domingo, 26 de fevereiro de 2012

História do uniforme escolar no Brasil. Rhodia, 2005
No essencial, republica-se o texto de apresentação postado em 9.5.2010: O papel dos uniformes escolares na estruturação da identidade do ensino básico e secundário e as estratégias de afirmação da imagem dos colégios, infantários e liceus brasileiros através da imposição regulamentar de fardas foi alvo de um extenso levantamento iconográfico: Furio Lonza (e outros) - História do uniforme escolar no Brasil. Ministério da Cultura/Rhodia, 2005. Não sendo um trabalho de uniformologia em sentido estrito, nem de história do ensino, a pesquisa documenta a presença de uniformes escolares no Brasil desde a independência até aos inícios do século XXI. O trabalho de campo divide-se em 9 capítulos, contém um glossário útil e bibliografia de apoio. As 232 páginas de texto, imagens e legendas percorrem-se sem esforço, graças a um estilo de escrita muito coloquial.
Reflexões sobre as reformas de ensino, a militância política, os regimes políticos, as influências da moda, a contracultura, a evolução e os apelos da indústria textil, os posicionamentos das elites face à formação física, cultural e moral dos educandos, a busca de poder e de estatuto social, a concorrência entre o ensino público e o ensino privado e os conflitos de classe entre afortunados e desafortunados, tudo isto é carreado para o debate num estilo fluente e convidativo.
As sociedades liberais em processo de expansão identificaram-se com a uniformologia militar: fardas de tipo militar e policial, de linhas direitas e economia de tecido, num elogio aberto aos valores da ordem, disciplina, respeito pela autoridade, aprumo e asseio. Exatamente o oposto da imagem das crianças de aldeia que frequentavam a casa do mestre escola (podia ser um celeiro), enfarruscadas, descalças, envergando vestuário envelhecido e remendado. Os filhos da classe média em ascensão são vestidos como garbosos soldadinhos de chumbo, soldadinhos de infantaria, marujinhos e cadetes. Os uniformes escolares burgueses impõem desde o início uma rígida separação de género nos colégios privados laicos e nas congregações religiosas: eles de soldadinhos, elas com vestidos compridos e longos aventais. Os uniformes são confecionados à base de tecidos vulgares, com linhas muito a direito que desvalorizam e escondem a anatomia corporal. O "bom gosto", esse conceito tão relativo, parece ter caminhado descompassado dos uniformes escolares. Nos internatos vocacionados para a "correção" de menores, os uniformes ocultavam o corpo de forma grosseira, propalando uma imagem conservadora e assexuada dos internados. No Estado Novo brasileiro e português, os uniformes escolares atravessam novo ciclo promilitarista, desta feita incorporando a estética fascista cultivada na Itália e na Alemanha pelas juventudes fardadas e arregimentadas em legiões, falanges e mocidades. A partir do após Segunda Guerra Mundial, os uniformes escolares tentam acompanhar a moda. Assiste-se a uma espécie de "desmilitarização", marcada pelo surgimento de fardas mais funcionais, descontraídas e influenciadas pelos modelos britânicos.
O trabalho de campo realizado pela equipa de Lonza foi apoiado por empresas do pronto-a-vestir interessadas em alargar o seu raio de ação junto das escolas e colégios brasileiros onde o consumo de uniformes está profundamente implantado. Nas páginas finais, o estilista Daniel Maia deixa um conjunto de sugestões que apontam para um estilo juvenil descontraído que afasta os velhos fantasmas das cores "cinzentas" e dos feitios rigidificados.
Não se conhece iniciativa semelhante em Portugal, país onde os uniformes escolares são considerados um não assunto nas escolas superiores de educação e nas faculdades de psicologia e ciências da educação. Não seria imaginável que o empresariado português se interessasse pelo tema ou que patrocinasse um projeto de pesquisa sobre uniformes escolares. Ao nível do Museu Nacional do Traje também não temos notícia de nenhuma iniciativa correlacionada com a temática. Nem estudar, nem recolher, nem expor, nem sensibilizar. E contudo, o estudo dos trajes escolares e académicos é um tema crucial em matéria de Ciências da Educação. Está presente nos fundos documentais das instituições, toca economias locais artesanais e empresas do pronto-a-vestir, lojas de vestuário, testemunha a adesão a valores, surtos de contestação individual e coletiva, ritos e práticas sociabilitárias. Fora da esfera do ensino superior, é sobretudo nos colégios privados que se encontra generalizada a obrigatoriedade de uniforme escolar. Os figurinos, frequentemente inspirados na tradição britânica, mereceriam um levantamento exaustivo. O interessante projeto Património Educativo/Museu Virtual, http://www.sg.min-edu.pt/patrimonio-educativo, não contempla qualquer rubrica sobre trajes escolares (legislação, regulamentos, desenhos, fotografias, artigos de imprensa, manifestos contra o uso, posições a favor do uso, história). Na atualidade, o departamento governamental português responsável pela definição das políticas educativas não regulamenta os uniformes e trajes escolares. No caso dos estabelecimentos de ensino superior cabe aos órgãos de gestão aprovar e regulamentar a matéria, constatando-se que quando o fazem consideram apenas o professorado. Relativamente ao corpo discente, são os estudantes que informalmente reunem e adotam modelos e cores que não são discutidos nem votados pelos órgãos de gestão. Essas decisões costumam ser integradas em regulamentos designados "código da praxe". Ao nível do ensino básico e secundário, a opção pela escolha e consgração de um traje institucional depende dos objetivos estratégicos e visão das equipas de gestão das escolas, em diálogo com as associações de pais e os representantes dos municípios. É conhecido o caso das escolas de Óbidos que aprovaram uniformes escolares numa decisão conjunta da comunidade educativa/município.

Agradeço à Prof. Maria Lúcia Bettega o envio de um exemplar desta obra

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