos e privados localizados no Douro Litoral imitaram as práticas observadas na UP e procuraram confundir-se com a instituição, confirmando as atitudes dos politécnicos de Coimbra face à UC.
Em Braga, na Universidade do Minho e na Universidade Católica, a década de 1980 seria preenchida com a capa e batina e a queima das fitas. Porém, a Queda do Muro de Berlim abriria de imediato as portas à fragmentação dos modelos culturais homogeneizantes clássicos e ao conceito moderno dos modelos gerais e abstractos herdados da Aufklarung.
Os países de leste desmembrados da esfera de influência da ex-URSS lançaram-se na reinvenção de trajes talares para as suas universidades e tribunais. Em Portugal e Espanha as tunas académicas viveram um crescendo pujante até à primeira década do século XXI. Noutro plano, mas portador de inegável interesse comparativo, o Ocidente deixou-se fascinar pelas confrarias gastronómicas e vinícolas, todas elas ligadas à dinamização de ambientes neo-medievais escorados no uso de trajes, insígnias, rituais de investidura e cortejos públicos .
Na era da massificação do ensino superior português, as novas universidades públicas e privadas recusaram o paradigma conimbricense e aventuraram-se na invenção de projectos visuais alicerçados em trajes docentes e insígnias definidoras de identidades distintivas : Universidade Aberta (1990) , Universidade dos Açores (1990) , Universidade do Algarve , Universidade de Aveiro (1987) , Universidade da Beira Interior (1996) , Universidade da Madeira (1996) , Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro , Universidade de Évora (1989) , Universidade do Minho (1984) , Universidade Nova de Lisboa , Universidade de Lisboa (2005) , Universidade do Porto (2003) .
No que respeita a estabelecimentos de ensino superior privados, até finais do século XX adoptaram trajes docentes a Universidade Católica Portuguesa (2000) , a Universidade Autónoma Luís de Camões (1995), a Universidade Fernando Pessoa (2007), a Universidade Lusíada , a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, a Universidade Moderna (1994) , e a Universidade Portucalense Infante D. Henrique (1998).
Os institutos superiores politécnicos parecem ter ficado à margem da “movida” neovestimentária, embora tenha institucionalizado traje para o seu corpo docente o Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (1995).
Como se pode constatar, as decisões mais recuadas no sentido de criar e regulamentar trajes e insígnais docentes polarizam-se em torno das universidades do Minho, Aveiro e Évora e acompanham o movimento internacional neo-vestimentário e neo-insigniário comum a docentes e estudantes do ensino superior, magistraturas judiciárias e associados de confrarias neo-medievais . Na esmagadora maioria das situações identificadas, há alguns traços comuns a destacar:

-opção pelas vestes talares, multissecularmente associadas à imagem da nobreza de toga, sendo visível o pendor para a subida das bainhas dos talões para a meia-perna (10 a 15cm acima do calcanhar);
-respeito generalizado pelo preto, cor tradicionalmente usada em Portugal pelo clero secular, UC, magistratura judicial, magistratura do Ministério Público, funcionários judiciais, oficialato municipal, docentes das antigas Médico-Cirúrgicas, docentes espanhóis, brasileiros e italianos;
-definição dos trajes adoptados como vestes profissionais de doutorados, agregados e catedráticos, com exclusão de docentes detentores de outros graus, bem como de funcionários e alunos, exceptuando-se a Universidade de Aveiro, a Lusíada, a Lusófona e a Moderna;
-em geral, aprovação de insígnias não coincidentes com a borla e capelo, centradas em membros dos corpos docentes doutores e catedráticos.

E no caso dos politécnicos, invenção arbitrária por parte de cursos e estruturas associativas estudantis de:

• cores para cursos, ora apropriadas em universidades, ora inventadas sem ligação oficial aos órgãos de gestão da respectiva instituição;
• criação de trajes estudantis inspirados em motivos etnográficos locais;
• adopção da capa e batina conforme o modelo conimbricense;
• invenção de heráldica e distintivos ad hoc associados a determinados cursos.

Relativamente às cerimónias de formatura (licenciatura) e mestrado, bem como insígnias que lhe estão associadas, a UC tem mantido total mutismo, num momento charneira em que o ciberespaço propicia informação sobre as seguintes tendências:

• continuidade das cerimónias multisseculares de colação dos graus em universidades britânicas como Oxford, Cambridge e Saint-Andrews, estando os actos oxfordianos mais próximos das normas estatutárias conimbricenses;
• por força da globalização e das iniciativas de apropriação identitária desenvolvidas a partir da década de 1990 pelas business schools e management schools, alastramento da graduation ceremony de paradigma norte-americano em universidades e politécnicos de Espanha, França, Suíça, Itália, Dinamarca, Bélgica, Alemanha e Polónia;
• implementação de festas de entrega de diplomas na Universidade de Aveiro, Universidade Católica, Universidade Lusíada e Universidade Fernando Pessoa, cujo paradigma oscila entre a “graduation ceremony” norte-americana e os eventos mediáticos de entrega de troféus a figuras do mundo do cinema, música, literatura, moda, desporto, economia e gestão de empresas.

A singeleza do tailleur envergado pelas estudantes da UC não escaparia incólume ao confronto com a grande movida de trajes estudantis inventados e adoptados em Portugal a partir de 1989. Ao contrário do que tinha acontecido com os liceus oitocentistas, desta vez o ensino secundário massificado após 1974 assimilou as roupas de marca materializadas em calças de ganga, sapatilhas, t-shirts e bonés de baseboll. Nos espaços influenciados por Coimbra , Porto e Lisboa a capa e batina, modelos clássicos masculino e feminino, conseguiu manter-se.
A superação dos paradigmas ideológicos e estéticos específicos da modernidade carreia um desejo assumido de não querer ser nem parecer-se com a UC. Do ponto de vista vestimentário, o movimento identitário diferenciador e individualizador arranca na Universidade do Minho em 1984 para o corpo docente e em 1989 para o corpo discente, apoiado pela cultura dos docentes fundadores, equipa dirigente da Associação Académica e alguns docentes . Ainda em 1989 era dado a conhecer o “traje do tricórnio”, figurinos masculino e feminino, com elementos retro como o chapéu tricórnio setecentista, a capa fidalga, a camisa de colarinho raso e os calções masculinos . Na era da massificação do ensino superior português, a Universidade do Minho assumia a construção da sua identidade visual e simbólica como um distanciamento claro em relação ao paradigma cultural conimbricense e uma procura de ancoragem nas raízes etnográficas e religiosas do Minho .
Na UP e na UC, povoadas por clientelas habituadas à capa e batina como único traje nacional do estudante, as reacções foram bastante adversas por parte dos estudantes e docentes. Em Coimbra, onde certas elites mantinham viva a memória das lutas da geração de Antero de Quental em prol das calças compridas, os calções masculinos foram vistos com desconfiança e perplexidade. Em Guimarães, a Comissão das Festas Nicolinas procurou demarcar-se da solução adoptada em Braga . Para os militantes da causa abolicionista, a situação tornava-se confusa. Se já era difícil continuar a sustentar o discurso da capa e batina como traje “fascista” cuja recuperação era considerada reprovável, onde situar agora os novos trajes académicos em afirmação e como identificá-los e caracterizá-los?
Mais ou menos na mesma altura, a Escola Superior Agrária de Coimbra abandonou a capa e batina e adoptou um traje de tipo equitação à base de jaqueta verde, calças e botas de montar. O movimento ascensional das tunas e o sucesso colhido pelo “traje do tricórnio” abriram a caixa de Pandora. Ao longo da década de 1990 e nos primeiros anos do século XXI surgiram trajes estudantis em variados estabelecimentos de ensino superior marcados pelos referentes do ecletismo e do revivalismo, que iam desde a inspiração aristocrática à reciclagem descomplexada de elementos etnográficos regionais.
Eis uma amostragem:

• Universidade de Aveiro, “O Gabão”, em preto, composto por calça comprida/casaco curto avivado a verde/colete/gabão (M), e saia curta/casaco curto avivado a verde/colete/gabão (F);
• Universidade da Beira Interior, calça comprida/jaquetão/capa capote/chapéu serrano de feltro (M), e saia preta comprida/casaquinho/capa de capuz, conjuntos inspirados nos trajes rurais de casais abastados e noivos de inícios do século XX ;
• Universidade do Algarve: conjunto azul-escuro composto por saia comprida evasé/casaco/capa/chapéu à Infante D. Henrique (F); calça comprida/casaco curto/capa/chapéu à Infante D. Henrique (M);
• Universidade dos Açores: conjunto azul-escuro inspirado no capote e capelo, composto por calça comprida/casaco/capa (M), e saia curta/casaco/capa (F);
• Instituto Politécnico de Bragança: “O Capote”, em preto, composto por calções/dolman/capote (M), e saia/casaco/capote (F) ;
• Instituto Politécnico de Portalegre: “Capote Alentejano”, em preto, composto por calça comprida/jaquetão/capote/chapéu alentejano (M), e saia/casaco/capote/chapéu alentejano (F) ;
• Instituto Politécnico de Viseu: conjunto preto constituído por calça comprida/casaca/capa comum/chapéu de feltro de aba larga (M); saia comprida/casaco/capote com capuz (F);
• Instituto Politécnico de Beja, capote alentejano ;
• Instituto Politécnico de Leiria, conjunto preto constituído por calça comprida/casaco/capa clássica (M), e saia curta/casaco/capa/chapelinho ;
• Instituto Politécnico de Castelo Branco, conjunto preto inspirado no “capote serrano” composto por calças pretas/jaqueta/capote/chapéu (M), e saia curta/casaco/capote/chapéu (F) ;
• Escola Superior Agrária de Santarém: “Traje de Equitação”, em castanho, composto por calças/jaqueta/chapéu (M), e saia comprida/jaqueta/chapéu (F) ;
• Escola Superior de Gestão de Santarém: conjunto composto por calça comprida/jaqueta/faixa de cintura/capa clássica/chapéu de equitação (M), e saia comprida/jaqueta/faixa de cintura/capa clássica/chapéu de equitação (F) ;
• Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa: conjunto preto constituído por saia comprida/casaco/capa;
• Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing (Lisboa), conjunto escossês composto por meia alta/kilt axadrezado/colete/casaco azul/capa clássica preta (M/F);
• Universidade da Madeira: conjunto masculino azul-escuro composto por calça/colete/casaco/camisa branca/capote de romeira; conjunto feminino azul-escuro constituído por saia/casaco/blusa branca/capote de romeira .

Paralelamente ao processo de invenção dos trajes discentes, fenómeno transversal ao ensino superior público e privado, universitário e politécnico, os anos balizados entre 1983-2005 testemunharam a afirmação de trajes corporativos, especificamente criados para uso de tunas estudantis:

• traje da Tuna Académica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Vila Real). A tuna foi fundada em 1983 como organismo misto e os seus elementos usam um traje inspirado na capa de honras de Miranda do Douro: saia curta castanha/blusa branca/boina castanha/capa castanha (F), e calça comprida castanha/camisa branca/boina castanha/capa castanha ;
• traje do Real Tonel Académico de Viseu, formação fundada em 1991 com estudantes dos vários estabelecimentos de ensino superior radicados em Viseu. O traje masculino da tuna, remonta a Abril de 1997, e segue de perto a indumentária das tunas universitárias espanholas que foi lançada em 1973 pela Tuna da Universidade de Salamanca. É um traje de inspiração quinhentista, “à século do ouro”, constituído por calções de entretalhos/gibão/boina/capa preta forrada de azul ;
• traje da Tuna do Instituto Politécnico de Tomar. Conjunto masculino preto instituído em 2000, comporta capa clássica/calça comprida/dólman de alamares/chapéu de feltro ribatejano ;
• traje da Infantuna, grupo masculino constituído em Viseu no ano de 1991 por estudantes de diversos estabelecimentos. Traje dito “à Infante D. Henrique”, em preto, constituído por calções/colete/capa/chapéu bolonhês ;
• traje da Tuna Masculina da Universidade da Madeira. Grupo fundado em 1994, com actividade regular desde 1995. Traje de festa ou domingueiro da segunda metade do século XIX, com predomínio do preto, constituído por calções/colete bordeaux/casaco pela meia coxa e capa de capuz.

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009


Indumentária de capelão militar alemão por alturas da Grande Guerra. Embora os capelães militares usassem batina talar romana, as acções de campanha e a turbulência das enfermarias aconselhavam uma indumentária prática e de linhas depuradas.
A casaca documentada na fotografia foi amplamente consagrada na década de 1860 em contexto de Guerra Civil norte-americana e ainda se usou durante a Grande Guerra de 1914-1918.
Caso para perguntar, esta casaca não tem um certo ar que nos é familiar? Obviamente que sim, com a casaca adoptada na década de 1860 pelos estudantes de Coimbra e com a casaca que os docentes da UC discutiram em Dezembro de 1915 no senado como hábito provisório.

Militar norte-americano com casaco, calça comprida e képi, uniforme amplamente popularizado durante a Guerra Civil norte-americana. A partir da Guerra Peninsular, o estudante de Coimbra oscila entre a reclamação do abolicionismo vestimentário e as sugestões da uniformologia militar. Não chegou a vingar, mas à entrada da década de 1860 o ministério que detinha a tutela do ensino pensou e propôs que os estudantes de Coimbra passassem a usar um uniforme semelhante ao da fotografia, em preto, com vivos verdes. Ainda assim, sem replicar todas as soluções propostas pelo uniforme militar, o pequeno uniforme que os estudantes adoptam a partir de 1863 é semelhante ao aqui documentado.

