quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Postal ilustrado intitulado «Coimbra», com assinatura da artista Elisa Bermudez Felismino, circulado em Portugal no ano de 1942.
Representação kitsh e imaginada do estudante da Universidade de Coimbra como boémio e sedutor de criadas de servir. O cenário não contém elementos topográficos conimbricenses explícitos. Vislumbra-se ao fundo uma espécie de bosque, numa possível alusão à mata do Choupal. A tentativa de associar o estudante às raparigas da cidade de Coimbra, as tricanas, era explorada pelos editores de bilhetes postais ilustrados desde os inícios do século XX (ca. 1903). Fora de Portugal, e tomando por referência outros meios académicos, também eram produzidos postais ilustrados de estudantes flanqueados por figuras femininas sensuais (Espanha, Alemanha, Áustria, Suiça). Os elementos "etnográficos"apresentados para compor o figurino são em geral anacrónicos e inventados: a guitarra não corresponde ao modelo usado em Coimbra; a figura feminina apresenta um vestido garrido que não era usado com o xaile, o vicente e o lenço; a forma de caminhar da figura feminina propõe uma sensualidade artificial, ligada ao universo dos casinos, teatros de revista e escola de teatro do Conservatório Nacional (para as atrizes formadas no Conservatório Nacional, todas as camponesas portuguesas deitavam as mãos na cintura, à minhota!).
As elites estudantis conimbricenses, e muito particularmente os estudantes desalinhados do regime salazarista, detestavam estas imagens kitshíssimas e odiavam ser associados a clichés de masculinidade vulgar. Cortejar camponesas vestidas como bailarinas de balet era um dos ingredientes da política do espírito do Estado Novo. Namorar criadas de servir era um dos elementos do imaginário lisboeta associado às perceções construídas em torno dos magalas, fuzileiros, casas de prostituição e cultura de bairro.Para que o par estudante/tricana funcionasse, era necessário fingir o impossível, ou seja, fazer de conta que a capa e batina era um traje popular. Sem este golpe de imaginação, o mapa etnográfico de Portugal perderia um par mítico. O SNI de António Ferro não apreciou esta série de postais sobre costumes populares portugueses. Elisa Felismino incutira aos seus manequins demasiada sensualidade. A revista Panorama n.º 10, de agosto de 1942, censurou os postais e apresentou-os como exemplo de mau gosto a corrigir. Mas o mito, esse estava enraizado e voltaria a ser repetido em overdose por Armando Miranda em 1947 no filme «Capas Negras».
Fonte: Jorge Silva, «O mau gosto de Elisa», in Almanach Silva, edição de 20.4.2012, http://almanachsilva.wordpress.com/page/5/,

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