quarta-feira, 6 de julho de 2016

Uma arqueologia dos hábitos de gala e librés grandes da UC (1905-1910)



 Doc. 1: hábito talar de lente. O traje dos membros do corpo docente era do mesmo corte e figurino para os lentes de todas as categorias e faculdades. Dividia-se em hábito talar ordinário e em hábito talar de gala. Para as grandes cerimónias, o tecido deveria ser a seda preta para a abatina e calções. A capa, de tipo mantéu grande, admitia tecidos próprios para inverno e para verão, rematando o colarinho com cordão de borlas. Nos contextos cerimoniais eram usadas insígnias dos graus, luvas, meias altas de seda e sapatos de pele de verniz com fivelas de prata. Nos finais da monarquia constitucional os lentes eclesiásticos continuavam a usar cabeção e volta e podiam optar por vestir o hábito talar romano que era considerado hábito académico supletivo nas universidades ibéricas e latinas. O hábito talar romano admitia as vestes das congregações regulares e as do clero secular, pelo que as cores em uso e os vivos eram autorizados.
Retrato do Dr. Luís da Costa e Almeida, decano da Fac. de Matemática da UC, com hábito talar e capelo, fotografado nos gerais das escolas. Não são visíveis a borla, as luvas e o anel. Abas dianteiras da capa repuxadas para a cintura e presas com as mãos, como era antigo costume.
Não existiam vestes nem insígnias distintivas para os membros da equipa reitoral, decanos das faculdades ou diretores de unidades integradas. Sendo os reitores lentes e graduados, usavam o hábito talar com borla solo. Sendo de nomeação governamental e externos à instituição, nas cerimónias apresentavam-se com  indumentária civil de gala ou com vestes corporativas associadas à sua profissão/títulos.
O hábito talar sem insígnias era usado para dar aulas teóricas e práticas. Os lentes podiam ir vestidos de casa ou fazer a muda de roupa num vestiário que existia na via latina, ao lado da sala dos atos grandes. Quando se encontravam devidamente ataviados, saiam do vestiário para os gerais com os bedeis na frente. As portas eram abertas e fechadas por contínuos de libré e as chamadas feitas pelos bedeis.

 Doc. 1.1: o reitor, representantes das faculdades e dos estudantes na apresentação de cumprimentos a D. Manuel II, Lisboa, 1908. Os decanos de Medicina, Matemática e Ciências Naturais com insígnias e hábito talar com calças compridas. Os representantes de Teologia e Direito com hábito talar de grande gala, em tecido de seda, com calções. O representante dos estudantes com hábito talar ordinário. O reitor, Alexandre Cabral, que era bacharel pela FD/UC, não pertencia ao corpo docente nem tinha insígnias do grau, apresenta-se com a farda de conselheiro de Estado.




Doc. 2: hábito talar de estudante, vulgo capa e batina. No final da monarquia constitucional, a norma estatutária e os estilos orais admitiam três modelos. O traje ordinário, que se vestia diariamente e com o qual se frequentavam as aulas e laboratórios, constituído por abatina de sarja ou lãzinha, capa, calças compridas, colete preto, camisa branca, gorro e sapatos pretos sem modelo definido. O traje de gala, em pano de seda, com botões forrados, volta e cabeção, meias calças de seda, calções e sapatos de verniz com fivela. O hábito romano, que podia ser trajado pelos alunos eclesiásticos. O traje de gala admitia capa de verão e capa de inverno, em tecidos de qualidade.
Em cima, duas fotografias do estudante e futuro político Ernesto Hintze Ribeiro, datadas de 1869 e de 1870 com hábito talar de gala, completado com pasta de luxo, usado desde as reformas de 1863 e até à legislação abolicionista de 1910 nos atos de formatura ou na colação do grau de bacharel.
Em baixo, alunos das Fac. de Teologia e de Direito com hábito de gala e pastas aguardam nos gerais a chamada para os atos. Fotografia de 1909 (?). Concluídos os atos (exames), os alunos aprovados colavam o grau de bacharel nas salas de aula no mesmo dia ou em data próxima. Chamados nominalmente, os alunos prestavam juramento, pediam o grau em latim, o mais antigo e/ou graduado recebia a borla na cabeça, subia à cátedra e proferia em nome do curso uma breve alocução. Não havia entrega de diplomas nem existiam os chamados anéis de curso. As cartas de curso eram posteriormente levantadas na secretaria, sem qualquer cerimonial.
Esta era a cerimónia oficial. À margem dela, os estudantes foram criando a récita de despedida, as baladas de despedida, o rasganço das vestes e os anéis de curso.

 Doc. 3: hábito de gala de secretário e mestre de cerimónias, que pelos estatutos deveria trajar de estudante. Até 1910 o mestre de cerimónias usou no dia a dia o traje de abatina com capa e calças compridas e nos dias de atos grandes abatina de seda preta com meias calças, calções, capa, luvas, cabeção e volta, sapatos pretos de verniz com fivela de prata, exibindo o bastão de prata.
Retrato de Manuel da Silva Gaio que se fez fotografar muito senhor de si na cadeira do reitor.