Fotografia de Francisco Rodrigues da Cruz (1859-1948), conhecido por Padre Cruz, no dia da sua formatura na Faculdade de Teologia da UC em 1880.
Ostenta o pequeno uniforme com camisa branca de colarinho postiço, casaca de carcela fingida e golas lançadas em torno do colarinho e capa simples cujo colarinho aperta com um alamar singelo.
Património vestimentário... (cont.)
Os estranhos atalhos da feminilização

Corpo discente

Ao longo do período em análise, os debates sobre a desnecessidade do traje académico, ou da transformação da morfologia multissecular num figurino burguês oitocentista detectam-se apenas no interior de práticas discursivas identitárias masculinas juvenis. Não participam no debate, nem sufragam as propostas contraculturais em curso a Casa Reitoral, facções representativas do corpo docente, os funcionários ou as primeiras gerações de matriculandas.
Estas ingressam na Faculdade de Matemática da UC no ano lectivo de 1891-1892 pela mão de Domitila Hormizinda Miranda de Carvalho, sendo a instituição frequentada por 874 alunos . Só em 1896 se lhe viriam juntar outras duas alunas, Maria do Carmo Teixeira Marques e Sofia Júlia Dias. Ocupava a cátedra reitoral António dos Santos Viegas (1837-1914), a quem Domitila de Carvalho endereçou o requerimento de matrícula. A 16 de Outubro de 1891 o Reitor oficiava ao Ministro da Instrução Pública e Belas Artes, João Marcelino Arroyo (1861-1930), o teor do pedido e diversos considerandos favoráveis à admissão.
Em 1860 e 1872 duas mulheres tinham realizado na Faculdade de Medicina exame de aptidão farmacêutica e em 17 de Julho de 1883 o Reitor da Universidade de Liège solicitara a Coimbra o preenchimento de um questionário sobre o estado da feminilização na UC. Na resposta, assinada pelo Vice-Reitor Bernardo de Serpa Pimentel (1817-1895), assumia-se uma atitude favorável ao processo de feminilização, dando-se conta que o Reitor Visconde de Vila Maior fora encarregado pelo governo de elaborar a lei de bases destinada a regulamentar a admissão de mulheres no ensino superior português.
Aquando da primeira formatura feminina concedida pela UC a Domitila de Carvalho em 1903 já havia alunas graduadas nos EUA, Suíça, Itália, Escócia, Irlanda , Grã-Bretanha, Austrália , Nova Zelândia, Índia , França, Suécia, Dinamarca, Holanda, Bélgica e nos estabelecimentos politécnicos de Lisboa e Porto.
Carolina Wilhelma Michaelis de Vasconcelos (1851-1925), que em 1911 foi convidada a leccionar na nóvel Faculdade de Letras da UC, tinha sido proclamada doutora honoris causa pela Universidade de Friburgo em 1893 . Maria Montessori (1870-1952) formou-se em Medicina na Universidade de Roma em 1896 e na prossecussão da sua carreira académica usou a toga e o barrete dos doutores italianos. Nos colégios e universidades anglo-saxónicas há informação confirmativa de que as graduandas envergaram a “gown” masculina e com ela começaram a frequentar as cerimónias de formatura pelo menos desde finais da década de 1860: Escócia, Irlanda, Grã-Bretanha, EUA, Canadá, Índia, Nova Zelândia e Austrália. A feminilização começara justamente no Geneva College de Nova York, estabelecimento de ensino que em 1849 concedera formatura em Medicina a Elizabeth Blackwell (1821-1910). As instituições de formação pioneiras parecem situar-se no campo da especialização em Medicina e localizam-se nos EUA .
A cultura académica anglo-saxónica revelou a sua plasticidade ao transformar as vestes talares históricas em vestes unissexo, situação que em finais da década de 1890 seria alargada ao universo do judiciário quando as primeiras graduadas em Direito ingressaram na advocacia. O primeiro caso pode ser ilustrado com o exemplo de Agnes Pichen, que após formatura com "cap, gown and hood", ingressou em 1908 no corpo docente da Universidade de Glasglow como lente de inglês, ali usando o traje masculino clássico , com as primeiras formandas em Medicina na Universidade de Sydney, no ano de 1898 , ou o primeiro doutoramento honoris causa da University of Queen's, Canadá, conferido pela Faculdade de Direito à Condessa de Aberdenn Ishbel Marjoribanks, em Maio de 1898 .
Quanto ao segundo caso, atente-se no acesso à advocacia na Nova Zelândia protagonizado por Ethel Benjamin. Na transição do século XIX para o século XX as primeiras mulheres formadas em Direito ingressaram em profissões jurídicas tradicionalmente monopolizadas por homens, como a advocacia e a solicitadoria. Em países como a Inglaterra, Canadá, Índia, Austrália e Nova Zelândia o ingresso das mulheres nas profissões jurídicas representou um processo bem sucedido de adaptabilidade inclusiva. A peruca, o plastron e a toga foram transformadas em veste profissional unissexo. Serve de exemplo uma fotografia de Ethel Rebecca Benjamin (1875-1943), formada em Direito pela University of Otago no ano de 1897. Em 10 de Maio de 1897 foi admitida como primeira advogada e solicitadora na Supreme Court da Nova Zelândia .
Situação idêntica se viveria em França e na Itália em termos de vestes académicas e judiciárias, embora a imprensa francesa tenha revelado o seu lado mais misógeno em caricaturas e postais ilustrados.
O combate em prol da abertura da advocacia às mulheres em França foi liderado por Jeanne Chavin (1862-1926), que em 2 de Julho de 1892 defendeu na Faculdade de Direito da Universidade de Paris uma tese de doutoramento de 196 páginas intitulada Des profissions acessibles aux femmes, en droit romain et en droit français. Évolution historique de la position économique de la femme dans la societé. A prestação do primeiro juramento profissional por Me. Petit como advogada foi motivo de capa do Suplement Ilustré do Le Petit Journal, nº 527, de 23 de Dezembro de 1900. No início do ano seguinte começou a circular em França uma série de quinze postais ilustrados com o título “La femme avocat”, onde uma figurante em toga e barrete depreciava a nova profissão com recurso a poses caricatas, legendas de conteúdo negativo e um bebé que recordava a impossibilidade de conciliar as tradicionais funções de esposa e de mãe com a independência profissional .
Ao contrário do que se possa pensar, a situação francesa não foi propriamente pautada por atitudes de “vanguardismo” ou de “pioneirismo”. Nas escolas profissionais de artes e ofícios, o tailleur tipo marinha só viria a emergir em 1964. Na Escola Politécnica de Paris, a versão feminina do uniforme ocorre apenas em 1974. E no Instituto de França será necessário dobrar o limiar da década de 1980 para vermos académicas em “habit vert”, quando em Portugal a Academia das Ciências admitira as primeiras duas sócias em 1912.
Na Suécia, Betty Pettersson (1838-1885) matriculou-se no ano de 1872 em Filosofia e Línguas na Universidade de Uppsala, e uma vez concluído o curso dedicou-se à docência. Pettersson figura numa fotografia de época com o boné dos estudantes. Em 1883 Ellen Fries (1855-1900) obteve o doutoramento em História também em Uppsala .

Em Coimbra, o pedido de dispensa do porte de hábito talar parte da própria Domitila de Carvalho, solicitação que o Reitor Santos Viegas reporta ao governo e considera aceitável “visto não ser admissível às mulheres o uso da capa e batina, que é o uniforme adoptado na Universidade; e parece-me conveniente que se lhe imponha a obrigação, a que ela própria se oferece, de comparecer nas aulas e nos actos académicos honestamente vestida de preto, com o traje próprio do seu sexo” . Em abono da sua posição, Santos Viegas lembrava que os alunos militares e os internos da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra também estavam dispensados do uso da capa e batina.
Em bom rigor, a decisão reitoral espelhava a visão das elites portuguesas da época sobre a natureza feminina, partilhada por jurisconsultos, militares, médicos, matemáticos e clérigos. De acordo com o direito positivado e com os preconceitos científicos apregoados pelo direito, antropologia, medicina e biologia, a mulher estaria marcada por um conjunto de estigmas físicos e psíquicos, incapacidades que a colocavam numa posição de inferioridade perante o homem, dispondo-a apenas para o casamento e reprodução .
A capa e batina dos estudantes e lentes laicos conforme o figurino usado em 1890 era um traje masculino à base de casaca preta civil, colete masculino , calça comprida, laçarote e capa singela. Sendo a casaca preta e a calça comprida símbolos da masculinidade burguesa urbana por excelência, era impensável aos olhos dos lentes, reitor e estudantes que as primeiras alunas se atrevessem a apropriar-se deste traje, visão que coloca a UC em situação de rigidez cultural perante a elasticidade das “gowns” anglo-saxónicas.
Mas o que verdadeiramente inquietava a Casa Reitoral e os estudantes era a possibilidade dessas primeiras alunas adoptarem uma toilette viril, invadindo o território masculino . A concordar com o uso da capa e batina pelas alunas, não estaria a UC a contribuir para acentuar o fantasma da desfeminilização da mulher? O receio era fundamentado com exemplos de mulheres que se vestiam com calças compridas, sobrecasaca e botas de equitação, como George Sand (1804-1876) , e de figurinos divulgados em revistas de modas. Em 1831 surgira em Inglaterra o vestido de equitação, com a parte superior masculinizada. Em 1851 a norte-americana Amélia Bloomer propusera sem sucesso o lançamento da calça comprida em Londres, tendo apresentado um conjunto túnica/calça que lembrava as vestes das mulheres persas e indianas . A partir de 1878, as revistas de modas tinham vindo a divulgar nos EUA, França e Inglaterra trajes femininos para ciclista, passeio à beira mar, equitação, ténis e golfe, onde eram bem visíveis os cortes funcionais, os tecidos lisos e a supressão de rendas, bordados e folhos. No caso da ciclista, a saia-calção dera que falar desde Março de 1894 . Num registo comparativo, de há muito que as ceifeiras do Alentejo se tinham antecipado à moda cosmopolita, transformando as saias de trabalho em práticos calções .
Ao inviabilizar a solução unissexo na UC, o titular do cargo reitoral reforçava os preconceitos existentes, sossegava os incomodados e garantia uma radical separação de géneros por mais de 100 anos.
Proibidas de confundir-se com os seus colegas alunos, as estudantes optam por vestir-se de acordo com os padrões da média burguesia e do campesinato provincial abastado: vestido preto comprido, chapéu urbano, e em determinadas cerimónias ou momentos festivos a pasta com fitas de seda e a capa preta. É para todos os efeitos o chamado traje domingueiro das mulheres das aldeias, vilas e cidades de província, com a diferença que as chamadas meias senhoras e burguesas vestiam capas e capotes de honra, ricamente confeccionados, enquanto as estudantes trajavam uma capa de tecido e corte vulgares.
As políticas de exclusão das mulheres na UC não se limitaram ao traje. Ao longo das décadas seguintes, as alunas viverão um autêntico “apartheid” académico. Com efeito, foi no interior da Academia de Coimbra que mais intensa e duradouramente os estudantes praticaram a separação de género e procuraram manter as suas colegas afastadas da “praxe” e da vida cultural, associativa e desportiva extra-curricular . Antes de 1938 as estudantes não entram no edifício sede da Associação Académica nem fazem parte de organismos desportivos, corais, teatrais ou instrumentísticos de dimensão extra-curricular. Muito lentamente, em 1938 ingressam no Teatro dos Estudantes (TEUC) , seguindo-se com intervalos mais ou menos longos a Comissão Central da Queima das Fitas (1940), o Coral dos Estudantes da Faculdade de Letras (1954), o Coro Misto (1957), a Tuna Académica (TAUC, 1960), o Orfeon Académico (1974), a presidência da Associação Académica (1976), e a presidência do Orfeon Académico (1987) .

Com a Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910 as vestes, insígnias e cerimonial da UC são suspensos pelo governo provisório. Relativamente às estudantes são mantidas as decisões adoptadas em 1891. A documentá-lo visualmente, a Ilustração Portuguesa, nº 310, de 29.01.1912, fotografou a estudante Regina Quintanilha e outras colegas como Maria da Conceição Ferro e Silva em traje civil feminino e pasta com fitas de seda. Matriculada em Direito no ano lectivo de 1910-1911, Regina Quintanilha, ainda com o curso incompleto, foi a primeira mulher a advogar em Portugal . A sessão teve lugar no Tribunal da Boa Hora, Lisboa, em 14.11.1913, tendo Regina Quintanilha vestido toga de advogado, evento que foi motivo de capa da Ilustração Portuguesa de 24.11.1913.
Não há notícia de que os magistrados e advogados presentes, todos eles antigos estudantes da Faculdade de Direito da UC, tenham apoucado Regina Quintanilha ou obstado a que vestisse a toga forense. Aliás, o estado da situação do acesso das mulheres às profissões médicas e jurídicas no Ocidente era bem do conhecimento dos lentes e estudantes da UC. A título de tese de conclusão de curso, João Henrique Ulrich apresentara à Faculdade de Direito um ensaio intitulado Elementos para o estudo da advocacia portuguesa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1902, onde revelara actualizado conhecimento do que se estava a passar na Europa, Rússia e América do Norte. Nesta surpreendente dissertação, dedicada a Afonso Costa e ao Conde de Casal Ribeiro, Ulrich defende que as mulheres diplomadas com cursos superiores devem exercer profissões liberais e ingressar na função pública, revelando os seguintes dados:

-países que proíbem que a mulher frequente cursos jurídicos: Alemanha, Áustria, Hungria;
-mulheres diplomadas em Direito, cujos países autorizam o exercício da profissão: Dinamarca, EUA (em 32 dos 47 estados), França (Lei de 1.12.1901), Índia (1896), Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Noruega (1902), Suécia (1897); Suíça (Neuchatel e Zurique);
-mulheres diplomadas em Direito cujos países interditam o acesso à advocacia: Bélgica, Dinamarca, Espanha, Inglaterra, Itália .

Este estudante propunha que Portugal abrisse as portas da administração pública a mulheres diplomadas em direito, tese que teve acolhimento favorável entre os elementos do júri. Reconhecendo o espaço crescentemente ocupado pelas mulheres no professorado, correios, repartições públicas, enfermagem, artes médicas e actividades comerciais, seria o governo republicano a promulgar em 1918-1919 os primeios diplomas que legalizavam em Portugal as profissões de notária, advogada e conservadora dos registos:

-o artigo 1º do Decreto nº 4:676, de 17.07.1918, autorizava às diplomadas em Direito as profissões de advogada, ajudante de notário e ajudante de conservador dos registos. Era titular da pasta da Justiça Alberto Osório de Castro que invocou directamente as leis francesas de 7.12.1897, 23.01.1898 e 1.12.1900;
-o artigo 16º do Decreto nº 5:625, de 10.05.1919, do gabinete do Ministro da Justiça António Joaquim Granjo, que permitia às diplomadas em Direito o exercício do notariado .

