quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O regresso do saio masculino? Saio, anaguas, enaguas, enaguillas, kilt, falda, fustanella, sarong, jupe

Nos últimos anos a moda sazonal apresentada nas principais mecas ocidentais trouxe para a ordem do dia o saio masculino de diferentes cortes, alturas, tecidos e texturas. Há quem queira ver nisto uma “revolução” que dita o fim dos velhos dimorfismos de género. Em emissões de 17.12.2008 as tevês suíças falavam exageradamente em “révolution vestimentaire”. Há quem se indigne e inquiete, temendo a feminilização do porte viril, debate que nos séculos XIX e XX foi travado no pólo inverso, a propósito dos temores espoletados pela masculinização da indumentária feminina. Há ainda quem entenda que os homens são alvo de descriminação social e milite em movimentos cívicos de defesa do saio. É o caso dos membros da HEJ (Hommes en Jupe) fundada em França por Dominique Moreau em 30.6.2007 (Association Hej, http://asso.i-hej.com/).
Nos desfiles de moda verão 2009 as colecções Prada e Galliano apostaram na apresentação de manequins masculinos com saios (jupe, skirt), situação mediatizada e apresentada como retorno após um suposto desaparecimento de cinco séculos. Claro que a história da indumentária não confirma estas proclamações pomposas mas desinformadas, com algum marketing à mistura.
Quem relançou a moda do saio masculino em Portugal, com algum escândalo envolvente, foram os estudantes do IADE (Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing/Lisboa), por via da introdução do kilt escossês axadrezado. Houve quem argumentasse que era vestimenta sem ancoragem na tradição popular e académica portuguesa, mas o kilt dos rapazes do IADE parece ter vindo para ficar. Ou pelo menos os lisboetas já se habituaram a ele.
A clivagem morfológica entre vestes masculinas e vestes femininas ocorreu nas cidades europeias dos séculos XIV e XV, graças ao triunfo do gótico masculino que substituiu largamente as vestes talares e os saios masculinos pelas “calças” dos celtas e dos germânicos. Desta cisão emerge a distinção entre homens de “saia” e homens de “calças”. No século XV as “calças” eram na verdade meias altas, designação que ainda mantinham no século XVI. Na centúria de quinhentos aparecem nas cortes europeias os calções masculinos de balão que no primeiro quartel do século XIX dão lugar às calças compridas de duas pernas tubulares. Primeiro com abertura de alçapão, depois com braguilha dianteira de botões. Eis um pormenor bem curioso, pois na primeira metade do século XVI a braguilha era uma coquilha artificial em tecido ou couro que se fixava por fora dos calções, funcionando como um estojo peniano. Havia quem o usasse para guardar moedas.
Contudo, estas transformações, apresentadas a talho de foice, coexistiram com as vestes talares masculinas usadas pelos monges, clérigos seculares, humanistas, diplomatas, docentes e estudantes de universidades, magistrados e advogados. Apesar de a Revolução Francesa de 1789 ter aberto as portas às calças compridas como sinónimo de democratização e igualdade dos cidadãos, esta peça de indumentária nunca se mundializou completamente.
Nos finais da Grande Guerra de 1914-1918 os etnógrafos, viajantes e fotógrafos ainda podiam cartografar o porte de trajes masculinos irredutíveis à morfologia das calças compridas lançadas pelos burgueses europeus:


-trajes talares envergados pelos seguidores das religiões católica romana, anglicana, luterana, calvinista, islâmica, judaica, budista;
-trajes talares usados em diversos países por magistrados, advogados e jurisconsultos;
-trajes talares usados na maior parte das universidades históricas e noutras criadas no século XIX nos EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Bélgica;
-trajes talares usados por civis em todo o Norte de África, Turquia, Médio Oriente, China, Tibete, Mongólia, Coreia, Japão, Rússia, India;
-em alguns países ocidentais, Portugal incluído, os bebés de ambos os sexos eram trajados com vestidos compridos unissexo, situação que se prolongava com frequência até à 1.ª comunhão católica. O traje de gala de baptizado era um vestido branco comprido de seda ou cetim (mandrião), com apliques de bordados e rendas, e uma coifa, comum a ambos os sexos. Os meninos usavam cabelos compridos e as mães faziam-lhes tranças e colocavam-lhes adornos iguais aos usados pelas meninas (da primeira tosquia guardavam religiosamente caracoletas em cofrezinhos);
-na Escócia e na Irlanda os homens envergavam habitualmente um saio de xadrez;
-em Portugal mantinham-se vestígios do antigo saio masculino medieval nos sargaceiros da Praia da Apúlia (Póvoa de Varzim) e nos pauliteiros das aldeias do município de Miranda do Douro;
-no sul de Espanha, em certos povoados de Valencia, os homens continuavam a usar antigos saios conhecidos por enáguas na linguagem popular. Com enáguas ou enaguillas costumavam as populações de algumas aldeias espanholas vestir os Cristos crucificados, costume comum à América Latina;
-em diversas regiões de Espanha os dançarinos dos grupos de pauliteiros vestiam saios brancos para executar as danças rituais;
-na Grécia, na Macedónia e na Albânia era corrente o porte da fustanella. No caso particular da Grécia, uma versão mais curta deste tipo de saio foi consagrada como uniforme da guarda do palácio presidencial;
-no Japão, o saio-calção, conhecido por hakama, continuava a integrar o vestuário masculino;
-em diversas tribos africanas e asiáticas eram usados saios (caso do sarong indonésio e do saio dos Hamer);
-nos desfiles de carnaval, as saias foram e ainda hoje continuam a ser usadas como fantasias masculinas;
-no mundo islâmico eram usados saios de balão tufado (Síria) e saios rodados (caso dos dançarinos derviches).
O saio masculino é de remota antiguidade. Profusamente usado pelos sumérios e egípcios, sofreu forte confinamento nas cidades europeias a partir do século XV. Porém, nunca desapareceu completamente. Nos países da orla mediterrânea foi mantido por algumas comunidades de agricultores e pescadores.
A cultura burguesa urbana triunfante no século XIX promoveu a erradicação do saio masculino, hiperbolizou o dimorfismo vestimentário e desvalorizou as peças de indumentária que não se compaginavam com o seu projecto civilizacional. Ao contrário dos séculos anteriores, o vestuário urbano burguês masculino foi convertido numa austera farda escura de três peças (calças compridas, colete, sobrecasa e mais tarde blazer). Os tecidos de luxo (sedas, cetins, damascos) foram interditos, bem como bordados, cores garridas e formas extravagantes. Passados duzentos anos sobre a grande glaciação vestimentária burguesa, a alta costura (re)descobre o saio masculino e tenta lançá-lo como uma “revolução” que em bom rigor não é.
O fato masculino burguês sofreria as primeiras vagas de contestação na década de 1950 fruto da cultura juvenil do pós-guerra, em concreto com o visual adoptado pelos “teddy boys”. E se nos inícios da década de 1960 os Beatles ainda cantam compostinhos de fato e gravata, breve irrompem os grandes signos da cultura juvenil marcados pela extravagância de cores e formas: as calças de ganga com monstruosas pernas rematadas em boca de sino ou pata de elefante, que se usavam durante meses sem que vissem água nem sabão; o hippie style, repleto de orientalismos, socas, camisas com golas de orelha de cão e sapatorros de tacão, os cabelões que iam do comprido, à charola encarapinhada, às rastas e ao look crístico.
Na década de 1980 os yuppies reabilitaram o fato e a gravata, ventilando um visual caprichado, misto de star system com banqueiro bem sucedido, abrindo portas ao culto da imagem e à preocupação acrescida com as boas maneiras e o protocolo.
O saio não suscita convulsões sociais. Eis um atavio que parece surgir num contexto de profunda desilusão dos jovens com os titulares de cargos políticos, banqueiros, corretores e gestores. Uma espécie de alergia ao estilo de vida dos colarinhos brancos e ao stresse urbano.
Contudo não estamos a ver nos próximos anos sisudos banqueiros, dirigentes políticos ou empresários com tal atavio. Os serviços de protocolo dos estados ocidentais aceitam os trajes nacionais no mesmo plano das vestes formais de cerimónia. É o caso do kilt escossês. Veremos num futuro não muito distante grande casaca com saio ou fraque com saio num evento público? Seria uma das maiores derrotas do legado burguês que na década de 1960 já teve de ajustar contas com a história (lembram-se de Jacques Brel em "Les bourgeois", 1961). Até lá, bem poderiam os adeptos da nova moda fazer sua a frase dita por um caloiro que desfilou de saia numa latada conimbricense pelos idos de 1980: “É cá uma sensação de fresquinho”! A moda burguesa urbana ostracizou o saio, a alta costura o recuperou.


Citar: Nunes, A.M. - O regresso do saio masculino?, http://www.virtualandmenories.blogspot.com/

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