terça-feira, 2 de setembro de 2014

Busto-retrato do Ecce Homo atribuído ao pintor do renascimento italiano Andréa  Mantegna, óleo, ca. 1500, acervo do Museu Italiano, Veneza
A devoção do Ecce Homo generalizou-se na Europa cristã no século XV, tendo alimentado uma vasta produção de obras de arte sacra (pintura, escultura). Cristo é representado em meio busto ou em vulto inteiro, sentado ou erecto, desnudo, após a flagelação, no momento em que na condição de sentenciado à pena capital sobre escárnio público.
Nas representações pictóricas e escultóricas apresenta apenas roupa interior (saio, bragas) e, como atributos da sua condição de condenado os punhos sobrepostos e amarrados com um baraço (corda) que enrola ao pescoço e uma cana. O corpo apresenta ferimentos abertos, sangue e escoriações. O rosto barbado exibe sinais de sofrimento. Os sinais de aflição costumam ser misturados com símbolos infamantes que imitam o poder temporal dos césares romanos: a coroa de espinhos (coroa imperial), a cana (bastão ou vara de mando) e o manto purpurado.
No período barroco as imagens sacras foram adaptadas ao novo gosto da Igreja Católica. Os escultores trabalharam as imagens de modo a transformar o tradicional Cristo condenado num majestoso imperador. As imagens de maior culto enriquecem os enxovais, distinguindo os adereços de exposição na capela dos adereços processionais. O cerimonial católico de saída das imagens dos templos e de realização das procissões segue de perto o cerimonial monárquico do período absolutista, adoptado pela igreja católica tridentina.
Em Portugal metropolitano e ultramarino, a devoção do Ecce Homo parece ter raízes em Itália, tendo conhecido importante divulgação no século XVI. Algumas das mais antigas imagens sacras referenciadas foram trazidas de Itália por devotos. É o caso do Ecce Homo da coleção do humanista Damião de Goes, preservada na igreja de São Pedro de Alenquer. É também o caso do Santo Cristo venerado na cidade de Ponta Delgada, Açores (igreja do convento da Esperança). Existe ainda uma terceira imagem, não se sabe se levada de Portugal para o Brasil, se esculpida no Brasil, o Bom Jesus exposto à veneração na missão da Companhia de Jesus em São Paulo, hoje em dia integrada na igreja de Nossa Senhora da Boa Morte (São Paulo).
As três imagens em questão parecem constituir o momento mais recuado de inspiração de três modalidades de representação artística e de consequentes práticas devocionais:
1-o Ecce Homo de vulto inteiro, sentado numa pedra, conhecido pelas designações de Bom Jesus da Pedra, Bom Jesus da Cana, Bom Jesus da Cana Verde, Bom Jesus da Pedra Fria. Como se disse, uma das mais antigas representações lusófonas desta tipologia é o Ecce Homo da coleção de Damião de Goes, uma imagem de madeira estofada e policromada, de tonalidade baça, sem os atributos do poder temporal. Uma dais mais notáveis representações deste tipo de Ecce Homo, de gosto e aparato barrocos, encontra-se em Vila Franca do Campo, ilha de São Miguel, Açores.
2-O Ecce Homo de meio busto, podendo ter cumprido eventual função inicial de busto-relicário,  configurado pelo Santo Cristo, cuja imagem pode apresentar cabelo entalhado ou cabeleira postiça. A imagem mais conhecida pela devoção e riqueza do enxoval é a do Santo Cristo dos Milagres existente na cidade de Ponta Delgada, Açores.
3-Ecce Homo de vulto inteiro, em madeira policromada, representando Cristo com cabeleira postiça, coroa de espinhos, baraço e atributos do poder imperial romano. As imagens de maior fama que se conhecem foram preservadas no Brasil. A mais antiga deverá ser a do Bom Jesus do colégio de jesuítas de São Paulo, hoje na igreja da Boa Morte (São Paulo). A popularização do culto no Brasil parece estar ligada à ação dos jesuítas. Duas das mais antigas imagens ainda hoje veneradas estão ligadas a milagres e relatos de achamentos prodigiosos: coloco em primeiro lugar a imagem do Bom Jesus de Iguape, cujo culto debuta por volta de 1647, ligada a um relato de achamento no mar, mas cujo talhe anatómico e rosto confirmam que o seu autor anónimo conhecia a imagem venerada pelos jesuítas do colégio de São Paulo. Esta imagem foi replicada no século XIX (década de 1860) por encomenda de um emigrante açoriano, tendo sido ofertada à paróquia de São Mateus da ilha do Pico, Açores. Deu origem uma das maiores festas católicas açorianas e a história da origem desta imagem nos relatos populares orais é mutatis mutandis a mesma que se conta em Iguape. Coloco em segundo lugar a imagem do Bom Jesus de Tremembé, culto divulgado por volta de 1663. E coloco em terceiro lugar a imagem do Bom Jesus de Pirapora, de 1725, reveladora da transição para o barroco.
Em Portugal existem ainda outras imagens do Ecce Homo associadas a expressivas manifestações de devoção: crucificados de corpo inteiro e Cristo amarrado a uma coluna.

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