Deste modo, a partir de 1918 a toga forense é convertida sem crispação em veste profissional unissexo, situação não verificada ao nível das notárias e conservadoras que nunca chegaram a ter traje profissional.
A obrigatoriedade de uso diário de uniforme masculino estudantil na UC foi abolida por Decreto de 23.10.1910, situação de certa forma extensiva aos liceus onde o porte masculino fora autorizado por diplomas do Ministério do Reino. O diploma referido não interditava o traje, apenas o tornava facultativo, tanto mais que no curto prazo a esmagadora maioria dos alunos da UC, da Tuna Académica (TAUC), do Orfeon Académico e da Tuna do Liceu Central de Coimbra manifestaram vontade de continuar a envergar a capa e batina.
Quando em 19 de Outubro de 1910 o Ministro do Interior António José de Almeida e o novo reitor da confiança do governo Manuel de Arriaga chegam a Coimbra com o propósito de reformar e republicanizar a UC, a maioria dos alunos da Alma Mater e do vizinho Liceu continuava a envergar a capa e batina. Desde a Greve Académica de 1907 que os alunos inconformistas haviam deabotoado a casaca, aplicando-lhe lapelas de cetim, a capa andava enrolada no colarinho ou deitada pelo ombro como se fora um salpicão, e nas gravatas, coletes e sapatos avistavam-se cores transgressivas e provocatórias como o laçarote vermelho dos carbonários.
Tendo a Casa Reitoral deixado de regulamentar o porte do hábito talar discente e as transgressões que lhe estavam intimanente associadas, o “negregado balandrau” (Hipólito Raposo) não é de imediato apropriado pelo Conselho de Veteranos (CVAC). Aliás, até à década de 1920, o CVAC não se pronuncia publicamente sobre o traje académico quanto a figurino, cores, modo de usar, interdições ou punições. Após décadas de predomínio da tradição oral, só em finais da década de 1950 o referido órgão opta por integrar a capa e batina nos domínios estritos da “praxe”, regulamentando o traje com o vocabulário e os instrumentos de controlo habitualmente usados para enquadrar as fardas militares e paramilitares .
Após a promulgação das primeiras medidas abolicionistas, quem começa por tentar regulamentar o porte do que resta do hábito talar discente são as direcções da TAUC e do Orfeon, preocupadas com a eficácia da sua comunicação imagética extra-muros. Entre 20 e 29 de Fevereiro de 1911, a TAUC deslocou-se em digressão a Valladolid, Salamanca, Zamora e Ciudad Rodrigo, com os tunos em capa e batina. Confirmada a digressão a Paris, em Março de 1911, o Orfeon desdobrou-se em concertos promocionais no Porto, Coimbra e Lisboa, sempre de capa e batina, tendo participado a 2 de Abril na inauguração do primeiro Jardim-Escola João de Deus aberto em Portugal.
A 8 de Abril o Orfeon seguiu de comboio para Paris, com programa coral e serenateiro agendado para o Eliseu, Sorbonne, Associação dos Estudantes de Paris e visitas às manufacturas de tapeçarias. Com data de 1 de Março de 1911, a direcção do Orfeon divulgara junto dos 300 estudantes inscritos uma nota sobre as “Condições para integrar a excursão”, na qual constava expressamente que “O traje académico de capa e batina é obrigatório”.
No ano seguinte, procurando normalizar uma certa iconoclastia de cores e acessórios, a digressão da TAUC a Évora, Beja, Faro, Silves e Lagos, realizada entre 14 e 21 de Fevereiro de 1912, levou a direcção da tuna a divulgar um comunicado de “Informações úteis”, onde se frisava “Devem todos apresentar-se de capa e batina, gravata preta, colete preto, e respectivo distintivo (laçarote no ombro da batina) . Todos os instrumentos devem trazer fitas”.
Entre 1911-1912, na UP, os sócios da Tuna e do Orfeão secundaram as medidas adoptadas em Coimbra. A maior parte dos liceus manteve a capa e batina que já era usada desde a segunda metade do século XIX, ou a ela aderiu. Seguindo na esteira dos movimentos em vias de expansão nas high schools britânicas, norte-americanas e japonesas, as alunas dos liceus de Lisboa e do Porto surpreenderam ao optarem pela invenção de um uniforme facultativo semelhante aos das enfermeiras da Grande Guerra.
Em Lisboa, alunos dos liceus reuniram por alturas de Setembro/Outubro de 1915, com o fito de discutir e aprovar que trajes envergar por alunos e alunas. Estas sessões terão sido participadas por alunos da UL que decidiram adoptar a capa e batina. Alunos mais radicais reclamaram mesmo o retorno da obrigatoriedade de porte, mas na prática o uso da capa e batina ficou confinado aos edifícios do Campo de Santana, a grupúsculos masculinos da Faculdade de Direito e ao “Liceu do Carmo”.
Na UP, em reunião inter-faculdades, realizada em finais de Fevereiro de 1916, decidiu-se implementar o uso generalizado da capa e batina a partir do dia 15 de Março de 1916 . Faltam-nos dados sobre as matérias deliberadas nestas reuniões e perfil dos participantes, não sendo possível afirmar se a decisão abrangeu apenas alunos e alunas da UP, ou se nelas marcaram presença alunos/alunos dos liceus.
A Gazeta de Coimbra, nas suas edições de 27.10.1915 e 4.03.1916 informa que em Lisboa já se viam "meninas" trajadas, certamente liceais. Aliás, a promulgação do Decreto nº 10.290, de 12.11.1924, que procedeu à nacionalização da capa e batina nos liceus e estabelecimentos de ensino superior teve como antecedente imediato os conflitos e movimentos grevistas que em Outubro de 1924 perturbaram os liceus lisboetas. O articulado do referido diploma não teve qualquer aceitação na UC ou nos liceus de Coimbra, persistindo o entendimento masculino segundo o qual as alunas não podiam usar traje académico.
O traje feminino, espontaneamente consagrado em Lisboa no segundo semestre de 1915 é um tailleur preto trapezoidal, à base de saia pela meia perna, casaco cintado, cortado pelo meio da coxa e blusa branca. A gravata demoraria a impor-se. Numa fotografia da turma de finalistas da poetisa Florbela Espanca, captada no Liceu de Évora em 1917, é bem visível o tailleur preto com capa e blusa branca sem laço ou gravata . Em fotografias de inícios da década de 1940 relativas a alunas do Liceu de Évora, a blusa branca ostenta as golas abertas, sem gravata alguma. Já no Liceu de Braga, num programa festivo de 1935, a aluna exibe um papillon preto . No caso do Porto, a gravata terá sido usada pelo menos desde a década de 1920. Assim está documentado numa fotografia tirada em 1925 por uma aluna do Liceu Alexandre Herculano e numa de 1946-1947 relativa ao Orfeão Universitário.
O fato referido era o mesmo envergado pelos corpos de enfermeiras da marinha e da Cruz Vermelha, nos EUA (em azul marinho, com capote e chapéu de abas), e em certos hospitais europeus pela mesma época (em cinzento), conforme determina o Decreto nº 4:136, de 24.04.1918, e respectivos desenhos anexos, que o manda aplicar às enfermeiras militares portuguesas. Ao referido conjunto se adicionou um capote azul-escuro forrado de vermelho e uma barretina, conforme atestam fotografias de época. Este último elemento, resulta de uma transformação do barrete islâmico do magrebe, o "chéchia" ou "kufix", que também era usado desde 1859 em escolas militares britânicas de formação de cadetes ("pillbox hat"). Antes de ter feito a sua entrada triunfal nos liceus de Lisboa, Porto e Évora ("tacho"), em versão unissexo, o "pillbox" já era largamente usado em Portugal por militares, impedidos de oficial e alunos da Academia Militar.

Ia adiantado o século XX quando se acendeu a discussão sobre a necessidade de as alunas da UC tirarem benefícios práticos do uso de um traje de tipo uniforme. Não ter traje académico fazia parte da identidade das académicas da UC desde 1891, ano em que contemporaneamente se matriculou a primeira aluna. A não participação feminina na vida associativa, a ausência de organismos culturais mistos até 1938 e a omissão da cerimónia de formatura de bacharéis e licenciados desde 1910, foram justificando a inércia observada em Coimbra. A nível dos liceus locais, mesmo considerando o Liceu Feminino Infanta D. Maria , nada consta quanto a um hipotético uso de farda, se considerarmos que a bata branca não era propriamente um uniforme escolar.
As alunas da UC tinham o privilégio do uso de pasta de luxo em tecido pintado ou bordado com fitas de seda e capa preta sem uniforme, costume que na década de 1980 ainda era praticado por quintanistas que iam ao Baile de Gala das Faculdades durante os festejos da Queima das Fitas. Era o equivalente aos trajes cosmopolitas de ir à ópera e ao teatro, usados até à década de 1950 em Nova York, Paris, Londres, Milão e Lisboa.
Nos finais da década de 1940 este estado de coisas começou a mudar quase imperceptivelmente. As universitárias de Coimbra estavam a par do uso do tailleur preto nos liceus portugueses e no Orfeão Universitário do Porto. O tailleur tinha vindo a conhecer crescente popularização no Ocidente graças às enfermeiras da Segunda Guerra Mundial e aos corpos de hospedeiras das companhias de aviação civil. As divas de Hollywood exibiam o tailleur e estilistas como Christian Dior apostaram na sua apropriação pela indústria da alta-costura. O peso crescentemente atribuído desde meados da década de quarenta às latadas de começo de ano escolar e às cerimónias de imposição de insígnias (grelos no 4º ano, fitas no 5º ano), começaram a suscitar em alunas da Faculdade de Letras vontade de adopção de um traje académico. No dia da imposição de insígnias às novas greladas e novas fitadas de Medicina e Farmácia, a 19 de Novembro de 1949, a estudante de Germânicas Ilda Pedroso desfilou com um conjunto saia/batina/capa, acontecimento muito comentado no millieu e bem acolhido segundo os relatos recolhidos . Todas as informações consultadas testemunham a opção pela saia embainhada abaixo do joelho, numa época em que os códigos da moralidade e do pudor vigentes em Portugal não poderiam aceitar na mulher o porte de calça comprida, e pela batina masculina também embainhada abaixo do joelho (frock coat), com lapelas de cetim.
Parecia encontrada uma solução, numa instituição onde a cultura histórica não legitimava de ânimo leve nem o tailluer, nem uma distinção formal entre modelo masculino e modelo feminino. No curto prazo, a evolução seria bem outra.
Em 1951 as alunas do Teatro dos Estudantes (TEUC) prepararam uma digressão ao Brasil, tendo decidido levar um conjunto vestimentário funcional que substituísse os custos e os incómodos habitualmente havidos com os vestidos de gala. Ficou decidido tarnsportar nas bagagens o tailleur preto conforme modelo em voga na alta-costura e no pronto-a-vestir. Entre 12 de Agosto e finais de Outubro de 1951 o TEUC actuou no Brasil e visitou a Universidade de São Paulo .
A opção pelo tailleur como que passou despercebida no meio académico. Decisão espontânea, terá contado com o beneplácito de figuras masculinas que integraram a comitiva como Francisco Barrigas de Carvalho (Dux Veteranorum), Maximino Correia (reitor), bem como os lentes João Pereira Dias, Manuel Lopes de Almeida e Eduardo Correia. O protagonismo coube a Maria do Céu Fidalgo, Margarida Costa, Ermelinda Gomes Leal, Ilda Pedroso, Maria Ascensão Albuquerque, Maria Augusta Mimoso e Albertina Botelho.
De 1951 a 1954 não se sabe com rigor que nível de adesão o tailleur terá conhecido em Coimbra, que lhe possa ter grangeado ser mais do que o fato que as alunas do TEUC levaram ao Brasil. Uma coisa é certa, se estivesse popularizado e se fosse querido das estudantes, não teria havido necessidade de o impor por decreto .

Pouco antes da Queima das Fitas de Maio de 1954, o Conselho de Veteranos da Academia de Coimbra (CVAC), após decisão exclusivamente masculina, deliberou impor por "decretus" o tailleur preto à base de casaco preto curto/saia como traje discente feminino. Ficou determinado que nas latadas das Faculdades e imposições de insígnias de Novembro desse ano as novas greladas e novas fitadas não pudessem usar pastas com grelos ou fitas sem o tailleur.
Entre Setembro e Novembro de 1954 Coimbra viveu dias de corrida ao "fato", abrindo desde então as portas ao pronto-a-vestir. A imprensa periódica que efectuou a cobertura dos eventos relatou que a quase totalidade das novas greladas e novas fitadas usava o tailleur. O concentrar das atenções da comunicação social em Coimbra fez esquecer que a mesma indumentária era usada ia para 39 anos nos liceus portugueses e pelo menos desde há 8 anos no Orfeão Universitário do Porto.
A medida decretada em meados de 1954 gerou uma onda de descontentamento entre as alunas que não se sentiam agradadas com o modelo escolhido, ou que liam a obrigatoriedade como um atropelo masculino à sua tradicional prerrogativa de não uso de uniforme académico. Outro pomo de discórdia residiu na imposição das meias altas pretas, quando as estudantes preferiam não vestir meias ou usá-las na cor da pele. Ao longo da segunda metade da década de 1950 as alunas pintarão riscos pretos na parte de trás das pernas. Não vestindo meias, na verdade pareciam estar a usá-las graças ao artifício do risco pintado na pele, o qual imitava a costura posterior vertical que as meias altas femininas da década de 1950 ainda comportavam. Procurando suavizar os descontentamentos, o CVAC integrou o tailleur no "Código da Praxe de 1957 " e manteve a velha prerrogativa do uso de capa preta com vestido de gala. O primeiro grande utente e divulgador do tailleur terá sido o Coral da Faculdade de Letras (CELUC) que se apresentara em público em Abril de 1954.
A decisão, que parecia colidir com os interesses de gestão imagológica da Mocidade Portuguesa Feminina, suscitou as atenções da comunicação social mundana, tendo a revista FLAMA, n.º 353, de 10.12.1954, dedicado o rosto e páginas ao assunto. Se as alunas não foram parte activa na decisão, também a Casa Reitoral liderada por Maximino José Morais Correia (1893-1969) se manteve à margem da decisão tomada pelo CVAC, em respeito à máxima campeante desde 1910 segundo a qual a Reitoria não deveria imiscuir-se nos assuntos dos estudantes (=“A Academia é soberana”).
Vingava assim na UC, por decisão marginal ao senado e decreto assinado à revelia das interessadas, um fato de tipo "high school", ou escola de artes e ofícios (França), cujo figurino e contexto cultural nada tem que ver com a história e as tradições da Alma Mater. O design adoptado não tem originalidade nem comporta valor estético bastante para individualizar no conjunto características artísticas ou patrimoniais. A confecção da saia e do casaco é de tipo pronto-a-vestir. Os tecidos mais utilizados, não sendo ordinários, também não se adequam a um traje contemporaneamente usado em contextos cerimoniais. Os preços praticados pelas lojas do pronto-a-vestir exorbitam o real valor do conjunto de confecção industrial.
Olhando ao que se passa em universidades históricas como Oxford ou Cambridge, nunca foi suficientemente provado que numa universidade como Coimbra haja necessidade de trajes diferenciados para alunos e para alunas, solução que só o desconhecimento do percurso e características das vestes talares poderia justificar.
Nunca tendo conquistado na UC o capital simbólico de que goza nos corpos militares, forças policiais, “business schools”, gestoras de empresas, administradoras e dirigentes intermédias e superiores da administração pública, o “fato” sobreviveu, e no Código da Praxe da Universidade de Coimbra de 2001, mantinha-se a diferenciação de género e autorizava-se a título de acessórios as lapelas de seda, a mini-saia e o colete , numa possível aproximação aos trajes de majorettes.
A impropriedade do “fato” assenta num conceito ultrapassado de normalidade vestimentar determinada pelas elites burguesas em função da permanente diferenciação dos sexos, situação que na UC é materializada pelo dimorfismo casaca/calça comprida e casaco curto/saia. Acrescem a isto a ausência de raiz talar nesta veste e o facto incontornável de o tailleur ser a indumentária das funcionárias da UC em contextos cerimoniais. Com o seu forro de cetim, estolas dianteiras e cabeção, a capa de cerimónia das funcionárias acentua a singeleza da capa da estudante. Outrotanto acontece num confronto entre a capa escolar e a reconstituição etnográfica das capoteiras e capotes de gala exibidos pelas tricanas conimbricenses de oitocentos .

A diferenciação apontada reflecte-se nos preços de confecção do pronto-a-vestir. Atendendo aos preços praticados em 2008-2009, enquanto o conjunto masculino clássico importa em €125, o tailleur custa €84. Confrontando estes montantes com o custo de trajos académicos femininos de outros estabelecimentos de ensino superior criados em Portugal a partir de 1989, o resultado é arrasador: €189,50 na Universidade do Algarve, €148 no Instituto Politécnico de Leiria, €119 para o conjunto da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, €145 no IADE e €155 na Universidade da Beira Interior.
Património vestimentário... (cont.)
Do “talar” ao “casacar”

O edital reitoral de 10 de Outubro de 1863 , não obstante o seu cariz liberalizador, não era um texto conseguido do ponto de vista vestimentário. Pretendendo instaurar uma divisão clara entre grande uniforme, destinado a actos solenes, e pequeno uniforme, de cariz funcional quotidiano, o autor do texto limitava-se a autorizar os sapatos pretos vulgares e as botinas, as calças compridas, a camisa branca, a gravata e o colete civis pretos e a casaca burguesa integralmente abotoada na frente. A ausência de um regulamento e de desenhos de apoio não ajudou a clarificar o espírito subjacente à reforma. Seguir-se-ão novos ciclos transgressivos, marcados pela falta de equilíbrio entre as novas realidades emergentes (feminilização discente), opção por tecidos de qualidade discutível em resistência e cor, bem como crescente tendência para o desencontro entre a morfologia da indumentária e a anatomia corporal.
Nas instituições escolares, militares e religiosas onde se mantinha o porte diário de uniforme, os tempos ditavam a distinção entre um grande uniforme ou traje de gala e um pequeno uniforme para serviço corrente. A Casa Papal não ficou indiferente a estas orientações. Por volta de 1870 o Papa Pio IX autorizou, em situações protocolares específicas, o uso do “abito piano”, composto por sapatos pretos de fivela, meias altas, calções, batina romana preta sem cauda e avivada, faixa de seda, cabeção, volta, romeira de ombros, e como cobertura de cabeça o solidéu e o barrete quadrangular .
Na Coimbra do após 1863, relativamente aos momentos solenes e cerimónias, continuava a exigir-se o porte de calções e de volta branca, sendo a última disposição comum aos eclesiásticos, magistrados judiciais, oficiais de justiça e militares.
O edital reitoral promulgado por Vicente Ferrer era omisso quanto ao traje dos lentes e estudantes clérigos, situação enquadrada pelos usos e costumes, nada adiantando quanto às vestes a usar pelos lentes e estudantes civis em contextos cerimoniais e festivos, nem quanto aos padrões de tecido apropriados às situações Verão/Inverno e hábito grande/hábito pequeno.
A questão das insígnias próprias dos graus académicos não era contemplada, num momento da história da instituição em que as insígnias de bacharel e de licenciado estavam caídas em desuso, restando tão-somente as insígnias doutorais. Reagindo contra a escassa visibilidade e inconsistência da formatura, os bacharelandos ocuparão a segunda metade do século XIX a transformar os fitilhos de atar as pastas em ostentatórias fitas de seda e a implementar festas de formatura alternativas ao vazio institucional existente, com recurso à récita de gala, balada de despedida, carta de curso (=álbum fotográfico), serenata fluvial, banquete comunitário, lançamento de foguetes e desfile público abrilhantado por filarmónica.
A ausência de elementos femininos na UC manteve o debate rigorosamente circunscrito aos códigos vestimentários masculinos. A breve-trecho registou-se uma tendência para o uso generalizado do hábito pequeno em momentos solenes como a colação do grau de doutor, quando este traje não se coadunava com o valor patrimonial nem com a linguagem estética da borla e capelo. Numa análise comparada entre as peças nucleares do hábito pequeno conimbricense autorizado em 1863 e a toga talar instituída como veste de trabalho na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa em 1856, e na Escola Médico-Cirúrgica do Porto em 1857, facilmente ressalta a inferioridade da opção coimbrã. O mesmo vale para a comparação entre o pequeno uniforme conimbricense a a toga dupla consagrada nas escolas superiores de Medicina do Rio de Janeiro e São Salvador da Bahia.
Qual o exacto alcance da “reforma” de 1863, no que ficou escrito e no que se não chegou a escrever?