 Doc. 4: traje de mantéu ou de oficial maior, uma libré de corte usada com modificações pontuais desde o século XVI. No século XIX, sob o mantéu de bandas de cetim os funcionários vestiam casaca preta com punhos de renda e exibiam plastron à francesa (bacalhau). Em vez de espada era usado um punhal. No dia a dia, simples fato preto civil com mantéu.

 Doc. 5: traje de oficial maior adaptado aos bedeis das faculdades, cuja insígnia era a maça com roca e corrente. Este traje terá sido adotado no século XVIII, pois o que consta dos estatutos velhos é a loba e, comparativamente, nas irmandades e catedrais europeias os bedeis/maceiros usavam invariavelmente hábitos talares, embora no Vaticano tenha prevalecido o traje renascentista de meia abatina.

Doc. 6: o guarda-mor das escolas com libré de gala e vara.

Doc. 7: libré napoléónica de gala para archeiro, constituída por farda direita em lãzinha azul ferrete agaloada de prata: casaca e calções com bicórnio de pasta preta, tabalarte, espada e alabarda brunida.

Doc. 8: um aspeto do préstito académico em trânsito da Sé Nova para a UC com a presença de D. Manuel II (1908): archeiros em duas alas, oficiais maiores, charameleiros em traje civil, lentes de Filosofia Natural, etc.

COMMENTS:
 Boa noite.
Sou estudante do 1.º ano do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e estou prestes a adquirir o traje académico, sendo o mesmo o traje dito "nacional" (que se usa nas Universidades de Coimbra e Lisboa).
Porém, antes de o fazer, e vendo que o administrador deste blog é um entendido em assuntos relacionados com trajes talares, tanto novos como atuais (costumo ler, quando tenho disponibilidade, as publicações que realiza), gostaria de lhe perguntar se tem conhecimento da existência de algum estabelecimento comercial na cidade do Porto e/ou arredores que fabrique/venda trajes para a dita faculdade de "qualidade", e seguindo as normas que antigamente os alfaiates usavam no fabrico dos mesmos (quando estes eram feitos unicamente pela via artesanal). Pergunto isto pois gostaria de adquirir um "verdadeiro" traje (ou seja, o mais parecido possível com o "modelo conimbricense", desde que válido para usar na FLUP) e de "qualidade", não querendo, portanto, ser enganado na minha compra. Desde já agradeço a atenção dispensada.
Com os melhores cumprimentos,

João Durães 
(27.11.2016) 

Hoje em dia serão raríssimos os estabelecimentos de alfaiataria ou de modistas com conhecimentos especializados na tiragem de medidas, corte de moldes, acertos de medidas e acabamentos manufatureiros de hábitos talares. Em Coimbra ainda estão em atividade alguns alfaiates, mas este tipo de encomenda comporta demora na entrega e as convencionais visitas para escolha de tecidos, tiragem de medidas anatómicas e provas de acertos (ombros, cintura, etc.).
Para quem tem preocupações ligadas às boas práticas de alfaiataria e valoriza o trabalho artesanal, o pronto-a-vestir e as chamadas casas de fardas não oferecem garantias quanto a medidas, qualidade do corte e pormenores de acabamento.
Não conheço casas de fabrico artesanal no Porto e arredores. Julgo poder indicar uma casa existente na Praça da República, n.º 181. Pode também contatar o editor do blogue Porto Académico e pedir algum tipo de ajuda.
Levar fotografias ou desenhos pode facilitar e muito o diálogo com um alfaiate e ou modista.
AMN

1 Comentários:

Blogger João Durães disse...

Boa noite.
Sou estudante do 1.º ano do curso de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e estou prestes a adquirir o traje académico, sendo o mesmo o traje dito "nacional" (que se usa nas Universidades de Coimbra e Lisboa).
Porém, antes de o fazer, e vendo que o administrador deste blog é um entendido em assuntos relacionados com trajes talares, tanto novos como atuais (costumo ler, quando tenho disponibilidade, as publicações que realiza), gostaria de lhe perguntar se tem conhecimento da existência de algum estabelecimento comercial na cidade do Porto e/ou arredores que fabrique/venda trajes para a dita faculdade de "qualidade", e seguindo as normas que antigamente os alfaiates usavam no fabrico dos mesmos (quando estes eram feitos unicamente pela via artesanal). Pergunto isto pois gostaria de adquirir um "verdadeiro" traje (ou seja, o mais parecido possível com o "modelo conimbricense", desde que válido para usar na FLUP) e de "qualidade", não querendo, portanto, ser enganado na minha compra. Desde já agradeço a atenção dispensada.
Com os melhores cumprimentos,
João Durães

26 de novembro de 2016 às 17:13  

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