domingo, 22 de maio de 2011

Cartaz ilustrado do fime de costumes Capas Negras



Estreado em 1947, o filme e a banda sonora conquistaram imediato sucesso nos auditórios nacionais e internacionais. Parcialmente filmado em Coimbra, Capas Negras integrava elementos do imaginário popular e académico, mas conferindo-lhes um tratamento que apesar de alinhado com a política do espírito proposta pelo Estado Novo não traduzia o modus vivendi académico. Este desacerto entre o "espírito académico", a sacralidade inerente à prática da serenata, e o guião do filme, suscitou um coro de protestos em todos os quadrantes culturais e políticos da Academia de Coimbra cujos ecos chegaram à década de 1980 e só agora se começam a esbater. Poucos serão os estudantes vivos que presenciaram as filmagens. Um deles será o Dr. Augusto Camacho Vieira. Só muito recentemente, já dobrada primeira metade da década de 1990, é que a Canção Avril au Portugal deixou de ser um tema maldito para se converter num símbolo mediático da Academia de Coimbra posmoderna.


Os clamores em torno dos argumentos fílmicos emergem sempre que são abordados temas melindrosos ou quando o autor do guião não tem o cuidado de se documentar satisfatoriamente sobre as especificidades dos retratados. No limite, o resultado pode parecer-se perigosamente com os filmes de pintura da história cultivados em Hollywood nas décadas de 1950-1960, ou com os tarzans de estúdio, cujos actores, falas, cenários e visuais cheiravam em demasia ao star system. Hollywood nunca foi boa a fazer filmes históricos. Vejam-se os protestos suscitados pelos "África Minha" (1985) e "1492. A conquista do paraíso" (1992).


Há um pormenor estético muito curioso neste cartaz que tem passado despercebido. Olhando o cartaz com mais atenção, divisa-se por detrás de Alberto Ribeiro e de Amália Rodrigues uma massa compacta de estudantes ou "muralha" com as capas traçadas. Ao primeiro olhar, parece um simples pormenor confirmado pela mais vetusta e veneranda tradição académica. Porém, esta forma rígida de traçar a capa só começou a implantar-se nas representações estéticas estudantis a partir de 1937, ano decisivo de afirmação do Estado Novo no contexto das celebrações do 4.º centenário da transferência joanina do Studium Generale para Coimbra. Trata-se de uma nova forma colectiva e grupal de autopresentação inspirada na estética da falange espanhola de Franco que os estudantes de Coimbra foram apoiar em combóio especial de distribuição de mantimentos. Nos anos da Segunda Guerra esta estética de tipo falangista, que pretendia ventilar uma imagem de força indomável e de reserva energética ao serviço da causa anticomunista, generaliza-se na Academia de Coimbra, nas formações de Canção de Coimbra, nas equipas de direcção dos organismos culturais académicos e nas comissões centrais da Queima das Fitas. Subsistem fotografias de comissões centrais da Queima das Fitas tiradas na década de 1950 no Pátio da Universidade que mostram os representantes das várias faculdades perfilados em coluna compacta, com aspecto hirto, tipo força de intervenção. Este ideal estético foi permanecendo e na década de 1950 também aparece documentado em fotografias de comissões da Queima das Fitas da Universidade do Porto. Pode admitir-se que a maior parte dos estudantes do tempo tivesse um consciência reflectido do significado e leituras que este visual poderia suscitar.


Este é seguramente um assunto melindroso. Ainda estão vivos muitos antigos estudantes que viveram esses anos, que deles guardam memórias pessoais e intergrupais muito positivas. Uns têm consciência reflectida sobre o que foi a realidade histórica e lidam bem com ela. Outros negam a influência do Estado Novo na cultura universitária e hostilizam qualquer esforço problematizador sobre a questão. É preciso dar tempo ao tempo.

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