Hábito Pequeno: seguindo as pisadas francesas que apontavam para a dicotomia pequeno uniforme/grande uniforme, amplamente consagradas em Portugal a propósito das fardas militares, nas Escolas Médico-Cirúrgicas e na Casa Papal ao instituir por volta de 1870 o “abito piano”, a UC autorizou o porte de um uniforme funcional, destinado a uso diário, leccionação e aulas de prática laboratorial. Na data em que foi aprovado, este traje era extensivo à totalidade do corpo docente e discente da UC e do Lyceu de Coimbra. O seu uso não era obrigatório e, pelo que se apurou, os estudantes clérigos da Faculdade de Teologia não o chegaram a adoptar, nem os lentes daquela Faculdade que continuavam a envergar o hábito talar eclesiástico romano.
A distinção entre pequeno uniforme e grande uniforme (ou farda de gala) era aplicada desde 1836 aos fardamentos dos archeiros e oficiais da UC. Abolido o tricórnio de feltro, a cabeleira postiça e a grande casaca verde agaloada, o corpo dos archeiros passara a usar em contextos de trabalho uma farda composta por barretina redonda ornada de tope azul e branco, casacão de saragoça com o colarinho avivado a azul e carcela de botões metálicos, calça comprida da mesma fazenda, sapatos comuns, espadim e cinturão de couro preto apertado na frente com uma fivela de latão amarelo.
Nos dias de grande gala, os archeiros envergavam o grande uniforme napoleónico, semelhante ao adoptado pela casa real, à base de sapato preto de fivela de prata, talabarte agaloado, espadim, alabarda, calções, meia branca de seda, colete branco, lacinho branco, luvas brancas, casaca de abas de grilo em lã azul ferrete e bicórnio de feltro. Num território marcado por relações de proximidade, rumores e dichotes, os estudantes divertiam-se espiando os lentes e funcionários. Raros eram os archeiros que não tinham alcunhas e, reproduzindo os ambientes masculinos aldeões onde se devassava a vida privada, havia quem se divertisse a espreitar a barriga da perna dos archeiros e os eventuais chumaços que alguns trariam por dentro das meias de seda.
A distição era extensiva aos oficiais maiores e menores, neles se incluindo o guarda-mor, os bedéis e os contínuos. No dia-a-dia os funcionários vestiam mantéu, calça comprida preta, casaca burguesa preta, colete preto e camisa branca. Nos dias de cerimónia, os funcionários exibiam mantéu de luxo (forrado de cetim preto), casaca, calções e colete tudo em veludo preto, com as bocas de mangas forradas de renda, camisa branca fina, plastron de duas línguas, meia alta preta e sapatos de couro ornados de fivela de prata, bem como luvas brancas. Fazia parte do conjunto um chapeirão preto redondo, tombado no esquecimento após a reacção às cabeleiras postiças.

Eram peças comuns ao pequeno uniforme académico:

-sapatos pretos comuns ou botinas pretas de couro ;
-meias pretas ;
-calças compridas pretas, de abertura de alçapão, com ulterior consagração da braguilha de carcela interna;
-colete preto de carcela de trespasse, munido de seis botões médios, forrados, e decote em V ;
-camisa branca, lisa, sem golas apostas ao colarinho;
-opção facultativa por plastron ou laçarote preto, cujas pontas se deveriam usar por dentro da frock-coat (casaca);
-gorro preto tubular, de porte facultativo, de uso comum aos lentes;
-“batina” preta de sarja, cintada, colarinho raso, com as mangas e costas talhadas no formato da “frock-coat” burguesa da época, e carcela dianteira integralmente fechada com uma fileira de botõezinhos planos forrados de tecido. Bainha inferior quase à meia perna, sendo ligeiramente mais comprida para os lentes;
-capa preta singela, em lã ou sarja, embainhada para os lentes, sem bainha para os estudantes amigos dos rasgões, colarinho raso, dispondo a dos estudantes de alamares, e a dos docentes de cordão de borlas ou de cordão simples.

Diferentemente do hábito talar histórico, o pequeno uniforme marca o triunfo das virtudes burguesas: ordem, trabalho, poupança, austeridade, normalização dos costumes de vida. Convocando um certo espírito de seita publicamente expresso na indumentária, o pequeno uniforme parece incorporar reminiscências das vestes puritanas seiscentistas, e bem assim do trajar frugal dos Quakers e dos Amish. À luz do espírito de poupança e contenção dos gestos, os amplos panejamentos, as linhas evasés, os bordados e os tecidos de luxo claudicam. Impera um figurino vincadamente geométrico, onde não há lugar para excessos de alfaiataria. Se dantes eram admitidos o preto, o pardo e o castanho, agora o preto é a única cor autorizada.
A indumentária masculina descrita manteve-se relativamente estável até à sua abolição em 23 de Outubro de 1910. Antes de 1912 não se registam ingressos femininos no claustro docente. As primeiras alunas haviam chegado à UC em 1891, mas a Casa Reitoral optou por dispensar as estudantes do porte do uniforme escolar. No que respeita à “batina”/”frock-coat”, na passagem para a década de 1870 os estudantes abandonaram a carcela de botõezinhos, passando a usar quase até ao período do Ultimato Britânico de 1891 carcela interna e colarinho adornado de gola de orelhinhas, tipo gabardine. Entre o Ultimato e a Greve Académica de 1907, a “batina” perde novamente a gola de orelhinhas, acentuando-se os actos provocatórios tendentes ao andar desabotoado. A Greve de 1907 hiperboliza a moda da abertura da “batina”, com as lapelas a dobrar sobre o peito em V e o recurso aos adornos de cetim, numa época em que as golas e lapelas em cetim eram símbolo de distinção social para os novos-ricos. A capa passa a usar-se enrolada no colarinho.
Os lentes pró-republicanos, positivistas e anticlericais, seguiram na peugada dos estudantes, mas nunca desabotoaram a “batina”. O 5 de Outubro de 1910 surpreendeu a “batina de lente” integralmente abotoada na frente com carcela fingida, comportando sobre esta uma carcela ornamental à base de botõezinhos revestidos de tecido. É este modelo que se retoma, ao arrepio de todos normativos protocolares, a partir de 1915, como traje de gala masculino, numa versão ainda mais despojada e banalizada, sem carcela ornamental, e com os botões forrados substituídos por botões de massa, numa conjuntura política e cultural hostil à herança patrimonial da UC.
Fazendo jus aos ditados populares “Quem tem capa sempre escapa”, ou “A capa tudo tapa”, a UC atravessaria um século XX confinada ao pequeno uniforme, cujo talhe e tecido não estão em equilíbrio com as insígnias doutorais barrocas e a antomia corporal.
Nas universidades de Lisboa e do Porto, onde este traje teve algum acolhimento, são de destacar três situações:

a) docentes da Faculdade de Direito da UL, que transpuseram o paradigma conimbricense sem modificações;
b) diversos docentes de Lisboa e Porto que usaram a capa e a “frock-coat” apenas entre a fase de defesa de provas doutorais e a ascensão a catedrático, passando então ao porte da toga talar por considerarem que a capa e a casaca não se coadunam com a dignidade de professor catedrático ;
c) a invenção da versão feminina do hábito talar, à base de batina/saia pela linha do joelho em 1945 na Faculdade de Ciências da UP.

A situação descrita torna-se ainda menos inteligível quando se sabe, por via do estudo comparado dos trajes populares regionais portugueses, que no mesmo período em que a UC confundia o hábito pequeno com o hábito de cerimónia diversos elementos do povo intentavam a sua afirmação social através do recurso a capas de luxo, e à confecção de corpinhos (blusas) e saias em sedas lavradas (brocado).
Assim, entre a década de 1850 e o findar da Grande Guerra de 1914-1918, afirmam-se em Portugal as peças de aparato das lavradeiras abastadas ou meias-senhoras e o acesso a capotes, gabões e capas de gala :

-corpinhos ou chambres de seda preta lavrada exibidos em momentos festivos e solenidades por lavradeiras ricas do Minho (Meadela, Braga), Vila Nova de Gaia e Gondomar;
-coletes garridos de seda lavrada, atados na frente com cordões (Minho, Douro Litoral, Beira Litoral);
-aventais de seda lavrada (Vila Nova de Gaia);
-saias compridas pretas em seda enramada, amplamente pregueadas, podendo comportar folhos e barras de veludo (Vila Nova de Gaia, Gondomar, Santa Maria da Feira, Paços de Brandão);
-capotes e gabões burgueses, e peças de indumentária diversa como a capa de honras de Miranda do Douro, o capote debruado da lavradeira rica de Braga, o mantéu feminino de Ovar, a meia capa de Santa Maria da Feira, a capoteira da tricana de Coimbra, a capa de honra de Paços de Brandão, a capa de festa de Castelo de Vide, o bioco do Algarve e o capote e capelo dos Açores.

Em recolhas etnográficas do período da Grande Guerra, José Leite de Vasconcelos confirmou a presença de capas talares pretas e azuis escuras, de certo aparato, em diversas localidades: masculinas e femininas, semelhantes à estudantil, em Penamacor durante o Inverno ; em povoações de Trás-os-Montes, capas femininas próximas das eclesiásticas e académica ; capas pretas e azuis escuras observadas nas mulheres do Baixo-Minho; capas talares domingueiras, exibidas pelas mulheres de Leiria e do Cartaxo, sendo as de Leiria ricamente ornamentadas na frente e na gola .

Ou seja, não é facilmente compreensível que o hábito talar da UC se tenha convertido num conjunto esteticamente inferior a uma peça da indumentária popular portuguesa como a capa de honras de Miranda do Douro, o capote e capelo dos Açores, a capa domingueira das leirienses, o capote alentejano e o gabão do tipo aveirense.
Como já se demonstrou, contra este insólito empobrecimento ergueu voz um bem documentado conhecedor de costumes populares portugueses e de questões estéticas, José Ramalho Ortigão, na crónica “O estudante de Coimbra”, apensa à litografia publicada em 1888 no “Álbum de costumes portugueses”. Se a adjectivação empolada parece conservantista, as interrogações formuladas afiguram-se pertinentes e não respondidas, nem na época nem depois dela.
A perda de identidade do hábito talar abriria as portas a mais de um século de confusão entre uniformes e vestes populares, discurso apropriado desde os alvores do século XX pelos bilhetes-postais ilustrados, figurinhas cerâmicas, capas cartonadas de fonogramas e grupos folclóricos. Na década de 1980 ainda era possível encontrar em Coimbra postais, copos de vidro e figurinhas cerâmicas com o “estudante e a tricana”, conciliação de todo impossível entre farda e traje popular e entre conjuntos de épocas distintas (o da tricana, de ca. 1880-1900; o do estudante, posterior a 1910).

Hábito Grande (versão confessional): embora o normativo de 1863 não o exarasse, mas as disposições estatutárias e a tradição institucional assim o determinavam, os estudantes e lentes da UC que fossem membros do clero regular ou secular mantinham o direito ao porte dos respectivos hábitos talares religiosos. Se após a nacionalização das ordens monásticas de 1834 os docentes e discentes regulares praticamente se não avistavam na UC, o mesmo já não acontecia em relação a estudantes e lentes do clero secular ligados em menor escala à Faculdade de Direito, e em maior extensão à Faculdade de Teologia.
Os alunos de Teologia mantiveram o porte da batina talar romana de um corpo, sapatos pretos de fivela de prata, meias altas e calções, cabeção preto, volta branca rígida e ferraiolo. Os lentes de Teologia usavam os hábitos talares correspondentes às suas dignidades, hábitos esses que iam desde o preto integral ao preto avivado nas cores autorizadas e às vestes de seda nas cores próprias das várias hierarquias. Numa fotografia de 1908, alusiva a lentes da UC que se deslocaram a Lisboa para felicitar o novo monarca D. Manuel II, avista-se um doutor de Teologia com borla e capelo brancos e hábito talar clerical confeccionado em seda preta, em flagrante contraste com o a indumentária singela de dois lentes de Direito que ficaram registados na mesma película. Nenhuma destas antigas disposições foi alterada, continuando os hábitos talares religiosos a ser considerados equiparados ao “habitus academicorum”.

Hábito de gala (versão laica): relativamente aos estudantes e lentes que se prestassem a participar em solenidades, o edital reitoral de 1863 não prescrevia nenhum traje de gala. Apenas se exigia que na colação dos graus de bacharel, licenciado e doutor os graduandos comparecessem com luvas brancas, sapatos pretos de couro/ou verniz e fivela, calções e volta branca. Os lentes civis, ou adquiriam estes acessórios ou recorriam aos préstimos dos seus colegas de Teologia. Os estudantes iam com frequência ao Seminário de Coimbra pedir emprestados os calções, os sapatos e os colarinhos, chegando alguns a usar tiras de cartão branco cortadas à tesoura.
Não se mencionava no texto, mas também não se declarava abolido, o hábito talar histórico, cujas peças nucleares colocavam a UC ao mesmo nível das instituições congéneres britânicas:

-mantéu talar de gala, ou ferraiolo, confeccionada em tecidos ricos como a seda preta lisa ou moiré, que além do cordão de borlas, incluía as duas estolas dianteiras e o cabeção a escorregar pelas espáduas. Apesar das suspeições de clericalismo, o ferraiolo talar era uma peça de gala própria da indumentária dos juízes dos supremos tribunais de Portugal e do Brasil, e em versões menos compridas, dos vereadores portugueses, dos oficiais da UC e dos funcionários judiciais. Na cultura popular provincial portuguesa esta capa de honras ou mantéu de gala era usado como traje de festa por mulheres abastadas (mantéu, capoteira);
-a sotaina ou veste interna, na verdade uma túnica preta larga, de linhas “evasés” susceptível de modernização funcional, através de abotoadura dianteira. Confeccionada em seda lavrada de padrão miúdo, com os canhões adornados de seda lisa brilhante;
-a chamarra ou garnacha, sobreveste que oscilava entre uma versão simples, sem mangas, e variantes mais complexas, à base de incorporação de estolas dianteiras, cabeção, e saio traseiro pregueado entre as omoplatas;
-luvas brancas em contextos cerimoniais e pretas em situações de luto;
-sapato preto de couro adornado de fivela de prata;
-meias pretas de seda;
-calção preto (até 1910), e após 1915 calça comprida e saia.

