domingo, 4 de dezembro de 2011

Formas de tratamento nas comunidades tradicionais

Em Portugal foi tradição multissecular os maridos referirem as suas esposas por “senhora mulher”, a“minha mulher”, “a minha senhora”, “a minha patroa”, “a patroa”, “a minha cara metade”.
As esposas identificavam os maridos por “o meu homem”, “o meu marido”.
Os filhos tratavam os pais por“senhor pai”, “senhora mãe”. Na região de Aveiro, apenasmente “meu pai” e“minha mãe”.
“Mano”, “meu mano”, “minha mana”era o tratamento comum entre irmãos, embora em certas terras apenas se aplicasse ao irmão mais velho (Algarve).
Quanto a sogro, sogra, genro, nora, cunhada, nota-se grande variação entre os substantivos comuns tradicionais e o recurso a formas locais. Em Baião, tratavam-se os sogros por“senhor pai” e “senhora mãe”. Nos meios pequeno-burgueses por “mãezinha” e“paizinho”. Em Faro, por “pai-sogro” e “mãe-sogra”. Na mesma região, os sogros tratavam os genros por “filho” e “genrinho”, e as noras por “minha genrinha”. Em Barrancos os sogros eram identificados por “tio” e “tia”, tratamento que noutras localidades significava vizinhos mais idosos.
Em Penafiel avô e avó eram tratados por “pai-avô” e “mãe-avó”, bem como no Algarve. Para bisavô e bisavó havia quem dissesse “bisdono” e “bisdona” (Douro Litoral). Nos diminutivos“vozinha”, “vozinho”, “vóvó”, “vovô”, “bu” (Douro Litoral).
Os irmãos dos pais e dos avós, por “tios”, passando a padrinhos e madrinhas quando convidados para actos católicos. Tio-avô e tia-avó por “bis-tia” e “bistio” também no Minho (Arcos de Valdevez).
Os primos em linha direita tratavam-se por primo-irmão e prima-irmã em certas localidades, alargando-se o tratamento de primo até ao quinto grau pelo menos.
Padrinhos e madrinhas eram/são as testemunhas católicas de baptismo, comunhão solene e casamento. No Douro Litoral habitualmente os irmãos e irmãs dos próprios progenitores são convidados para padrinhos de baptismo, e nos casamentos os que tinham sido padrinhos de baptismo (considera-se ofensa desrespeitar estes costumes). Em certas terras, os pais também indicavam aos padres santos da sua devoção para padrinhos de baptismo ou o irmão mais velho da criança que ia a baptizar.
Os padrinhos passavam a ser considerados compadres e comadres dos pais das crianças. No Alentejo e no Algarve o trato de compadre/comadre não estava necessariamente ligado a relações familiares.
O homem casado, a partir sensivelmente dos quarenta anos começava a tratar a mulher por “filha”, havendo mulheres que retribuíam com “filho”. Nos casais mais idosos também ocorria dizer-se “a minha velha” (=esposa) e “o meu velho”.
Os progenitores divorciados dizem“a mãe da…” (seguido do nome da filha ou do filho) e “o pai do…”, omitindo o nome próprio do ex-conjuge.
O tratamento de “tu” era conferido em família aos mais novos e com menos autoridade e entre vizinhos da mesma categoria. Nunca se tratavam por tu autoridades, pessoas mais velhas ou desconhecidas.
Havia diversas palavras para designar as crianças. Anjos, anjinhos e inocentes eram os bebés e as crianças até à primeira comunhão.
Moços os criados das casas senhoriais e os filhos dos camponeses e lavradores. No Douro Litoral aplica-se o qualificativo de moço tanto ao bebé como ao rapaz em idade de casar. Em algumas localidades, “moça” significa restritamente adolescente, jovem donzela.
As crianças eram cachopos e cachopas, cachopinhas e cachopinhos no Alentejo e no Baixo Mondego. Na região Norte eram canalha.
Os aldeões referiam-se às autoridades e às pessoas mais velhas por senhor e senhora. Uma pessoa de“respeito” tratava-se por “meu senhor”, “senhora dona”, “senhor João” (dizendo o 1.º nome). Nas relações informais e de vizinhança imperavam os diminutivos e as alcunhas.
Anteriormente à Revolução de 1820 estavam muito generalizados os tratamentos de “vossa mercê, “vossa senhoria”(conferido a aristocratas e altos dignitários). Dom e dona eram reservados aos aristocratas titulados e eclesiásticos. Em Lisboa generalizou-se a moda do“dona” nas comunidades populares e burguesas, donde transitou para o resto do país. Dizia-se em tom de mofa que as mulheres de Lisboa vinham às janelas “dar os dons” entre as vizinhas.
No tocante às respostas dadas às autoridades e aos mais velhos, no norte de Portugal predominava “sim meu senhor”, “não meu senhor”, dizendo-se no sul “vossemecê” e posteriormente “você”.
Na Beira Alta, Douro, Minho e Trás-os-Montes falava-se na terceira pessoa do plural (vós). Esta forma de tratamento era utilizada na conversação (“vós é que sabeis”), e para responder a interpelações: “o meu amigo é que sabe”, “diga lá o senhor dr.”, “o senhor juiz é que sabe”, “a senhora a quem procura?”, “saiba vossa excelência que sim”.
Nas formas de chamamento informal campestres utilizava-se “Ó tio” (para pessoa mais velha), “Ó santinho”, “Ó santinha da água”, “Ó patrão”, “Ó camarada” e “Ou de lá”.
Para perguntar o nome, não se usava a fórmula generalizada nos serviços públicos, o grosseiro“identifique-se”, “diga o seu nome”, mas o polido “Qual é a sua graça?” ou o amistoso “Diz-me como te chamas meu menino?”. O interpelado dizia o seu nome, rematando com “Para servir vossa mercê”, “Uma sua criada”/”Um seu criado”.
Citar: AMNunes, Formas de tratamento nas comunidades tradicionais, http://virtualandmemories.blogspot.com/, 4.12.2011

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