terça-feira, 21 de novembro de 2017


Do hábito e das insígnias dos santos doutores da Misericórdia da Bahia


Imagens sacras em madeira esculpida, estofada e policromada dos santos doutores São Cosme e São Damião, segundo explícita gramática barroca do século XVIII, altar-mor da igreja da irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Salvador da Bahia, Brasil.
Graciosas e muito raras esculturas do universo lusófono, emprestam aos santos doutores os hábitos e insígnias corporativas da Universidade de Coimbra.
Ambos os santos vestem hábito talar de abatina, composto por colete comprido, abatina e capa. A abatina é do tipo redingote, embainhada pelos joelhos, com carcela ornamental frontal caseada e com botões forrados, sendo visíveis os canhões de mangas orlados de botões. Nos acessórios, identificamos bengala, sapatos pretos de pele guarnecidos de fivelas de prata, meias altas pretas, calções e possível plastron à francesa. Uma figuração bastante curiosa, pois a etiqueta universitária preceituava o uso de cabeção entre o colete e a camisa branca e volta branca. Igualmente curiosa parece ser a presença de capa curta num dos doutores, e de capa talar enrolada no braço esquerda de outro dos doutores. As insígnias doutorais estão conformes com a borla e capelo da Universidade de Coimbra, insígnias que na mesma época eram bastante semelhantes às de algumas universidades espanholas da Península Ibérica e da América Latina (México, Lima, entre outras). Os santos exibem sobre os ombros o capelo, uma murça dupla, munida de capuz dorsal e jogos de rosáceas de seda e alamares, em cetim e seda amarela, a cor distintiva das ciências médicas. Sobre as cabeças dos santos vislumbramos as borlas, quer dizer, barretes pretos ornamentados com franjas longas de seda amarela e florões aparafusados nas copas. Estes florões, que em Coimbra se chamam pegas, são semelhantes às borlas dos cortinados, e armavam com bolbos de madeira feitos num torno de carpinteiro, que se forravam com fio de seda e encaixavam uns nos outros, levando no interior um comprido parafuso.
Estas insígnias eram conhecidas no Brasil, território para onde eram levadas por eclesiásticos e funcionários da coroa que tinham obtido graduação na Universidade de Coimbra. Quando foram criadas as primeiras faculdades de Direito nos anos seguintes à independência, essas escolas também adotaram as insígnias no estilo de Coimbra.

Fotografias digitais de Liana Mascarenhas, acessora de imprensa da SCMSB, a quem agradecemos.



Elementos adicionais para a compreensão das imagens sacras

A-Insígnias doutorais, Faculdade de Medicina/UC, Portugal, identificadas como borla (barrete) e capelo (murça) em seda e cetim.
B-Coletes da primeira metade do século XVIII, conhecidos por véstias, com mangas metidas e costas abertas, ligadas por atacas de pano. Nalguns documentos produzidos por estudantes da UC ligados aos ideais abolicionistas, há referências a uma peça do traje académico, a sotaina, que se vestia pela cabeça e teria as costas fendidas até à cintura, fechando com este tipo de atilhos.




C- Casacas da primeira metade do século XVIII, sem colarinho nem gola:





D-Calções de alçapão ou portinhola:


E-Sapatos de fivela conforme a etiqueta palaciana dos séculos XVII e XVIII:

E.1-Segunda metade do século XVII, em pele preta, tacão vermelho, línguas curta e comprida, e fivela.



E.2-Século XVIII




F- mantéu de seda:



G-meias ou meias-calças à italiana (cáligas) com ligas de fixação:


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