Esta veste foi regularmente usada pelos juízes portugueses na sua versão histórica até à década de 1960, por estudantes das universidades católicas de Roma, em Oxford, por dirigentes dos domínios britânicos como o Presidente do Senado de Ontário e por funcionários das catedrais de confissão anglicana. Traje caído em desuso em Coimbra, e por diversas vezes invocado, sem que os signatários tenham consciência das características, complexidade e riqueza do que mencionam, uma versão próxima ainda se podia avistar à entrada do século XX nos alunos do Colégio dos Inglesinhos , sito em Lisboa, aqui com a sotaina substituída pela batina talar romana, mas mantendo a chamarra e a estola peitoral lançada em V.

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Imagens do ser e do querer parecer


Os estudantes da UC com o pequeno uniforme segundo recolha da casa Palhares nos alvores da década de 1870. Quando Bernardino Machado se matricula pela primeira vez em 1866 a batina tinha costas de casaca e carcela dianteira de botõezinhos desde o colarinho à bainha inferior. Poucos anos decorridos, quando Bernardino Machado concluiu a formatura (1873), os acabamentos dianteiros eram idênticos ao do sobretudo civil ou da gabardine com a gola de orelhinhas aposta em torno do colarinho.
Em conversa sobre estes assuntos, uma vez houve em que o Dr. António José Soares fez questão de me alertar para a enorme quantidade de fotografias de estudantes em meio busto. Na interpretação daquele reputado estudioso a hiperbolização da pose em meio busto não decorreria apenas das imposições/limitações da fotografia destinada a álbuns de curso (carte-visite). Os fotografados sabiam muito bem que neste tipo de fotografias solenes o protocolo recomendava sapatos de fivela de prata e calções, pelo que na falta destas peças optava-se quase invariavelmente pela representação de meio busto.

A austera casaca, espelho de virtudes: casaca militar norte-americana característica do período da Guerra Civil. Na UC os estudantes adeptos da laicização do ensino criticam asperamente o antigo traje institucional e apropriam-se da indumentária burguesa que consideram símbolo de virtude cívica e cultural. Ao longo do século XIX a imagem mental da ordem militar e os uniformes militares marcam presença duradoura no imaginário romântico estudantil. No seu plano de reforma dos uniformes, o exército português apontou para a instauração de formas crescentemente geometrizadas, depuradas e estandardizadas, tendência reforçada pela reformação dos uniformes decretada em 1856. É esta reforma de 1856 que introduz o casaco ou túnica de modelo próximo ao patenteado na fotografia, medida bem conhecida dos estudantes da UC, instituição que desde 1839 tinha considerado o uniforme militar equiparado ao hábito talar.
É certo que a casaca dos estudantes não comportava vivos, bordados ou galões, e abotoava da base do colarinho à bainha inferior (a militar só abotoava até ao baixo ventre), mas a filosofia subjacente era a mesma. O sistema cultura burguês era monocultural e nessa qualidade estigmatizava tudo quanto não correspondessem aos seus padrões estéticos e éticos.

O jovem Eça de Queirós: Eça frequentou a Faculdade de Direito da UC entre 1861 e 1866. À semelhança de outros literatos da sua geração que puderam dedicar-se aos estudos e às leituras ociosas em contexto de pacificação trazido pela regeneração, Eça deixou da UC uma imagem muito negativa que deve ser lida com alguma cautela e distanciamento. Apesar de ter trabalhado no Teatro Académico como actor amador, Eça não era propriamento um estudante activamente empenhado nas causas escolares nem um boémio, pelo que a capa esburacada aqui desenhada melhor caberia a um Antero de Quental ou a um Mata-Carochas. A cor da pasta também não está certa pois a Faculdade de Cânones achava-se extinta desde 1836.
Quando em 1888 David Corazzi lançou em Lisboa o Álbum de Costumes Portugueses o estado da etnografia em Portugal ainda não permitia traçar uma distinção suficientemente clara entre uniformes e trajes populares. O editor, cujo conselheiro cultural não se sabe quem tenha sido, optou por uma obra mista que tanto englobou trajes rurais e provinciais como fardas e uniformes.
Coube a José Ramalho Ortigão escrever o texto de acompanhamento da litografia, que infelizmente não está assinada. Ramalho aproveitou uma fotografia juvenil do seu amigo Eça de Queirós e a partir dela, conjuntamente com o aguarelista, intentou recriar o hábito talar estudantil conforme figurino anterior às reformas de 1863 em contexto diário. Daí os sapatos pretos de atilhos e a capa desmazelada que era ponto de honra aos olhos da veterania encartada de Coimbra e das universidades espanholas.
Contrariando a corrente burguesa já então dominante no meio académico conimbricense, Ramalho Ortigão não se mostrou nada convencido com o pequeno uniforme à base de casaca burguesa e calça comprida, opinião que domina todo o artigo de complemento à litografia.
Uma das raras fotografias conhecidas da capa e batina antes das transformações operadas em 1863: o estudante de Direito, poeta e executante de viola toeira João de Deus (de bigode, com gorro) e o seu condiscípulo José de Sousa Vilhena em 1855. Confirmando os relatos de época, a capa exibe talhe singelo, vendo-se em Vilhena a bainha da batina e uma parte das meias altas.

À medida que cresce o século XIX, os estudantes da UC degladiam-se na luta entre uma dimensão mais conservantista da instituição e um irreprimível fascínio pela laicização, cientificação e aburguesamento da sua escola. Para os alunos da geração de 1860, os primeiros a inscrever no imaginário uma imagem da instituição como "madrasta" irreformável, a UC faça o que fizer nunca está alinhada com a visão idealizada que dela se vai construindo.
O desconforto crescente criticava tudo ou não reflictia o estilo de vida burguês, o que na prática implicava capturar e ostracizar tudo quanto pudesse lembrar o imaginário aristocrático, clerical e barroco.
Um dos objectos de prestígio usado por docentes e estudantes do último ano de curso desde o século XVI era a pasta forrada de tecido para transporte e resguardo de documentos/papéis e a capa de cetim, seda ou damasco confeccionada para protecção de livros e cadernos de notas. As pastas e capas podiam ser manualmente pintadas ou bordadas, ostentando as mais luxuosas embutidos em metais preciosos e trabalhos de passamanaria em fio laminado. Nas capas havia sempre um fitilho comprido que servia para marcar as páginas que se estavam a ler ou as folhas de escrita. Nas pastas cosiam-se uns oito fitilhos que eram rematados por nós e laçarotes.
Foram estas pastas que estiveram na origem das pastas de luxo dos quintanistas, um dos poucos objecto de prestígio e ostentação que a cultura estudantil oitocentista valorizou.
Na foto: capa de caderno de notas de inícios do século XIX

Estudante formado pela Universidade de Oxford, finais do século XIX: um exemplo do hábito talar de festa (convocation dress), ou loba de dois corpos sobrepostos, com a sotaina de abotoadura em trespasse (igual à usada em Portugal pelos juizes), o cinto de cetim, o colarinho branco raso e a sobreveste. Estamos perante indumentárias profissionais ou institucionais cuja leitura segue caminhos distintos na mesma época: na Grã-Bretanha, nos seminários católicos de Roma e nos tribunais portugueses a veste de dois corpos mantém o seu prestígio intacto; na UC a veste talar de dois corpos é anatematizada e extinta. Pormenor a não perder de vista, grande parte dos detractores do hábito talar académico histórico eram alunos de Direito que uma vez concluído o curso ingressavam na carreira diplomática, na carreira política ou na carreira judicial, não se lhes conhecendo qualquer posição de animosidade contra os trajes profissionais que passavam a envergar enquanto adultos.
(imagem do acervo do Museo Internacional del Estudiante)

Trabalho de remate das costas da sobreveste ou chamarra que os académicos de Coimbra vestiam sobre a túnica interna ou sotaina. O facto desta peça de indumentária ainda ser usada por funcionários de catedrais anglicanas permite efectuar a reconstituição da antiga loba e concluir que muitas das acusações que lhe foram feitas eram norteadas por preconceitos ideológicos que não artísticos.
Visualização do cabeção: exemplificação a partir do trabalho de remate da antiga veste externa da beca portuguesa (garnacha), com o pregueado dorsal fixado no cós, o folho das falsas mangas e o cabeção propriamento dito.

Outro motivo de descontentamento: o solideo (apud http://www.dieter.philippi.de/mydante_1479.html). Os estudantes e os docentes eclesiásticos usavam o solideo na UC, imagem que irritava solenemente os adeptos do laicismo. Não se tratava apenas de um uso em contextos diários. Um lente eclesiástico que lesse a oração de sapiência na cátedra da sala dos capelos colocava o barrete doutoral sobre o solideo. Um doutorando eclesiástico recebia o barrete doutoral com o solideo posto. Um reitor ou um vice-reitor eclesiásticos usavam solideo sob o barrete doutoral e com ele presidiam aos actos solenes.
Havia quem dissesse que estes actos lembravam o papa a impor o barrete aos cardeais romanos. Um dos últimos eclesiásticos a apresentar-se na UC com solideo foi o Papa João Paulo II durante a sua visita oficial e doutoramento honoris causa (1982).
Partindo deste exemplo de época, os sapatos autorizados para uso quotidiano entre 1833-1863 era iguais aos aqui fotografados: sola baixa, couro preto, língua comedida, duas aletas lançadas sobre o peito do pé, superiormente perfuradas para fixação dos atacadores.
Uma variante deste modelo, forrada de seda na cor científica de cada Faculdade podia ser usada pelos doutores e detentores de cargos, situação comum às práticas protocolares das casas reais europeias, casa papal e casas episcopais (sapatos litúrgicos).
Estamos em presença de objectos de prestígio que reforçavam as economias artesanais da cidade e serviam para consolidar e afirmar interna e externamente a identidade visual da UC, produzidos em contextos pré-industriais e elitistas.
Não deixa de ser irónico verificar que superados os ciclos do abolicionismo clássico, as reformas estatutárias e a criação do logótipo ou marca institucional voltam a insistir na produção deste tipo de objectos de prestígio, desta feita associados ao capitalismo e à metáfora empresarial.

À primeira vista parecem ser uns sapatos feminin. Mas não são. A moda feminina do século XX é que se apropriou deles. Trata-se de uma variante do sapato masculino de cerimónia divulgada na época napoleónica. A confecção é relativamente simples, em couro envernizado, com sola baixa, sem língua e laço de seda. Esta variante não corresponde ao sapato de cerimónia consagrado na UC, embora tenhamos notícia de que foi usada por docentes monárquicos como Carneiro Pacheco.

Sapatos de couro preto e fivelas de prata, calçado de cerimónia comum a todos os sistemas protocolares ocidentais até meados do século XIX que se arrastou pelo século XX na casa real britânica e na casa papal.
Este par de finais do século XVIII exemplifica o figurino. Após a Revolução de 1789 os sapatos de cerimónia foram adaptados aos ditames da moda napoleónica (estilo império) que dominou todo o século XIX, com a típica forma de chinelo. Os sapatos pretos de cerimónia eram comuns aos estudantes, docentes e funcionários, ainda hoje se avistando nos actos solenes realizados na UC (archeiros e bedeis). Nalguns sistemas cerimoniais mais conservadores considera-se mesmo que o genuino sapato de gala não é o aqui representado mas o sapato preto de couro de finais do século XVI, com o peito do pé ornado de roseta de seda. Esse velho modelo ainda é o usado pelos archeiros da casa real britânica dos dias de grande gala.
Na UC os estudantes pós guerra civil passam os dias a ruminar contra o sapato de fivela de prata e reclamam o seu abandono. A Reitoria, sem conceder na abolição dos sapatos de cerimónia autoriza o uso de um modelo preto de couro mais simples que substitui a fivela por um cordão de seda.
Entre 1863 e 1910 o sapato de cerimónia sobrevive apenas nos actos solenes e após a Revolução de 5 de Outubro de 1910 apenas será usado por eclesiásticos vinculados ao corpo docente da UC.
Se prestarmos atenção à fotografia tirada por Bernardino Machado logo após a respectiva cerimónia de imposição de insígnias doutorais a 2 de Julho de 1876, este figura sentado na cátedra com meias altas de seda, sapatos de fivela de prata e calções encobertos pela ampla capa.

Um problema para resolver: com o abandono do porte diário dos calções e das meias altas, vingou a meia curta, que parecia combinar bem com as calças compridas. O problema era quando o estudante colocava um pé sobre um banco ou degrau ou se sentava com as pernas cruzadas. O cano das calças subia, a fazenda arrebitava e a canela ficava à mostra. Mas a canela masculina à mostra era considerava uma imagem indecorosa e grosseira segundo os padrões de civilidade do século XIX e do primeiro quartel do século XX. Para resolver o embaraço, os estudantes passaram a usar ligas por baixo da linha dos joelho que repuxavam as meias por intermédio de presilhas. Eis um exemplo da técnica.
Colete de fantasia em brocado branco, bolsos inferiores metidos, dupla abotoadura de botões forrados, bandas e decote em V. Entre os anos de 1850-1910 raros foram os momentos em que os estudantes que discordavam da obrigatoriedade do porte do traje deram descanso à Reitoria da UC e aos agentes da polícia académica. A imagem do progressismo construia-se com o colete civil, era a palavra de ordem. Andar com a batina desabotoada e o garrido colete de seda à mostra era um divertimento provocatório e um acto de heroísmo.
Porque motivo quiseram os estudantes usar colete, quando este nunca foi consagrado como peça obrigatória da sua indumentária antes de 1910? A resposta é simples. Num tempo em que a camisa era considerada uma peça de roupa interior, sendo indecoroso mostrá-la, havia que ocultar o ventre e o peito. Repare-se que antes das décadas de 1960-1970 os funcionários públicos europeus trabalhavam nas repartições com o casaco e o colete vestidos (fizesse sol ou chuva e sem ar condicionado) desdenhando dos "bárbaros" norte-americanos que desde as décadas de 1920-1930 trabalhavam em mangas de camisa.
Na Academia de Coimbra havia coletes de trespasse e de carcela simples, de seda, sarja e casimira, pretos e polícromos. Excluindo o Orfeon e a TAUC que logo em 1911 exigiram aos seus associados o porte de indumentária integralmente preta (apenas a camisa podia ser branca), só nos alvores da década de 1920 é que o traje académico masculino conseguiu fazer vingar a uniformização monocromática nas gravatas, coletes, meias e sapatos.

Colarinhos e punhos postiços para camisas masculinas. A industrialização em curso no Ocidente, a democratização dos catálogos de modas sazonais, a abertura dos primeiros grandes armazéns do pronto-a-vestir e a popularização na máquina de costura fizeram surgir na década de 1950 a proveitosa moda dos acessessórios descartáveis. A partir do momento em que o cabeção e volta branca foram tornados facultativos, no ano de 1862, estudantes e lentes passaram a comprar com regularidade nas casas de tecidos e camisarias punhos e colarinhos postiços. Os acessórios referidos eram bastante práticos. Numa altura em que só se tomava banho geral ou de corpo inteiro aos sábados, a camisa branca podia ser usada de segunda a sexta, apenas se lhe mudando colarinhos e punhos. O colarinho raso era uma imitação civil da volta branca romana. Já o colarinho de pontas arrebitadas, que ficaria associado ao smoking, passou a estar na mira dos janotas e dandis que faziam garbo em exibir as orelhinhas por fora do colarinho da batina, não raro com garrido plastron de seda. Bernardino Machado fez-se fotografar em finais da década de 1890 com um colarinho de pontas.
Ainda conheci antigas lavadeiras que nas décadas de 1940-1950 enchiam baldes com estes colarinhos e punhos postiços encardidos, que depois de lavados e engomados iam a distribuir à estudantada.

Camisas da segunda metade do século XIX, de colarinho raso e peitilho, com punhos e golas postiças. Até 1910 o protocolo uniformológico foi muito severo, apenas autorizando camisas sem bordados, rendas ou folhos. Os punhos não podiam sobressair das bocas das mangas. Na zona do pescoço, mesmo que a camisa tivesse golas, estas não podiam tombar por fora do colarinho do hábito talar. Como se pode constatar, a camisa branca de linho, de superfície lisa e colarinho raso ou degolado parecia ser a peça de indumentária melhor colocada para substituir a volta branca romana. O caminho seguido viria a ser bem outro, com o século XX a ostentar camisas de golas ou orelhas.

Camisa de catálogo, segunda metade do século XIX.

Outra variante do cabeção: os dois panos descem do pescoço até quase meio da perna, configurando um avental, função que terá estado na origem da invenção desta peça de indumentária pela Ordem de São Bento. O hábito representado é o dos monges jerónimos que tiveram até 1834 o seu colégio para mestres e alunos em Coimbra.

Uma variante do antigo cabeção usado pelos estudantes da Ordem de Avis no Colégio dos Militares. O cabeção está cosido a uma murça e as abas descem ligeiramente abaixo da cintura, adquirindo configuração de escapulário.

Cabeção e volta. Por vezes pensa-se que o cabeção usado pelos estudantes e lentes da UC era um colete. Mas não era. Na gíria académica cabeção significava dois elementos vestimentários distintos. Um era a gola da capa, sendo esta de tamanho exagerado, a tal ponto que descaía sobre os ombros e omoplatas e formava uma aba de tecido forrado, como acontece nos mantéus, nas togas de advogado e nas becas de magistrado. Há quem chame a este atavio escapulário, mas o termo mais correcto é cabeção. Outro era uma espécie de avental em tecido preto forrado, costurado como se fosse em larga tira de pano que se enfiava pela cabeça, caindo uma aba sobre o peito e ventre e a outra sobre as costas e rins. Comportava uma fenda na base do cachaço, que se ajustava ou alargava com dois fitilhos lançados sobre o peito. Diferentemente dos coletes, o cabeção não tinha orifícios para a entrada e saída dos braços, sendo aberto dos ombros à cintura nos flancos e ajustando com dois fitilhos de cada lado. Na parte superior fixava-se o colarinho romano ou volta branca.
Esta foi uma das peças mais detestadas pelos estudantes que o Reitor Vicente Ferrer declarou facultativa em 1863, subsistindo doravante nos alunos e docentes eclesiásticos. Hoje em dia é muito difícil encontrar algum exemplar do antigo cabeção (talvez ainda existam em Braga casas de paramentaria que o saibam confeccionar) peça de indumentária que se encontra substituída por coletes e camisas pretas no mundo romano e anglicano.

Volta branca. Desde o século XVI que os estudantes e docentes da UC estavam rigorosamente proibidos de usar camisas com golas altas, rendas ou folhos saídos para fora do colarinho das vestes talares. Apenas os funcionários podiam envergar tais adornos, tendo exibido o colar de canudos e os plastrons de vários feitios conforme as modas. A partir da segunda metade do século XVII o espírito austero da contra-reforma conseguiu generalizar entre os alunos e docentes da UC o colarinho romano ou volta branca, uma tira rectangular branca, de estrutura rígida, que se aplicava em torno do pescoço. Atavio pouco confortável, era necessário possuir várias para ir mudando ao longo da semana. Após a Revolução de 1820 e a guerra civil, os estudantes passam a considerar a volta branca o acessório mais odioso do hábito talar, vendo nele um sinal de submisssão da universidade e do ensino à Igreja Católica. Nas décadas de 1840-1850 a volta branco foi alvo de continuados ataques. Os provocadores mais afoitos arriscavam sair de casa com plastrons coloridos, alimentando rumores e convocando as atenções dos agentes da polícia académica.
Em 1863 a Reitoria torna o colarinho romano facultativo, exigindo o seu uso apenas em contextos cerimoniais. Os alunos e docentes religiosos continuariam a usá-lo.
Contrariamente aos que os líderes estudantis quiseram fazer crer, a volta branca não era usada só na UC. Também o era pelos magistrados e funcionários judiciais e com o uniforme militar de gala.
No tempo em que Bernardino Machado fez os actos de colação dos graus resolvia-se o problema dos colarinhos brancos com tiras de cartão cortadas à tesoura e pedidos de empréstimo aos seminaristas. Alguns "empréstimos" eram forçados. Os memorialistas académicos relatam que nos dias que antecediam os actos de formatura os alunos organizavam trupes nocturnas para esbulhar os seminaristas da respectiva volta.

Esquema clássico de ajustamento do corpete. Quem queria ver um estudante de Coimbra fora de si nas décadas de 1850-1860, não tinha mais que lembrar-lhe o trabalhoso e pouco confortável esquema de abotoamento da veste interna do hábito talar. A sotaina era uma ampla túnica preta, de configuração cónica, que se vestia e despedia pelo orifício do pescoço. Ao contrário da sua rival, a casaca burguesa, era absolutamente impensável que fosse estreita ou cintada, pois não se conseguiria vestir. Uma vez vestida, as mãos do portador eram lançadas para o cachaço, tendo de puxar uns longos atilhos que apertavam ou alargavam a veste na parte de trás do colarinho. O dispositivo era praticamente idêntico ao empregue nos corpetes femininos e nos chamados sapatos de atacadores.
Desenho esquemático para corte de calças compridas masculinas entre ca. 1890-1910.

Esquema de corte e suspensórios ilustrativos dos primitivos modelos de calças compridas admitidas na UC que Bernardino Machado foi encontrar em uso generalizado à data da sua matrícula em 1866.

Esquema de abertura dianteira das primeiras calças compridas autorizadas em 1863 aos lentes, escolares e funcionários para efeitos de pequeno uniforme. O cano desce até aos calcanhares mas o sistema de alçapão é mantido pelos alfaiates activos na cidade, seja nos uniformes académicos seja no vestuário popular masculino.

Calções oitocentistas

Exemplificação de uns calções conforme o modelo que os estudantes da UC estavam obrigados a usar diariamente até Outubro de 1863. Como características dominantes impunham-se o remate abaixo da linha do joelho com cós e carcela lateral externa, a abertura no baixo ventre com uma aba ou alçapão e o cós alto que se ajustava no fundo das costas com atilho ou presilha. Nos modelos mais completos era habitual o cós trazer cosidos os botões necessários à fixação de suspensórios.
Conjuntamente com a volta branca, os calções eram a peça de indumentária que mais enfurecia os estudantes, a tal ponto que os anos que antecederam a abolição do porte diário foram marcados por escandalosos protestos. Os inconformistas consideravam os calções símbolo de atraso cultural e de falta de virilidade, numa época em que esta peça de vestuário fazia obrigatoriamente parte dos trajes de gala da Igreja Católica e das casas reais europeias. Algumas das acusações formuladas não chegavam a ser fundamentadas, nem se esperava que o fossem. Eram palavras de ordem atiradas para o ar em tom mais ou menos pomposo e panfletarista. Noutras paisagens culturais portuguesas os calções e meias altas dos bandarilheiros, moços de forcados e campinos eram vistas como símbolos máximos da masculinidade.
Entre 1863 e 1910 os calções permaneceriam em uso nos actos solenes. Depois de 1910 ficariam cingindos às librés dos funcionários, ocorrendo esporadicamente em docentes eclesiásticos como o cónego António de Vasconcelos, o cardeal Cerejeira e o bispo Manuel Trindade Salgueiro. Em 1956 o cardeal Tissérant usou batina e calções no doutoramento honoris causa que lhe foi conferido e em 1958 o cardeal Cerejeira proferiu a última lição na cátedra da sala dos capelos com batina cardinalícia, ferraiolo moiré, solideo, calções e borla doutoral.
Esquema para corte de calções de alçapão

quarta-feira, 2 de Setembro de 2009


Cardápio de perucas publicado na "Encyclopédie" entre 1762-1772. Uma das referências que fazia bulir os nervos dos estudantes que após 1820 se consideravam democratas e simpatizantes da Revolução de 1789 era a alusão ao velho uso de cabeleiras postiças.
Este adorno tinha sido usado pelos estudantes durante todo o século XVIII, só tendo sido abandonado na época da Guerra Peninsular. Os académicos conimbricenses tinham mesmo conquistado o privilégio de as exibir empoadas. Outra moda caída em desuso, cujo rememoração enfurecia os estudantes oitocentistas era o penteado de rabo-de-cavalo fixado na nuca com laçarote de cetim ou veludo preto.
Já que se fala em cabeleiras postiças, é tempo de perguntar como é que os estudantes e docentes conseguiam colocar na cabeça o gorro. Ou bem que este tinha boca excessivamente larga, ou bem que eram usadas outras tipologias de coberturas, como aliás confirmam as fontes coevas.

Combinação de ceroulas compridas e meias altas pretas. Este tipo de ceroula masculina comprida (recobria as canelas e os pés) divulgou-se nos exércitos ocidentais pelos inícios do século XIX, tendo entrado lentamente na indumentária popular. A ceroula mais comum em Portugal era o calção de linho branco, com braguilha de alçapão, recortada pela linha do joelho. Nos modelos de confecção rural era comum a aplicação de folhos ou rendas no cós inferior.

Meias altas de seda. Até muito tarde, as meias altas masculinas foram correntemente designadas por "calças", termo que nada tem de estranho, uma vez que as calças compridas só começaram a ser usadas em Portugal de forma muito restrita pelos soldados franceses, ingleses e portugueses que batalharam na Guerra Peninsular.
Não por mero acaso, nos Açores ainda se usa a expressão meias-calças para identificar as collants femininas que prolongam a herança das "calças" dos séculos XV e XVI.
Nos dias de gala, os estudantes da UC usavam meias altas de seda preta, com ou sem lavores (os bordados foram continuadamente proibidos nas vestes académicas). No Inverno, o rigoroso clima coimbrão pedia meias de lã (croché), externamente recobertas com polainas de burel preto. Estas recobriam o peito do pé com uma pala, atavam por debaixo do sapato com uma presilha e abotoavam pelo lado de fora da perna com uma longa carcela vertical desenhada entre o joelho e o artelho.
Meias altas e polainas eram dois dos acessórios do hábito talar que enfureciam os estudantes e provocavam críticas e transgressões. Com as reformas de 1863, a polaina alta desaparece e a meia de seda fica confinada aos actos solenes.
É com meias altas deste figurino que Bernardino Machado faz os seus actos solenes de formatura, licenciatura e doutoramento.

terça-feira, 1 de Setembro de 2009


Carvoeiro
Gravura de ca. 1850, da autoria de M. Costa (acervo da BN). Ao longo do século XIX o estudante da UC inventa alcunhas e expressões chocarreiras que funcionam como estratégias de controlo vicinal e territorial. Os habitantes da cidade não estudantes são "futricas". Os habitantes dos arredores da cidade ligados à criação de gado e prática da agricultura são "vacões". Os alunos da Escola de Agricultura são "charruas". Os seminaristas são "formigões". Os alunos do liceu são "bichos", isto é carneiros. Os alunos da Escola Industrial Brotero são "lagartos azuis" graças às suas batas oficinais e fatos de macaco. Apesar do acesso privilegiado à comunicação social impressa, ao teatro de revista e aos livros de memórias, os estudantes da UC não se livram de serem chamados "sacas de carvão".
A unidade e a harmonia eram imagens externas que se produziam e vendiam para consumo. Internamente havia os filhos-família ricos, os remediados e os pobres. As distinções eram patentes no estilo de vida, no mobiliário e objectos de consumo, nos padrões de tecido da capa e batina, nas formas de tratamento inter pares e no grau de ociosidade praticado. O estudante provincial era o "broeiro", marcado pela debilidade económica, pelas maneiras rudes e por uma alimentação à base de broa. Na categoria dos mais humildes estavam os "lebres", alunos que eram economicamente ajudados por colegas através de esmolas obtidas em peditórios.
O estudante trabalhador que tentava amealhar algum ganho em tipografias e jornais era quase sempre apodado de "bicho-do-buraco" (=rato), "rato-de biblioteca" e "marrão". Neste vocabulário faunístico, a palavra menos fácil de descodificar é marrão. Marrão pode ser o touro que marra com os chifres contra as páginas dos livros e sebentas, no acto de "encornar" (=memorizar) a matéria, como pode ser o masculino do maço ou marreta do pedreiro. Neste caso, o marrão é um martelo gigante, de cabo de madeira e maçaneta de ferro que se usa para partir blocos de pedra. Outro sentido possível para marrão poderá derivar do vocábulo injurioso antijudaico "marrano". A confirmar-se esta possibilidade, o estudante marrão seria um "porco" que fossava com a tromba nas apostilas ou sebentas. Em qualquer dos casos, os alunos adeptos do ócio e da boémia desprezavam os condiscípulos que estudavam e referiam-nos como "ursos", ou seja, animais amestrados pelos lentes que à semelhança do espectáculo dos saltimbancos faziam malabarismos na arte de reproduzir as lições.
O hábito talar e as insígnias doutorais de Bernardino Machado (cont.)
O triunfo do pequeno uniforme

Abana casaca, abana
Abana para mim, tudo
Eu tenho sete casacas
Todas sete de veludo
[1].

Voltemos por momentos à década de 1830. Se os universitários de Coimbra alimentavam esperanças quanto a uma abolição do porte obrigatório do traje talar, o Edital da Vice-Reitoria de 22 de Abril de 1839, e o Decreto de 25 de Novembro de 1839 (Regulamento da Polícia Académica)[2], goraram-lhes as esperanças.
No primeiro, o Vice-Reitor em exercício, José Machado de Abreu, estipulava que quem entrasse nos Gerais e nas salas de aula só o pudesse fazer com o “vestuário próprio”, ou seja, envergando o uniforme académico. No segundo, oriundo do Ministério e Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, reafirmava-se a obrigatoriedade quotidiana do hábito talar tradicional para lentes e estudantes do lyceu e universidade (alínea 5ª, do artigo 14º, Título III, do Decreto de 25.11.1839). O artigo 27.º deste diploma, especificava que o traje reservado aos “lentes, doutores, professores e estudantes” deveria ser “limpo e decente”. Abria excepção aos estudantes militares que poderiam usar farda própria do seu estatuto nas aulas e actos académicos.
No entendimento da época, a expressão “limpo e decente” abrangia a higiene corporal[3] e vestimentária[4], mas também a rigorosa interdição de adereços[5] e de cores proibidas, o controlo de transgressões[6] e o decoro.
Na década de 1830 Lisboa ficava longe. A incapacidade de intervenção imediata do governo central e a renitência em entregar os estudantes à justiça civil não ajudavam. Na ausência de um corpo de polícia civil na cidade, que só chegaria a Lisboa e ao Porto em 1867, e a Coimbra em 1878[7], fazia sentido constituir os oficiais e archeiros em polícia académica, o Conselho de Decanos em órgão disciplinar e estipular para infracções de maior gravidade uma prisão académica e a pena de expulsão temporária ou definitiva.
A sociedade portuguesa oitocentista coabitava com diversas formas de violência e a cultura juvenil académica masculina era violenta em palavras e actos[8]. Muita dessa violência encontrava-se ritualizada e enquadrada pelas “praxes”, sendo alvo de sucessivas campanhas morigeratórias nas páginas do prestigiado jornal liberal “O Conimbricense”. A guerra civil e os vários batalhões académicos oitocentistas alimentaram uma cultura de violência viril apoiada na emergência bandos juvenis armados, numa época em que as armas brancas e de fogo se adquiriam com facilidade[9].
Os estudantes não eram propriamente os ingénuos e inócuos provocadores que gostavam de apregoar nos efémeros jornais académicos, nos empolados manifestos à opinião ilustrada, na literatura memorialística e nas manifestações de desagravo.
Por detrás desta imagem de candura que granjeou eco positivo na opinião pública desinformada, há toda uma outra imagem institucional inscrita nos processos da polícia académica, que revela o lado violento da cultura estudantil. Era o Conselho de Decanos, constituído em órgão de regulação e dirimição da litigância extra-judicial que lembrava frequentemente aos estudantes que certos comportamentos percepcionados individual e colectivamente por “travessuras” eram autênticos delitos.
Os interlocutores da sociedade tradicional académica nem sempre estavam devidamente informados. Alguns mitos eram alimentados e reproduzidos pela memória colectiva, funcionando como instrumentos de robustecimento da identidade. Os estudantes passariam o século XIX a reclamar a extinção do “foro académico”, apodado de medieval e absolutista, quando o juízo privativo da UC fora extinto por força da alínea 16, do artigo 145º da Carta Constitucional de 1826, artigo 38º do Decreto de 16 de Maio de 1832, e Portaria de 23 de Maio de 1834. Quem continuava a ter juízo privativo, castigos físicos, corpo de magistrados e código de justiça eram as forças armadas, cujas fardas, disciplina e insígnias eram alvo de admiração no meio estudantil.
Após passagem pelos baixos da Biblioteca Joanina, a cadeia académica funcionou entre 1834-1910 no Colégio de São Boaventura, demolido em 1949, a cerca de trinta metros da Casa reitoral. Saindo da Porta Férrea, acedia-se ao cárcere por uma artéria descendente, a Rua do Norte, que deslizava entre os colégios de São Boaventura e o de Lóios (sede do Governo Civil), indo desembocar no Largo de São João de Almedina.
Extinto o Foro Académico ou Juizo da Conservatória da UC, os delitos praticados na instituição passaram a correr no Juízo Criminal da comarca de Coimbra. A Reitoria da UC viu-se dotada de amplos poderes de acção imediata e autonómica, através do "Regulamento de Polícia Académica", publicado no Diário do Governo de 25 de Novembro de 1839, com assinaturas de D. Maria II e de Júlio Gomes da Silva Sanches.
O chamado "Decreto Sanches" era nada mais, nada menos do que o Regulamento Disciplinar da UC, ao qual se chamou abusivamente durante 71 anos "Foro Académico". Com poderes disciplinares mais amplos do que os consagrados nos regulamentos disciplinares dos liceus, seminários católicos, quiçá colégios particulares, era apenas um instrumento de enquadramento disciplinar, competindo-lhe nomeadamente: vigilância e manutenção da ordem em todos espaços do Paço das Escolas e suas dependências; inspecção dos uniformes docentes, discentes e dos oficais administrativos; policiamento nocturno de ruas, casas de jogo clandestino, tascas e prostíbulos; instauração de processos disciplinares por desrespeito, agressão, roubo e homicídio; aplicação de penas através de acórdãos ratificados pelo Conselho de Decanos.
No leque das penas mais temidas contavam-se a prisão na Cadeia de São Boaventura e a expulsão temporária ou definitiva[10], segundo a gravidade dos delitos.
Conforme os mandatos reitorais e a instabilidade da conjuntura política, assim os archeiros e o guarda-mor eram mais ou menos tolerantes. Se havia advertências irritantes[11], resultantes de preconceitos morais e modísticos, outras reflectiam não raro a quase constante propensão dos estudantes para as partidas e chacotas. Muitas vezes, os estudantes arreliavam-se com medidas proibitivas consideradas violadoras da liberdade individual, quando na prática algumas dessas medidas traduziam o pânico em que vivia a Reitoria perante situações de risco como um incêndio no Paço das Escolas. Como a UC não tinha meios para combater um incêndio violento, e estando bem ciente do património que se perderia, a solução drástica consistia em proibir os cigarros nos edifícios universitários. Na óptica dos jovens alunos, medidas deste tipo cheiravam a reaccionarismo e autoritarismo.
A Cadeia de São Boaventura, cujo preso mais célebre foi o estudante Antero de Quental, de alcunha o Marrafa, não apresentaria as melhores condições de asseio e de higiene. À semelhança da maior parte das cadeias comarcãs portuguesas oitocentistas, os presos não estavam separados do convívio urbano. O carcereiro fazia circular bilhetinhos e mensagens de ligação entre o espaço interior e o mundo exterior. Damas da cidade Alta visitavam os estudantes presos, levando-lhes álbuns para neles manuscreverem versalhada e mimosas cestinhas com charutos e doçaria. O pires de marmelada estava entre os mimos mais apreciados. Os estudantes colegas dos encarcerados iam às grades animar os amigos com estudantinas e filarmónicas. Os presos podiam encomendar cestas de comida e cangirões de vinho no exterior, enviavam mensagens, pediam livros emprestados, cavaqueavam, charutavam, agradeciam às compadecidas visitantes com versos inflamados e ramos de flores (Cf. Joaquim Teixeira de Carvalho, Bric-a-Brac, 1926, p. 399). Além de poderem tanger instrumentos musicais, os escolares reclusos frequentavam as aulas, sendo motivo de exibicionismo quando calcorreavam a Rua Larga e os espaços universitários acompanhados do competente guarda. A reclusão era temporária e meramente física, não afectando os estudos ou as práticas sociabiliárias dos prevaricadores.
Quando António José de Almeida, na qualidade de Ministro do Interior do Governo Provisório da República, e o novo Reitor Manuel de Arriaga se deslocaram a Coimbra para darem curso às reformas laicizadoras, científicas e pedagógicas de há muito reclamadas - e exigidas com veemência pelos grevistas de 1907 -, António José de Almeida fez saber que declarava extinto o odiado e anacrónio "Foro Medieval", atitude que levou a "Illustração Portuguesa", Nº 245, de 31 de Outubro de 1910, a fotografar a extinta cadeia, acto comparado à tomada da Bastilha.
Em bom rigor tratou-se de uma encenação propagandística. O que o Decreto de 23 de Outubro de 1910 extinguiu não foi o Foro Académico mas antes o "Regulamento da Polícia Académica" de 1839. A medida abolicionista ocorreu num ciclo político exaltado. Segundo os detractores do regulamento disciplinar pretendiam fazer crer, já nenhum país ocidental civilizado teria "cadeia académica". Não obstante, Alberto Xavier, um dos grevistas de 1907, não deixou de reconhecer que as figuras mais informadas da Crise Académica de 1907 sabiam perfeitamente que as universidades da Alemanha ainda mantinham foro e cadeias privativas.
A Alemanha não era propriamente um país “atrasado”. A antiga cadeia da Universidade de Gottingen, com os muros pejados de grafitis, mesa, cadeira e retrete foi preservada. Na genereralidade das situações conhecidas, as universidades alemães mantiveram os seus cárceres em actividade até aos inícios da Grande Guerra. Alguns ainda funcionavam em 1914-1915[12].

O Reitor Conde de Terena (reitorado 1841-1848), encontra uma Academia orgulhosa e irascível, dada a conflitos com a comunidade local. O bandoleirismo e o espírito quadrilheiro, hiperbolizados pelos conflitos entre liberais e absolutistas, marcaram duradouramente uma Academia de Coimbra fortemente politizada. Entre 1828-1839 foram assassinados alguns lentes[13]. A Casa Reitoral considerava os ritos iniciático-punitivos de caloiros como condutas transgressoras do regulamento disciplinar.
Procurando normalizar a situação, a Portaria de 27 de Setembro de 1843 autorizava o Prelado a reprimir os abusos observados em elementos de grupúsculos que se apresentavam de bigodes, lobas curtas e cigarravam na Via Latina e nos Gerais. No seu Edital de 30 de Setembro de 1843, o Reitor confirmava a continuidade da prática dos “abusos” por alguns estudantes, particularmente o uso de “lobas curtas e indecorosas”, adereços proibidos, bigodes e consumo de tabaco nos edifícios históricos, determinando a erradicação destes comportamentos. É a última vez que a documentação académica menciona a “loba” como vocábulo corrente.
O Doutor José Machado de Abreu, por Edital de 25 de Setembro de 1848, publicado logo após a guerra civil, a Patuleia e a vitória do regime republicano em França, exortava os estudantes e a Polícia Académica ao cumprimento do regulamento disciplinar. A veste talar estaria substancialmente adulterada nesta data e alguns estudantes procurariam mesmo frequentar as aulas com indumentária civil.
A Casa Reitoral fala pela primeira vez em “batina”, a propósito da tendência para a subida das bainhas, de tal ordem que os habitantes da cidade e os funcionários da Polícia Académica se declaravam escandalizados com o avistamento dos calções, dos folhos brancos das ceroulas, dos lenços de cor em torno do pescoço, dos laçarotes farfalhudos que provocavam chumaços sob os peitos das batinas, das golas dos coletes lançadas por fora do cabeção do mantéu, das botas e botinas, das calças compridas a tapar as meias e de toda a sorte de bonés e carapuças.
Este diploma, com pouco êxito, continuava a insistir na interdição de batinetas tão curtas que permitissem ver os calções, dos lenços e gravatões garridos, de calçado que não fosse o sapato preto de fivela ou laço de pontas de seda e de calças compridas. O figurino que tanto irritava as autoridades académicas pode ser visualizado através de uma litografia divulgada por W. Barclay na obra Le Portugal pittoresque et architectural dessiné d’après nature, Paris, 1846, que mostra um estudante sentado no muro do largo da velha Ponte do Ó, com as pernas escancaradas e os calções bem à mostra perante o olhar de uma aguadeira passante.
O mal estar vivido na UC era igualmente sentido pelas autoridades militares portuguesas a quem competia policiar o estado de asseio dos uniformes e o respeito pelos figurinos, cores e insígnias. Conforme demonsta o estudo realizado por Sérgio Coelho, entre 1810 e 1848 o exército viu-se compelido a publicar trinta e uma ordens de serviço que continuadamente aludem à indisciplina, à falta de uniformidade, às transgressões e ao uso de trajes civis (Sérgio Veludo Coelho, Uniformologia militar portuguesa. 5. Capítulo 5: A pacificação interna e do exército, http://lagosmilitar.blogspot.com/2008/11/uniformologia-militar-portuguesa.5html).
O hábito talar estudantil transformara-se num foco de distúrbios disciplinares, escândalos e provocações, problema sem solução à vista até 1910. Os lentes ligados a laboratórios e cursos experimentais faziam coro com os escolares abolicionistas, tergiversando sobre a inadequação do uniforme. O Conselho de Decanos, enquanto órgão disciplinar máximo, e os agentes da Polícia Académica sentiam que o hábito talar obrigatório se transformara num incómodo e crónico foco de conflitualidade, avivando as tensões entre a Academia e Casa Reitoral.
A consciência de preservação patrimonialista começava apenas a ensaiar os primeiros passos, cingidos à ideia de “monumento”. As vestes sócio-profissionais e as insígnias históricas não tinham adquirido qualquer consistência patrimonial. A valorização de Coimbra não englobava mais do que um punhado de edifícios notáveis como o Paço das Escolas Gerais, a Sé Velha e o Mosteiro de Santa Cruz, a que os arautos do Romantismo acrescentavam as “belezas naturais” captadas a partir do Vale do Inferno, Penedo da Saudade e Terreiro da Universidade. Os literatos, aguarelistas e viajantes que passavam por Coimbra limitavam-se a enfatizar o lado “pitoresco” dos costumes locais, confundindo uniformes com trajes populares.
A originalidade das insígnias doutorais conimbricenses e a delicadeza do trabalho artesanal das bordadeiras que as confeccionavam não eram concebidas como produção cultural. Tampouco integravam as balizas das chamadas “artes menores”. A Aufklarung e os seus derivados não souberam compreender a função e a originalidade das insígnias, trajes, cerimónias e rituais, alimentando um diálogo impossível entre o património simbólico académico e a ideia de progresso cultural e científico. Contudo, a população portuguesa não compreendia o fundamento deste dissídio interno e no Brasil independente a UC era imaginada como um paradigma cultural positivo, tendo sido as escolas oitocentistas brasileiras de direito as primeiras a internacionalizarem a borla e capelo de Coimbra.
O vintismo radical comparou o património simbólico da UC aos vestígios da sociedade teocrática e absolutista, discurso ulteriormente retomado em tom de charivari por algumas das vozes republicanas, anticlericais e anarquistas. Em meados do século XIX eram frequentes os discursos caricaturais que assimilavam o cerimonial universitário às alegorias arcaicas da procissão do Corpus Christi como os grupos de danças de corporações artesanais, a estátua de São Jorge a cavalo, a simulação do combate entre São Jorge e o dragão (Monção, Penafiel, Galiza), e a charanga dos pretos (Lisboa).
A charamela, formação instrumentística de que apenas se conhece equivalente nos trombetistas da casa real britânica era ridicularizada e considerada uma velharia “desafinada”[14], a borla (barrete doutoral) comparada a um apagador de quadro preto de sala de aula (“apagador do senso comum”), o capelo visto como uma “albarda” de jumento e o hábito talar rotulado de veste jesuítica[15].
Em Novembro de 1882, o caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro desenhou a UC como a “mãe dos bacharéis”, uma velha rabugenta e anacrónica, trajada com toilette de antigo regime e cores monárquicas, onde se vislumbravam uma saia em forma de barrete doutoral e dizeres alusivos ao “foro” [académico][16]. O texto de acompanhamento assinado pelo jornalista José Ramalho Ortigão era particularmente depreciativo e verrinoso.
Nos festejos estudantis do Enterro do Grau de Bacharel, realizados em 1905, floresceram os postais ilustrados com sátiras ao ritual de formatura e às insígnias. Durante a Greve Académica de 1907, Manuel Bordalo Pinheiro e Francisco Valença produziram caricaturas demolidoras a propósito da reprovação do candidato a doutor José Eugénio Dias Ferreira. As insígnias doutorais foram ridicularizadas e o hábito talar associado à xenofobia alimentada contra os jesuítas.
Adversas ao prestígio da UC foram também algumas arguições de teses doutorais na Faculdade de Direito e concursos docentes que devido à arbitrariedade dos júris e às goradas expectativas dos candidatos alimentaram um clima endémico de rumores e de ressentimentos. O caso mais complicado de gerir foi o de Joaquim Teófilo Braga que preterido por outro candidato a uma vaga no quadro da Faculdade de Direito denegriu virulentamente a UC em obras de grande impacto nos meios intelectuais como História da Literatura Portuguesa (1870 e ss.), e História da Universidade de Coimbra nas suas relações com a instrução pública portuguesa (1892-1902). Outra crítica demolidora foi apresentada pelo lente do Curso Superior de Letras em 1871 Francisco Adolfo Coleho, nas Conferências do Casino, com o título "A questão do ensino".
Não desejando comparar-se com o cerimonial, vestes e insígnias da Casa Papal romana, a Casa Reitoral da UC não soube nem conseguiu afirmar a sua identidade por via de uma aproximação discursiva às universidades históricas britânicas ou ao mundo judiciário português, francês ou britânico. Aquilo que uns 150 anos mais tarde viria a ser considerado património cultural e imaterial, a exponenciação dos bens culturais característicos como factor de bem estar e de desenvolvimento, a luta contra a perda irreparável ou deterioração de certos bens e formas artesanais, a dinamização integrada de sítios/centros históricos, a inclusão de conteúdos patrimoniais em contextos turísticos e pedagógicos, eram algo de inimaginável antes da década de 1960.
O surto de industrialização iniciado em 1851 pelas legislaturas da liderança de Fontes Pereira de Melo pareciam confirmar a inadequação dos cursos da UC e do seu património simbólico aos novos signos civilizacionais como os barcos a vapor, as locomotivas, as pontes de ferro, o rasgamento de túneis artificiais, os faróis costeiros, o telégrafo e as exposições industriais periodicamente realizadas nas grandes cidades.
O choque entre o tempo linear secularizado e o tempo cíclico conduz a UC a um beco sem saída. O mal-estar agrava-se internamente na década de 1860, hiperbolizado por uma nova geração de estudantes cultora dos ideais da liberdade de expressão e do individualismo, apostada em romper com as heranças do Romantismo e do Ultra-Romantismo.
O desconforto eidético era hiperbolizado pela inércia do governo central que continuava a não responder às solicitações da UC no sentido da criação de uma Faculdade de Letras ou da reforma da Faculdade de Ciências. Parece relativamente claro hoje que a opção destes jovens “inadaptados” pela Faculdade de Direito, cujos lentes e métodos de ensino eram asperamente criticados, resultava mais de pressões familiares e da busca de estatuto sócio-profissional do que propriamente de verdadeiras vocações. Queixosos e inadaptados como João de Deus, Antero de Quental, Eça de Queirós[17], Teófilo Braga, Manuel de Arriaga, João Penha e Guerra Junqueiro eram claramente alunos de Letras que dedicavam as horas vagas à literatura, à poesia, à filosofia e à história.
Símbolo do “progresso” e do cientismo oitocentista, os engenheiros diplomados pela Escola Politécnica de Lisboa tornam-se motivo e inveja e de desconforto entre os docentes e alunos da UC. Intra-muros, os cabecilhas dos grupos académicos mais reivindicativos sonham vestir-se com a farda dos seguidores de Garibaldi e libertar a humanidade oprimida. A liberdade de expressão consolidada com a regeneração agradava aos estudantes, mas não a vida diária regional, considerava morna e sem fogacho.
Confrontados com a indisciplina espoletada pela obrigatoriedade do hábito talar no meio estudantil, elementos do corpo docente propuseram reformas ao uniforme académico no claustro pleno de 7 de Dezembro de 1853. Na mente de alguns dos proponentes estaria o conhecimento da decisão do governo central de Madrid que pelos Decretos de 6 de Março e 2 de Outubro de 1850 abolira os trajes e insígnias históricas e impusera aos doutores de todas as universidades a toga preta de advogado, a murça de formato padronizado e o barrete hexagonal.
Novo Edital de 25 de Setembro de 1854, da lavra do Vice-Reitor José Ernesto de Carvalho Rego, reiterava as disposições disciplinares e vestimentárias de 1839 e 1848. Reforçava-se ainda a interdição preventiva do tabaco nos Gerais, Capela, Casa Reitoral, Secretaria, Museu da Faculdade de Philosophia Natural, Hospitais, Laboratório de Química, Livraria Joanina, Imprensa e Lyceu.
Os visados não respeitaram a ordem reitoral, reaparecendo as advertências anteriores na Portaria de 1 de Outubro de 1855. No ano anterior, no entrudo, rebentou um violento conflito entre a Academia e a população, cujos tumultos levaram até Tomar um contingente de 600 estudantes que pretendia avistar-se em Lisboa com representantes do governo.
Em situações de crispação, os estudantes reuniam em assembleia magna e elegiam porta-vozes para dialogar directamente com o chefe de estado ou o primeiro-ministro, rejeitando a mediação local do reitor, governador civil ou autoridade militar. O governo central não estava interessado em negociar conflitos directamente com os líderes dos motins estudantis, embora os estudantes quisessem crer que sim, invocando obstinadamente que a Academia era soberana.
Este tipo de conflitualidade e o ambiente de perturbação que o hábito talar suscitava em muitos estudantes, levou o Doutor Tomás de Aquino Carvalho (1787-1862), então Director da Faculdade de Matemática, a propor no Conselho de Decanos de 24 de Novembro de 1854 uma reforma do uniforme académico. Invocavam-se motivos de ordem sanitária e a necessidade de atenuar a distinção entre estudantes e populares. A proposta, remetida para apreciação ao claustro pleno da UC e ao governo ficou sem resposta. Em 30 de Novembro desse ano o claustro pleno optou por não apreciar a questão.
Do vice-reitorado de José Rego é ainda a Portaria de 1 de Outubro de 1855, que num crescendo repressivo tenta suster os lenços de fantasia ao pescoço, o paulatino abandono do cabeção e da volta branca e o apego às calças compridas. Ordenava-se aos funcionários da Polícia Académica que conduzissem os prevaricadores de imediato à cadeia académica sita no Colégio de São Boaventura pelo tempo de três dias.
Num autêntico jogo de ocultações e exibições provocatórias, o trabalho de alfaitaria ao serviço dos estudantes divertia-se a satisfazer os pedidos de confecção das costas idênticas ao modelo da casaca burguesa. A popularização dos primeiros modelos da máquina de costura Singer na segunda metade do decénio de 1850 poderá ter facilitado o trabalho dos alfaiates.

O estudante António Manuel da Cunha Belém, num romance editado ao longo de 1858 em folhetins, dedicou um capítulo à chamada “abatina” ou “batina” dos estudantes. Não se coibiu de elucidar que fora do horário escolar os estudantes trocavam o hábito talar pelo traje civil de tipo equitação, com a jaleca “à espanhola”, atitude muito praticada pelos militares portugueses. Discorrendo sobre o uniforme escolar, o literato confirma o abandono espontâneo da antiga loba e a sua substituição generalizada pela “frock coat”, uma casaca burguesa preta, integralmente fechada na frente com carcela de botões de duraque:

Depois a batina começou a sofrer transformações; a abertura mudou-se para diante (e esta foi razoável), os botões de crina foram substituídos por grandes e janotas botões de duraque, as mangas alargaram-se à moda e forraram-se de sedas e cetins de várias cores, finalmente, até feições lhe fizeram na cintura com os seus dois botões à maneira de casaco; de sorte que hoje, se acaso julgais ver a batina debaixo da capa escolástica, é engano!... sai um perfeito casaco, com que o estudante se pode apresentar em público, sem receio de incidentes, que lhe podiam sobrevir quando as batinas eram abertas por detrás, mormente numas célebres de avental, e que não eram mais do que uma espécie daquele tabalarte bordado de Porthus, que só tinha frente[18].

A actriz italiana Ristori, que em Fevereiro de 1860 representou no Teatro Académico de Coimbra a peça Medêa, de Ernesto Legouvé, recordava em 1887 em tom romântico e algo fantasioso:

Fui recebida no theatro por todo o corpo académico, decano e professores à frente, e estou vendo ainda o costume tão pitoresco destes rapazes, que parecem arrancados de uma tela da meia-noite. Trazem uma sobrecasaca abotoada no peito e caindo-lhe quase até aos pés (sic), calções curtos, um colarinho branco, direito, tudo coberto por uma ampla capa. Os gorros dantescos, carregados sobre os seus grandes olhos tão negros como o fato, acabavam de dar a todo esse cortejo um aspecto severo[19].

Na óptica dos estudantes abolicionistas, o hábito talar não era vivido nem sentido como um traje “pitoresco” ou estruturante da identidade académica. De acordo com o regulamento da Polícia Académica de 1839 o traje era definido como um instrumento de identificação imediata do corpo estudantil, através do qual a Polícia Académica sinalizava os alunos nos vários edifícios da UC, nas ruas da cidade e em espaços interditos (casas de jogo, bordéis).
Embora os estudantes se esforçassem por denunciar a Polícia Académica como retrógrada sobrevivência de Antigo Regime, a verdade é que este órgão era uma instituição típica do liberalismo, reflectindo a modernização dos instrumentos de policiamento testados pelo estado português[20]. Parecendo um sistema corporativo de governo local, a Polícia Académica, directamente subordinada à autoridade do Reitor, representava o poder central crescentemente cioso da ordem, da disciplina e da erradicação da criminalidade. A existência de um cárcere para cumprimento de penas disciplinares de curta duração (detenção preventiva), sendo caso único no contexto do ensino superior português, era situação comum à maior parte das universidades alemães.
A construção mental idealizada que atribui ao traje estudantil uma função igualitária no interior da sociedade tradicional académica é bastante tardia. Será necessário aguardar pela publicação das Memórias do Mata-Carochas, em 1906, da autoria do antigo estudante de Direito Henrique António Antão de Vasconcellos (1842-1915), para se assistir à primeira elaboração escrita do igualitarismo. Radicado no Rio de Janeiro, e visivelmente emocionado pela leitura do livro do também antigo estudante José Trindade Coelho, In Illo Tempore (1902), Antão de Vasconcellos pronuncia-se a favor da manutenção do traje académico. Informa que os estudantes de ensino superior brasileiro não tinham uniformes, facto que lamenta, e conclui com a tirada da função igualitarista[21].
O hábito talar possibilitava aos archeiros da polícia académica a identificação imediata dos estudantes e a sua condução à presença do Reitor, distinguindo sem ambiguidades os escolares dos lentes, dos funcionários e dos demais habitantes da cidade. Os editais reitorais, redigidos em tom paternalista e moralizador funcionavam como mecanismos de controlo preventivo e repressivo. Para que todo este dispositivo funcionasse, também os archeiros da polícia académica envergavam diariamente um pequeno uniforme militar, actuando num território demarcado (edifícios universitários, Bairro Latino e espaços intra-muralhas) que depois de 1910 passaria a ser controlado por bandos de escolares ou trupes da praxe académica.
Bem elucidativa dos equívocos circulantes foi uma multitudinária assembleia magna realizada no Teatro Académico em 21 de Novembro de 1860, donde saiu um abaixo-assinado para entrega em mão ao Rei D. Pedro V. Vindo do Porto, o chefe de estado entrou solenemente em Coimbra no dia 27 de Novembro de 1860, com o fito de presidir à abertura solene da UC. Uma comissão estudantil entregou ao monarca um pedido de abolição do porte obrigatório da “capa e batina, traje jesuítico e também inquisitorial” e de supressão do “foro académico”. Os estudantes continuavam a confundir o regulamento disciplinar de 1839 com o antigo juízo privativo (conservatória) que fora extinto em 1834. Vendo no hábito talar um instrumento de manutenção da ordem na sociedade académica, e devidamente inteirado da não existência do antigo foro académico, o rei não atendeu os pedidos dos exaltados estudantes.

Chegado à Casa Reitoral em 23 de Junho de 1859, o Reitor Basílio Pinto procurou controlar e reprimir o clima de indisciplina e violência que grassava no meio estudantil. O Edital de 1 de Outubro de 1859, não referindo a questão do hábito talar, era particularmente severo, intimando a polícia académica a redobrar a vigilância e os actos de repressão. Seguiu-se o Edital de 15 de Outubro de 1859, contendo disposições policiadoras quanto ao sossego nocturno, rusgas a hospedarias, casas de pasto, cafés, bilhares, bordéis e praxes punitivas a caloiros, observância da hora de recolher, proibição de fumar nos edifícios históricos, agressões aos lentes e respeito pelo uniforme académico.
Em artigo algum deste edital se especificava que os estudantes e lentes ficavam obrigados a recuperar o uso da antiga loba de dois corpos, dele constando apenas “vestido talar, limpo e decente”. O mesmo vale para o teor do Edital de 24 de Abril de 1862, publicado pouco depois da renovação do mandato de Basílio Pinto, onde se ordenava que “qualquer estudante que for encontrado em público com vestido talar académico, sem ser limpo e decente como ordena o art. 27º do Regulamento da Polícia Académica de 25 de Novembro de 1839, será recolhido à casa de detenção académica pelos empregados da Polícia Académica que o encontrarem, ou dele tiverem notícia, dando-me logo parte de assim o terem praticado”.
Estes normativos disciplinares, e o Edital de 5 de Maio de 1862, que reafirmava a proibição do tabaco nos edifícios históricos, geraram em largos sectores da Academia um ambiente de hostilidade ao reitor. Apodado de “czar de borla e capelo” e de “paxá de Janina”, Basílio Pinto teve de enfrentar uma vasta manifestação capitaneada por Antero de Quental. Vexado na Sala dos Actos Grandes em 8 de Dezembro de 1862, optou por se demitir do cargo[22]. A memória estudantil cultivou deste Prelado um relato assente na austeridade e na repressão, fazendo dele um quase inimigo do liberalismo e da liberdade. Porém Basílio Pinto era apenas um liberal conservador que tentou solucionar de forma inábil problemas de indisciplina e de delinquência estudantis bem mais reais do que os protagonistas gostariam de revelar.
Numa conjuntura marcada pelo culto do herói individual e da libertação dos povos oprimidos, Teófilo Braga, na História da Universidade de Coimbra, Tomo IV, 1902, p. 488, escreve que o Reitor impôs aos estudantes a “batina aberta por trás” (sic), isto é, o retorno da antiga loba, indumentária que em 1860 só estaria na lembrança dos lentes e alfaiates mais idosos. A informação teofiliana deve ser lida com alguma reserva, carecendo de uma análise mais aprofundada[23]. Corolário do clima de severidade repressiva que se vivia na universidade, o Edital de 24 de Abril de 1862 redobrava os cuidados persecutórios, tendo gerado grande desconforto entre os agentes da Polícia Académica e provocado uma ruptura insanável entre corpo escolástico e Casa Reitoral.
A fina-flor da Academia de Coimbra distanciava-se da sua Alma Mater e passava a afirmar as traves mestras da sua identidade no campo da contracultura. Na mesma conjuntura de crispação, e por reflexo dos clubes (associações) de estudantes que vinham a emergir na Alemanha, Suíça, Bélgica e Suécia, fundou-se em 14 de Dezembro de 1861 a primeira associação estudantil, com a designação de Clube Académico, cujos estatutos foram aprovados pela Portaria de 19 de Fevereiro de 1862.

O novo prelado, Vicente Ferrer Neto Paiva, empossado em 10 de Agosto de 1863, era um lente da ala liberal progressista. Mantivera contactos culturais e científicos com instituições espanholas, conhecia a abolição do traje discente operada em 1834 e a adopção uniformizada da toga judiciária como traje nacional doutoral em 1850. Nos primeiros dias de Agosto deu audiência a uma comissão estudantil que solicitou a abolição do hábito talar. Por Edital de Sábado, 10 de Outubro de 1863, o novo Prelado veio permitir aos docentes e discentes da Universidade e Lyceu de Coimbra o uso de botas, calças compridas, colete e gravata pretas, e implicitamente das “frock coats”[24], reservando as peças de indumentária tão criticadas para os actos solenes.

O Reitor não validava a plenitude das reivindicações académicas, continuando a considerar a existência de uniforme a solução mais adequada à manutenção da ordem e disciplina intramuros:

O Doutor Vicente Ferrer Neto Paiva, Fidalgo do Conselho de Sua Majestade (…)

Faço saber que a todos os lentes, doutores, professores e estudantes da Universidade de Coimbra e do Lyceu é permitido o uso de vestido talar, com sapatos e meia preta, ou com botins pretos e calça preta. Porém, os estudantes não serão admitidos a exames da Universidade e do Lyceu s